Nos arredores de Paris

Por Vitor Seravalli

José estava bastante animado. Afinal, estava às vésperas de uma viagem internacional e viajar para longe é sempre muito bom, pelo menos para a maioria das pessoas. Embora fosse uma viagem profissional, iria para um lugar onde nunca havia estado antes, então queria aproveitar cada momento dessa nova experiência.

Entrou em minha sala para explicar seus objetivos e foi logo contando que havia sido convidado para participar de um encontro global de diversos profissionais de sua área de atuação e, como era um representante regional do tema, poderia compartilhar suas experiências e aprender um pouco com seus colegas também.

Fiz algumas perguntas por pura curiosidade, pois minha aprovação era desnecessária. A excelente oportunidade de divulgação do nosso trabalho na região já seria mais que suficiente para justificar a viagem e o investimento decorrente da mesma.

Quando me contou que o evento seria na França, quis saber alguns detalhes e ele me disse que seria numa pequena cidade nos arredores de Paris, chamada Chantilly. Ele viajaria numa sexta-feira e, do Aeroporto Charles de Gaulle, tomaria um taxi que o levaria diretamente ao hotel onde o encontro se realizaria a partir da segunda-feira pela manhã. Garantiu aliviado que teria tempo suficiente para se recuperar da mudança de fuso horário.

Ele mencionou que, em Chantilly, talvez pudesse visitar um magnífico castelo com o mesmo nome, onde ocorrera o casamento de um casal bastante badalado de celebridades brasileiras há algum tempo atrás, aliás, desfeito logo depois.

José estava animado em visitar a França e também por poder interagir um pouco com a cultura local. Perguntei quando estaria de volta e ele me disse que o evento duraria três dias e que na quarta-feira à noite já tomaria seu voo de volta ao Brasil.

Definitivamente, uma viagem bastante rápida, mas mesmo assim, ele estava radiante. Perguntei também se ele já conhecia Paris, afinal estaria tão perto, e qual não foi minha surpresa quando ele confessou nunca ter estado lá.

Não me contive e o questionei o motivo de não permanecer a noite de sábado e o domingo todo em Paris, indo para Chantilly à noite, visto que a reunião se iniciaria somente na segunda cedo. Sua expressão foi de surpresa, como se minha consulta fosse ilegal. Após uma pausa, olhou para mim meio sem graça e eu disse que não haveria qualquer problema, pois como iria mesmo dormir em algum lugar, que fosse então em Paris. Por que não?

Estou certo que José entendeu aquilo como um presente, mas na verdade, foi apenas um oportuno investimento cultural em um competente colega que simplesmente o merecia. Não me lembro de muitos detalhes posteriores à viagem de José, mas sei que foi uma ótima viagem tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

As viagens a trabalho, além de eventos profissionais importantes, são oportunidades únicas para incorporação de um conhecimento pessoal que amplia nossa visão sistêmica, desenvolve nossa capacidade de adaptação em novos ambientes e expande nossa empatia pelo contato com novas e interessantes pessoas. E todas são competências que usamos muito durante toda a nossa carreira.

Felizmente, pude repetir a mesma ação mais vezes com outros membros de minha equipe. Não disse a eles, mas em cada caso, eu meramente replicava algo que um de meus líderes me ensinou quando fez o mesmo comigo em algum momento do passado.

Mais que um presente ou um investimento, foi mesmo um belo ensinamento que me regozijo por ter compartilhado.

Fonte imagem: http://www.parisattitude.com

Orientação para resultados

Por Vitor Seravalli

Puxa! Mas ele era tão esforçado!

Realmente, Tilson vestia a camisa, como é comum nos referirmos às pessoas que não medem a quantidade de energia dispendida e dedicação pessoal em seu trabalho. Mas infelizmente, ele acabara de ser demitido.

Não houve sequer um local da empresa onde não se escutassem críticas e lamentos à aparente injustiça ocorrida lá no almoxarifado, um espaço que parecia pertencer àquele lapidado exemplo de gente boa.

Ele não havia optado por uma evolução nos estudos, pois achava que suas responsabilidades exigiam somente muita dedicação, responsabilidade e não precisavam de qualquer teoria. Aliás, ele vivia repetindo isso aos novatos que chegavam ao seu setor. Era espirituoso e muito bem-humorado, então todos sempre pensavam que ele dizia aquilo por brincadeira. Contudo, ele falava sério.

Gostava de trabalhar em horário extraordinário, pois aumentava a quantidade de dígitos em seu holerite no final do mês. Tinha orgulho em evidenciar seu compromisso com a empresa e sorria quando era repreendido por seu supervisor, sempre que sua dedicação exagerada ultrapassava as regras da empresa.

Não tinha noção dos indicadores que sua área buscava durante o mês e, menos ainda, quais eram os resultados mais prioritários de seu negócio. Aliás, qual era mesmo o seu negócio?

Essas coisas incompreensíveis integravam as responsabilidades de seu chefe, de seu gerente, de seu diretor e não dele. Tilson acreditava ter outras coisas mais importantes para fazer.

O tempo foi passando e numa tarde de sexta-feira, foi surpreendido com uma inesperada demissão.

