Pequenas superstições

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Por Vitor Seravalli

Mesmo quando eu ainda era uma criança rumo à adolescência, já possuía total consciência de que meus conhecimentos gerais eram escassos. Porém, sempre sobrou uma vontade doida para aprender.

Além disso, tive sorte. Uma tia muito querida se lembrou de mim quando soube que a empresa onde ela trabalhava mantinha uma escola profissionalizante de ótimo nível, na qual os parentes de funcionários poderiam ser indicados, e ela o fez.

Assim, desde os dez anos de idade, eu saía bem cedo da cidade onde morava, tomava um trem subúrbio invariavelmente lotado e, após caminhar mais alguns quilômetros, eu chegava para as aulas. Essa experiência rara e inimaginável para mim até então, colocou-me em contato com o mundo real, acelerou meu desenvolvimento e creio que isso foi o alicerce do meu projeto de carreira.

Naquela época, talvez por influência de minha família vinda do interior, eu era um garoto muito supersticioso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse um transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC. De qualquer modo, um punhado deles integrava o meu cotidiano.

Era comum voltar várias vezes para ter certeza de que uma porta estava fechada, ou então gastava um tempo considerável para colocar um objeto na posição correta, e muitos outros comportamentos inúteis dos quais eu era refém, ou seja, eu não conseguia controlar a necessidade de repeti-los, como se eu viesse a ser punido, caso não os fizesse por várias vezes.

Um destes comportamentos ficou em minha memória.

Eu fazia o mesmo caminho todos dias desde a estação de trem até a escola e, numa determinada casa, havia uma daquelas janelas bem antigas. Em cada lado dessa janela, havia uma pequena haste que era usada para prender a veneziana quando aberta e, não sei por qual motivo, a partir de um determinado dia, cismei de bater com minha mão nas duas hastes em todas as vezes que passava por aquela casa.

É bem possível que eu fizesse algo similar em outros lugares. Troco o “bem possível” por um “com certeza”.

Até que numa manhã cheia de nuvens, bati minha mão na pequena peça metálica e, antes que eu pudesse prever, alguém abriu com violência desnecessária a tal janela e perguntou num grito estridente:

— Por que você faz isso todos os dias, seu moleque?

Não posso me lembrar qual foi minha reação após ter parado de correr, várias quadras adiante, como um moleque fujão.

Mas aquele susto interrompeu inexplicavelmente aquele e todos os outros atos supersticiosos que eu praticava. Aliás, foi como uma lavagem cerebral, que talvez pudesse ser classificada como uma espécie de libertação.

O susto foi o remédio, assim como minha mãe fazia para interromper as contrações involuntárias de meu diafragma, as quais eu chamava de “soluço”.

Contei essa história toda, como uma espécie de parábola relacionada aos indesejáveis vícios profissionais que, apesar de não conectados com superstições, muitas vezes não conseguimos interromper.

O medo de perder o respeito dos colegas, o medo de ser mal interpretado, o medo de falhar ou fracassar e muitos outros medos, nos levam a atos involuntários que nos escravizam em comportamentos medíocres, desrespeitosos e de baixo valor, mas o pior é que não temos consciência do mal que eles podem estar causando às outras pessoas e fundamentalmente a nós mesmos.

Até que alguém nos dá um grande susto e nos liberta, mas infelizmente isso pode significar uma indesejada demissão.

Talvez eu nunca consiga me livrar de algumas pequenas superstições, mas os meus medos, creio que tenha aprendido a enfrentar…

… sem sustos.

A primeira aula

A primeira aula 1

 

Por Vitor Seravalli

Na busca de um diferencial para concorrer no mercado de trabalho, vale tudo. E isto não é privilégio das gerações atuais.

Confesso que em meus tempos na universidade, eu não possuía qualquer habilidade ou competência que me distinguisse de meus colegas concorrentes, por exemplo, nas disputas por estágios. A história se repetia sempre da mesma maneira, ou seja, dependíamos unicamente da empatia para a conquista de uma vaga.

