Procrastinação

Por Vitor Seravalli

“Usar de delongas”. Este foi o significado mais exótico que encontrei em dicionários para esta palavra que está presente na vida de muitos de nós, o verbo “procrastinar”.

Ela não pede para entrar. Nós mesmos a convidamos a incorporar nossos hábitos, ou seriam vícios, pela porta da frente.

E o momento mais propício a este imprudente convite é normalmente aquele que nos pede concentração para tarefas importantes, mas que por diversos motivos, são indesejáveis.

Ou porque envolvem atividades chatas mesmo, ou porque não dominamos o assunto em questão, ou porque não há uma gratificação imediata pela sua conclusão, enfim, a procrastinação é a resposta imediata e espontânea à nossa baixa determinação em executar coisas que parecem querer nos desgastar de alguma forma.

Assim, nos dispersamos e inexplicavelmente, ou propositalmente, as colocamos em segundo plano, e mergulhamos em algo muito mais agradável, de menor prioridade, ou pior ainda, inútil.

Evidentemente, não me excluo deste problema que criamos para nós mesmos,

E esta reflexão se evidencia como resultado de uma discussão imaginária recorrente, que ainda travo com minha imagem refletida no espelho, mesmo com a evolução que já logrei conquistar com tantas experiências vividas.

Desde os tempos escolares, sempre fui bom em estudar na véspera das provas. Cheguei a transferir know-how a alguns de meus colegas, tamanha era a competência em ir bem nos testes mesmo não tendo priorizado, como poderia, os estudos no tempo certo e adequado. Atravessei várias e várias noites sem dormir e, com uma inacreditável capacidade de mentalização e uso otimizado de energia física residual, alcancei a nota que precisava em diversas ocasiões.

Em outras vezes, liderei projetos com resultados finais admiráveis, mas que foram alcançados graças a uma surpreendentemente eficácia no curto período que antecedia o prazo final.

Então, se isto ocorre também com outras pessoas, por que deveríamos mudar nosso comportamento? Por que deixar de procrastinar, se no final das contas, tudo acaba bem?

Hoje, consigo articular melhor uma resposta honesta para esta pergunta tão desafiadora, e ela se baseia em algo muito simples.

Um dia desses me contaram sobre um lado extremamente positivo dos procrastinadores, com o qual concordo plenamente, que é a confiança.

Quem tem autoconfiança, sabe que pode procrastinar. Ou seja, aqueles que tem competência sabem que, mesmo nos minutos finais de seus prazos, conseguirão dar conta de seu trabalho.

O problema está no estresse e no consequente desgaste que a ansiedade e pressão pela urgência e atrasos gerados nos causam, justamente enquanto deixamos o mais importante para depois.

Lembro-me de um dia em que eu tinha duas coisas para fazer. Uma delas era um trabalho fundamental, tão difícil quanto desagradável. E a outra era um passeio a um lugar bonito e em boa companhia.

Nem preciso dizer que fiz a escolha mais fácil.

Quando voltei, não houve outro jeito, tive que priorizar o tal trabalho e, obviamente, foi muito difícil vencer o desafio de conclui-lo a tempo e com a qualidade exigida.

O ponto chave é que, em nenhum momento durante o passeio, eu pude me esquecer da pendência que ficara sobre minha mesa. Foi bom, mas não foi pleno. E depois, na volta, manter o foco e a concentração no trabalho foi algo bastante difícil. Parecia uma espécie de punição por ter tomado o atalho incorreto.

Desde o dia em que isso aconteceu, nunca mais consegui me entregar a uma fuga que me afastasse da minha tarefa definida. E se ainda não assumo formalmente a mudança que aconteceu em minha atitude, é para a procrastinação não perceber que, a qualquer momento, eu ainda posso me distrair e ter uma inesperada e indesejável recaída.

Até rimou. Alguém duvida?

Voltar ao blog