Tilson havia sido avisado que sua performance estava abaixo do mínimo esperado, mas ele compensava os feedbacks negativos com muito, muito esforço e sua já peculiar entrega pessoal.

O que Tilson não sabia é que lhe faltava algo fundamental nos dias de hoje: a orientação para resultados.

Isto não significa dizer que dedicação, esforço e compromisso não sejam importantes. Eles são pré-requisitos essenciais, mas são insuficientes e frágeis quando não acompanhados por resultados previamente planejados, definidos e baseados em valores e princípios éticos.

Infelizmente, como escutei certa vez, a única pessoa que consegue perceber e, eventualmente reconhecer o esforço de alguém por si só é o seu superior imediato. Ninguém mais.

Aliás, quando alguém exagera em sua dedicação a partir de um determinado momento, logo seus superiores desconfiam e normalmente descobrem que a mudança ocorreu após uma falha importante ou um insucesso que busca de compensação pelo esforço.

Soube também de Meila, uma assistente executiva que atendia a três diretores de uma empresa e que, para conseguir dar conta de seu trabalho, permanecia todos os dias por duas horas a mais e ainda estendia sua jornada de trabalho semanal, também de modo extraordinário, às manhãs dos sábados.

Com tanta dedicação, nenhum dos diretores a questionava.

Num determinado momento, Meila engravidou e, durante uma conversa com seus chefes, informou que estava preocupada com os impactos que seu período de licença maternidade traria ao atendimento de seus ocupados chefes. Disse a eles que buscaria uma profissional temporária, cuja jornada pudesse ser rigorosamente cumprida pela mesma. Todos acharam que esse seria um grande desafio, tamanha era sua dedicação, mas aceitaram.

O processo de seleção foi complicado e também demorado, mas foi encontrada uma jovem profissional com ótimo perfil, a Silvia, que embora desconfiada, aceitou a jornada estendida.

O tempo foi passando e Silvia respeitou o acordo sem qualquer falha. Todavia, em uma certa manhã, pediu uma conversa rápida com seus três superiores.

Foi logo ao ponto e disse que estava gostando de seu trabalho na empresa, mas achava que a jornada extra lhe parecia desnecessária. Os três chefes se entreolharam desconfiados, contudo aceitaram que fosse feito um teste durante uma semana, na qual ela cumpriria jornada normal, inclusive, eliminando sua vinda aos sábados.

Na sexta-feira seguinte, Meila apareceu de surpresa na empresa, pois já estava informada que sua substituta estava descumprindo o que fora combinado. Foi logo se desculpando com os diretores e disse que buscaria uma solução mesmo estando afastada.

Um dos três executivos a interrompeu e recomendou com simpatia que ela ficasse tranquila e voltasse para casa. Naquele momento, seu filho precisava dela, eles não.

Mudanças de processo nos arquivos, na gestão de agenda, e muitas outras formas de trabalho simples e modernas haviam sido implantadas e as coisas, seguiam bem sob o comando da organizada e competente Silvia. Então, Meila retomou sua licença maternidade, agora com uma pequena e incômoda “pulga atrás da orelha”, como ela mesma comentou com suas outras colegas antes de voltar para casa.

O final desta história é previsível, mas o pequeno grupo de executivos pode constatar na prática que sua nova assistente era competente em diversos aspectos, mas principalmente em sua orientação para resultados. E preferiram continuar com ela.

Felizmente, Meila pode ser realocada dentro da mesma empresa, pelo menos até que decidisse mudar de emprego por conta própria. Depois, em sua nova posição bem longe dali, nunca mais acreditou em reconhecimento que não estivesse baseado em um desempenho superior e evidenciado pela superação de metas e resultados concretos e consistentes. Tilson também não.

fonte imagem: http://www.comportese.com

 

Adaptação cultural

Por Vitor Seravalli

Ele acabara de chegar. Meu novo chefe ainda arrumava suas coisas no novo escritório, mas logo pela manhã pegou o telefone e pediu que eu fosse até lá.

Todos estavam bem impressionados com seu jeito de líder motivado. Ele realmente queria evoluir profissionalmente nessa sua nova fase e, definitivamente, parecia não ter medo do trabalho. Era um típico alemão bem-humorado e, logo que entrei, foi logo perguntando em esforçado português se eu gostava de futebol. Quando acenei positivamente com a cabeça, quis saber se haveria alguma partida nos próximos dias, pois queria assistir. Na Alemanha, era um torcedor do Schalke04, um clube de sua região, mas gostaria de escolher uma equipe para torcer aqui também.

Fomos a um jogo de meu time, mas depois ele viu também outras opções e acabou escolhendo justamente uma agremiação rival à minha. Sem problemas.

O que mais chamou-me a atenção foi sua atitude deliberada de se adaptar em diversas perspectivas ao país, que seria sua casa por pelo menos quatro anos. Adorava uma picanha fatiada, curtia e cantava músicas brasileiras como se fosse um brasileiro, enfim, muitos anos depois, ainda me lembro da conexão que criou conosco.

Em outro momento, chegou mais um novo colega, também da Alemanha.

Falando alemão nativo, perguntou sobre locais preferidos por comunidades alemãs em São Paulo. Visitou bairros e condomínios fechados na cidade onde expatriados se juntavam para que pudessem conviver, principalmente nos finais de semana. Quis saber se os jogos de futebol da Bundesliga, o campeonato alemão, eram transmitidos aqui, pois ele não poderia perder contato com seu Bayern de Munique.

