Iniciativa

Iniciativa 2

Por Vitor Seravalli

É óbvia a enorme diferença entre trabalhar no “chão de fábrica” e atuar em um ambiente de escritórios.

Por isso, não me surpreendi com a expressão indignada de meus antigos colegas, quando eu ainda era um jovem engenheiro de processos e contei a eles sobre minha decisão de me transferir definitivamente para a área de produção.

A maioria achava que minha escolha era errada e que não havia nada para aprender lá. Diziam que o ambiente era sujo e que eu iria desaprender o que já sabia, enfim, eu iria me arrepender rapidamente.

Nem dei bola àquele punhado de besteiras e segui meu irreversível caminho para uma das melhores fases de minha carreira. Não foi nada fácil enfrentar tantos problemas todos os dias e, algumas vezes, chegar em casa com odor de solventes impregnado em minhas roupas, mas os ganhos que tive, as pessoas que conheci e o conhecimento que incorporei, deixaram um legado incalculável, que me dão suporte ainda nos dias de hoje.

No embalo desse reconhecimento justo ao período em que minha carreira seguiu pelos caminhos da materialização de diversas teorias relacionadas com a química e com a física, eu vivenciei algumas dezenas de situações, desde belas lições de vida até algumas situações, no mínimo, pitorescas.

Numa delas, logo após iniciar em minha nova atividade, eu estava fazendo uma de minhas rotineiras rondas pela área produtiva e cheguei a um local onde era feita a filtração das resinas. Este era um processo muito importante pois, caso não fosse bem executado, os vernizes sujos deixariam sua marca indesejável nas superfícies metálicas dos automóveis e outros produtos de consumo como refrigeradores, etc.

Cheguei a um dos equipamentos e me deparei com um operador que estava sentado com um palito entre os dentes olhando um pequeno fluxo de produto que enchia um tambor de duzentos litros. A vazão era realmente muito baixa, então perguntei a ele qual era o tempo necessário para alcançar o volume máximo. Ele respondeu com convicção que o tempo era exatamente igual a vinte e dois minutos.

Respirei fundo e perguntei a ele o que fazia durante todo este tempo enquanto aquele líquido viscoso parecido com mel se acomodava na embalagem. O rapaz achou minha pergunta desnecessária, porém disse que cuidava para que tudo corresse bem durante o processo e que não transbordasse quando estivesse cheio.

Evidentemente, expliquei a ele que o tempo era muito valioso e que, embora ele devesse cuidar bem daquele processo, isso não o impediria de fazer outras atividades simultâneas. Falei vários minutos e, mesmo assim, o tambor que estava em envasamento não se encheu.

O operador não gostou nem um pouco do sermão e ficou resmungando quando eu me afastei incrédulo.

No final da tarde, quando já havia ocorrido a troca de turno, voltei ao mesmo local. A filtração seguia da mesma forma e a única diferença era o operador, um rapaz bastante educado e que parecia não ter medo do trabalho.

Ele envazava dois ou três processos similares e simultâneos, e ainda mantinha o local organizado, varria, lavava, organizava os lotes posteriores para o próximo turno e ainda tinha tempo para reportar a situação de tudo com detalhes e garantir a qualidade dos processos num nível de plena excelência.

Surpreso com tão grande contraste, percebi que lidar com equipes heterogêneas seria um dos grandes desafios de meu novo trabalho e que, nem sempre, as pessoas aprenderiam somente pelo exemplo. Aliás, aquele operador exemplar era, obviamente, muito criticado pelos seus pares.

O tempo passou e o rapaz cheio de competência e muita proatividade cresceu profissionalmente, embora eu não saiba se tenha assumido, em algum momento, uma função de liderança de área. Mesmo quando eu mudei de função ele continuou com a mesma performance em altíssimo nível. Alguns de seus colegas resistiram em aprender com ele e, por isso, acabaram demitidos.

