Saudade

Por Vitor Seravalli

No dia trinta de janeiro, comemora-se o Dia da Saudade.

Fico imaginando quem teria sido a pessoa que instituiu um dia em homenagem à saudade. Provavelmente, alguém que tem muita saudade de outro alguém. Ou, talvez, alguém que sofre por não saber o que é, ou por não saber o que sente quem a pode experimentar.

O fato é que isso me despertou um universo desse sentimento que levo guardado aqui no peito.

Saudade de pessoas queridas, mas também das que abdicaram do meu amor, e mesmo de quem eu mesmo me afastei.

Saudade de momentos em que o mundo parou e saudades falsas de outros momentos que poderiam ter acontecido, e por pura molecagem decidiram ser somente sonhos.

Não conheço alguém que nunca tenha sentido saudades, pelo menos uma vez. Por outro lado, sei de muitos que sofrem sozinhos, mas nunca admitem a dor de sua própria saudade.

Quem sabe eu já não seja um destes.

Mas, na tentativa de redimir-me, confesso publicamente a abundância de sua presença em cada célula do meu corpo e em cada espaço de minha alma. Sei que carrego comigo um mar de saudades, e creio que ainda é pouco.

E se, em alguns momentos, elas ferem como a dor aguda, na maior parte do tempo somente me fazem bem.

É como se, num passe de mágica, elas me unissem novamente àqueles que não convivem mais comigo e que fazem tanta falta.

É como se momentos inesquecíveis voltassem brilhantes e coloridos à minha mente na forma de uma doce e suave lembrança.

Por outro lado, é grande a probabilidade que alguns considerem inútil falar do tempo que já passou, e que talvez fosse melhor olhar somente para frente.

Pode ser que isso seja mesmo uma verdade irrefutável. Mas agora, nem que seja por um instante apenas, eu não quero falar do futuro. Eu quero somente escancarar a importância do passado que a saudade generosamente decidiu me brindar como presente.

O presente precioso.

Sentir saudade de você!

Procrastinação

Por Vitor Seravalli

“Usar de delongas”. Este foi o significado mais exótico que encontrei em dicionários para esta palavra que está presente na vida de muitos de nós, o verbo “procrastinar”.

Ela não pede para entrar. Nós mesmos a convidamos a incorporar nossos hábitos, ou seriam vícios, pela porta da frente.

E o momento mais propício a este imprudente convite é normalmente aquele que nos pede concentração para tarefas importantes, mas que por diversos motivos, são indesejáveis.

Ou porque envolvem atividades chatas mesmo, ou porque não dominamos o assunto em questão, ou porque não há uma gratificação imediata pela sua conclusão, enfim, a procrastinação é a resposta imediata e espontânea à nossa baixa determinação em executar coisas que parecem querer nos desgastar de alguma forma.

Assim, nos dispersamos e inexplicavelmente, ou propositalmente, as colocamos em segundo plano, e mergulhamos em algo muito mais agradável, de menor prioridade, ou pior ainda, inútil.

Evidentemente, não me excluo deste problema que criamos para nós mesmos,

E esta reflexão se evidencia como resultado de uma discussão imaginária recorrente, que ainda travo com minha imagem refletida no espelho, mesmo com a evolução que já logrei conquistar com tantas experiências vividas.

Desde os tempos escolares, sempre fui bom em estudar na véspera das provas. Cheguei a transferir know-how a alguns de meus colegas, tamanha era a competência em ir bem nos testes mesmo não tendo priorizado, como poderia, os estudos no tempo certo e adequado. Atravessei várias e várias noites sem dormir e, com uma inacreditável capacidade de mentalização e uso otimizado de energia física residual, alcancei a nota que precisava em diversas ocasiões.

Em outras vezes, liderei projetos com resultados finais admiráveis, mas que foram alcançados graças a uma surpreendentemente eficácia no curto período que antecedia o prazo final.

Então, se isto ocorre também com outras pessoas, por que deveríamos mudar nosso comportamento? Por que deixar de procrastinar, se no final das contas, tudo acaba bem?

Hoje, consigo articular melhor uma resposta honesta para esta pergunta tão desafiadora, e ela se baseia em algo muito simples.