Por isso, logo que terminei o curso, fui atrás de um trabalho que pudesse me ajudar a ganhar alguma experiência e alguns trocados, é claro.

Eu havia investido no aprendizado de linguagens de programação, pois percebera que, naquela época, os tais microcomputadores estavam chegando para ficar.

Estava na moda aprender uma tal linguagem Basic e eu já a estava dominando, quando surgiu uma oportunidade para que eu me transformasse num facilitador de uma turma da escola onde eu mesmo estudara.

O diretor foi logo me avisando que o meu antecessor fora demitido pelos próprios alunos, pois eles eram exigentes executivos de empresas multinacionais e o avaliaram mal.

Embora aquela informação fosse indesejável para mim, pois, até então, eu nunca houvera experimentado ensinar alguém, ainda mais com perfil de exigência tão alto, aceitei o desafio e iniciei um processo de preparação. Eu teria uma semana até minha primeira aula.

Como eu gostava do assunto, descobri que durante o final de semana que se aproximava, ocorreria uma feira de informática de grande dimensão. Assim, tomei a decisão de chegar bem cedo à tal feira e buscar todas informações que estivessem disponíveis. Nem me lembro se cheguei a almoçar ou jantar, mas o que nunca me esqueci é que entrei em praticamente todos os estandes. Sai de lá exausto, porém repleto de detalhes e informações técnicas sobre todos os equipamentos, softwares, sistemas, etc.

O tempo passou rápido e, chegou a hora de conhecer meus potenciais algozes.

Entrei na sala e, como devia ter um perfil físico parecido com meu colega anterior, notei um discreto e generalizado clima de desconfiança. Talvez fossemos jovens demais.

Busquei capturar as expectativas de cada aluno, deixando que pusessem para fora tudo o que eu pudesse aproveitar quando realmente o curso começasse. Tentei quebrar o gelo de todos os modos possíveis. E, apesar de minha insegurança, sobrevivi.

Mas o fato é que a aula ainda não havia começado para valer e, nesse banho maria, chegou a hora do intervalo.

Antes de voltarmos, eu refleti um pouco e cheguei à conclusão de que precisaria conquistá-los de algum modo, e a única estratégia disponível dependia do arsenal de informações que ainda estava quente em minha cabeça.

Assim, os informei que no tempo que restava daquela primeira aula, eu iria atualizá-los sobre o cenário dos recursos disponíveis no mercado.

Respirei fundo, e coloquei tudo para fora, com a maior quantidade de detalhes e da melhor forma que pude. Eu teria aproximadamente uma hora e meia até o final da aula, mas extrapolei. Foram duas horas e alguns minutos de aula e, surpreendentemente, ninguém piscava. Quando terminei, a classe estava em êxtase. Eu voltei para casa feliz, mas confesso que, internamente, eu mesmo me surpreendera com minha performance.

O curso seguiu em frente sem que eu me lembrasse da insegurança que senti antes do curso começar.

No final, eles estavam até tentando me ajudar a conseguir um bom emprego e o melhor de tudo foi perceber que eles todos ficaram tão empolgados, que até compraram seus próprios equipamentos, pois se sentiam capazes de utilizá-los com os conhecimentos recém-adquiridos.

Aquele episódio me fortaleceu e pouco tempo depois eu, finalmente, consegui conquistar a tão desejada vaga numa grande empresa, aliás, a mesma onde construí minha carreira posteriormente.

O aprendizado principal que incorporei para as etapas seguintes de minha carreira foi a necessidade de uma percepção aguçada às novas oportunidades. Além disso, a minha intuição sempre me alertou nos momentos em que eu deveria acreditar e investir com plenitude em tudo o que pudesse me agregar valor, por exemplo, quando passei pela porta de entrada daquela que se tornou a mais importante feira de informática de toda a minha vida.

Na calada da noite

Na calada da noite 5Por Vitor Seravalli

Compreender o comportamento de algumas pessoas pode ser considerada uma das tarefas mais difíceis em algumas circunstâncias. Mas eu, em meus tempos iniciais como executivo, já estava me acostumando com aquelas notícias que chegavam à minha mesa todos os dias.