Minha carreira seguiu em frente e nunca me esqueci da referência que ele me deixou gravada na memória. Mesmo em funções completamente distintas, sempre busquei profissionais que tivessem a mesma atitude proativa na busca de seus resultados.

Ou seja, é muito bom que olhemos para algum membro de nossas equipes e, como ouvi alguém dizer um dia desses, percebamos que ele tenha “sangue nos olhos”.

Não creio que “iniciativa” seja uma competência baseada em conhecimentos, mas, com certeza, é algo desejável e intrínseco às atitudes e aos comportamentos transformadores.

Ter somente iniciativa não basta, pois precisamos de muito mais. Contudo, estou certo que já é um ótimo começo.

Imagem: Blog Jobeeper

Um pouco sobre virtudes e talentos

Virtudes e talentos 1

Por Vitor Seravalli

Nem me lembro por quantas vezes tentei encontrar um artigo que li anos atrás sobre a importância das virtudes e dos talentos em nossas vidas.

Sem dúvida, este é um tema recorrente e fundamental para todos nós, seja na vida pessoal ou em nossas carreiras, mas aquele texto específico apresentava uma provocação evidenciada por fortes exemplos, a qual nunca me esqueci.

Assim, começo pedindo desculpas ao autor pela indelicadeza de sequer me lembrar seu nome, mas gostaria que soubesse o quanto me influenciou.

O texto afirmava que, se uma pessoa tiver algum talento ou virtude, que lhe dê condições de realizar alguma coisa melhor do que dez mil pessoas, poderá ficar milionário por causa disso.

Dez mil pessoas é muita gente, não é mesmo? Talvez nem tanto.

E nos parágrafos seguintes, se referia ao tanto de energia, tempo e dinheiro que investimos em nossas fraquezas, obviamente para eliminá-las ou transformá-las.

Tudo isso para o autor do artigo era um enorme desperdício, ou seja, todo e qualquer esforço de desenvolvimento deveria estar focado nos nossos talentos, justamente naquilo em que já somos bons. E para que? Para sermos muito melhores.

Ele citava dois exemplos de pessoas famosas. O primeiro deles era o jogador de golfe Tiger Woods.

Numa determinada época, seu exigente técnico forçava os treinamentos para corrigir suas tacadas ruins. Porém, o resultado de tanto esforço mostrava que, além de não melhorá-las em nada, ainda piorava as tacadas naturalmente ótimas. Pior que isso, Tiger não vencia os torneios em que participava.

Até que em algum momento, a estratégia foi mudada radicalmente e passou a intensificar e diversificar os treinamentos justamente das suas melhores tacadas.

Mas, por que seu técnico investiria onde ele já era bom? Não me pergunte, pois minha singela capacidade lógica também não tinha a menor ideia até então. Porém, Tiger começou a ganhar tudo o que disputava e o resto da história já está bem documentada nos livros sobre este sofisticado esporte.

O outro exemplo era sobre o maior jogador de basquetebol de todos os tempos, Michael Jordan. Com ele se passou o mesmo e sua descoberta como um fenômeno do esporte aconteceu quando seu técnico também priorizava treinos em fundamentos nos quais Michael Jordan já era absurdamente bom.

Esta prioridade em relação aos nossos pontos fortes em detrimento dos fracos não significa que possamos nos dar ao luxo de ser péssimos em alguma coisa. Isso não faria sentido. Por exemplo, o candidato a uma vaga numa instituição importante nunca poderia obter uma única nota zero em um exame multidisciplinar, pois mesmo que tirasse várias notas dez em todas as outras disciplinas, ele seria reprovado.

O problema é que, normalmente, não nos conformamos com nossos pontos fracos e nos esforçamos demais para, na melhor das hipóteses, nos tornarmos medíocres naquilo que infelizmente não temos o talento necessário e suficiente para algum destaque diferencial.

Assim sendo, somente uma escolha é certa: jogar todas as fichas em nossos talentos.

