Um!

Um 2Por Vitor Seravalli

Ele era um aluno diferente. A má notícia é que era diferente para pior.

Em cursos de pós-graduação, isto não deveria acontecer, mas aquela turma fora sorteada.

Não era um aluno ignorante, pelo contrário, era um rapaz inteligente, mas usava toda a massa cinzenta, ou pelo menos, boa parte dela para atazanar a vida de seus colegas e também a vida de seus professores. Pois é. E eu era um deles.

Logo na primeira aula. Ou melhor, logo que iniciei minha introdução ao curso, ele já pediu a palavra. Começou a fazer perguntas desconexas sobre suas dúvidas em relação àquela disciplina. Falaríamos de responsabilidade social, e vi que ele não entendia absolutamente nada do assunto e, se seus colegas o escutassem, perderiam o mínimo que já houvessem aprendido.

Dei um pouco de corda para que ele descarregasse sua adrenalina, e minha esperança era que se acalmasse com o tempo.

O tiro saiu pela culatra, pois ele concluiu que havia ganho espaço, e começou a falar com empolgação, e a se transformar num ativista social em plena sala de aula.

Eu continuava com minha introdução, à medida que ele precisava de ar para recuperar seu fôlego. Então, disse que o programa incluía um tópico sobre ética, e minha deixa era tudo o que ele poderia esperar para colocar-me numa situação difícil.

Eu era um professor de uma disciplina única, e não vivia a rotina daquela escola. Por algum motivo interno, a Diretoria da havia decidido pela troca do nome da instituição, e meu aluno especial era contra a mudança. Ele não tinha um argumento lógico para sua opinião. Simplesmente, era contra a decisão, e subitamente me perguntou se achava ético o que a escola estava fazendo.

Foi incisivo, e seu objetivo era me obrigar a um posicionamento, que não trazia uma saída possível para mim. Se concordasse, ele usaria isso para colocar-me em conflito com a escola. E se discordasse, ele diria que eu estava ensinando algo que não praticava de fato.

A sala ficou em silêncio, e muitos ali já concluíam que eu estava numa sinuca de bico.

Foram poucos segundos de hesitação, e enquanto respirava, lembrei-me de uma história que havia visto num programa de variedades na televisão. Não tenho ideia do que me levou a fazer aquilo, mas levantei-me, fui até o meio da sala, respirei, olhei para o tresloucado aluno, e iniciei uma resposta.

Na verdade, disse que iria responder, mas antes queria contar uma pequena história.

Tenho certeza que ele teve vontade de não deixar que eu usasse aquele artifício, mas ali o “chefe” ainda era eu, e ele conhecia bem a antiga lei da hierarquia, composta de dois artigos:

1º artigo: O chefe tem sempre razão.

2º artigo: Caso o chefe não tenha razão, então, vale o 1º artigo.

Bom, mas a história começava com uma entrevista num programa de TV em que uma famosa apresentadora perguntava a um casal, que acabara de completar sessenta anos de um feliz casamento, qual era o segredo para uma relação tão bem sucedida e duradoura.

O marido olhou desconfiado e sinalizou que ficaria quieto. Por isso, a sua esposa decidiu contar.

A essa altura, meu aluno já havia se ajeitado melhor na cadeira, pois queria ver até onde eu chegaria com aquilo, pois ele já ultrapassara todos os limites, mas ainda queria mais.

A mulher começou falando que o segredo de tanta felicidade se revelara a ela no dia de seu casamento. Uma cerimônia simples, numa pequena capela de uma bucólica cidade no interior do estado, era tudo o que ambos desejavam para sua união.

Os parentes lotavam o local, e tudo estava muito limpo e florido. Todos ali vestiam suas melhores roupas, e o padre se preparara de modo especial para uma bela cerimônia.

Havia mais um detalhe especial: o marido possuía uma mula de estimação, que fora um presente durante sua adolescência, e pelo amor que nutria pelo animal, o preparara para que conduzisse o casal para onde teriam sua noite de núpcias.

Tudo corria com a pompa e circunstância que era possível naquele singelo lugarejo.

A classe continuava a me ouvir com atenção, e um certo alguém esperava uma mínima oportunidade para sua interrupção certeira. Mas essa oportunidade, não aconteceu.