No final das contas, o tempo passou e ele mal aprendeu a se comunicar em português. De qualquer modo, se deu melhor que sua esposa. Ela, em nenhum momento, se interessou em conhecer algo sobre o Brasil.

Dois casos reais e completamente opostos em relação às escolhas, atitudes e comportamentos fizeram-me refletir sobre mim mesmo.

Lembro-me de momentos no início de minha carreira em que evitava contatos, além dos obrigatórios, com visitantes do exterior. Sim, havia a deficiência do idioma, mas o grande limitante não estava nisso, e sim em minha tola opção por não vivenciar, experimentar e desfrutar das diversas culturas que se aproximavam.

Felizmente, tudo mudou quando me tornei um visitante. Durante uma estadia mais longa fora de meu país, fui surpreendido pela forma com que alguns colegas me trataram. Não foram muitos, contudo nunca me esquecerei daqueles que cuidaram de mim com um prazer inusitado. Levaram-me para jantar em suas casas com suas famílias. Descobriram que eu apreciava museus e me levaram a alguns deles confessando que os visitavam pela primeira vez, somente por minha causa. Descobriram que eu gostava de óperas e, por não se imaginarem em uma, me presentearam com um ingresso em local privilegiado.

Enfim, quando voltei para casa, vi que havia compreendido o real significado da palavra gentileza. Vale aqui o lugar comum: antes tarde do que nunca.

Obviamente, após esse episódio, cuidei melhor de meus colegas visitantes, porém, este não foi o maior ganho proporcionado por esta experiência. A grande mudança aconteceu com minhas escolhas. A partir de então, passei a valorizar cada vez mais a opção de conhecer novas pessoas, novos hábitos, novos modos de ver a vida e, principalmente, novas culturas.

Soube de uma história maluca sobre um jogador de futebol que fechou um contrato milionário com uma equipe da Espanha e, após apenas três meses, decidiu voltar ao Brasil porque sentia muita falta de feijoada e samba. Não tenho nada contra ambas riquezas nacionais de meu país, muito pelo contrário, mas o tal craque não tem a menor ideia do que perdeu.

O fato é que somos assim. Temos medo da mudança e não gostamos de sair da situação de conforto. Talvez esta seja uma peça frágil de nossa cultura.

Escutei também que, em certa empresa, uma garota promovida para uma melhor função havia mudado de setor, mas mantinha o hábito de almoçar todos os dias com seus antigos colegas. Nada de errado com isso, mas será que não seria interessante para sua adaptação conviver um pouco mais com seu novo time?

No mesmo contexto, algo já corriqueiro no ambiente corporativo é a situação onde uma empresa adquire uma outra. Com isso, os profissionais da empresa incorporada sabem que a chance de perderem espaço é sempre maior. Entre eles, há os que se conformam, se escondem ou deixam a organização. Porém, há outros que se adaptam rapidamente, mostram seus talentos e competências e crescem como se esperassem pela mudança como oportunidade de crescimento.

Enfim, acredito que a busca deliberada pela adaptação identifica a incorporação de uma competência extremamente atual. Além de nossa competitividade no ambiente profissional, ela amplia nossos horizontes e contribui para que nos tornemos a melhor pessoa que possamos chegar a ser.

Comunicação

Por Vitor Seravalli

O toque do telefone àquela hora da tarde indicava algo não previsto em minha agenda. Afinal, o dia fora carregado o suficiente de problemas comuns, reuniões intermináveis e eu já estava concentrado no planejamento do dia seguinte. Atendi diretamente e Letícia, nossa competente assessora de imprensa, com uma voz suave demais e com certa hesitação perguntou-me se eu poderia participar de um programa de televisão regional ainda naquela noite.

Até então, em minhas atividades como gestor industrial, eu nunca estivera envolvido em algo similar. Às vezes, uma entrevista para o jornal da região, outras intervenções nos veículos de comunicação internos da empresa, mas uma aparição na TV seria grande novidade para mim.

Assim, embora estivesse cansado, aceitei o convite. O programa se iniciaria às nove horas da noite no Canal UHF 45, no município vizinho de onde nossa fábrica se situava.

Seguimos para o local com algum tempo de sobra para que ela pudesse me orientar sobre o programa que se chamava ABC Brasil, no qual eu e mais três profissionais da região seríamos entrevistados por seu apresentador.

Confessei a Letícia que eu nunca havia assistido um programa sequer daquela emissora e, sem que pudesse evitar, perguntei o que ela pretendia de fato ao me fazer participar de uma intervenção que ninguém no universo iria assistir. Perguntei com respeitosa dúvida, pois eu sabia das qualidades e da seriedade de minha colega.

Com toda a paciência do mundo, ela começou dizendo que, apesar de meu desconhecimento, o canal tinha boa audiência regional e que seria uma ótima oportunidade para apresentarmos algo sobre a empresa para um público relevante e que incluía a comunidade de seu entorno.

Em seguida, foi direta, e disse que seria também um treinamento de comunicação em uma situação real. Eu poderia experimentar um ambiente de exposição praticamente sem riscos e, segundo ela, isso poderia ser muito importante para mim no futuro. Concordei com Letícia e comecei a gostar da ideia de estar ao vivo na televisão, mesmo que ninguém estivesse assistindo.