Um supervisor do período noturno, que tinha um horário fixo para um longo cochilo durante o período de trabalho, com a conivência e proteção de seus passivos e medrosos subordinados. Ou aquele funcionário que aproveitava momentos de baixa circulação de pessoas e invadia o sistema de controle de pessoal da empresa para agregar horas extras indevidas ao seu prontuário.

Nem me lembro quantos casos ocorreram durante a minha gestão. Contudo, minha equipe era treinada e conseguia resolver a grande maioria das aberrações que ocorriam.

Lembro-me de um rapaz que participava do programa social mantido pela empresa para desenvolvimento de jovens da comunidade. E nunca consegui entender o motivo que o fez, mesmo depois de ser contratado graças ao curso técnico que fora oferecido a ele gratuitamente, entrar de madrugada num laboratório que estava fechado, com um disfarce cobrindo sua cabeça, para roubar alguns objetos. Foi pego em flagrante, perdeu o emprego e quase comprometeu a iniciativa como um todo.

Outra vez, descobrimos um funcionário antigo roubando brindes em grande quantidade. Ele era um funcionário da área comercial e tinha acesso à área onde os mesmos eram guardados. O problema é que o tal profissional, os levava para tirar algum benefício pessoal completamente irregular.

Nunca me esquecerei de um outro caso, em que um funcionário terceirizado foi pego com a mão na massa numa irregularidade de dimensão maior e, quando questionado, sorriu ironicamente, dizendo que a segurança da empresa era muito fraca. Chegou ao cúmulo de contar uma história maluca em que pegou um equipamento valioso, saiu da empresa com ele, como se estivesse testando os sistemas de detecção e depois voltou para dentro sem ser pego. Não roubou, mas zombou da empresa com outros colegas

Por isso, sempre começo os processos de capacitação sobre gestão da ética, com a afirmação de que, nas empresas, a ética tem duas dimensões: a individual e a empresarial.

Evidentemente, as empresas devem definir claramente os seus valores. É também importante que estes valores estratégicos e as regras de conduta estejam formalizadas num claro e esclarecedor código de ética e conduta. É fundamental a manutenção de programas que garantam um modelo de gestão da ética e compliance em todos os processos existentes, é primordial que as organizações implantem canais para a devida comunicação de quaisquer infrações, sem que o denunciante seja exposto. Obviamente, nem é necessário dizer, que as ações posteriores à identificação das más condutas devam seguir procedimentos justos, adequados e transparentes.

Porém, a atitude que será a essência de tudo o que vier ocorrer, depende única e exclusivamente de um indivíduo. Mesmo que a responsabilidade sobre um mal comportamento recaia sobre um grupo de pessoas, em algum momento, alguém tem uma ideia e, após acreditar que ela seja viável, mesmo contrariando referências éticas, a compartilha.

Quando isso acontece, há a oportunidade para que os sistemas e programas mencionados anteriormente, sejam testados. A má noticia mostra que a criatividade também é uma competência de pessoas de baixo valor.

Mas uma luz, ainda tênue é bem verdade, já se mostra cada vez mais evidente no fim do túnel. Embora, muitos não acreditem que as culturas da corrupção e da falta de ética possam ser derrotadas algum dia, principalmente pela divulgação ampla que novos casos ganham nos noticiários, cada vez fica mais improvável o cenário da impunidade eterna.

Pode demorar, mas os fatos mostram que, mais cedo ou mais tarde, as infrações são descobertas e os seus responsáveis são incriminados.

Alguns destes infratores nos surpreendem pela resiliência e pela alta capacidade de escapar dos mecanismos de controle. Porém, minha percepção é que a única variável existente, e que atrasa a punição merecida dos mesmos, é o tempo.

Nada mais animador, em tempos onde os valores são castigados, maltratados e mesmo pessoas originalmente honestas, sucumbem às “maracutaias” encrustadas nos sistemas públicos e privados.

