Lançamento do projeto “Ética e Compliance na Indústria da Construção”

A CBIC lançou nesta quarta-feira (13/05), durante reunião do Conselho de Administração da entidade, em Brasília, o projeto Ética e Compliance na Construção, que visa despertar a consciência sobre ética e compliance e dar suporte aos empresários do setor para a gestão da ética em suas organizações, a fim de fazer cumprir as normas legais e regulamentares, as políticas e as diretrizes estabelecidas para o negócio.

São prioridades do projeto: disseminar os conceitos e fundamentos sobre a ética, valores e princípios; promover o engajamento cada vez maior das empresas do segmento à causa, e compartilhar as boas práticas já existentes para que possam ser reconhecidas e transferidas como aprendizado a outras organizações.

A CBIC também assinou a adesão ao Pacto Global da Rede Brasil, que marcou o compromisso da entidade e da Indústria da Construção com a sociedade.

A Seravalli Consulting participa ativamente desse projeto desde sua concepção, e agora, na fase de implementação.

 

15 04 CBIC Etica e Compliance na Construcao Slide Lancamento-01http://www.cbic.org.br/sala-de-imprensa/noticia/cbic-lanca-projeto-etica-e-compliance-na-construcao-e-assina-adesao-ao-pa-0

Na palma da minha mão

Na palma da mão 1

Por Vitor Seravalli

Era um dia normal. Ou melhor, quase normal.

Estávamos numa reunião do comitê de contingência, e o objetivo era buscar o necessário alinhamento entre todos os responsáveis pelas fábricas, pois uma greve se mostrava iminente.

Num determinado momento, o líder do comitê perguntou a todos nós como estava a situação em cada unidade, e nós, gerentes de fábrica, um a um, iniciamos o relato.

O responsável pela maior planta estava pessimista. Por se tratar de um processo com várias etapas, esta seria a primeira a parar. Más notícias para começar.

O segundo líder não era menos realista. E não seria tarefa fácil, mantê-la em continuidade.

E assim seguiram os outros.

Eu estava surpreendentemente tranquilo. A fábrica sob minha responsabilidade tinha processos com reações de síntese, e pela sua característica de maior periculosidade, era sempre poupada nos movimentos de mobilização. Além disso, os supervisores de cada turno eram muito experientes, e sabiam lidar com essas situações muito bem. Realmente, não tínhamos qualquer história de interrupção, desde quando esses movimentos integraram a rotina das empresas do setor.

Por esse motivo, minha resposta não evidenciou qualquer displicência ou arrogância, mesmo quando se resumiu numa frase seguida de um leve sorriso no canto dos lábios:

_ Tudo sobre controle. Estou com a equipe na palma da minha mão.

Todos se admiraram, e um elogio de nosso líder fez com que meu ego se inflasse discretamente, sem que isso pudesse ser evitado. Em resumo, eu fui um tolo.

O tempo passou, como sempre, muito rápido.

E a greve começou.

Numa nova reunião, já estávamos com novos relatos atualizados de todas as unidades, e uma notícia chamou a atenção de todos. A primeira fábrica a aderir ao movimento de paralização foi justamente aquela que estava sob minha responsabilidade.

Apesar da ausência de histórico, e de todas as outras características que a blindassem, a sua parada colocou-me em cheque.

Todos olharam para mim, alguns com ironia, e pediram que eu mostrasse a palma de minha mão. Queriam saber se a equipe ainda estava escondida em algum lugar por ali.

Fiquei envergonhado, e saí sem muitas explicações, pois algo deveria ser feito imediatamente.

Uma primeira lição, nunca mais esquecida, foi a extinção de uma palavra em meu dicionário: a presunção. O fato é que eu não havia feito a lição de casa de forma plena. E o preço, ao final, acabou sendo extremamente caro.

A segunda lição, foi uma necessária resiliência. Após o duro golpe, o tombo, e o início da contagem, tratei de me levantar rapidamente. E então, fiz tudo o que deveria ter sido feito antes, turno por turno, num diálogo franco e transparente com toda a equipe.

Aqui, não estão em questão as peculiaridades daquele episódio, e sim, as lições que ensinaram aquele jovem líder a abandonar a definitivamente a displicência, e a desenvolver com grande prioridade a resiliência como uma competência essencial para os muitos desafios que vieram posteriormente. Doeu, mas valeu!

Atitudes sustentáveis

banho sustentável 1

Por Vitor Seravalli

Professor! Gostaria de fazer um comentário.

Estranhei aquela solicitação logo no início da aula. Mas, como os cursos de pós-graduação precisam da participação ativa dos alunos, dei toda a atenção ao rapaz que queria contar algo sobre a aula anterior.

_ Em sua última aula, houve um momento em que foi mostrado um certo “slide”, e você fez questão de frisar que ele era o mais importante de todo o curso. Olhou para nós e, inclusive, disse que era algo com grande chance de estar na avaliação final.

Todos prestavam a atenção, e ele continuou.

_ Era o “slide” que definia o “Desenvolvimento Sustentável”, e me lembro bem que dizia: “Desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”.

Falou com tanta propriedade que seus colegas o aplaudiram.