Apesar de todas as evidências, eu ainda continuava incrédulo.

A princípio, imaginei que minha intervenção fosse curta e rápida, mas como havia mais participantes, aliás muito bons, acabei permanecendo no ar por quase duas horas. Incrivelmente, conheci pessoas que se tornaram companheiros de muitas jornadas até os dias atuais e, no final das contas, tudo foi extremamente positivo.

Sei que errei muito, mas acertei também, e Letícia fez questão de registrar tudo com comentários extremamente profissionais e didáticos enquanto tomávamos o caminho de volta.

Cheguei em casa e constatei que, pelo menos em algum lugar, a TV estava sintonizada no tal canal 45.

No dia seguinte, várias pessoas contaram que haviam assistido a entrevista. Fiquei surpreso, mas logo me explicaram que estavam em suas casas curtindo a programação televisiva e, quando mudavam de canal, davam de cara comigo falando e aí passavam a me acompanhar.

Gostei da experiencia e decidi buscar novas participações também em outras mídias, além de investir um pouco mais na elaboração de textos e rascunhos de artigos. Enfim, percebi que se eu desenvolvesse alguma competência em comunicação, isso poderia me ajudar, e muito, em minhas atividades.

Graças ao convite e aos bons argumentos de minha valiosa colega, percebi em boa hora a importância que aquele simples exercício significou para mim.

Não vou me aprofundar no detalhamento das inúmeras situações onde fui radicalmente exigido posteriormente, exatamente nos atributos que adquiri praticando a comunicação corporativa em momentos que não possuíam qualquer impacto.

Em algumas dessas situações específicas e bastante críticas, eu sabia que estava com a reputação da própria empresa em minhas mãos e, felizmente, não me lembro de ter decepcionado. Obviamente, tive sempre a sorte e o privilégio de estar muito bem assessorado, mas a valorização da empatia e simpatia com meus interlocutores, a opção deliberada por uma preparação sempre séria e meticulosa e uma certa capacidade de mentalização antes das intervenções, foram fatores de sucesso inquestionáveis para a carreira que pude construir.

Agora peço licença, pois quero compartilhar imediatamente este texto que acabo de escrever. Não estou certo se ele tem a qualidade que eu gostaria que realmente tivesse, mas acredito que sua mensagem com doses adequadas de transparência, credibilidade, ética, assertividade e simplicidade poderão ser úteis para todos aqueles que, assim como eu, valorizam os caminhos da liderança.

Fonte imagem: http://toquedeareia.com.br

A entrevista

Por Vitor Seravalli

Embora eu estivesse bastante ansioso, minha intuição já havia revelado, de forma serena e surpreendentemente segura, que minha vida profissional estava prestes a se iniciar.

Eu já não era tão jovem, mas a oportunidade conquistada de estudar em uma universidade pública fora uma grande aposta em mim mesmo. E agora, eu teria o desafio de transformar aquele enorme investimento de meus pais em resultados tangíveis.

Eu não possuía qualquer experiência que justificasse a aposta de alguma empresa em meu potencial, mas eu queria uma chance e, finalmente, a sentia bem perto.

Iniciar a busca de um primeiro emprego em uma época onde não existia a internet, onde os currículos eram datilografados um a um e entregues em mãos nas portarias das empresas, enfim, tudo aquilo se traduzia como grande desafio.

Além disso, restavam somente os magros cadernos de empregos dos jornais de fim de semana, típicos dos tempos de vacas magras, ou seja, o mercado de trabalho vivia mais uma de suas crises.

Havia um otimismo aparentemente sem motivo em torno de mim e, naquela manhã de domingo, vi um anúncio como outro qualquer, que oferecia uma posição de “Assistente de Diretoria de Produção” em uma empresa multinacional. Pedia formação em engenharia química, dois anos de experiência e o desejável domínio do idioma alemão.

Eu somente atendia à primeira exigência, mas resolvi arriscar e fiz questão de levar pessoalmente o envelope ao correio, como se houvesse uma outra opção.

Confesso que não alimentava grandes esperanças de ser chamado, porém algumas semanas depois, recebi um telefonema de uma moça chamada Estrela me convidando para uma entrevista na tal empresa. Se não a houvesse conhecido pessoalmente logo em seguida, eu juraria ter sido iluminado pela generosa luz de uma desconhecida estrela da sorte.

Eu poderia ou deveria ter ido com traje mais social, mas eu nem imaginava essa alternativa, simplesmente porque não possuía um terno ou algo similar. Assim, com meu melhor jeans e uma camisa discretamente estampada, cheguei para a mais importante entrevista de emprego da minha vida.

Surpreendentemente, não encontrei nenhum de meus colegas de universidade, o que já seria algo inusitado. Obviamente, eles também não se enquadravam ao perfil solicitado e, talvez por isso, não tenham se candidatado.

Quando cheguei à empresa, fui encaminhado ao andar do edifício administrativo onde ficavam as salas das diretorias e, ao entrar em uma delas, um senhor alto e bastante acolhedor me recebeu e pediu que eu me sentasse. Antes disso, apresentou-me a um outro senhor com uma expressão mais séria e que se acomodava com suas pernas cruzadas em uma das cadeiras que circundavam a mesa do diretor.