Um dia desses me contaram sobre um lado extremamente positivo dos procrastinadores, com o qual concordo plenamente, que é a confiança.

Quem tem autoconfiança, sabe que pode procrastinar. Ou seja, aqueles que tem competência sabem que, mesmo nos minutos finais de seus prazos, conseguirão dar conta de seu trabalho.

O problema está no estresse e no consequente desgaste que a ansiedade e pressão pela urgência e atrasos gerados nos causam, justamente enquanto deixamos o mais importante para depois.

Lembro-me de um dia em que eu tinha duas coisas para fazer. Uma delas era um trabalho fundamental, tão difícil quanto desagradável. E a outra era um passeio a um lugar bonito e em boa companhia.

Nem preciso dizer que fiz a escolha mais fácil.

Quando voltei, não houve outro jeito, tive que priorizar o tal trabalho e, obviamente, foi muito difícil vencer o desafio de conclui-lo a tempo e com a qualidade exigida.

O ponto chave é que, em nenhum momento durante o passeio, eu pude me esquecer da pendência que ficara sobre minha mesa. Foi bom, mas não foi pleno. E depois, na volta, manter o foco e a concentração no trabalho foi algo bastante difícil. Parecia uma espécie de punição por ter tomado o atalho incorreto.

Desde o dia em que isso aconteceu, nunca mais consegui me entregar a uma fuga que me afastasse da minha tarefa definida. E se ainda não assumo formalmente a mudança que aconteceu em minha atitude, é para a procrastinação não perceber que, a qualquer momento, eu ainda posso me distrair e ter uma inesperada e indesejável recaída.

Até rimou. Alguém duvida?

Emoção e razão

Razao e Emoção 2

Por Vitor Seravalli

Quando observamos as pessoas em ambientes de trabalho, logo notamos que seus relacionamentos muitas vezes não diferenciam a convivência profissional e o lado pessoal de suas vidas.

Chega até a ser bem comum encontrarmos inúmeros casais que trabalham juntos, se enamoram e, posteriormente, se casam.

Da mesma forma, há milhares de colegas de trabalho que se completam como amigos inseparáveis, mesmo após o encerramento da jornada diária. Chegam a morar numa mesma casa, viajam juntos, enfim, estabelecem alianças muito mais fortes do que seria um contato estritamente profissional.

Mesmo que mudem de empresa, seus relacionamentos resistem e, não raro, ficam mais fortes, ainda que com menor convivência.

Durante minha carreira, conheci ótimos colegas que se tornaram pessoas muito caras para mim. Com alguns deles, ainda mantenho contato mesmo longo tempo após o fim do vínculo profissional. E isso é muito bom.

Por outro lado, nossa percepção muda quando olhamos para o cotidiano dessas relações, onde as pessoas não estão mais no foco da análise, mas sim as interações de trabalho entre elas, os dilemas e as discussões para solução de seus problemas.

Sob esta perspectiva, a minha experiência pessoal escancara algo que considero um de meus maiores aprendizados.

Em minha opinião, quando estamos falando de questões de trabalho, a razão não deve conviver com a emoção. Aliás, não me lembro de uma única vez em toda a minha vida em que decisões profissionais influenciadas por fortes emoções prevaleceram sem deixar sequelas ou marcas negativas.

Lembro-me de algumas situações em que presenciei ótimos profissionais jogarem seu emprego fora, graças ao desequilíbrio proporcionado por um momento de fúria. Deveriam ter contado até dez, mas pularam esta etapa.

Outras vezes, uma inexplicável insegurança, ou mesmo uma indesejável ansiedade, percebidas como descontrole pessoal, puseram tudo a perder em situações onde sobravam competências técnicas.

Uma necessária demissão que tenha sido evitada por sentimentos de compaixão, ou mesmo aqueles profissionais que se sobrecarregam e erram por não conseguirem dizer “não”, somente para não magoarem seus superiores ou mesmo pares, ou seja, estes são apenas alguns exemplos que deveriam nos fazer pensar e agir do modo mais racional possível, pelo menos enquanto estivermos no exercício profissional, para o bem de todos.