As novas leis ajudarão. A imprensa ética e não sensacionalista contribuirá. Bons exemplos proliferarão.

Mas a decisão final estará sempre na solidão de nossa consciência, em nosso interior. E acredito fortemente, que finalmente saberemos discernir e faremos a boa escolha, mesmo sem fiscalização, mesmo que ninguém esteja nos vendo, e mesmo que estejamos completamente protegidos pela escuridão da calada da noite.

Inexperiência preferencial

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Por Vitor Seravalli

Carlos entrou em minha sala com uma expressão diferente.

Certamente, ele estava com alguma notícia nova e, pelo jeito, isto significaria alguma mudança iminente. Os gerentes de recursos humanos que conviveram comigo durante a minha carreira executiva tinham essa característica, ou seja, gostavam de mexer com quem estava quieto.

Bom, mas o fato é que a vida corporativa é uma metamorfose constante, o que no final das contas tem seu lado bom.

Ele foi direto ao ponto:

_Vamos ter que substituir sua consultora. Ela é bastante experiente, e agora cuidará de uma área maior. Seus resultados têm sido tão bons, que ela foi requisitada para maiores desafios.

Não gostei da novidade, pois tínhamos desafios importantes apesar de subestimados por meu colega, e a troca poderia trazer impactos negativos à minha equipe. Liliana era uma profissional competente, e não passava por minha cabeça perdê-la àquela altura.

Todavia, não se tratava de uma consulta. A decisão já estava tomada.

_Mas não se preocupe – disse ele, com olhar confiante. – Tenho ótimas opções de outros profissionais que a substituirão sem qualquer prejuízo para você.

Comigo mesmo eu pensava: Se eles fossem realmente tão bons, por que não foram indicados para a tal área importante?

Ouvi os nomes de dois outros consultores, que embora experientes, não possuíam o perfil de competências que precisávamos.

Pensei um pouco e logo me lembrei de uma jovem bastante inteligente, cuja atitude compensava, de longe, sua falta de experiência.

Sempre proativa, aprendia rápido, e enfrentava as dificuldades do dia a dia sempre com muita motivação e energia.

Na época, ela nem era ainda uma funcionária efetiva da empresa. Como era recém-graduada, possuía apenas um contrato de curto prazo. Enfim, tratava-se de uma profissional em início de carreira e que atuava como auxiliar das consultoras.

Olhei em direção ao Carlos, que aguardava minha escolha às suas indicações, e fui assertivo:

_ Bom, se você me dá a chance de uma escolha, eu não aceito suas sugestões, mas aceitarei que a Julia seja minha nova consultora.

Ele me olhou incrédulo e surpreso, pois Julia nem era uma alternativa. Além de jovem e inexperiente, ela primeiramente precisaria se tornar uma funcionária da empresa.

Discutimos bastante sobre o assunto, mas afinal, ele também valorizava o potencial da garota, e acabou pedindo um tempo para avaliar minha proposta.

Após algum tempo, fiquei feliz em saber que Julia seria contratada e, em algumas semanas, ela passou a cuidar das demandas de desenvolvimento da minha equipe.

O tempo, passou, e sua atuação mostrou que eu estava completamente certo.

Julia nos ajudou muito, e não foram poucas as vezes em que ela foi exigida ao máximo, mas nunca me desapontou.

Esta não foi a última vez que Carlos fez mudanças, e não tardou a hora em que levou Julia para novos caminhos. E o pior é que nem me deu escolhas para sua substituição. Mas isto seria uma outra história.

O que importa, é que o tempo passou, e a carreira de Julia seguiu em frente com bastante sucesso. Até hoje, seu rosto permanece jovial e seu olhar continua empático. Felizmente, isso nunca mudou.

Mas o que ficou como resultado daquela singela passagem foi a importância de alguns detalhes quando buscamos pessoas e profissionais para integrar nossas equipes.

Conhecimentos e habilidades técnicas são importantes. Experiência também.

Mas há algo tão fundamental quanto isso, e que nem sempre se aprende na escola.

