Why not?

Por Vitor Seravalli

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Mensalmente, eu avaliava um relatório que trazia os resultados de funcionários dos diversos departamentos em seus cursos de inglês. Era um investimento especial da empresa direcionado a alguns profissionais selecionados por um critério baseado no potencial para contatos com pessoas de outros países.

Contudo, nem sempre este critério óbvio era bem compreendido e aceito por todos.

Lembro-me bem de ter escutado de um colaborador que a capacitação era uma espécie de “cala boca” para que não reivindicasse tanto a sua promoção quanto um merecido aumento salarial. Ou seja, o investimento era também percebido como uma espécie de prêmio de consolação, ou uma concessão para evitar perda de motivação. Enfim, um monte de tolices.

Tenho a consciência tranquila de que sempre buscava o critério mais correto e justo. E por isso, gostava de ver como estavam evoluindo conforme o tempo passava.

E naquele final de tarde, eu mais uma vez constatava que Clara mantinha a liderança de performance em relação a todos os seus colegas. Suas notas e seu desempenho geral estavam novamente muito acima da média.

Quando investimos no desenvolvimento das pessoas, não existe nada mais gratificante do que perceber que os resultados estão sendo concretos. E nesse caso, não havia dúvidas: Clara era “The Best”.

E foi por isso mesmo, que não hesitei em incluí-la no programa da visita de um colega estrangeiro que chegaria para conhecer nossas instalações. Havia também um outro motivo até mais importante, esse visitante era o responsável pela área que Clara liderava, porém em nossa matriz.

Seria o momento certo para que ela colocasse em prática tudo o que havia aprendido nas muitas aulas assistidas até aquele momento.

Nosso colega era um típico germânico. Possuía um perfil técnico bastante acentuado, mas sabia valorizar seu aprendizado com outras culturas. Fiz questão de recebê-lo pessoalmente, conversamos um pouco em meu escritório, e iniciamos a visita a um laboratório novo, que estava sob a responsabilidade de Clara.

Caminhamos um pouco, e falávamos de tudo. Embora ele quisesse tentar algumas palavras em português, sua única possibilidade de comunicação além de seu idioma nativo, era naturalmente o inglês.

Assim, logo chegamos ao local onde Clara nos esperava com uma expressão que se parecia com uma mistura desequilibrada de simpatia e preocupação. Minimizei minha percepção pois sabia que esta era a primeira vez que ela recebia um visitante internacional.

Cumprimentei Clara e a apresentei ao nosso colega. Ela sorriu, e já tratou de colocar-se numa posição diferente da que eu havia previsto para ela. Em outras palavras, ela pretendia somente nos acompanhar e, pelo jeito, eu deveria apresentar as instalações ao visitante.

Demorei longos segundos para perceber sua intenção. Olhei para ela, e notei que estava paralisada, principalmente depois que pedi uma explicação detalhada sobre o novo laboratório.

Quando finalmente percebi que minha querida colega estava literalmente “travada”, e mais nenhuma palavra, mesmo em português, saía de sua boca, tive que intervir.

Do jeito que pude, conduzi a visita, e ela parecia aliviada à medida que fomos nos encaminhando para a porta de saída.

Nos despedimos, e após visitarmos outras áreas que já não estavam sob a batuta de Clara, ele se foi.

Eu não conseguia compreender o que havia se passado com ela. Mas, internamente eu sabia que a proficiência em idiomas, principalmente para pessoas que não tem oportunidades de vivências internacionais, é algo muito próximo de um obstáculo intransponível.

Sim, a melhor aluna, entre dezenas de outros estudantes de inglês da empresa, simplesmente não conseguia se comunicar no idioma.

O fim de semana veio e se foi.

Logo na segunda-feira, às oito horas da manhã, Clara apareceu em meu escritório, Estava um pouco corada, e sua primeira ação foi um desajeitado pedido de desculpas pelo bloqueio que tivera em frente ao nosso colega comum.

Suas explicações eram as mais comuns. Talvez até eu mesmo já as houvesse usado em algum momento, então pedi que poupássemos nosso tempo e buscássemos um novo caminho.

Recomendei um curso de imersão local, no qual eu mesmo havia participado com relativo sucesso, e pedi que ela o priorizasse. Depois disso, voltaríamos a falar no assunto.

Clara fez sua lição de casa com a competência que lhe era peculiar.

E logo que voltou, tratou de invadir toda sorridente a minha sala e, até com um sotaque americano, falou: _ Good morning, dear boss! How are you today?

Nem preciso dizer, que a partir desse dia, ela libertou-se de si mesma e em pouco tempo já partiu para sua primeira viagem à nossa matriz.

Afinal, ela já possuía conhecimentos muito bem fundamentados no idioma. Ela certamente também já havia desenvolvido habilidades suportadas por estes conhecimentos, tanto é que suas notas eram sempre as melhores. Porém, lamentavelmente, Clara ainda era incompetente em sua proficiência no idioma não nativo, e o motivo estava exclusivamente em sua falta de atitude em se comunicar.

Uma receita composta de um pouco de medo, uma dose original de timidez, e até mesmo uma pitada de um tolo perfeccionismo, era a fórmula perfeita para o mecanismo que trancava sua confiança a sete chaves no indestrutível cofre de sua insegurança. Mas, felizmente, ela o abriu.

O final dessa história foi muito feliz, e acredito que Clara tenha replicado seu sucesso com muitas pessoas que liderou depois disso.

Mas sei que muitos profissionais ainda vivem com a convicção de que são “travados” e que nunca poderão desenvolver essa ou outra competência qualquer.

Quando os vejo por aí, é comum ouvir suas justificativas e argumentos completamente fundamentados, mas que infelizmente não os mudam para melhor.

E, já que estamos falando do idioma inglês, sempre sugiro que abandonem de vez a frase: “Yes, but”, e adotem com muita energia e coragem uma outra frase em forma de pergunta: “Why not?”

_ Get it?

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  • Doc Lorena Formiga Al-Hakim

    Caro Vítor, obrigada por nos brindar com mais um texto impecável.
    Só não sofreu disso quem nunca estudou um idioma estrangeiro.
    Sentir-se tecnicamente capaz mas, sem fluência no idioma estrangeiro é uma armadura que imobiliza a muitos. Por medo de errar, deixamos de mostrar o que sabemos..