Isto não significa que as pessoas tenham que ser frias como pedra. Pelo contrário, empatia e sensibilidade em dose certa são fatores de sucesso dos líderes e suas equipes bem-sucedidas e de alta performance.

Prova disso é que ambientes de trabalho com clima organizacional em harmonia são, geralmente, são liderados por pessoas, cujos comportamentos são baseados em respeito e maior valor humano, e suas atitudes, escolhas e decisões ocorrem com pleno uso da inteligência emocional.

No final das contas, precisamos tanto da razão quanto da emoção. Sem emoção, nossa vida não tem a menor graça e sem a razão, ela não consegue o mínimo equilíbrio.

No trabalho, a razão nos dá o bom senso, um certo controle e, ainda, um necessário nível de previsibilidade. E, com eles, alcançamos os resultados para comemorarmos depois, com muita emoção.

Cinquenta anos

Por Vitor Seravalli

Pois é. Completei cinquenta anos de idade.

Nada de festa de arromba. Nada de muito barulho. Sem grandes manchetes nos jornais.

Mas, com uma paz muito mais valiosa que os diversos presentes que eu poderia receber.

É também importante salientar que meus tesouros estavam todos muito próximos. E se perdi alguns deles pelo caminho, me tranquiliza e me acalma percebê-los vivos em meu coração.

O fato é que minha opção pela comemoração mais tranquila foi a mais adequada ao momento que vivo agora.

Não posso dizer que me sinto em velocidade moderada ao chegar nos cinquenta. Pelo contrário. Vejo que agora até tenho que lutar e correr ainda mais pelos meus objetivos. Porém, parece que consigo seguir em frente rumo à minha visão, com um recurso surpreendentemente valioso, algo que nunca julguei possuir. Sinto-me dividido entre uma parte que segue os passos no chão de modo às vezes até aparentemente desordenado, e outra parte que vai olhando mais longe, como se estivesse sobrevoando os caminhos que talvez eu venha a percorrer.

Muitos exércitos poderosos já perderam guerras fáceis, mas hoje devo admitir que a experiência acumulada, o aprendizado incorporado por incontáveis erros, me dão certa tranquilidade e um certo equilíbrio para seguir.

Contudo, não quero falar sobre isso agora. Precisaria de muitos livros (quem sabe eu ainda os escreva) para compartilhar isso com meu leitor.

Vou continuar um pouco mais sobre o dia do meu aniversário.

Logo pela manhã, mudei os parâmetros de minha balança no banheiro. Tenho uma daquelas modernas que, além de nos mostrar quantos quilogramas temos, o que às vezes incomoda, ela também mede composição corporal, taxa de gordura, etc. E, para isso, é necessário informar a idade. Mudei o número de quarenta e nove para cinquenta. Olhei para os dígitos, olhei para o espelho, e imediatamente veio a lembrança do ano anterior.

Fazendo a mesma coisa, há um ano atrás, tive naquele momento uma sensação de vazio que parecia indicar a proximidade de uma mudança dupla de dígitos que ocorreria no ano seguinte. Acho que me senti velho, e agora vejo o quanto fui tolo.

Dessa vez algo mudou. Ainda tenho os mesmos cinquenta que deram o título a essa crônica, mas o espírito, a vontade, a energia, e arrisco até a incluir um pouco sobre o corpo; todos se sentem com muito menos.

Nesse dia, muitos amigos entraram em contato pessoalmente, por telefone, por e-mail, do jeitinho que eu esperava e torcia que fizessem. Alguns novos amigos, os desconhecidos amigos, os surpreendentes amigos, e os queridos amigos, muitos deles foram ocupando saborosamente os momentos em que desfrutei essa data tão significativa.

Admito que pensei também naquelas pessoas que por algum motivo não me contataram nem por pensamento. Algumas marcaram enorme presença em meu dia por sua inesperada ausência. Mas, por decreto, decidi que isso não me entristeceria. Certamente tiveram coisas mais importantes a fazer, problemas, dificuldades, simples esquecimentos. Sabemos como são essas coisas. E nem precisei decretar que as continuei amando do mesmo jeito que antes.