_ Muito bem – disse eu – mas e então?

_ Pois é Professor, eu sempre imaginei que sustentabilidade fosse abraçar árvores, e de repente compreendi que era algo muito mais amplo, e relacionado com a atitude tanto das organizações quanto de nós mesmos como cidadãos.

A essa altura, seus colegas já pensavam em elegê-lo como o líder da turma, e brinquei que sua bela contribuição não o isentaria da avaliação ao final do curso.

Ele sorriu, mas seguiu com sua história.

_ Bom, mas ao final da aula, eu fui para casa, e no caminho continuava a pensar no que eu deveria fazer como indivíduo para ser sustentável. Quando cheguei, conversei com minha esposa, que também havia chegado da escola como eu, e ela gostou de discutir um pouco sobre esse assunto. Falamos de nossos filhos, e o quanto seria importante ensiná-los sobre a sustentabilidade. Depois disso, fui tomar um banho antes de dormir, e acredite Professor, eu continuei a pensar no assunto.

Fez uma “cara de conteúdo”, mas eu não pude deixar de fazer uma consulta a ele.

_ Tenho uma pergunta: enquanto você pensava na sustentabilidade, a válvula da água estava aberta ou fechada?

Os outros alunos caíram na gargalhada, e ele mudou sua expressão mas admitiu o óbvio:

_ É, a água estava aberta.

Embora fosse somente um comentário com fins didáticos, eu disse a ele que podia interromper sua história ali mesmo, e que ao final da aula me procurasse para que pudéssemos agendar uma aula de reposição, pois definitivamente, ele não havia aprendido bem a lição da aula anterior.

Todos sorriram concordando comigo, inclusive o meu importantíssimo aluno.

Sim, um aluno importantíssimo, pois sua história continua sendo contada por mim em praticamente todas as aulas e palestras que tive após aquela noite.

Evidentemente, o agradeci ao final daquela intervenção, e ele certamente mudou sua atitude a partir de então.

Ensinar os fundamentos da sustentabilidade é muito mais que um privilégio, é uma missão.

Mas ainda mais importante do que apresentar os fundamentos e conceitos de algo tão complexo e tão simples ao mesmo tempo, é certamente ensinar pelo próprio exemplo.

E nesse caminho, eu confesso ter ainda muito a percorrer.

Mas se muitos outros estiverem comigo, tenho certeza que chegarei mais longe.

Vamos nessa?

Isto não é do seu nível!

Isto não é do seu nível 1Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone, e era mais um pedido para um pulinho na sala do chefe.

Já havia tarefas demais sobre a minha mesa. Aliás, caso o tal chefe se esquecesse de mim por um mês, eu não teria nem cinco minutos de ociosidade até que se lembrasse de me chamar novamente. Porém, nosso projeto era importante demais, e qualquer reclamação seria injusta àquela altura. Pessoalmente, eu estava vivendo uma oportunidade rara de aprendizado, e tinha consciência de que tudo aquilo traria resultados fundamentais para meu futuro.

Pasta preta embaixo do braço, lapiseira no bolso da camisa, e lá fui eu.

Meu chefe não era um líder qualquer. Sua última experiência fora um projeto similar em outro país, e agora ele assumira a responsabilidade de replicar o investimento numa escala bem maior, porém num ambiente com uma cultura não tão baseada em planejamento de médio e longo prazo como a anterior.

Eu fora escolhido para colocar em prática toda a bagagem de conhecimentos que estava na mente daquela pessoa, que me esperava na sala onde cheguei com passos, como sempre, apressados.

Recebi as explicações necessárias para atendimento de mais uma demanda, e sem mais delongas, voltei ao meu posto de trabalho.

Logo vi que teria dificuldades de atender aos prazos todos, e percebi também que teria algumas escolhas a fazer.

Fiz uma triagem de todas as prioridades do melhor jeito que pude, escolhi aquilo que era mais urgente, e tratei de colocar a mão na massa.

O tempo passou rapidamente, e quando o prazo da tal demanda se esgotou, tratei de entregá-la pessoalmente ao ilustríssimo solicitante.

Nada fora fácil, mas embora eu não contasse com muitos recursos, a lição de casa estava feita.

Cheguei à sua sala, e logo fui convidado a entrar. Sentamos nas cadeiras de uma pequena mesa de reuniões, e então, aconteceu algo que, definitivamente, não estava previsto em minhas expectativas.

Ele ouviu minha explicação, viu o material com seu peculiar detalhamento, ficou com a expressão mais séria que eu já havia visto, olhou para mim aparentemente incrédulo e, levantando-se em direção à sua mesa, emitiu um definitivo parecer:

_ Infelizmente, meu caro, eu não posso receber este material.

Um pouco assustado e surpreendido com sua reação, somente pude perguntar: _ Por que Chefe?

Ele, já sentado à sua mesa e iniciando uma chamada telefônica, olhou para mim e simplesmente disse:

_ Isto não é do seu nível.

Recolhi os cacos de mim mesmo, saí de mansinho e, sem saber o que pensar, voltei à estaca zero.

Tanto estresse, tanta pressão, e tamanho esforço para nada.

Ao final daquela tarde, deixei a empresa com a sensação de que minha casa havia caído.