Todavia, o desafio deste argumento reside numa questão crucial e de alta relevância: Como identificar nossos talentos? Afinal, já ouvimos tantas pessoas afirmarem que, simplesmente, não sabem fazer nada que seja especial ou brilhante.

Talvez estejamos prestando muita atenção nos outros e nos esqueçamos de olhar com alguma prioridade para nós mesmos, sem excessos de narcisismo, mas com um olhar positivamente crítico.

Ou ainda, sejamos tímidos e medrosos demais para perguntar às pessoas próximas, que sejam minimamente sinceras, se algo bom lhes chama à atenção em relação às nossas atitudes e nossos comportamentos.

Parece tolice, mas talvez esta seja a forma mais simples para descobrirmos um possível talento que já exista em nós e, incrivelmente, nós não saibamos.

Se a boa sorte estiver do nosso lado e algo valioso puder ser descoberto, então o próximo passo será lapidarmos este diamante bruto.

O caminho terá apenas começado, mas não imagino uma melhor alternativa de planejamento pessoal do que esboçar um projeto de carreira baseado naquilo que temos de melhor, não é mesmo?

E por falar em virtudes e talentos, você já identificou os seus?

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.

Uma ótima sacada

Ótima sacada 1

Por Vitor Seravalli

Algumas pessoas possuem o talento de nos surpreender.

Mas não me refiro às surpresas negativas, quando deixam de fazer aquilo que esperávamos ou contávamos que elas fizessem e, inexplicavelmente, não fazem.

Me refiro àquelas pessoas, que mesmo em situações totalmente imprevistas, tal qual um mágico, tiram da cartola um gesto inesperado, ou mesmo uma frase espontânea e, após um segundo de silêncio gerado pela surpresa que causam, nos conquistam pela invejável e difícil capacidade de “pensar fora da caixa” e fazer aquilo que nunca seríamos capazes de, sequer, pensar.

Para ilustrar, cito o caso de um rapaz que almoçava em um restaurante requintado, quando recebeu um pedido de comida vindo de um garoto pobre que entrara sem ser notado. Embora surpreso, o cliente tratou de colocar um pouco de alimento num pequeno prato para dar ao jovem. Mas quando o menino foi identificado, as pessoas responsáveis pela segurança vieram para retirá-lo imediatamente dali. E quando a cena se encaminhava para um fim desagradável para todos, principalmente para o garoto, o cliente interrompeu a ação e justificou simplesmente dizendo que o garoto era seu parente.

Evidente que todos perceberam que ele não falava a verdade, mas sua rapidez e espontaneidade, destruiu qualquer possibilidade de que a boa ação do tal rapaz fosse abortada.

Numa outra situação, o presidente Barack Obama fazia sua visita anual ao congresso norte americano e seu objetivo era pedir apoio aos parlamentares republicanos para um de seus projetos estratégicos. Como isso se passava já em seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos disse que precisava da aprovação do congresso sem qualquer objetivo eleitoral, pois não iria mais concorrer numa próxima eleição. Após esse comentário, alguns políticos republicanos iniciaram uma barulhenta sessão de aplausos, cujo objetivo era logicamente desmoralizá-lo pela expressão de uma geral sensação de alívio aos americanos por não correrem o risco de tê-lo como presidente em um novo mandato. A situação parecia tornar-se embaraçosa para o Sr. Obama, mas como um moleque travesso, ele fixou seus olhos no líder da manifestação republicana e falou com palavras firmes e bem-humoradas:

— É verdade, eu não vou mais participar de novas eleições, simplesmente porque já participei de duas – fez uma pequena pausa e completou – e venci ambas.

Deu seu sorriso peculiar, seguido de uma piscada de olho maliciosa para o tal parlamentar e a sessão continuou sem novas ironias.

