Oportunidade

Por Vitor Seravalli

Já escutei muito sobre a importância de estarmos sempre atentos às oportunidades que surgem à nossa frente. Infelizmente, tenho consciência de ter perdido algumas delas em minha vida pessoal e profissional, mas também levo em minha história, alguns momentos em que pude aproveitá-las. Em alguns casos, desperdicei ingenuamente chances óbvias e, em outros, fui surpreendido positivamente pelo êxito aparentemente improvável.

Em um determinado período, a fase não era das melhores. Nem sei se a causa estava em problemas decorrentes de performance abaixo das expectativas ou outro fator, mas o fato é que impactos gerados por sucessos recentes de um forte concorrente direto diminuíam minha autoconfiança.

Era um fim de tarde como outro qualquer, quando recebi um convite para um evento que envolveria todas as lideranças da empresa. Eu me incluía no grupo mais numeroso, composto pelos líderes de unidades operacionais. Eu era um dos chefes de produção.

E, após tanto tempo, ainda me surpreendo em manter na memória o número total de 144 participantes de todos os níveis naquele encontro, desde a alta direção até a liderança operacional.

O trabalho fora muito bem planejado com dinâmicas realizadas em grupos que se modificavam a cada etapa, com pessoas de níveis e áreas diferentes, para que ideias novas pudessem levar a resultados inovadores para os negócios. O levantamento de questões sobre problemas existentes, a discussão de possíveis alternativas de encaminhamento e, finalmente, a priorização em temas estratégicos se concentraram em 3 grupos de líderes formados por 48 participantes, que seriam responsáveis para desenvolver uma proposta de planos de ação específicos por tema.

O momento mais importante do evento previa a apresentação de um sumário executivo dos três materiais elaborados pelos distintos grupos. Para garantir que isso fosse feito de modo legítimo, cada grupo deveria escolher democraticamente um porta voz para apresentar os resultados a todos ali presentes.

Em um grupo tão forte, alguns profissionais poderiam ser classificados como favoritos prévios, ou por experiências anteriores bem-sucedidas, ou por suas atividades estarem ligadas a processos de comunicação. Lembro-me muito bem que um dos grupos definiu um líder de marketing extremamente comunicativo. O segundo grupo logo escolheu o gerente de comunicação corporativa da empresa. Mas o terceiro grupo demorou um pouco mais e o motivo do atraso era devido à ausência de alternativas óbvias de candidatos para aquela importante tarefa.

Eu acompanhava aquela discussão a uma certa distância e notei que houve uma discussão final, restrita a um grupo de líderes mais influentes, até que o maior nível hierárquico do grupo se aproximou de mim e solenemente informou que eu havia sido o escolhido.

Como dizia a letra de uma música bastante antiga: “não sei o que pensei, mas eu não acreditei”, contudo, sem pensar muito, respirei fundo, fiz uma oração instantânea, e disfarcei minha insegurança pedindo que todos me ajudassem a checar se minha proposta de apresentação atendia às expectativas de todos.

Nunca entendi os motivos de meu comportamento, mas enquanto todos buscavam alguém para representar o grupo no momento final daquela intervenção, eu fiquei todo o tempo em um canto, quietinho, pensando como o resultado deveria ser apresentado.

Assim, de modo surpreendente para muitos que lá estavam, fiz o que tinha a fazer da melhor forma que pude e com ótimo resultado. Para ser sincero, eu mesmo me surpreendi.

Minha vida no dia a dia não se tornou fácil por causa daquele momento positivo, tive mais percalços e novas dificuldades, mas admito que aquela oportunidade tão bem aproveitada abriu caminhos fundamentais para desenvolvimento posterior de minha carreira.

Uma vez, li uma história sobre Kairós, o deus da oportunidade. Descrito como um jovem calvo com uma trança de cabelos em sua testa, só era possível de ser alcançado, se agarrado pelo topete, ou seja, quando encarado de frente. Depois que ele passasse, não seria mais possível pegá-lo novamente.

Experiência vivida, lição aprendida.

fonte imagem: http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/

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