Eu estava preparado para uma entrevista técnica e até imaginei que seria submetido a uma bateria de testes relacionados aos reatores, colunas de destilação e trocadores de calor, mas a conversa seguiu um rumo completamente diferente.

O executivo mais sério, continuou sério, e foi um completo observador durante todo o tempo em que permaneci naquela sala.

O simpático diretor alemão perguntava muitas coisas sobre minha vida, sobre minhas qualidades e defeitos, pedia minha opinião sobre algumas situações que se configuravam como típicos dilemas profissionais. Seguindo minha intuição, respondia às questões espontaneamente e, em nenhum momento, me preocupei em imaginar se minhas respostas estavam certas ou erradas. O fato é que meu interlocutor era bastante hábil, construiu um diálogo franco e, por isso, não me intimidou.

Num determinado momento, ele disse ter somente mais uma pergunta. Olhou diretamente aos meus olhos e disse:

— Então diga meu jovem: Afinal, o que você espera de sua vida?

Disfarcei a surpresa, fiz cara de conteúdo e busquei em minha mente alguma resposta que pudesse traduzir algo de um tema sobre o qual nunca havia sequer pensado.

Com surpreendente calma, disse ter ouvido dizer que no momento final de nossa existência, temos a chance de assistir em pouquíssimos segundos a um rápido vídeo com a síntese de toda a história que construímos durante a vida. Fiz uma pequena pausa e terminei a frase desejando que somente esperava poder comentar ao final: Puxa! Valeu a pena!

Quando já estava com meus novos colegas, escutei deles que eu era o mais jovem e informal de todos os diversos participantes daquele processo de seleção. Porém, a empresa encontrou em mim o que buscava, ou seja, um profissional que demonstrasse vontade de aprender e que não evidenciasse vícios corporativos de suas experiências anteriores. Ali, aprendi que até mesmo a falta de experiência pode ser um diferencial.

Aliás, meu novo chefe era justamente o silencioso senhor que somente acompanhou a conversa. Ele mesmo, alguns dias depois, contou-me que ficou muito feliz pela minha disposição em estudar e aprender o idioma alemão. Naturalmente, falou isso com um forte sotaque germânico.

Hoje em dia, com o alto grau de competitividade do mercado de trabalho em proporção inversa à disponibilidade de oportunidades, a preparação para uma dinâmica, como a descrita acima, exige uma preparação incomparavelmente maior. Aliás, um candidato com chances concretas nunca irá para uma entrevista em uma empresa sem conhecê-la muito bem. Atualmente, ao contrário do passado, é normal um candidato fazer mais perguntas do que dar respostas durante uma entrevista. Seus conhecimentos técnicos serão sempre essenciais para que possa participar dos processos, mas modernos testes buscarão identificar e avaliar a adequação do seu perfil de competências essenciais em relação à posição em questão.

Em meu caso, a inconsciente opção pela simplicidade em minhas respostas e, principalmente, a escolha por não ser ninguém diferente de mim mesmo, possibilitou que a base de minha carreira pudesse se estabelecer, sem me esquecer da ajuda inicial de algumas pessoas essencialmente generosas que me acolheram e sob os valores e princípios de uma organização que nunca poderei me esquecer.

 

fonte ilustração: Blog: AQO – A quinta onda

Pontualidade

Por Vitor Seravalli

Não nego. Embora fosse óbvio encontrar o trânsito complicado naquela manhã de segunda-feira, eu nada havia feito para evitá-lo. Desnecessariamente estressado, eu poderia ter saído de casa mais cedo, mas tive que me acalmar até que chegasse ao escritório central da empresa para uma rápida e importante reunião com meu chefe.

Por sua vez, ele era um alemão bastante sério, mas talvez por ter vivido algum tempo na Colômbia, deixava escapar alguns comportamentos latinos que, em certos momentos, expunham seu forte lado humano. Definitivamente, eu me dava bem com ele e sua prioridade ao meu desenvolvimento era uma evidência disso.

Fechei o carro e subi as escadas apressado. Quando entrei em sua sala, ele já estava com uma pessoa que participaria da reunião para a qual eu me atrasara. Olhou para mim com certa incredulidade e se levantou da cadeira com rapidez desnecessária. Pediu um minuto à outra pessoa e, me pegando pelo braço, saímos da sala.

Perguntou se eu havia perdido meu relógio e com uma expressão que se confundia entre alguém furioso e paternal, avisou que eu estava atrasado. A reunião se iniciara às sete e trinta da manhã e eu chegara com absurdos três minutos de atraso.

Pedi desculpas inúteis e a vida seguiu.

Dois dias depois, coincidentemente, eu teria uma nova reunião, que seria uma continuidade do mesmo assunto. Dessa vez, saí com trinta minutos de antecedência. Eu sabia que seu lado latino não incluía qualquer tolerância à nossa conhecida displicência com horários.

Tudo deveria correr bem no trajeto, mas um acidente com um veículo grande bloqueou a avenida por onde eu deveria alcançar meu destino. Eu não preciso descrever os detalhes, mas os trinta minutos de folga que eu possuía, rapidamente se foram. E quando estacionei e, ofegante, subi ao seu escritório, já estava um minuto além do horário marcado.