Com certeza, eu poderia contar muitas outras histórias similares em que o talento para pensar rápido e de maneira inovadora, criativa e, principalmente, inteligente, fizeram seus protagonistas saírem-se bem de uma situação imprevista e com risco potencial, sem qualquer esforço aparente.

Porém, creio que nenhuma delas seria minha, pois, lamentavelmente, não acredito que tenha este dom.

Pelo contrário, às vezes me surpreendo pelo quanto sou óbvio. E nem me lembro quantas foram as vezes em que, além de não surpreender, perdi preciosas oportunidades para ganhar um jogo e errei, unicamente por não conseguir discernir e compreender os sinais escandalosos deixados para mim pelas peças do tabuleiro.

Por outro lado, a vida me compensou generosamente com uma grandiosa capacidade para aprender. Observar os comportamentos e ouvir os interlocutores com atenção, experimentar novos caminhos e treinar o máximo possível cada nova possibilidade. Usar a experiência adquirida e, se o erro for mesmo inevitável por ser humano, que ele ocorra somente uma única vez.

Enfim, pode ser que isto não seja um talento, mas também será sempre uma ótima sacada.

Coaching Executivo

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http://www.seravalli.com.br/servicos/coaching/coaching-executivo/

 

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Ética, substantivo feminino

Ética 1Por Vitor Seravalli

Conheço inúmeras definições sobre ética. Porém, foi num texto perdido de uma revista qualquer, que encontrei aquela que se mostrou para mim a mais genuína e, ao mesmo tempo, singela definição. Uma pequena história mostrava o diálogo entre um adulto e uma criança e, a certa altura, o homem perguntou ao pequeno garoto:

— Filho, para você, o que é ética?

O menino ficou sério, olhou para algum lugar distante, pensou por um segundo e respondeu com surpreendente naturalidade:

— Ética é quando minha mãe sai para trabalhar, eu estou sozinho em casa e ninguém está vendo o que eu estou fazendo. Eu posso fazer a coisa mais errada que me vier à cabeça e ninguém nunca saberá. Mas, não sei por qual motivo, eu simplesmente não a faço.

Li aquilo e até pensei em criticar, pois a tal criança falava como um adulto e, mais que isso, não se tratava de qualquer adulto, pois a resposta era valiosa demais e sua espontaneidade evidenciava uma base formada por uma dose generosa de bons valores e princípios.

Em uma outra oportunidade, ouvi um líder empresarial bastante conhecido explicar que, para ele, se algum líder não puder comentar em sua casa à noite sobre algo que fez durante o dia na empresa, é bem provável que esse algo não tenha sido ético.

Felizmente, as organizações em geral já estão percebendo que, se não cuidarem de uma gestão adequada da ética em seus processos e em seus relacionamentos, não terão sustentabilidade.

Algumas trazem estes valores desde sua origem e cuidam deles como uma joia preciosa. Outras estão sendo obrigadas a se reinventar em busca de sua própria sobrevivência. De qualquer forma, o desconforto trazido pela corrupção escancarada é uma evidência cristalina de que já não é mais possível garantir a impunidade em um eventual deslize ético de quem quer que seja. Esta é, certamente, uma ótima notícia.

O surgimento de legislações específicas, a surpreendente solidez das instituições jurídicas, os sistemas cada vez mais sofisticados e até mesmo o lento despertar da consciência de uma sociedade, até então anestesiada pela cultura da corrupção, são instrumentos que ganham notoriedade na medida em que as máscaras são retiradas uma a uma.

Nesse contexto, já é possível visualizar um cenário futuro onde os ambientes e processos institucionais terão maior transparência e estarão protegidos por modelos de gestão que tenham compromissos com as gerações futuras.

Mas em relação ao presente, como podemos ter certeza que nossas escolhas e nossas atitudes sejam referências éticas, independentemente da situação complicada que estejamos vivendo, ou do implacável controle que os sistemas nos submetam?