Trata-se de uma essência humana que alguns tem e outros vivem a vida inteira sem descobri-la. Energia, motivação, humildade e simplicidade são alguns dos seus componentes.

E o exemplo de Julia serviu-me de ótima referência em diversas boas apostas que fiz posteriormente.

O curto caminho longo

O curto caminho longo 1

 

Por Vitor Seravalli

Quando ouvi meu chefe falar aquilo pela primeira vez, confesso não ter compreendido bem, mas logo ele explicou o que queria dizer.

Ele afirmava que a maioria das pessoas optam pelo longo caminho curto para conseguir as coisas, mas isso não é bom. Bom mesmo é escolher o curto caminho longo.

Obviamente, ele se referia às decisões de curto prazo em detrimento das que priorizam o planejamento de longo prazo.

Fiquei com aquilo na cabeça, até que um dia, pude escolher meu próprio modelo de decisão.

Estávamos lutando para implementar um projeto novo. Tão novo que não possuía referência nenhuma dentro da organização em nenhuma parte do mundo.

Nem me lembro quantas vezes notei as pessoas me olhando como alguém sem noção da realidade. Algumas certamente pensavam que eu vivia em outra dimensão, mas eu estava com uma ideia de ouro em minhas mãos, e sabia disso.

O projeto era bom mesmo, e assim, com perseverança e o apoio de pessoas muito competentes, o processo evoluiu.

Para ser franco eu já estava com a aprovação da alta liderança, mas havia um colega responsável pela área financeira, que agia como um incrédulo. Pela sua origem e pela cultura que trazia consigo, ele não poderia desacreditar no que estávamos fazendo, mas quando se encontrava comigo, sempre colocava grandes obstáculos para minhas ações.

Precisávamos de recursos financeiros, e quando o consultei, ele me deu um acentuado “não”. Disse que eu precisaria buscar aprovação em nível mais alto.

Eu poderia ir diretamente ao presidente, mas ele disse que eu deveria aprovar minha necessidade numa reunião da alta liderança.

Tudo ficou bem mais difícil, porém eu fui. Fui e consegui a aprovação.

Algum tempo depois, ele me disse que eu necessitava aprovar a ação em outra instância, ou seja, individualmente com mais de dez colegas responsáveis por distintos negócios, pois eles teriam que absorver o recurso aprovado proporcionalmente.

Novamente, eu poderia apelar e ir diretamente ao líder mais alto, pois tudo já estava acertado.

Nesse momento, lembrei-me da opção do curto caminho longo. Coloquei a pasta do projeto embaixo de meu braço, e fui peregrinar em cada um de meus colegas. A maioria me recebia bem, mas alguns queriam mesmo me bater.

Afinal, após muita conversa, todos estavam de acordo.

A grande surpresa foi perceber que a pessoa encarregada de fazer a transferência dos recursos para nosso projeto, cometeu um engano, e simplesmente transferiu o dobro do que tínhamos aprovado.

Alguns membros do time de projeto recomendaram que eu ficasse calado, pois se o próprio funcionário de meu rigoroso colega havia errado, isto não era nossa culpa.

Mas isto não faria sentido. Mais cedo ou mais tarde, a informação se tornaria pública e o efeito seria ruim, ou mesmo pior.

Fui ao meu colega, e o informei do erro. Porém, eu disse que como o valor já estava aprovado por todos e já provisionado, eu precisaria ficar com pelo menos uma parcela para compensar a perda inflacionária e um aumento de custos que, infelizmente, ocorreu.

Ele poderia aprovar meu pedido sem questionamentos, pois afinal o impacto não seria grande.

Contudo, ele novamente disse que não. O erro fora cometido, é verdade, mas isso não significaria qualquer concessão. Se eu quisesse mais de dinheiro, que fosse buscar mais uma aprovação.

Tive vontade de mandá-lo para algum lugar não tão desejável, mas novamente veio à minha cabeça: “O curto caminho longo”.

Eu estava determinado, e nada me impediria àquela altura.