Mas apesar de abatido, eu sabia que meus trabalhos eram realmente melhores do que aquela porcaria que eu havia entregue, ou melhor, que eu tentara entregar.

Cheguei bem cedo na manhã seguinte, e tratei de refazer tudo a partir do zero. Não precisei mudar radicalmente nada. Somente, me concentrei e cuidei para que o trabalho ficasse como, deveras, deveria ter sido apresentado já na tarde anterior.

Sem perder tempo, voltei ao seu escritório, pedi um minuto, pedi desculpas, e entreguei a nova versão.

Obviamente, ele foi bastante rigoroso em sua reavaliação, mas afinal, sorriu para mim e, com a sua expressão normal, bateu sua mão em meu ombro e falou: _ Pois é, agora sim, isto é do seu nível.

Aquele episódio não foi registrado em minha lembrança como um processo que pudesse ser classificado como agradável. Mas, a partir daquele dia, passei a exigir algo como requisito essencial, não somente em todos os meus trabalhos, mas também em muitas outras coisas de minha vida, e eu estou falando de EXCELÊNCIA.

E caso queiram saber de algo mais: esta mudança valeu completamente a pena.

Mãos vazias, nem pensar!

Mãos vazias 1

Por Vitor Seravalli

Eu ia bem.

Apesar de ainda estar numa fase inicial de minha carreira, alguns sinais indicavam algo promissor para o futuro. Porém, minha remuneração parecia não acompanhar essa positiva autoavaliação.

O estilo de vida queria avançar, contudo as despesas vinham crescendo no mesmo ritmo, e assim era chegada a hora de buscar um justo aumento de salário. Obviamente, eu faria isso diretamente com a pessoa mais adequada para resolver o problema rapidamente: o meu chefe.

Cheguei de mansinho, vi que ele estava só em sua sala, e pedi para entrar. Muito simpático, pegou sua pasta com vários papéis cheios de anotações, e após nos sentarmos, me perguntou:

_ E então, sobre o que quer falar?

Eu me embaracei com tamanha receptividade, porém comecei falando de minha impressão positiva sobre o aprendizado dos últimos tempos, e engatilhei com uma argumentação sobre reconhecimento, e que deveria se materializar em um aumento salarial, afinal eu o merecia de fato.

Ele ouviu com atenção minha argumentação, e quando eu parei de falar, foi logo pedindo alguma referência para justificar tal ajuste.

Não compreendi que buscava saber se eu havia pesquisado minha situação e meu nível em relação ao mercado, e ainda cometi um erro básico dizendo que um outro colega de nossa equipe, um profissional com perfil similar ao meu, tinha o salário melhor, e eu reivindicava somente uma igualdade de critérios.

Minha resposta o irritou um pouco, pois havia nas entrelinhas uma sugestão de que sua liderança não mantinha uma base justa para diferenciação de reconhecimento, e isto não era verdade

Abriu sua pasta, mexeu nos papéis, e após escolher um deles, que infelizmente estava longe de meus olhos curiosos, virou-se para mim e falou.

_ Bom, embora você não esteja errado em buscar uma melhoria de seu salário, não concordo com sua reivindicação de equiparação ao seu colega, afinal suas atividades são completamente distintas, e embora goste do trabalho de ambos, não posso compará-los.

Infelizmente, ele tinha razão.

Olhou para o tal papel, e disse que tinha em mãos uma pesquisa salarial de mercado, e que meu salário estava de acordo com a média ali apresentada. E se eu não tivesse algo similar em mãos para que discutíssemos no mesmo nível de um modo mais tangível, a conversa estava terminada.

Eu pensei em desafiá-lo a me mostrar tal pesquisa, que naquele momento me pareceu um blefe. Mas pensei melhor, e dizendo que iria fazer uma pesquisa própria para voltar a procurá-lo depois, pedi licença e fui em direção à porta com uma típica expressão submissa hostil.

Antes que saísse, ele me chamou pelo nome, e falou um pouco mais:

_ Faça sua pesquisa e volte. Certamente, estarei aberto para uma melhor discussão, pois hoje você não veio preparado. E deixo uma dica: nunca vá a qualquer discussão, por mais simples que seja, sem alguma informação preparada. Se possível, anote-a num papel com a maior precisão que puder. A chance de seus interlocutores não terem nada em mãos, assim como você chegou aqui hoje, será sempre muito alta. Acredite em mim, as suas chances de fazer uma boa negociação serão sempre maiores.

Saí dali pensativo, mas decidi seguir sua recomendação, e hoje, muito anos após aquela tarde, minhas experiências me impelem ao compartilhamento de tão singelo e valioso ensinamento,

Assim, ao entrar em qualquer negociação, por menor que seja: “Mãos vazias, nem pensar!”

O advogado


Advogado 1Por Vitor Seravalli

Sempre tive prazer em incentivar o desenvolvimento das pessoas que pertenciam aos times que liderei.

Mesmo os mais acomodados se rendiam, pois sabiam que a recompensa viria em algum momento. Nem sempre imediata, mas a conquista do conhecimento e a evidência de competências adquiridas eram coisas impossíveis de se ocultar.