A resposta para esta difícil pergunta não está em outro lugar senão dentro de cada um de nós. E, parafraseando Pablo Neruda, se somos donos de nossas escolhas, mas prisioneiros das consequências, uma sensação perene de liberdade será o sinal inequívoco de que a ética nos faz companhia, mesmo que ainda não saibamos defini-la tão bem quanto poderíamos.

A maratona

Mizuno Uphill Marathon 2015

Por Vitor Seravalli

Para muitas pessoas, correr uma maratona é algo completamente fora de propósito, coisa de maluco mesmo. Afinal, são quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros percorridos a pé de uma só vez. Essa maluquice pode durar um pouco mais de duas horas para os atletas profissionais, mas pode chegar até seis horas para os amadores.

Os especialistas dizem que o fator de sucesso dos “finishers”, ou daqueles que conseguem alcançar a linha de chegada, está mais relacionado à mente do que ao corpo. Há sentido nessa afirmação, pois muitos atletas bem preparados, dependendo do ritmo que escolhem adotar, “quebram” principalmente após ultrapassarem a barreira dos trinta quilômetros. Este termo comum é um estado em que um corredor constata que não conseguirá chegar ao final da prova no ritmo que a iniciou.

Comecei este texto para contar mais uma história de liderança. Mas o que isso tem a ver com liderança?

Com liderança de processos, acredito que tenha uma plena relação. E estou apto a dizer isso, pois já enfrentei este desafio por vinte e duas vezes.

Porém, a última vez em que decidi fazê-lo, foi uma experiência diferente das outras em diversos sentidos.

A começar pela beleza ímpar do local, uma serra tão linda quanto difícil de ser vencida. Em seguida, a primeira disputa seria no processo inscrição pela internet em data e horário pré-determinados. Somente os mais rápidos no teclado conseguiriam preencher as aproximadamente quinhentas vagas. Comecei bem, porque eu estava entre eles.

O percurso seria tão desafiador que os organizadores decidiram provocar os corredores inscritos dizendo que somente os vencedores seriam os verdadeiros “ninja runners”.

Eu estava um pouco assustado, mas já havia decidido me tornar um desses tais “ninjas”.

Minha preparação foi semelhante às corridas anteriores, mas confesso que ela deveria ter sido mais intensa, afinal um paredão de quase um quilômetro e meio de altura estaria à minha frente antes da chegada.

Enfim, chegou o grande dia.

O clima estava ameno e todos torciam para que não chovesse durante o percurso.

Às quatro horas e trinta minutos da tarde, partimos. Muita animação em todos os rostos, tanto dos atletas quanto dos amigos e familiares que torciam incrédulos por aquele bando de doidos varridos.

Logo, percebi que não seria possível acelerar muito, pois embora o grande aclive ainda estivesse bem distante, desde o começo já não estávamos correndo no plano. Ou seja, já subíamos pouco a pouco.

Algumas escolhas erradas já começavam a me incomodar. Com medo de um eventual frio intenso, optei em correr com uma jaqueta plástica do tipo “corta-vento”. Como não estava frio, ela já teve que ser retirada e tornou-se um peso morto em minha cintura. Pensei até em descartá-la, mas se tratava de uma roupa cara e de qualidade. Assim, segui adiante.

Um pouco mais à frente, a noite foi ganhando espaço e, juntamente com ela, veio a escuridão. Eu nunca havia participado de um evento em que uma simples lanterna, generosamente emprestada, assumisse uma função tão importante.

Um outro detalhe relevante foi perceber que durante boa parte do tempo, eu estava completamente só.

Tudo continuava sob controle e meu plano era manter o ritmo e não gastar qualquer energia além do essencial, pois ela seria fundamental quando a subida final chegasse.