Levei o tema para nova deliberação, e ela veio até com certa sobra.

Vou encurtar a história, pois o projeto teve muitas outras dificuldades até que, finalmente, foi concluído.

Meu time foi publicamente reconhecido, assim como eu, e pudemos desfrutar da realização de algo único em toda a organização, e que se tornou uma referência global em sua área de atuação.

Não tenho dúvidas que minhas escolhas pelos caminhos mais difíceis foram muito importantes. Elas pavimentaram um caminho seguro para a construção e conquista daquilo que significava o objetivo do projeto.

Também reconheço que os passos futuros que dei em minha carreira, e mesmo em minha vida, ficaram muitos mais claros e fáceis a partir de então.

Nada de atalhos e nada de “jeitinhos”. Se estávamos desenvolvendo algo tão bom quanto imaginávamos, a estratégia certa indicava nunca pular qualquer etapa, mesmo que muitas barreiras fossem identificadas pela palavra “NÃO”.

Hoje, agradeço ao meu exigente colega por ter se colocado como um obstáculo às minhas pretensões. Se não fosse ele, é bem provável que eu me acomodasse.

Aliás, lembro-me bem de sua expressão de aprovação, quando apresentamos o resultado final positivo.

Ele foi a melhor pedra que poderia aparecer em nosso curto caminho longo.

 

O trem elétrico

Trem elétrico 1

 

Por Vitor Seravalli

Professora Hille era uma mulher bastante séria.

Ela sempre chegava a passos duros, com suas vestes germanicamente conservadoras e, embora fosse relativamente jovem, talvez com um pouco mais de cinquenta anos de idade, parecia ser bem mais idosa.

Se acomodava em sua cadeira, já começava a perguntar coisas difíceis em alemão, e aquilo se traduzia numa espécie de suplício para seus alunos, que em muitas ocasiões não compreendiam nada do que ela falava, e tampouco o que estavam fazendo ali. Evidentemente, um deles era eu.

O aprendizado daquele idioma era difícil demais, e ela não parecia ter paciência para enfrentar nossa apatia.

As coisas somente melhoravam quando ela iniciava uma estranha viagem pelo tempo, e de repente, chegava à sua terra natal, em algum período após o final da segunda guerra mundial.

Na época, ela deveria estar com uns dez anos de idade, e seus olhos brilhavam quando ela falava de sua vida e de sua família naqueles tempos muito difíceis, mas nem por isso, infelizes.

De tudo o que ela contou sobre suas recordações, algo ficou inexplicavelmente gravado em minha mente.

Seus gestos e seu olhar eram tão intensos, que até conseguíamos vencer a barreira do idioma, e então, ela começava a contar sobre o Natal. Na verdade, ela contava sobre um ritual que se incorporou à rotina de sua família nos tempos de pobreza que vieram após a guerra, especialmente nos períodos natalinos

Seus pais não tinham dinheiro para comprar presentes para ela e seus irmãos, porém eles possuíam um trem elétrico, aliás o único brinquedo que restara depois que a guerra terminou.

Então, logo no começo de cada dezembro, as crianças ficavam excitadas pela possibilidade de todos poderem rever o tal trem, que ficava cuidadosamente guardado pelos pais durante o ano todo, mas que em dezembro se materializava em frente àqueles olhos infantis, como se sua simples remontagem fosse algo mágico e único.

Lembro-me de ter visto algumas lágrimas rolarem de seus olhos, enquanto ela falava da alegria de todos quando acompanhavam o movimento dos vagões, principalmente nas horas que invadiam a noite de cada Natal.

Quando o ano novo se iniciava, tudo era desmontado com o mesmo cuidado, E uma longa espera somente se encerraria onze meses depois, no próximo dezembro.

As aulas de alemão se perderam no tempo de minha vida, contudo nunca mais me esqueci da emoção que vi nos olhos de minha professora.

Reflito sobre o efeito desse episódio em minha vida, e vejo como as coisas mudaram nos dias atuais.