Cortar bolo, cantar parabéns, ganhar lembranças, soprar velinhas, enfim tudo foi permitido.

Poderia terminar enaltecendo as pequenas e importantes coisas que conquistei nesse microscópico segmento de eternidade onde, graças ao anjo que me acompanha por intermédio de Deus, pude plenamente viver. Em vez disso, quero singela e humildemente, assumir que completar cinquenta anos de idade foi muito bom. Foi como um preâmbulo de tudo o que ainda quero poder viver, pelo menos enquanto eu ainda for uma criança.

Iniciativa

Iniciativa 2

Por Vitor Seravalli

É óbvia a enorme diferença entre trabalhar no “chão de fábrica” e atuar em um ambiente de escritórios.

Por isso, não me surpreendi com a expressão indignada de meus antigos colegas, quando eu ainda era um jovem engenheiro de processos e contei a eles sobre minha decisão de me transferir definitivamente para a área de produção.

A maioria achava que minha escolha era errada e que não havia nada para aprender lá. Diziam que o ambiente era sujo e que eu iria desaprender o que já sabia, enfim, eu iria me arrepender rapidamente.

Nem dei bola àquele punhado de besteiras e segui meu irreversível caminho para uma das melhores fases de minha carreira. Não foi nada fácil enfrentar tantos problemas todos os dias e, algumas vezes, chegar em casa com odor de solventes impregnado em minhas roupas, mas os ganhos que tive, as pessoas que conheci e o conhecimento que incorporei, deixaram um legado incalculável, que me dão suporte ainda nos dias de hoje.

No embalo desse reconhecimento justo ao período em que minha carreira seguiu pelos caminhos da materialização de diversas teorias relacionadas com a química e com a física, eu vivenciei algumas dezenas de situações, desde belas lições de vida até algumas situações, no mínimo, pitorescas.

Numa delas, logo após iniciar em minha nova atividade, eu estava fazendo uma de minhas rotineiras rondas pela área produtiva e cheguei a um local onde era feita a filtração das resinas. Este era um processo muito importante pois, caso não fosse bem executado, os vernizes sujos deixariam sua marca indesejável nas superfícies metálicas dos automóveis e outros produtos de consumo como refrigeradores, etc.

Cheguei a um dos equipamentos e me deparei com um operador que estava sentado com um palito entre os dentes olhando um pequeno fluxo de produto que enchia um tambor de duzentos litros. A vazão era realmente muito baixa, então perguntei a ele qual era o tempo necessário para alcançar o volume máximo. Ele respondeu com convicção que o tempo era exatamente igual a vinte e dois minutos.

Respirei fundo e perguntei a ele o que fazia durante todo este tempo enquanto aquele líquido viscoso parecido com mel se acomodava na embalagem. O rapaz achou minha pergunta desnecessária, porém disse que cuidava para que tudo corresse bem durante o processo e que não transbordasse quando estivesse cheio.

Evidentemente, expliquei a ele que o tempo era muito valioso e que, embora ele devesse cuidar bem daquele processo, isso não o impediria de fazer outras atividades simultâneas. Falei vários minutos e, mesmo assim, o tambor que estava em envasamento não se encheu.

O operador não gostou nem um pouco do sermão e ficou resmungando quando eu me afastei incrédulo.

No final da tarde, quando já havia ocorrido a troca de turno, voltei ao mesmo local. A filtração seguia da mesma forma e a única diferença era o operador, um rapaz bastante educado e que parecia não ter medo do trabalho.

Ele envazava dois ou três processos similares e simultâneos, e ainda mantinha o local organizado, varria, lavava, organizava os lotes posteriores para o próximo turno e ainda tinha tempo para reportar a situação de tudo com detalhes e garantir a qualidade dos processos num nível de plena excelência.

Surpreso com tão grande contraste, percebi que lidar com equipes heterogêneas seria um dos grandes desafios de meu novo trabalho e que, nem sempre, as pessoas aprenderiam somente pelo exemplo. Aliás, aquele operador exemplar era, obviamente, muito criticado pelos seus pares.