A meta era completar o percurso, mas além disso havia um limite máximo de tempo. Eu deveria cruzar a linha de chegada antes do tempo limite de seis horas. Para atletas adequadamente preparados, este limite seria uma brincadeira. Mas àquela altura, eu sabia que precisaria de muita determinação, porque uma subida íngreme se apresentava insuperável em frente ao meu incrédulo olhar.

Num último posto de abastecimento, eu tomei a decisão de investir alguns minutos a mais e tomar bastante água, comer frutas e, enfim, encher meu tanque de combustível, pois dali para frente, eu enfrentaria a batalha final.

As passadas tornaram-se mais lentas e um trote confiante se transformou numa caminhada, muitas vezes, ofegante.

O tempo seguia acelerado e, quando consegui escutar algumas vozes, elas eram genuínas ameaças.

O tempo limite se aproximava e o narrador avisava que quando este se esgotasse, todos os corredores retardatários não receberiam a premiação reservada somente aos tais “ninja runners”.

Fui em frente, mas já não seria possível chegar a tempo.

Cruzei a linha final.

Eu venci por ter chegado, mas perdi por ter ultrapassado o tempo máximo. Meu percurso foi completado em seis horas e cinco minutos.

Vi expressões frustradas das pessoas queridas que me esperavam, mas afinal, eu estava bem. Chegar inteiro naquelas condições tão adversas já se configurava uma grande vitória, mesmo sem a merecida medalha que não me foi entregue pelo capricho de um regulamento rigoroso demais.

Enquanto voltava para o hotel, uma reflexão imediata sobre minha performance mostrou-me alguns pontos positivos e também diversos aprendizados vindos daquela rica experiência, a maioria deles já conhecidos por mim.

Os pontos positivos foram: o prazer pelo desafio, a determinação, a persistência, a resistência e o autocontrole.

Quanto aos aprendizados principais, o primeiro deles é bem básico: Se o projeto é um grande desafio, a qualidade de seu planejamento deve ser proporcional.

Em seguida, os ingredientes para o sucesso devem incluir disciplina, monitoramento constante dos indicadores, avaliação mais precisa do ambiente, escolha e priorização dos recursos necessários. Em relação a este último, estou certo que o peso de minha jaqueta desnecessária impactou em meu tempo total.

Acredito também que tenha subestimado a necessidade de algumas simulações e treinamentos prévios da situação que enfrentei ao encontrar a tal subida.

Além disso, a necessidade de uma maior prevenção de desperdícios se evidenciou nos minutos preciosos que perdi em meu último reabastecimento. Não sei precisar o quanto ele me ajudou, mas os cinco minutos que deixei ali, já seriam suficientes para que eu chegasse antes do limite.

Finalmente, pensei no reconhecimento. Os líderes na maior parte do tempo estão sós. E muitas vezes, mesmo após suas conquistas, não são reconhecidos adequadamente e podem não receber a sua medalha. Nem por isso, eles devem desistir, pois são movidos por algo muito maior. Algo que somente eles conseguem ver no horizonte.

Por falar nisso, já estou me preparando para minha próxima maratona.

Vamos nessa?

Minha primeira lição

Minha primeira lição 1Por Vitor Seravalli

Eu ficava imaginando o momento em que me tornaria um líder.

As evidências indicavam que isso não demoraria a acontecer, mas eu seguia em frente em meu trabalho e tentava aprender o que fosse possível para não me dar mal quando a oportunidade viesse.

As escolas ensinam os fundamentos, mas a verdadeira aula de liderança somente acontece quando as testemunhas são nossos liderados.

Naquela época, eu também buscava algumas conquistas pessoais e uma delas era a aquisição do primeiro imóvel, um pequeno apartamento, cuja construção chegava ao seu final. Eu já morava num apartamento de outro edifício do mesmo condomínio, mas conseguir um financiamento em meu próprio nome, era algo para se comemorar.

As obras e os acabamentos apresentavam muitas pendências e um grupo de novos proprietários se formou para negociar com a construtora, afinal eles estavam com razão em praticamente todos os pontos. Obviamente, eu era um deles.