Nossa relação atual com os valores fundamentais da vida tornou-se muito frágil. Por isso, não consigo compreender porque às vezes nos esquecemos de nossos pequenos rituais.

Tampouco entendo os motivos que nos fazem trocar o simples e importante cuidado com nossas relações por uma indiferença ignorante. E afinal, chegamos até mesmo a substituir nossa responsabilidade por escassos recursos existentes pelo desperdício inconsequente.

Assim, sinto que necessitamos acordar para a realidade e lutar contra as tendências que nos afastam das escolhas perenes, que compreendamos nosso papel de cuidar da vida e que nos tornemos líderes singulares da mudança para um futuro onde sejamos, pelo menos, viáveis.

Que sejamos esses líderes em nossas organizações, mas que também os sejamos em nossas casas.

Pode ser exagero, mas essa ingênua história de meu passado distante foi tão impactante, que já há alguns anos, em todos os natais, monto meu próprio trem elétrico – sim, isto é verdade – com a falsa justificativa de que é um hobbie.

Foi a forma que encontrei para poder sempre renovar minha reflexão sobre a lição de vida que as lágrimas de minha sábia professora de alemão me ensinaram. Faço isso a cada ano, enquanto desfruto do seu vai e vem pelos pequenos trilhos de uma viagem através de minha imaginação.

 

A confiança

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Por Vitor Seravalli

Buscar a solução para problemas complexos, e enfrentar eventuais crises, são situações comuns ao cotidiano de qualquer líder. Porém, ter o privilégio de poder confiar plenamente em todos os membros de sua equipe, e mais que isso, ser merecedor da confiança dos mesmos, talvez seja a diferença fundamental entre o sucesso e o fracasso.

Em diversas situações, onde pude incorporar as experiências de minha vida até o momento, consigo ver nitidamente os momentos e situações onde a confiança esteve ou não presente. E vejo o quão fácil era prever o final de cada história.

Independentemente dos fatores que envolviam e caracterizavam cada desafio, uma coisa é certa, tudo se tornava mais nítido e cristalino quando a confiança iluminava a escuridão dos meus dilemas como uma janela de luz.

Em seu livro: “A velocidade da confiança”, Steven R. Covey fala sobre este tema com a abrangência que o mesmo merece.

Logo no início do texto, ele diz:

“A confiança influencia-nos dia e noite, 365 dias por ano. Ela nos influencia e afeta a qualidade de cada relacionamento, cada comunicação, cada projeto, cada empreendimento, cada esforço no qual estamos empenhados. Muda a qualidade de cada momento presente e altera a trajetória e o resultado de cada momento futuro de nossas vidas – seja no plano pessoal, seja no profissional.”

A confiança é a diferença entre as coisas que são mais fortes e eternas e aquelas que são breves e completamente frágeis.

Por exemplo, quando os relacionamentos são legitimamente confiáveis, eles são de alguma forma eternos, mesmo aqueles que carecem de plenitude.

Em contrapartida, quando não há confiança, os relacionamentos são frágeis em sua estrutura, e embora possam manter uma aparência de qualidade, não resistem e sucumbem, sem que nada possa fazê-los durar.

Por outro lado, um paradoxo se mantém vivo. Pois, embora resiliente e perene, a confiança é como um cristal valioso. Ela pode durar a vida inteira com todo o seu brilho e beleza, mas se em algum momento for quebrada, nunca mais será a mesma.

O que fazer então?

Acredito que a primeira atitude para poder confiar nas pessoas, é merecer a confiança delas. Aliás, esta é para mim uma premissa inegociável.

Por exemplo, se fizer algo errado, e isso é sempre possível pois somos humanos. E se o seu erro ferir alguém, faça como uma velhinha sábia uma vez me ensinou, quando eu ainda era uma criança:

_ Filho, se você fizer uma coisa errada, fique roxo por cinco minutos, mas por favor, não queira ficar amarelo pela vida inteira.

Ou seja, assuma imediatamente seu erro e as consequências dele, mesmo que isso custe caro, mas nunca fuja da verdade.