Porém, as exceções também eram resilientes. E qualquer motivo ou justificativa fazia com que uma parte da equipe optasse pela mediocridade, como se isso fosse uma característica imutável.

Por isso, quando eu percebia alguém com vontade de aprender, imediatamente o adotava e buscava ajudá-lo, pois eu acreditava que sua eventual vitória seria um exemplo a ser seguido pelos acomodados.

Nesse contexto, vibrei quando um simples ajudante de um dos turnos entrou em minha sala e contou-me seu sonho em se tornar um advogado. Mais que isso, ele havia passado no vestibular, e viera me procurar para que o ajudasse nas escalas de turnos, de modo que ele conseguisse estudar e trabalhar.

Como não ajudá-lo? Ele representava o motim contra uma cultura baseada na ignorância inevitável, e eu não o deixaria desistir.

Fiz das tripas coração, quebrei regras, e até prejudiquei alguns outros não tão determinados, mas o advogado não poderia abdicar de seu sonho.

Infelizmente, esse entusiasmo irresponsável me cegou. Afinal, a formação de meu esforçado funcionário em direito não tinha nada em comum com a atividade de minha área de responsabilidade. Se o rapaz queria seguir esta carreira, isto era ótimo, mas sua escolha não se sintonizava em nada com as tarefas da equipe.

E embora eu continuasse míope, o tempo foi evidenciando que algo drástico deveria ser feito. Eram atrasos seguidos, faltas com a justificativa de trabalhos acadêmicos, e seu desempenho no trabalho ia se desintegrando.

O restante da equipe me olhava atravessado, mas eu sempre me justificava a favor da opção pelo autodesenvolvimento.

Eu segurava as pontas com todo empenho, e o advogado em gestação seguia fazendo cada vez menos pelo trabalho.

O fato é que eu já começava a não aguentar a pressão de toda a equipe.

Até que numa tarde, logo que aconteceu a mudança de turno, decidi finalmente tomar a única decisão que me cabia naquele momento.

Chamei o rapaz ao meu escritório. Fiz um discurso tão emocional quanto desnecessário, e ao final, o demiti, deixando claro que se tratava de uma decisão difícil, mas necessária. Inevitável, embora contra a minha vontade.

Ele estava sério, mas muito tranquilo. Esperou calmamente que eu terminasse a minha ladainha, e quando eu me calei, ele falou.

_ Você não acha que demorou muito para tomar essa decisão? Eu acho.

Este foi um dos feedbacks mais duros e verdadeiros que recebi em toda a minha vida profissional.

Eu não respondi nada, pois um bom feedback é sempre assim: Bateu, doeu… toma que ele é teu!

Depois disso, é óbvio que não mudei minhas prioridades para o desenvolvimento de competências, mas um melhor alinhamento com as prioridades do negócio, um maior equilíbrio entre recursos e necessidades, e principalmente um melhor planejamento, fizeram toda a diferença.

Não tenho ideia se o ajudei a ser um bom advogado, mas ele certamente me ajudou a me tornar um líder melhor.

Um!

Um 2Por Vitor Seravalli

Ele era um aluno diferente. A má notícia é que era diferente para pior.

Em cursos de pós-graduação, isto não deveria acontecer, mas aquela turma fora sorteada.

Não era um aluno ignorante, pelo contrário, era um rapaz inteligente, mas usava toda a massa cinzenta, ou pelo menos, boa parte dela para atazanar a vida de seus colegas e também a vida de seus professores. Pois é. E eu era um deles.

Logo na primeira aula. Ou melhor, logo que iniciei minha introdução ao curso, ele já pediu a palavra. Começou a fazer perguntas desconexas sobre suas dúvidas em relação àquela disciplina. Falaríamos de responsabilidade social, e vi que ele não entendia absolutamente nada do assunto e, se seus colegas o escutassem, perderiam o mínimo que já houvessem aprendido.

Dei um pouco de corda para que ele descarregasse sua adrenalina, e minha esperança era que se acalmasse com o tempo.

O tiro saiu pela culatra, pois ele concluiu que havia ganho espaço, e começou a falar com empolgação, e a se transformar num ativista social em plena sala de aula.

Eu continuava com minha introdução, à medida que ele precisava de ar para recuperar seu fôlego. Então, disse que o programa incluía um tópico sobre ética, e minha deixa era tudo o que ele poderia esperar para colocar-me numa situação difícil.

Eu era um professor de uma disciplina única, e não vivia a rotina daquela escola. Por algum motivo interno, a Diretoria da havia decidido pela troca do nome da instituição, e meu aluno especial era contra a mudança. Ele não tinha um argumento lógico para sua opinião. Simplesmente, era contra a decisão, e subitamente me perguntou se achava ético o que a escola estava fazendo.

Foi incisivo, e seu objetivo era me obrigar a um posicionamento, que não trazia uma saída possível para mim. Se concordasse, ele usaria isso para colocar-me em conflito com a escola. E se discordasse, ele diria que eu estava ensinando algo que não praticava de fato.

A sala ficou em silêncio, e muitos ali já concluíam que eu estava numa sinuca de bico.