Às sete horas e trinta e um minutos, recebi um olhar com temperatura muitos graus abaixo de zero. A reunião transcorreu normalmente, mas ao seu encerramento, o chefe pediu que eu permanecesse sentado. A porta se fechou e, embora eu iniciasse uma justificativa, ele se antecipou.

Lembrou da reincidência de meu atraso e avisou-me que não toleraria uma nova falha. Despediu-se com a mesma frieza de seu olhar quando entrei e eu me fui.

A partir daquela data, tive muitas outras intervenções com ele, contudo em nenhuma delas cheguei com menos de trinta minutos de antecedência dos horários agendados.

Àquela altura, eu acreditava ter aprendido a lição. Mas quando assumi uma posição de liderança mais alta, aliás graças à confiança que aquele rigoroso chefe alemão depositara em minha capacidade de trabalho, lamentavelmente, tive uma recaída crônica, e tornei-me uma referência em atrasos aos meus compromissos.

Fiquei tão bom nisso que me atrasava sistematicamente sem exceção. O pior é que as pessoas pareciam se convencer com meus criativos argumentos e justificativas. Pareciam ter dó de mim e de minha tão complicada e incontrolável agenda. Como um completo idiota, eu cheguei mesmo a acreditar nisso.

Porém, em algum momento dessa história, o livro “O Monge e o Executivo” de James Hunter caiu em minhas mãos.

Lembro-me que sua leitura fácil se interrompeu em um trecho específico que falava sobre as mensagens que passamos quando nos atrasamos. Sem que percebamos, dizemos às pessoas que elas não são importantes. Ou pior que isso, que nosso tempo é mais importante do que os delas, o que é uma evidência clara de arrogância.

O texto se aprofundava mais nesse assunto, porém o mais surpreendente é que uma simples leitura fez com que eu finalmente refletisse sobre minha forma de agir com o tempo das outras pessoas e, confesso, fiquei sinceramente muito envergonhado.

Felizmente, após este sensível episódio, percebi que havia mudado. Não vou afirmar que estive livre de um atraso sequer nesses anos todos, pois em alguns casos, meus cuidados não puderam ser eficazes em relação a imprevistos legítimos. Todavia, foram exceções e, mesmo com elas, tratei de aprender algo para que não se repetissem.

E hoje, mesmo que o atraso deliberado ainda seja uma insistente demonstração de falso poder e desrespeito que observo em algumas pessoas de meu meio, entendo que a pontualidade é uma atitude simples, mas fundamental, quando nos referimos ao respeito mútuo que todos nós merecemos.

Vou parar por aqui, pois tenho um compromisso logo mais e não quero me atrasar. Tcháu!

fonte imagem: http://desejodevencer.blogspot.com.br

Saudade

Por Vitor Seravalli

No dia trinta de janeiro, comemora-se o Dia da Saudade.

Fico imaginando quem teria sido a pessoa que instituiu um dia em homenagem à saudade. Provavelmente, alguém que tem muita saudade de outro alguém. Ou, talvez, alguém que sofre por não saber o que é, ou por não saber o que sente quem a pode experimentar.

O fato é que isso me despertou um universo desse sentimento que levo guardado aqui no peito.

Saudade de pessoas queridas, mas também das que abdicaram do meu amor, e mesmo de quem eu mesmo me afastei.

Saudade de momentos em que o mundo parou e saudades falsas de outros momentos que poderiam ter acontecido, e por pura molecagem decidiram ser somente sonhos.

Não conheço alguém que nunca tenha sentido saudades, pelo menos uma vez. Por outro lado, sei de muitos que sofrem sozinhos, mas nunca admitem a dor de sua própria saudade.

Quem sabe eu já não seja um destes.

Mas, na tentativa de redimir-me, confesso publicamente a abundância de sua presença em cada célula do meu corpo e em cada espaço de minha alma. Sei que carrego comigo um mar de saudades, e creio que ainda é pouco.

E se, em alguns momentos, elas ferem como a dor aguda, na maior parte do tempo somente me fazem bem.

É como se, num passe de mágica, elas me unissem novamente àqueles que não convivem mais comigo e que fazem tanta falta.

É como se momentos inesquecíveis voltassem brilhantes e coloridos à minha mente na forma de uma doce e suave lembrança.

Por outro lado, é grande a probabilidade que alguns considerem inútil falar do tempo que já passou, e que talvez fosse melhor olhar somente para frente.

Pode ser que isso seja mesmo uma verdade irrefutável. Mas agora, nem que seja por um instante apenas, eu não quero falar do futuro. Eu quero somente escancarar a importância do passado que a saudade generosamente decidiu me brindar como presente.

O presente precioso.

Sentir saudade de você!

Procrastinação

Por Vitor Seravalli

“Usar de delongas”. Este foi o significado mais exótico que encontrei em dicionários para esta palavra que está presente na vida de muitos de nós, o verbo “procrastinar”.

Ela não pede para entrar. Nós mesmos a convidamos a incorporar nossos hábitos, ou seriam vícios, pela porta da frente.