O tempo passou e o rapaz cheio de competência e muita proatividade cresceu profissionalmente, embora eu não saiba se tenha assumido, em algum momento, uma função de liderança de área. Mesmo quando eu mudei de função ele continuou com a mesma performance em altíssimo nível. Alguns de seus colegas resistiram em aprender com ele e, por isso, acabaram demitidos.

Minha carreira seguiu em frente e nunca me esqueci da referência que ele me deixou gravada na memória. Mesmo em funções completamente distintas, sempre busquei profissionais que tivessem a mesma atitude proativa na busca de seus resultados.

Ou seja, é muito bom que olhemos para algum membro de nossas equipes e, como ouvi alguém dizer um dia desses, percebamos que ele tenha “sangue nos olhos”.

Não creio que “iniciativa” seja uma competência baseada em conhecimentos, mas, com certeza, é algo desejável e intrínseco às atitudes e aos comportamentos transformadores.

Ter somente iniciativa não basta, pois precisamos de muito mais. Contudo, estou certo que já é um ótimo começo.

Imagem: Blog Jobeeper

Um pouco sobre virtudes e talentos

Virtudes e talentos 1

Por Vitor Seravalli

Nem me lembro por quantas vezes tentei encontrar um artigo que li anos atrás sobre a importância das virtudes e dos talentos em nossas vidas.

Sem dúvida, este é um tema recorrente e fundamental para todos nós, seja na vida pessoal ou em nossas carreiras, mas aquele texto específico apresentava uma provocação evidenciada por fortes exemplos, a qual nunca me esqueci.

Assim, começo pedindo desculpas ao autor pela indelicadeza de sequer me lembrar seu nome, mas gostaria que soubesse o quanto me influenciou.

O texto afirmava que, se uma pessoa tiver algum talento ou virtude, que lhe dê condições de realizar alguma coisa melhor do que dez mil pessoas, poderá ficar milionário por causa disso.

Dez mil pessoas é muita gente, não é mesmo? Talvez nem tanto.

E nos parágrafos seguintes, se referia ao tanto de energia, tempo e dinheiro que investimos em nossas fraquezas, obviamente para eliminá-las ou transformá-las.

Tudo isso para o autor do artigo era um enorme desperdício, ou seja, todo e qualquer esforço de desenvolvimento deveria estar focado nos nossos talentos, justamente naquilo em que já somos bons. E para que? Para sermos muito melhores.

Ele citava dois exemplos de pessoas famosas. O primeiro deles era o jogador de golfe Tiger Woods.

Numa determinada época, seu exigente técnico forçava os treinamentos para corrigir suas tacadas ruins. Porém, o resultado de tanto esforço mostrava que, além de não melhorá-las em nada, ainda piorava as tacadas naturalmente ótimas. Pior que isso, Tiger não vencia os torneios em que participava.

Até que em algum momento, a estratégia foi mudada radicalmente e passou a intensificar e diversificar os treinamentos justamente das suas melhores tacadas.

Mas, por que seu técnico investiria onde ele já era bom? Não me pergunte, pois minha singela capacidade lógica também não tinha a menor ideia até então. Porém, Tiger começou a ganhar tudo o que disputava e o resto da história já está bem documentada nos livros sobre este sofisticado esporte.

O outro exemplo era sobre o maior jogador de basquetebol de todos os tempos, Michael Jordan. Com ele se passou o mesmo e sua descoberta como um fenômeno do esporte aconteceu quando seu técnico também priorizava treinos em fundamentos nos quais Michael Jordan já era absurdamente bom.

Esta prioridade em relação aos nossos pontos fortes em detrimento dos fracos não significa que possamos nos dar ao luxo de ser péssimos em alguma coisa. Isso não faria sentido. Por exemplo, o candidato a uma vaga numa instituição importante nunca poderia obter uma única nota zero em um exame multidisciplinar, pois mesmo que tirasse várias notas dez em todas as outras disciplinas, ele seria reprovado.

O problema é que, normalmente, não nos conformamos com nossos pontos fracos e nos esforçamos demais para, na melhor das hipóteses, nos tornarmos medíocres naquilo que infelizmente não temos o talento necessário e suficiente para algum destaque diferencial.