Pois assim, a vida segue. Talvez difícil, mesmo com toda a confiança do mundo, mas completamente impossível sem ela.

Você acredita em mim?

Por uma causa

Voluntário2Por Vitor Seravalli

Infelizmente, ainda não sou o voluntário que gostaria de ser.
E quando observo tantas pessoas, principalmente de algumas culturas específicas, presenteando espontaneamente o seu tempo, ou até uma parte de si mesmas, em prol de alguém ou de alguma causa, justamente nesses momentos, eu constato o longo caminho que tenho pela frente para ser uma pessoa mais plena.
Não levo isso com culpa, pois também não me considero uma pessoa assim tão insensível. Na medida do possível, em tudo o que faço, busco a plenitude simplesmente porque amo meu trabalho. E neste amor, está uma generosa dose de dedicação para ajudar as pessoas em todos os sentidos, mesmo que isso ocorra enquanto exerço a minha profissão, e não como uma doação pessoal.
Porém, com tantas necessidades neste mundo repleto de desigualdades, eu trato de desafiar constantemente a minha própria personalidade a repensar tudo aquilo que ainda não faço. E, francamente, espero mudar minha atitude o quanto antes.
Se estou falando com empresários sobre o papel dos negócios em relação à sociedade, costumo usar uma das melhores definições que conheço sobre o assunto. Ou seja, responsabilidade social empresarial nada mais é que uma forma de conduzir negócios. Aliás, uma forma muito especial. Nela, a empresa vende seus produtos e serviços, ganha participação no mercado, cresce, se desenvolve, inova, lança novas soluções para os seus clientes e consumidores, reduz custos, alcança a excelência, valoriza sua marca, e finalmente, vale mais. O diferencial está no compromisso genuíno da organização com a sua corresponsabilidade em relação ao desenvolvimento da sociedade e à preservação do planeta.
Contudo, quando penso nos cidadãos comuns, e no que eles deveriam fazer quando não estivessem com um sobrenome corporativo, aí a coisa pega.
Falei em culturas logo ao início, e não há dúvidas que algumas já possuem este dom desde sempre.
Em outras, e numa delas eu estou inserido, nem sempre há tempo ou recursos disponíveis para doar, e falta a atitude para se entregar.
De qualquer forma, não vejo isso como um defeito, e sim como uma característica cultural deveras indesejável.
Um dia desses, uma pessoa amiga disse-me que eu não deveria pensar dessa forma, pois meu trabalho, segundo ela, já trazia o valor de uma atitude voluntária. Fiquei feliz momentaneamente, até descobrir que ela mesma era uma voluntária exemplar, e simplesmente ajudava por ajudar.
No final das contas, confesso que talvez eu esteja escrevendo este texto para mim mesmo, pois acredito muito na força do exemplo e, nesse caso, não estou sendo exemplo de coisa alguma.
E o maior paradoxo é constatar que o investimento em uma ação espontânea para ajudar o próximo parece trazer mais ganhos aos que a fazem do que aos que a recebem. Isso mesmo, a sensação após qualquer intervenção é o ganho da mais pura energia positiva.
Aos incrédulos resta somente perguntar aos primeiros.
E, por fim, a recomendação é simplesmente partir para ação, e a ótima notícia é que ela não depende de ninguém, mas somente de cada um de nós.

Inscrições abertas para curso do GIFE sobre “Investimento Social e Responsabilidade Social Empresarial”

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O GIFE irá promover em São Paulo, nos dias 06 e 07 de outubro, o curso “Investimento Social e Responsabilidade Social Empresarial no Brasil”.
O curso – que terá duração de 16 horas – será ministrado por Ana Carolina Velasco, gerente de Relacionamento Institucional do GIFE, e Vitor Seravalli, membro do conselho de administração da Fundação ABRINQ, além de sócio-diretor da Seravalli Consulting.

Para mais informações, acesse:

http://gife.org.br/2015/09/28/inscricoes-abertas-para-curso-do-gife-sobre-investimento-social-e-responsabilidade-social-empresarial/