E o momento mais propício a este imprudente convite é normalmente aquele que nos pede concentração para tarefas importantes, mas que por diversos motivos, são indesejáveis.

Ou porque envolvem atividades chatas mesmo, ou porque não dominamos o assunto em questão, ou porque não há uma gratificação imediata pela sua conclusão, enfim, a procrastinação é a resposta imediata e espontânea à nossa baixa determinação em executar coisas que parecem querer nos desgastar de alguma forma.

Assim, nos dispersamos e inexplicavelmente, ou propositalmente, as colocamos em segundo plano, e mergulhamos em algo muito mais agradável, de menor prioridade, ou pior ainda, inútil.

Evidentemente, não me excluo deste problema que criamos para nós mesmos,

E esta reflexão se evidencia como resultado de uma discussão imaginária recorrente, que ainda travo com minha imagem refletida no espelho, mesmo com a evolução que já logrei conquistar com tantas experiências vividas.

Desde os tempos escolares, sempre fui bom em estudar na véspera das provas. Cheguei a transferir know-how a alguns de meus colegas, tamanha era a competência em ir bem nos testes mesmo não tendo priorizado, como poderia, os estudos no tempo certo e adequado. Atravessei várias e várias noites sem dormir e, com uma inacreditável capacidade de mentalização e uso otimizado de energia física residual, alcancei a nota que precisava em diversas ocasiões.

Em outras vezes, liderei projetos com resultados finais admiráveis, mas que foram alcançados graças a uma surpreendentemente eficácia no curto período que antecedia o prazo final.

Então, se isto ocorre também com outras pessoas, por que deveríamos mudar nosso comportamento? Por que deixar de procrastinar, se no final das contas, tudo acaba bem?

Hoje, consigo articular melhor uma resposta honesta para esta pergunta tão desafiadora, e ela se baseia em algo muito simples.

Um dia desses me contaram sobre um lado extremamente positivo dos procrastinadores, com o qual concordo plenamente, que é a confiança.

Quem tem autoconfiança, sabe que pode procrastinar. Ou seja, aqueles que tem competência sabem que, mesmo nos minutos finais de seus prazos, conseguirão dar conta de seu trabalho.

O problema está no estresse e no consequente desgaste que a ansiedade e pressão pela urgência e atrasos gerados nos causam, justamente enquanto deixamos o mais importante para depois.

Lembro-me de um dia em que eu tinha duas coisas para fazer. Uma delas era um trabalho fundamental, tão difícil quanto desagradável. E a outra era um passeio a um lugar bonito e em boa companhia.

Nem preciso dizer que fiz a escolha mais fácil.

Quando voltei, não houve outro jeito, tive que priorizar o tal trabalho e, obviamente, foi muito difícil vencer o desafio de conclui-lo a tempo e com a qualidade exigida.

O ponto chave é que, em nenhum momento durante o passeio, eu pude me esquecer da pendência que ficara sobre minha mesa. Foi bom, mas não foi pleno. E depois, na volta, manter o foco e a concentração no trabalho foi algo bastante difícil. Parecia uma espécie de punição por ter tomado o atalho incorreto.

Desde o dia em que isso aconteceu, nunca mais consegui me entregar a uma fuga que me afastasse da minha tarefa definida. E se ainda não assumo formalmente a mudança que aconteceu em minha atitude, é para a procrastinação não perceber que, a qualquer momento, eu ainda posso me distrair e ter uma inesperada e indesejável recaída.

Até rimou. Alguém duvida?

Emoção e razão

Razao e Emoção 2

Por Vitor Seravalli

Quando observamos as pessoas em ambientes de trabalho, logo notamos que seus relacionamentos muitas vezes não diferenciam a convivência profissional e o lado pessoal de suas vidas.

Chega até a ser bem comum encontrarmos inúmeros casais que trabalham juntos, se enamoram e, posteriormente, se casam.

Da mesma forma, há milhares de colegas de trabalho que se completam como amigos inseparáveis, mesmo após o encerramento da jornada diária. Chegam a morar numa mesma casa, viajam juntos, enfim, estabelecem alianças muito mais fortes do que seria um contato estritamente profissional.

Mesmo que mudem de empresa, seus relacionamentos resistem e, não raro, ficam mais fortes, ainda que com menor convivência.

Durante minha carreira, conheci ótimos colegas que se tornaram pessoas muito caras para mim. Com alguns deles, ainda mantenho contato mesmo longo tempo após o fim do vínculo profissional. E isso é muito bom.

Por outro lado, nossa percepção muda quando olhamos para o cotidiano dessas relações, onde as pessoas não estão mais no foco da análise, mas sim as interações de trabalho entre elas, os dilemas e as discussões para solução de seus problemas.

Sob esta perspectiva, a minha experiência pessoal escancara algo que considero um de meus maiores aprendizados.

Em minha opinião, quando estamos falando de questões de trabalho, a razão não deve conviver com a emoção. Aliás, não me lembro de uma única vez em toda a minha vida em que decisões profissionais influenciadas por fortes emoções prevaleceram sem deixar sequelas ou marcas negativas.

Lembro-me de algumas situações em que presenciei ótimos profissionais jogarem seu emprego fora, graças ao desequilíbrio proporcionado por um momento de fúria. Deveriam ter contado até dez, mas pularam esta etapa.