Assim sendo, somente uma escolha é certa: jogar todas as fichas em nossos talentos.

Todavia, o desafio deste argumento reside numa questão crucial e de alta relevância: Como identificar nossos talentos? Afinal, já ouvimos tantas pessoas afirmarem que, simplesmente, não sabem fazer nada que seja especial ou brilhante.

Talvez estejamos prestando muita atenção nos outros e nos esqueçamos de olhar com alguma prioridade para nós mesmos, sem excessos de narcisismo, mas com um olhar positivamente crítico.

Ou ainda, sejamos tímidos e medrosos demais para perguntar às pessoas próximas, que sejam minimamente sinceras, se algo bom lhes chama à atenção em relação às nossas atitudes e nossos comportamentos.

Parece tolice, mas talvez esta seja a forma mais simples para descobrirmos um possível talento que já exista em nós e, incrivelmente, nós não saibamos.

Se a boa sorte estiver do nosso lado e algo valioso puder ser descoberto, então o próximo passo será lapidarmos este diamante bruto.

O caminho terá apenas começado, mas não imagino uma melhor alternativa de planejamento pessoal do que esboçar um projeto de carreira baseado naquilo que temos de melhor, não é mesmo?

E por falar em virtudes e talentos, você já identificou os seus?

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.

Uma ótima sacada

Ótima sacada 1

Por Vitor Seravalli

Algumas pessoas possuem o talento de nos surpreender.

Mas não me refiro às surpresas negativas, quando deixam de fazer aquilo que esperávamos ou contávamos que elas fizessem e, inexplicavelmente, não fazem.

Me refiro àquelas pessoas, que mesmo em situações totalmente imprevistas, tal qual um mágico, tiram da cartola um gesto inesperado, ou mesmo uma frase espontânea e, após um segundo de silêncio gerado pela surpresa que causam, nos conquistam pela invejável e difícil capacidade de “pensar fora da caixa” e fazer aquilo que nunca seríamos capazes de, sequer, pensar.

Para ilustrar, cito o caso de um rapaz que almoçava em um restaurante requintado, quando recebeu um pedido de comida vindo de um garoto pobre que entrara sem ser notado. Embora surpreso, o cliente tratou de colocar um pouco de alimento num pequeno prato para dar ao jovem. Mas quando o menino foi identificado, as pessoas responsáveis pela segurança vieram para retirá-lo imediatamente dali. E quando a cena se encaminhava para um fim desagradável para todos, principalmente para o garoto, o cliente interrompeu a ação e justificou simplesmente dizendo que o garoto era seu parente.

Evidente que todos perceberam que ele não falava a verdade, mas sua rapidez e espontaneidade, destruiu qualquer possibilidade de que a boa ação do tal rapaz fosse abortada.

Numa outra situação, o presidente Barack Obama fazia sua visita anual ao congresso norte americano e seu objetivo era pedir apoio aos parlamentares republicanos para um de seus projetos estratégicos. Como isso se passava já em seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos disse que precisava da aprovação do congresso sem qualquer objetivo eleitoral, pois não iria mais concorrer numa próxima eleição. Após esse comentário, alguns políticos republicanos iniciaram uma barulhenta sessão de aplausos, cujo objetivo era logicamente desmoralizá-lo pela expressão de uma geral sensação de alívio aos americanos por não correrem o risco de tê-lo como presidente em um novo mandato. A situação parecia tornar-se embaraçosa para o Sr. Obama, mas como um moleque travesso, ele fixou seus olhos no líder da manifestação republicana e falou com palavras firmes e bem-humoradas:

— É verdade, eu não vou mais participar de novas eleições, simplesmente porque já participei de duas – fez uma pequena pausa e completou – e venci ambas.

Deu seu sorriso peculiar, seguido de uma piscada de olho maliciosa para o tal parlamentar e a sessão continuou sem novas ironias.

Com certeza, eu poderia contar muitas outras histórias similares em que o talento para pensar rápido e de maneira inovadora, criativa e, principalmente, inteligente, fizeram seus protagonistas saírem-se bem de uma situação imprevista e com risco potencial, sem qualquer esforço aparente.