Foram poucos segundos de hesitação, e enquanto respirava, lembrei-me de uma história que havia visto num programa de variedades na televisão. Não tenho ideia do que me levou a fazer aquilo, mas levantei-me, fui até o meio da sala, respirei, olhei para o tresloucado aluno, e iniciei uma resposta.

Na verdade, disse que iria responder, mas antes queria contar uma pequena história.

Tenho certeza que ele teve vontade de não deixar que eu usasse aquele artifício, mas ali o “chefe” ainda era eu, e ele conhecia bem a antiga lei da hierarquia, composta de dois artigos:

1º artigo: O chefe tem sempre razão.

2º artigo: Caso o chefe não tenha razão, então, vale o 1º artigo.

Bom, mas a história começava com uma entrevista num programa de TV em que uma famosa apresentadora perguntava a um casal, que acabara de completar sessenta anos de um feliz casamento, qual era o segredo para uma relação tão bem sucedida e duradoura.

O marido olhou desconfiado e sinalizou que ficaria quieto. Por isso, a sua esposa decidiu contar.

A essa altura, meu aluno já havia se ajeitado melhor na cadeira, pois queria ver até onde eu chegaria com aquilo, pois ele já ultrapassara todos os limites, mas ainda queria mais.

A mulher começou falando que o segredo de tanta felicidade se revelara a ela no dia de seu casamento. Uma cerimônia simples, numa pequena capela de uma bucólica cidade no interior do estado, era tudo o que ambos desejavam para sua união.

Os parentes lotavam o local, e tudo estava muito limpo e florido. Todos ali vestiam suas melhores roupas, e o padre se preparara de modo especial para uma bela cerimônia.

Havia mais um detalhe especial: o marido possuía uma mula de estimação, que fora um presente durante sua adolescência, e pelo amor que nutria pelo animal, o preparara para que conduzisse o casal para onde teriam sua noite de núpcias.

Tudo corria com a pompa e circunstância que era possível naquele singelo lugarejo.

A classe continuava a me ouvir com atenção, e um certo alguém esperava uma mínima oportunidade para sua interrupção certeira. Mas essa oportunidade, não aconteceu.

Após os cumprimentos de todos, e uma chuva torrencial de arroz à saída da capela, os noivos deixaram o local, sob uma efusiva salva de palmas, e a nobre mula puxou com energia uma decorada charrete com muitas latas penduradas em sua parte traseira, onde se lia: “RECÉM-CASADOS”.

Os dois seguiam felizes, e seus olhos brilhavam de felicidade e ansiedade para os primeiros momentos de sua nova vida em comum. Tudo corria maravilhosamente, até que a mula tropeçou, e isso fez com que o casal se assustasse, e quase caísse para frente.

O noivo, puxou a rédea com força absoluta. Desceu rapidamente, pegou sua espingarda, e foi em direção ao animal. Levantou a arma em direção ao meio de sua testa, preparou-se para atirar com a noiva estática a observá-lo.

Fez uma pausa, baixou a arma, e levantou seu dedo indicador em frente aos olhos assustados da mula, e disse em alto e bom som: _ UM!

Silêncio absoluto. E segundos depois, ele voltou para o lado de sua esposa.

Ela preferiu minimizar, afinal estava muito feliz, e a viagem continuou.

Vários minutos se passaram, e ela nem se lembrava mais do ocorrido há pouco.

Quando tudo parecia voltar à perfeição anterior, veio um novo tropeço da coitada da mula.

Rédea novamente puxada com vigor, e lá se foi o noivo novamente com sua espingarda em direção à descuidada mula.

Preparou a arma, apontou, e mais uma vez, após incontáveis segundos, ele baixou sua arma, levantou sua mão direita, agora com os dedos polegar e indicador esticados, e olhando com ferocidade nunca percebida antes, bradou para o animal: _ DOIS!

A noiva já não conseguia esconder sua apreensão para o potencial significado daquele comportamento, algo que ela nunca observara em seu amado.

A viagem continuou, mas a velocidade se reduziu a um nível tal que parecia garantir uma desejável tranquilidade até seu destino final.

Mas, infelizmente, isto não aconteceu.

Poucos minutos depois um último e fatal tropeço.

Dessa vez, os passos do noivo não deixavam qualquer dúvida sobre o que iria acontecer. Ele levantou sua arma, e mesmo com ela erguida, levantou sua mão direita aos olhos assustados da pobre mula, e vociferou: _TRÊS!!!

Um segundo de silêncio, e um estampido anunciou o final daquela curta viagem. O animal tombou.

O noivo nem havia chegado de volta, e a noiva disparou um desabafo incontrolável:

_ O que é isso? Você é um louco! Onde eu estava com a cabeça quando decidi me casar com você? A mula o acompanhava há tantos anos, e eu sei que você a adorava. Eu sei disso. Como pode fazer uma atrocidade dessas? Você estragou tudo! Como vou conseguir continuar com isso? Minha nossa! Ninguém acreditaria no que eu vi com meus próprios olhos. – e ia continuando a gritaria, quando o noivo, pegou sua espingarda, a levantou em direção à jovem descontrolada, e calmamente, suavemente, olhou bem dentro de seus olhos, e sussurrou: _ UM!