Íamos bem e, pouco a pouco, tudo foi sendo colocado em ordem.

Algumas semanas depois, houve a eleição para escolha de um novo síndico do condomínio com a integração dos dois edifícios, um deles mais antigo e com diversas necessidades de manutenção e o outro, novinho em folha, mas ainda com algumas pendências.

Nunca houvera uma reunião com tantos moradores presentes. Quase não havia espaço naquele salão de festas e, após uma acalorada discussão, onde todos tinham suas razões, mas nem todas as razões se sintonizavam, houve o consenso de que somente um morador conhecia os dois edifícios e esse argumento era suficiente para a melhor escolha, então eu fui eleito.

Eu não queria ser líder? Pois então havia chegado a primeira oportunidade. A única remuneração seria o valor da taxa condominial mensal, mas ao final da reunião, eu voltei para casa amedrontado e muito feliz.

Assumi a responsabilidade com muita motivação, montei uma lista de prioridades, estruturei o plano de ação mais consistente que pude e mostrei para os membros do conselho, que eram alguns dos meus novos e entusiasmados vizinhos.

Foi uma fase muito boa, apesar de um desgaste muito maior do que eu poderia esperar. Os moradores do prédio mais antigo não concordavam com nada que apresentávamos como propostas e alguns até nos ameaçavam. O síndico anterior conhecia melhor os problemas existentes e usava as informações para nos desestruturar.

Porém, éramos valentes, competentes e buscávamos equilibrar aquele relacionamento difícil com admirável resiliência.

Creio que nenhum síndico do mundo fez tantas assembleias para alcançar consenso e prestar contas como eu decidi fazer.

Internamente, eu queria que minha gestão tivesse a maior aceitação possível.

Com o tempo, os atritos e as intrigas se tornaram mais frequentes e aquilo elevou meu nível de estresse a um limite nunca antes alcançado.

Até que apareceu uma necessidade comum para ambos os edifícios e eu encontrei a oportunidade que tanto queria para agradar a todos naquela comunidade. Eu somente teria que usar minha competência com plenitude para, finalmente, conseguir a unanimidade de aprovação. Era algo muito importante para mim e assim, fiz o melhor que pude.

Quando a obra terminou, eu estava muito feliz e orgulhoso por ter superado aquele desafio. Com meus botões eu refletia que havia chegado o momento de receber o reconhecimento tão merecido.

Mas ali no interior de minha casa, isso não seria possível. Assim, entrei no elevador, desci ao andar térreo, escolhi um lugar onde todas as pessoas pudessem me ver e, tolo e ingênuo, fiquei à espera dos elogios que, certamente, me fariam.

Após alguns minutos, uma senhora que morava sozinha veio ao meu encontro, respirou fundo e descarregou todas as críticas que encontrou em seu repertório. Chegou uma segunda pessoa e, apesar de reconhecer o trabalho que havia sido feito, compensou seu breve elogio com meia dúzia de reclamações completamente injustas e desnecessárias.

Quando me deixaram sozinho novamente, senti uma frustração que nunca ocorrera em nenhum momento anterior em minha vida.

Talvez tenha até sentido vontade de chorar, mas aguentei firme e voltei para casa. Minha missão estava cumprida e aquele sinal mostrou-me que era chegada a hora de voltar a ser, novamente, um simples morador.

Aquela experiência foi a primeira de uma infinidade de outras que tive posteriormente ao longo do caminho que escolhi seguir para me tornar um líder de verdade.

Confesso que esses aprendizados ainda se renovam a cada dia, contudo, a primeira lição nunca mais esquecerei, pois fundamentou algo que todos os líderes, em qualquer dimensão, deveriam saber:

“Cuide de seus valores, busque seus objetivos, evidencie seus resultados e comemore suas conquistas, mas em nenhum momento, tenha a ilusão de que conseguirá agradar a todos”.