Porém, creio que nenhuma delas seria minha, pois, lamentavelmente, não acredito que tenha este dom.

Pelo contrário, às vezes me surpreendo pelo quanto sou óbvio. E nem me lembro quantas foram as vezes em que, além de não surpreender, perdi preciosas oportunidades para ganhar um jogo e errei, unicamente por não conseguir discernir e compreender os sinais escandalosos deixados para mim pelas peças do tabuleiro.

Por outro lado, a vida me compensou generosamente com uma grandiosa capacidade para aprender. Observar os comportamentos e ouvir os interlocutores com atenção, experimentar novos caminhos e treinar o máximo possível cada nova possibilidade. Usar a experiência adquirida e, se o erro for mesmo inevitável por ser humano, que ele ocorra somente uma única vez.

Enfim, pode ser que isto não seja um talento, mas também será sempre uma ótima sacada.

Coaching Executivo

Mais informações sobre Coaching Executivo em:

http://www.seravalli.com.br/servicos/coaching/coaching-executivo/

 

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Ética, substantivo feminino

Ética 1Por Vitor Seravalli

Conheço inúmeras definições sobre ética. Porém, foi num texto perdido de uma revista qualquer, que encontrei aquela que se mostrou para mim a mais genuína e, ao mesmo tempo, singela definição. Uma pequena história mostrava o diálogo entre um adulto e uma criança e, a certa altura, o homem perguntou ao pequeno garoto:

— Filho, para você, o que é ética?

O menino ficou sério, olhou para algum lugar distante, pensou por um segundo e respondeu com surpreendente naturalidade:

— Ética é quando minha mãe sai para trabalhar, eu estou sozinho em casa e ninguém está vendo o que eu estou fazendo. Eu posso fazer a coisa mais errada que me vier à cabeça e ninguém nunca saberá. Mas, não sei por qual motivo, eu simplesmente não a faço.

Li aquilo e até pensei em criticar, pois a tal criança falava como um adulto e, mais que isso, não se tratava de qualquer adulto, pois a resposta era valiosa demais e sua espontaneidade evidenciava uma base formada por uma dose generosa de bons valores e princípios.

Em uma outra oportunidade, ouvi um líder empresarial bastante conhecido explicar que, para ele, se algum líder não puder comentar em sua casa à noite sobre algo que fez durante o dia na empresa, é bem provável que esse algo não tenha sido ético.

Felizmente, as organizações em geral já estão percebendo que, se não cuidarem de uma gestão adequada da ética em seus processos e em seus relacionamentos, não terão sustentabilidade.

Algumas trazem estes valores desde sua origem e cuidam deles como uma joia preciosa. Outras estão sendo obrigadas a se reinventar em busca de sua própria sobrevivência. De qualquer forma, o desconforto trazido pela corrupção escancarada é uma evidência cristalina de que já não é mais possível garantir a impunidade em um eventual deslize ético de quem quer que seja. Esta é, certamente, uma ótima notícia.

O surgimento de legislações específicas, a surpreendente solidez das instituições jurídicas, os sistemas cada vez mais sofisticados e até mesmo o lento despertar da consciência de uma sociedade, até então anestesiada pela cultura da corrupção, são instrumentos que ganham notoriedade na medida em que as máscaras são retiradas uma a uma.

Nesse contexto, já é possível visualizar um cenário futuro onde os ambientes e processos institucionais terão maior transparência e estarão protegidos por modelos de gestão que tenham compromissos com as gerações futuras.

Mas em relação ao presente, como podemos ter certeza que nossas escolhas e nossas atitudes sejam referências éticas, independentemente da situação complicada que estejamos vivendo, ou do implacável controle que os sistemas nos submetam?

A resposta para esta difícil pergunta não está em outro lugar senão dentro de cada um de nós. E, parafraseando Pablo Neruda, se somos donos de nossas escolhas, mas prisioneiros das consequências, uma sensação perene de liberdade será o sinal inequívoco de que a ética nos faz companhia, mesmo que ainda não saibamos defini-la tão bem quanto poderíamos.