Bem, e então eles viveram felizes para sempre!

A classe veio abaixo.

Creio que a aula que seguia na sala ao lado foi momentaneamente afetada pelo rebuliço que provoquei.

Até o tal aluno não resistiu e, sem que percebesse, baixou sua guarda.

Eu me levantei, e sem que ele percebesse, me aproximei implacável. Fiquei bem à sua frente, e mesmo não possuindo qualquer espingarda, levantei minha mão direita, armei meu dedo indicador, e antes que ele pudesse evitar, o coloquei bem próximo aos seus olhos. Ele o olhou com involuntário estrabismo, e completamente sem reação, escutou a minha voz em tom definitivo: _UM!!!

Seus colegas não sabiam se explodiam numa gargalhada, ou se ficavam em silencio para evitar futuras represálias.

Definitivamente, eu não sei onde encontrei aquela piada sem graça e com final tão previsível. Mas o fato é que o curso prosseguiu normalmente, e até o seu final, a pobre mula nunca mais voltou a ser lembrada.

E meu aluno, enfim, transformou-se num estudante normal.

Não me recordo se foi aprovado, mas acredito que tenha aprendido a lição mais importante, ou seja: respeito é bom, e todos nós gostamos.

Bom dia João Claudio!

JC1

Por Vitor Seravalli

Aquela situação, aparentemente irrelevante, trazia um leve desconforto diário. Eu acessava a empresa com meu automóvel, e a cada dia vinha uma pessoa uniformizada para checar meu porta-malas.

Certamente, eu não me incomodava com o procedimento, pois afinal aquele tipo de checagem era normal, e eu não tinha nada a esconder,

O que me incomodava era receber um cumprimento nominal, respeitoso, e não conseguir responder da mesma forma, simplesmente porque os seguranças se revezavam diariamente naquele posto, e eu nunca conseguia memorizar seus nomes.

Um fato era verdadeiro, eu não era muito bom na memorização de nomes de pessoas, mas aquela situação precisaria de uma solução.

Pensei um pouco, e veio uma ideia óbvia. Telefonei para o supervisor, e pedi que providenciasse uma folha de papel com pequenas fotos de todos os profissionais que trabalhavam na segurança da empresa, obviamente, com seus nomes em letras bem legíveis sob suas poses formais.

Embora o líder dos seguranças apresentasse uma expressão incrédula ao meu pedido, o atendeu prontamente.

No dia seguinte, parei o automóvel em frente ao portão da empresa, e ao ver o segurança do dia vindo em minha direção, peguei a folha ainda de modo desajeitado, busquei identificar seu rosto nas fotos, abri a janela, e o cumprimentei pelo nome.

Ele demonstrou surpresa, mas devolveu o cumprimento com a melhor entonação que pode expressar. E eu segui para meu escritório sem o desconforto de todas as vezes anteriores.

Aquilo tornou-se um hábito, e até hoje, anos e anos depois, lembro-me do impacto positivo que aquele simples ato causou às minhas manhãs carregadas de trabalho e problemas para resolver.

Mas, muito mais que isso, nunca me esquecerei da fisionomia daquelas pessoas humildes, que pareciam sentir-se diferenciadas simplesmente por serem tratadas pelo seu próprio nome.

E um dia desses, caminhando pela cidade, dei de cara com um dos profissionais, que talvez fosse um dos mais educados daquela época.

Apesar de tanto tempo depois, minha ótima capacidade de guardar bem as fisionomias compensou a insistente dificuldade em lembrar nomes das pessoas, e ambos se reconheceram. Veio em minha direção com a mão estendida, e eu, milagrosamente, como se conseguisse ver aquela página de papel cheia de fotografias com nomes em frente aos meus olhos, não hesitei. Estendi minha mão de encontro à dele, e como fazia no passado, tive o privilégio de retribuir sua simpatia e o cumprimentei com toda a minha energia:

Bom dia João Claudio!

Não me recordo o nome de quem me ensinou a agir assim, mas se me lembrasse, o cumprimentaria também, e agradeceria por um dos melhores presentes que recebi em toda a minha vida.

Why not?

Por Vitor Seravalli

why_not

 

Mensalmente, eu avaliava um relatório que trazia os resultados de funcionários dos diversos departamentos em seus cursos de inglês. Era um investimento especial da empresa direcionado a alguns profissionais selecionados por um critério baseado no potencial para contatos com pessoas de outros países.

Contudo, nem sempre este critério óbvio era bem compreendido e aceito por todos.

Lembro-me bem de ter escutado de um colaborador que a capacitação era uma espécie de “cala boca” para que não reivindicasse tanto a sua promoção quanto um merecido aumento salarial. Ou seja, o investimento era também percebido como uma espécie de prêmio de consolação, ou uma concessão para evitar perda de motivação. Enfim, um monte de tolices.

Tenho a consciência tranquila de que sempre buscava o critério mais correto e justo. E por isso, gostava de ver como estavam evoluindo conforme o tempo passava.

E naquele final de tarde, eu mais uma vez constatava que Clara mantinha a liderança de performance em relação a todos os seus colegas. Suas notas e seu desempenho geral estavam novamente muito acima da média.