Outras vezes, uma inexplicável insegurança, ou mesmo uma indesejável ansiedade, percebidas como descontrole pessoal, puseram tudo a perder em situações onde sobravam competências técnicas.

Uma necessária demissão que tenha sido evitada por sentimentos de compaixão, ou mesmo aqueles profissionais que se sobrecarregam e erram por não conseguirem dizer “não”, somente para não magoarem seus superiores ou mesmo pares, ou seja, estes são apenas alguns exemplos que deveriam nos fazer pensar e agir do modo mais racional possível, pelo menos enquanto estivermos no exercício profissional, para o bem de todos.

Isto não significa que as pessoas tenham que ser frias como pedra. Pelo contrário, empatia e sensibilidade em dose certa são fatores de sucesso dos líderes e suas equipes bem-sucedidas e de alta performance.

Prova disso é que ambientes de trabalho com clima organizacional em harmonia são, geralmente, são liderados por pessoas, cujos comportamentos são baseados em respeito e maior valor humano, e suas atitudes, escolhas e decisões ocorrem com pleno uso da inteligência emocional.

No final das contas, precisamos tanto da razão quanto da emoção. Sem emoção, nossa vida não tem a menor graça e sem a razão, ela não consegue o mínimo equilíbrio.

No trabalho, a razão nos dá o bom senso, um certo controle e, ainda, um necessário nível de previsibilidade. E, com eles, alcançamos os resultados para comemorarmos depois, com muita emoção.

Cinquenta anos

Por Vitor Seravalli

Pois é. Completei cinquenta anos de idade.

Nada de festa de arromba. Nada de muito barulho. Sem grandes manchetes nos jornais.

Mas, com uma paz muito mais valiosa que os diversos presentes que eu poderia receber.

É também importante salientar que meus tesouros estavam todos muito próximos. E se perdi alguns deles pelo caminho, me tranquiliza e me acalma percebê-los vivos em meu coração.

O fato é que minha opção pela comemoração mais tranquila foi a mais adequada ao momento que vivo agora.

Não posso dizer que me sinto em velocidade moderada ao chegar nos cinquenta. Pelo contrário. Vejo que agora até tenho que lutar e correr ainda mais pelos meus objetivos. Porém, parece que consigo seguir em frente rumo à minha visão, com um recurso surpreendentemente valioso, algo que nunca julguei possuir. Sinto-me dividido entre uma parte que segue os passos no chão de modo às vezes até aparentemente desordenado, e outra parte que vai olhando mais longe, como se estivesse sobrevoando os caminhos que talvez eu venha a percorrer.

Muitos exércitos poderosos já perderam guerras fáceis, mas hoje devo admitir que a experiência acumulada, o aprendizado incorporado por incontáveis erros, me dão certa tranquilidade e um certo equilíbrio para seguir.

Contudo, não quero falar sobre isso agora. Precisaria de muitos livros (quem sabe eu ainda os escreva) para compartilhar isso com meu leitor.

Vou continuar um pouco mais sobre o dia do meu aniversário.

Logo pela manhã, mudei os parâmetros de minha balança no banheiro. Tenho uma daquelas modernas que, além de nos mostrar quantos quilogramas temos, o que às vezes incomoda, ela também mede composição corporal, taxa de gordura, etc. E, para isso, é necessário informar a idade. Mudei o número de quarenta e nove para cinquenta. Olhei para os dígitos, olhei para o espelho, e imediatamente veio a lembrança do ano anterior.

Fazendo a mesma coisa, há um ano atrás, tive naquele momento uma sensação de vazio que parecia indicar a proximidade de uma mudança dupla de dígitos que ocorreria no ano seguinte. Acho que me senti velho, e agora vejo o quanto fui tolo.

Dessa vez algo mudou. Ainda tenho os mesmos cinquenta que deram o título a essa crônica, mas o espírito, a vontade, a energia, e arrisco até a incluir um pouco sobre o corpo; todos se sentem com muito menos.

Nesse dia, muitos amigos entraram em contato pessoalmente, por telefone, por e-mail, do jeitinho que eu esperava e torcia que fizessem. Alguns novos amigos, os desconhecidos amigos, os surpreendentes amigos, e os queridos amigos, muitos deles foram ocupando saborosamente os momentos em que desfrutei essa data tão significativa.

Admito que pensei também naquelas pessoas que por algum motivo não me contataram nem por pensamento. Algumas marcaram enorme presença em meu dia por sua inesperada ausência. Mas, por decreto, decidi que isso não me entristeceria. Certamente tiveram coisas mais importantes a fazer, problemas, dificuldades, simples esquecimentos. Sabemos como são essas coisas. E nem precisei decretar que as continuei amando do mesmo jeito que antes.

Cortar bolo, cantar parabéns, ganhar lembranças, soprar velinhas, enfim tudo foi permitido.

Poderia terminar enaltecendo as pequenas e importantes coisas que conquistei nesse microscópico segmento de eternidade onde, graças ao anjo que me acompanha por intermédio de Deus, pude plenamente viver. Em vez disso, quero singela e humildemente, assumir que completar cinquenta anos de idade foi muito bom. Foi como um preâmbulo de tudo o que ainda quero poder viver, pelo menos enquanto eu ainda for uma criança.