Proficiência

Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone e, quando atendi, logo reconheci a voz animada de meu chefe.

— Guten Tag!

Disse boa tarde em alemão e continuou a conversa querendo testar minha capacidade de compreender e responder naquele idioma que sempre gostei, mas nunca dominei. Apesar disso, pareceu satisfeito, embora seu nível de exigência estivesse uma ordem de grandeza abaixo dos critérios de minha rígida professora de alemão. Em seguida, perguntou se meu passaporte estava em ordem e, quando confirmei positivamente, disse que me inscrevera em um programa de treinamento na cidade de Kaiserslautern na Alemanha. Um programa de dois dias sobre desenvolvimento de pessoas, totalmente em alemão. Ele sabia que seria muito difícil para mim, por isso determinou que eu fizesse um curso intensivo do idioma com um mês de duração, exatamente o tempo que restava até o início do treinamento.

Já terminando a conversa, sugeriu que eu conversasse com um colega de outra área, pois ele já havia participado do mesmo programa no ano anterior e, como também era um estrangeiro não fluente, poderia me dar dicas e informações sobre sua experiência.

Agradeci, desliguei o telefone e, em seguida, disquei para o tal colega. Quando contei a ele para onde iria, o outro lado da linha se transformou em um longo silêncio. Pensei até que a linha tivesse caído, mas ele pigarreou e confessou que sua experiência havia sido, no mínimo, dificílima. Desejou-me boa sorte e recomendou que eu cuidasse com carinho de minha autoestima.

Estou frito! — Pensei comigo.

Fiz tudo o que pude, estudei, pratiquei, até sonhei em alemão e, enfim, viajei. Apesar disso, reconheço que minha participação no tal treinamento foi, no máximo, medíocre. Após essa vivência, tive muitas outras intervenções com colegas e mesmo lideranças germânicas e, entre tropeços e boas evoluções, acredito que ganhei mais que perdi. Enfim, sobrevivi.

Evidentemente, se eu houvesse morado uns tempos por lá, este texto não existiria, mas no embalo desta abordagem, se eu olhar para trás em minha carreira, eu poderia contar várias histórias relacionadas às minhas diversas incursões em outros idiomas não nativos, como inglês e espanhol. Algumas foram inexplicavelmente bem-sucedidas, como por exemplo, ter sido palestrante no idioma espanhol em diferentes países latinos, sem nunca ter assistido sequer a uma única aula básica do idioma. “Madre mía!” Na verdade, aprendi a sobreviver heroicamente graças ao domínio de uma interlíngua – conforme definida em alguns dicionários – conhecida como “portunhol”.

Em uma outra situação, fui duramente repreendido por um simpático colega italiano, porque eu mesclava portunhol com um carregado sotaque da novela brasileira “Terra Nostra”, enquanto conversava animadamente com seus conterrâneos pelas ruas de Milão. Em um determinado momento, ele me puxou pelo braço e disse em tom definitivo:  — Fale normalmente, homem de Deus! Quem disse a você que os italianos falam desse jeito cantado? Se você insistir, eu fingirei que não o conheço, entendeu?

Tive dificuldades para compreender bem a sua repreensão feita em péssimo inglês. Mas admito que mudei imediatamente, pois vi que ela era bem mais clara e correta do que as minhas frases no idioma italiano.

Bem, mas a esta altura de minha vida, não creio que eu ainda tenha a intenção de investir grande energia para aperfeiçoar minha proficiência em outros idiomas, a não ser que alguma oportunidade de trabalho assim o exija. Nesse caso, certamente, eu mergulharei de cabeça. Aliás, ultimamente, tenho até estudado um pouco de italiano, mas somente para poder assistir às óperas de Verdi e Puccini sem depender tanto das legendas em português.

De qualquer modo, uma coisa é certa. Se eu estivesse iniciando minha carreira agora, ou mesmo, estivesse ainda definindo meu futuro profissional, eu investiria pelo menos o suficiente para dominar dois ou três idiomas importantes, obviamente após me sentir competente em relação à minha própria língua portuguesa.

Se fui um sortudo por não depender tanto disso quando iniciei e construí minha carreira, ainda assim, o que conquistei devo também à minha coragem e falta de vergonha em me comunicar mesmo com baixíssimos recursos de gramática e vocabulário em outras línguas.

Atualmente, o domínio de idiomas é o bilhete de entrada para participação em praticamente todas as oportunidades relevantes nas empresas globais, mas muito mais que isso, é a porta de acesso a valiosos conhecimentos, a novos relacionamentos e ao imenso patrimônio cultural disponível nas diversas regiões do mundo. Não temos mais o direito de renunciar a estas oportunidades.

Falando nisso: — Sprichst du Deutsch?

fonte imagem: http://webpinoy.asia

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