Quando investimos no desenvolvimento das pessoas, não existe nada mais gratificante do que perceber que os resultados estão sendo concretos. E nesse caso, não havia dúvidas: Clara era “The Best”.

E foi por isso mesmo, que não hesitei em incluí-la no programa da visita de um colega estrangeiro que chegaria para conhecer nossas instalações. Havia também um outro motivo até mais importante, esse visitante era o responsável pela área que Clara liderava, porém em nossa matriz.

Seria o momento certo para que ela colocasse em prática tudo o que havia aprendido nas muitas aulas assistidas até aquele momento.

Nosso colega era um típico germânico. Possuía um perfil técnico bastante acentuado, mas sabia valorizar seu aprendizado com outras culturas. Fiz questão de recebê-lo pessoalmente, conversamos um pouco em meu escritório, e iniciamos a visita a um laboratório novo, que estava sob a responsabilidade de Clara.

Caminhamos um pouco, e falávamos de tudo. Embora ele quisesse tentar algumas palavras em português, sua única possibilidade de comunicação além de seu idioma nativo, era naturalmente o inglês.

Assim, logo chegamos ao local onde Clara nos esperava com uma expressão que se parecia com uma mistura desequilibrada de simpatia e preocupação. Minimizei minha percepção pois sabia que esta era a primeira vez que ela recebia um visitante internacional.

Cumprimentei Clara e a apresentei ao nosso colega. Ela sorriu, e já tratou de colocar-se numa posição diferente da que eu havia previsto para ela. Em outras palavras, ela pretendia somente nos acompanhar e, pelo jeito, eu deveria apresentar as instalações ao visitante.

Demorei longos segundos para perceber sua intenção. Olhei para ela, e notei que estava paralisada, principalmente depois que pedi uma explicação detalhada sobre o novo laboratório.

Quando finalmente percebi que minha querida colega estava literalmente “travada”, e mais nenhuma palavra, mesmo em português, saía de sua boca, tive que intervir.

Do jeito que pude, conduzi a visita, e ela parecia aliviada à medida que fomos nos encaminhando para a porta de saída.

Nos despedimos, e após visitarmos outras áreas que já não estavam sob a batuta de Clara, ele se foi.

Eu não conseguia compreender o que havia se passado com ela. Mas, internamente eu sabia que a proficiência em idiomas, principalmente para pessoas que não tem oportunidades de vivências internacionais, é algo muito próximo de um obstáculo intransponível.

Sim, a melhor aluna, entre dezenas de outros estudantes de inglês da empresa, simplesmente não conseguia se comunicar no idioma.

O fim de semana veio e se foi.

Logo na segunda-feira, às oito horas da manhã, Clara apareceu em meu escritório, Estava um pouco corada, e sua primeira ação foi um desajeitado pedido de desculpas pelo bloqueio que tivera em frente ao nosso colega comum.

Suas explicações eram as mais comuns. Talvez até eu mesmo já as houvesse usado em algum momento, então pedi que poupássemos nosso tempo e buscássemos um novo caminho.

Recomendei um curso de imersão local, no qual eu mesmo havia participado com relativo sucesso, e pedi que ela o priorizasse. Depois disso, voltaríamos a falar no assunto.

Clara fez sua lição de casa com a competência que lhe era peculiar.

E logo que voltou, tratou de invadir toda sorridente a minha sala e, até com um sotaque americano, falou: _ Good morning, dear boss! How are you today?

Nem preciso dizer, que a partir desse dia, ela libertou-se de si mesma e em pouco tempo já partiu para sua primeira viagem à nossa matriz.

Afinal, ela já possuía conhecimentos muito bem fundamentados no idioma. Ela certamente também já havia desenvolvido habilidades suportadas por estes conhecimentos, tanto é que suas notas eram sempre as melhores. Porém, lamentavelmente, Clara ainda era incompetente em sua proficiência no idioma não nativo, e o motivo estava exclusivamente em sua falta de atitude em se comunicar.

Uma receita composta de um pouco de medo, uma dose original de timidez, e até mesmo uma pitada de um tolo perfeccionismo, era a fórmula perfeita para o mecanismo que trancava sua confiança a sete chaves no indestrutível cofre de sua insegurança. Mas, felizmente, ela o abriu.

O final dessa história foi muito feliz, e acredito que Clara tenha replicado seu sucesso com muitas pessoas que liderou depois disso.

Mas sei que muitos profissionais ainda vivem com a convicção de que são “travados” e que nunca poderão desenvolver essa ou outra competência qualquer.

Quando os vejo por aí, é comum ouvir suas justificativas e argumentos completamente fundamentados, mas que infelizmente não os mudam para melhor.

E, já que estamos falando do idioma inglês, sempre sugiro que abandonem de vez a frase: “Yes, but”, e adotem com muita energia e coragem uma outra frase em forma de pergunta: “Why not?”

_ Get it?

Feedback e o equilíbrio

Por Vitor Seravalli

Feedback e equilíbrio

Após um período de muitas turbulências decorrentes de uma completa falta de organização em uma das áreas mais estratégicas que estavam sob minha responsabilidade, vivíamos agora um período onde os indicadores eram bons.