Após os cumprimentos de todos, e uma chuva torrencial de arroz à saída da capela, os noivos deixaram o local, sob uma efusiva salva de palmas, e a nobre mula puxou com energia uma decorada charrete com muitas latas penduradas em sua parte traseira, onde se lia: “RECÉM-CASADOS”.

Os dois seguiam felizes, e seus olhos brilhavam de felicidade e ansiedade para os primeiros momentos de sua nova vida em comum. Tudo corria maravilhosamente, até que a mula tropeçou, e isso fez com que o casal se assustasse, e quase caísse para frente.

O noivo, puxou a rédea com força absoluta. Desceu rapidamente, pegou sua espingarda, e foi em direção ao animal. Levantou a arma em direção ao meio de sua testa, preparou-se para atirar com a noiva estática a observá-lo.

Fez uma pausa, baixou a arma, e levantou seu dedo indicador em frente aos olhos assustados da mula, e disse em alto e bom som: _ UM!

Silêncio absoluto. E segundos depois, ele voltou para o lado de sua esposa.

Ela preferiu minimizar, afinal estava muito feliz, e a viagem continuou.

Vários minutos se passaram, e ela nem se lembrava mais do ocorrido há pouco.

Quando tudo parecia voltar à perfeição anterior, veio um novo tropeço da coitada da mula.

Rédea novamente puxada com vigor, e lá se foi o noivo novamente com sua espingarda em direção à descuidada mula.

Preparou a arma, apontou, e mais uma vez, após incontáveis segundos, ele baixou sua arma, levantou sua mão direita, agora com os dedos polegar e indicador esticados, e olhando com ferocidade nunca percebida antes, bradou para o animal: _ DOIS!

A noiva já não conseguia esconder sua apreensão para o potencial significado daquele comportamento, algo que ela nunca observara em seu amado.

A viagem continuou, mas a velocidade se reduziu a um nível tal que parecia garantir uma desejável tranquilidade até seu destino final.

Mas, infelizmente, isto não aconteceu.

Poucos minutos depois um último e fatal tropeço.

Dessa vez, os passos do noivo não deixavam qualquer dúvida sobre o que iria acontecer. Ele levantou sua arma, e mesmo com ela erguida, levantou sua mão direita aos olhos assustados da pobre mula, e vociferou: _TRÊS!!!

Um segundo de silêncio, e um estampido anunciou o final daquela curta viagem. O animal tombou.

O noivo nem havia chegado de volta, e a noiva disparou um desabafo incontrolável:

_ O que é isso? Você é um louco! Onde eu estava com a cabeça quando decidi me casar com você? A mula o acompanhava há tantos anos, e eu sei que você a adorava. Eu sei disso. Como pode fazer uma atrocidade dessas? Você estragou tudo! Como vou conseguir continuar com isso? Minha nossa! Ninguém acreditaria no que eu vi com meus próprios olhos. – e ia continuando a gritaria, quando o noivo, pegou sua espingarda, a levantou em direção à jovem descontrolada, e calmamente, suavemente, olhou bem dentro de seus olhos, e sussurrou: _ UM!

Bem, e então eles viveram felizes para sempre!

A classe veio abaixo.

Creio que a aula que seguia na sala ao lado foi momentaneamente afetada pelo rebuliço que provoquei.

Até o tal aluno não resistiu e, sem que percebesse, baixou sua guarda.

Eu me levantei, e sem que ele percebesse, me aproximei implacável. Fiquei bem à sua frente, e mesmo não possuindo qualquer espingarda, levantei minha mão direita, armei meu dedo indicador, e antes que ele pudesse evitar, o coloquei bem próximo aos seus olhos. Ele o olhou com involuntário estrabismo, e completamente sem reação, escutou a minha voz em tom definitivo: _UM!!!

Seus colegas não sabiam se explodiam numa gargalhada, ou se ficavam em silencio para evitar futuras represálias.

Definitivamente, eu não sei onde encontrei aquela piada sem graça e com final tão previsível. Mas o fato é que o curso prosseguiu normalmente, e até o seu final, a pobre mula nunca mais voltou a ser lembrada.

E meu aluno, enfim, transformou-se num estudante normal.

Não me recordo se foi aprovado, mas acredito que tenha aprendido a lição mais importante, ou seja: respeito é bom, e todos nós gostamos.

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