Pequenas superstições

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Por Vitor Seravalli

Mesmo quando eu ainda era uma criança rumo à adolescência, já possuía total consciência de que meus conhecimentos gerais eram escassos. Porém, sempre sobrou uma vontade doida para aprender.

Além disso, tive sorte. Uma tia muito querida se lembrou de mim quando soube que a empresa onde ela trabalhava mantinha uma escola profissionalizante de ótimo nível, na qual os parentes de funcionários poderiam ser indicados, e ela o fez.

Assim, desde os dez anos de idade, eu saía bem cedo da cidade onde morava, tomava um trem subúrbio invariavelmente lotado e, após caminhar mais alguns quilômetros, eu chegava para as aulas. Essa experiência rara e inimaginável para mim até então, colocou-me em contato com o mundo real, acelerou meu desenvolvimento e creio que isso foi o alicerce do meu projeto de carreira.

Naquela época, talvez por influência de minha família vinda do interior, eu era um garoto muito supersticioso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse um transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC. De qualquer modo, um punhado deles integrava o meu cotidiano.

Era comum voltar várias vezes para ter certeza de que uma porta estava fechada, ou então gastava um tempo considerável para colocar um objeto na posição correta, e muitos outros comportamentos inúteis dos quais eu era refém, ou seja, eu não conseguia controlar a necessidade de repeti-los, como se eu viesse a ser punido, caso não os fizesse por várias vezes.

Um destes comportamentos ficou em minha memória.

Eu fazia o mesmo caminho todos dias desde a estação de trem até a escola e, numa determinada casa, havia uma daquelas janelas bem antigas. Em cada lado dessa janela, havia uma pequena haste que era usada para prender a veneziana quando aberta e, não sei por qual motivo, a partir de um determinado dia, cismei de bater com minha mão nas duas hastes em todas as vezes que passava por aquela casa.

É bem possível que eu fizesse algo similar em outros lugares. Troco o “bem possível” por um “com certeza”.

Até que numa manhã cheia de nuvens, bati minha mão na pequena peça metálica e, antes que eu pudesse prever, alguém abriu com violência desnecessária a tal janela e perguntou num grito estridente:

— Por que você faz isso todos os dias, seu moleque?

Não posso me lembrar qual foi minha reação após ter parado de correr, várias quadras adiante, como um moleque fujão.

Mas aquele susto interrompeu inexplicavelmente aquele e todos os outros atos supersticiosos que eu praticava. Aliás, foi como uma lavagem cerebral, que talvez pudesse ser classificada como uma espécie de libertação.

O susto foi o remédio, assim como minha mãe fazia para interromper as contrações involuntárias de meu diafragma, as quais eu chamava de “soluço”.

Contei essa história toda, como uma espécie de parábola relacionada aos indesejáveis vícios profissionais que, apesar de não conectados com superstições, muitas vezes não conseguimos interromper.

O medo de perder o respeito dos colegas, o medo de ser mal interpretado, o medo de falhar ou fracassar e muitos outros medos, nos levam a atos involuntários que nos escravizam em comportamentos medíocres, desrespeitosos e de baixo valor, mas o pior é que não temos consciência do mal que eles podem estar causando às outras pessoas e fundamentalmente a nós mesmos.

Até que alguém nos dá um grande susto e nos liberta, mas infelizmente isso pode significar uma indesejada demissão.

Talvez eu nunca consiga me livrar de algumas pequenas superstições, mas os meus medos, creio que tenha aprendido a enfrentar…

… sem sustos.

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