Inicialmente, eu tentara estruturar as coisas com as próprias mãos, mas minha carga não estava somente ali, e uma recuperação da confiança e dos resultados da equipe necessitava de uma gestão bem mais focada e plena.

Eu possuía alguns bons desafios, a começar pelo desenvolvimento de uma argumentação consistente, que justificasse o investimento em um nível de liderança mais alto para alavancar uma ampla mudança no departamento. Um segundo desafio, se tudo desse certo em relação ao primeiro, seria encontrar um perfil profissional adequado para a difícil tarefa. E o terceiro, não menos importante, seria dar ao novo gerente os recursos necessários para que ele liderasse o processo como um todo.

Mas, enfim, tudo havia corrido bem. Os resultados gerais da área eram ótimos, bem como os seus impactos refletidos em toda a empresa.

Muito trabalho e dedicação de todos, em sinergia com um importante suporte corporativo, explicavam grande parte do sucesso. Porém, havia um reconhecimento formal a ser feito, e ele estava direcionado ao talentoso líder que agora se destacava em meu time. Ele liderara a mudança e tinha méritos claros pelo sucesso alcançado.

Justamente por isso, busquei uma preparação primorosa para o encontro que teríamos para a sua avaliação de desempenho anual, e ele merecia algo acima da média. Aliás, esta não era somente a minha opinião.

Limpei a agenda, e reservei tempo suficiente para uma boa conversa, que não somente estava repleta de elogios, mas também definiria um plano de carreira coerente com um profissional de tão alto potencial.

Quando ele chegou, notei algo inusitado. Vestia um terno impecável, usava uma bela gravata, e imagino que até seus cabelos haviam recebido algum cuidado especial para a ocasião. Embora cuidasse da aparência, aquilo não era seu comportamento normal.

Apesar disso, fiz uma brincadeira qualquer, e pedi que entrasse e se sentasse.

O que aconteceu em seguida, surpreendeu até mesmo minha assistente, que ainda se acostumava com aquele visual cerimonioso.

Eu ainda me ajeitava para iniciar a falar, quando ele se antecipou.

De uma forma rigorosamente ensaiada, sem interrupções, e com uma voz empostada e cheia de palavras complexas, o rapaz disparou um monólogo que imaginei ser uma tentativa de autoavaliação, mas que não tinha o menor sentido àquela altura.

Deixei que ele descarregasse um pouco de sua ansiedade, e num determinado momento o interrompi. Não me lembro se fui educado o suficiente, mas aquilo não poderia continuar daquela forma.

Ele levou um susto, mas evidentemente percebeu que tudo o que deveria fazer naquele momento, era unicamente escutar. E se quisesse mesmo falar, seria somente para esclarecer algo que não houvesse compreendido. Afinal, feedback é isso, e ele não parecia não saber.

E o que seria uma sessão de elogios, sofreu uma adaptação providencial.

Sim, eu continuava em frente a um excelente profissional com um perfil de competências absolutamente diferenciado, mas que não necessariamente se encontrava em equilíbrio.

Meu valioso colaborador era possuidor de algumas competências, cuja avaliação numa escala de zero a dez, dava a ele uma nota entre onze e doze. Algo inimaginável.

Uma vez, ele me confidenciou que gostava de observar detalhadamente as minhas melhores performances, e também os bons desempenhos de nosso chefe comum, para em seguida praticar, e pasmem, quase sempre ele conseguia nos superar a ambos. Tudo isso ele contava com total naturalidade, sem qualquer traço de arrogância, mas com extrema convicção. Para ser sincero, ele não mentia. Era bom mesmo.

Contudo, ele também tinha alguns problemas, e eles residiam numa outra perspectiva.

Meu destacado gerente, quando avaliado em algumas outras competências também importantes, na mesma escala de avaliação, de zero a dez, levava notas negativas.

Inacreditável, mas era isso mesmo o que acontecia em um mesmo profissional.

Em resumo, a sessão de feedback tomou seu rumo normal. Todos os seus aspectos positivos e também os pontos de melhoria foram pontuados. E uma das pessoas mais especiais com quem pude trabalhar durante toda a minha carreira seguiu seu caminho como deveria acontecer.

Em pouco tempo, ele conseguiu uma mudança de atividade numa outra área que julgou ser de maior importância, mas não se adaptou, e acabou sendo demitido.

Apesar de sua inteligência e de seu potencial, ninguém se surpreendeu.

Algum tempo depois, o encontrei numa cerimônia de premiação corporativa, onde ele representava sua nova empresa como um executivo de alto nível.

Ele estava muito feliz, e fazia questão de demonstrar isso para mim a cada momento.

Duas coisas chamaram a minha atenção. A primeira delas é que seus olhos pareciam ter compreendido a importância do equilíbrio até mesmo na dosagem de coisas boas como talentos e competências. E a segunda estava naquele elegante terno, agora escolhido para momento certo e muito mais adequado.

E mais duas lições foram aprendidas por mim numa mesma história:

Dar e receber feedback é a arte da sensibilidade. E cuidar para o desenvolvimento de um perfil de competências temperado pelo equilíbrio é pura sabedoria.