O preguiçoso

Por Vitor Seravalli

Eu experimentava meu lado institucional e aquilo era algo diferente para mim. Papéis institucionais são assim, você trabalha com dedicação e a maior recompensa é o prazer da realização. Porém, embora não existam metas concretas de compensação financeira, desenvolver uma rede de contatos relevante, usar a experiência e o conhecimento para ajudar os outros, enfim, compartilhar deliberadamente o que se sabe, é algo que pode gerar ganhos em todas as dimensões, pois é fundamental que seja viável para que tenha sustentabilidade. De qualquer modo, acredito que todos deveriam experimentar estes tipos de vivência em algum momento.

É certo que essa possibilidade está mais acessível aos profissionais mais experientes, aqueles que estão na fase da vida em que a autorrealização é mais do que uma meta, é uma forma de viver. Eu ainda estava bem longe dessa etapa de minha carreira, contudo iniciei-me no trabalho institucional com o foco claro de ampliar minha rede de relacionamentos. Precisava disso para viabilizar meu projeto empreendedor e, como contrapartida, estava aberto e motivado para contribuir.

Por decisão pessoal, eu deixara a vida corporativa por esse projeto, e ainda não tinha muita noção se a troca teria viabilidade no médio e longo prazo, mas seguia em frente com determinação. A empresa em que eu trabalhava colaborou efetivamente e em pouco tempo eu já ocupava uma posição interessante em uma organização representativa no âmbito empresarial de minha região.

Em frente a tantas novidades boas, alguns detalhes no mínimo pitorescos chamavam minha atenção, por exemplo, muitos de seus diretores gostavam, ou melhor, faziam questão de serem chamados de “Doutor”, muitas vezes sem sequer terem concluído uma graduação qualquer. Confesso que nunca compreendi aquela necessidade.

Nesse contexto, por motivos óbvios, pedi que minha assistente, uma profissional com bastante tempo de casa e experiência, me chamasse pelo primeiro nome, simples assim. Ela prontamente respondeu: ­_Pois não, “Doutor”!

Quando insisti, ela me pediu desculpas antecipadas, mas disse que se suas colegas a vissem me chamando informalmente pelo meu nome, a reprovariam e a julgariam de modo errado. Assim, não mudou o tratamento em lugares públicos. Felizmente, mudou quando não havia ninguém por perto.

Após tanto tempo, ainda mantenho vínculo com esta organização que, cada vez mais, mostra-se importante para seus públicos de interesse. Com certeza, aprendi muito com ela e vivenciei diversas histórias memoráveis.

Por exemplo, nunca me esquecerei de um episódio em que discutíamos em reunião de diretoria a importância da transparência e da verdade nos relacionamentos pessoais e organizacionais. Alguns questionavam se em alguns momentos não seria bom, omitirmos a verdade plena. Argumentavam com palavras frágeis e se faziam valer até mesmo de analogias às mentiras que contamos aos nossos filhos, sob a justificativa de que ainda não estão preparados para compreender certas verdades que somente os adultos aceitam, muitas vezes por falta de sensibilidade ou pura ignorância.

A conversa estava animada e havia sido provocada por uma situação empresarial em que o dono de uma empresa omitiu informação crítica de seus funcionários para que a produção não parasse, o que causaria uma interrupção de fornecimento primordial para as finanças da empresa. O argumento era forte e se baseava numa consequência potencial possível caso algo desse errado: a empresa teria que demitir pessoas. No final das contas, seria uma omissão ou mentira por uma boa causa. Em outras palavras, um dilema comum nos dias de hoje para aqueles que se envolvem com gestão de negócios.

Até que em um determinado momento, nosso líder, uma pessoa de sólidos valores e com personalidade forte, afirmou em alto e bom som que não mentia nunca. Todos riram da forma absolutamente sincera que se expressou. O fato é que todos sabiam que ele sempre falava mesmo a verdade, doesse a quem doesse, mas um dos colegas o desafiou perguntando o motivo de tanta convicção em não mentir em nenhuma situação.

Nunca mais me esqueci de sua resposta. Sei que não era inédita, mas fui incapaz de evitar um sorriso espontâneo quando ele, em um momento de rara descontração, confessou que não mentia, unicamente por um decisivo motivo: era um irrecuperável preguiçoso.

E, segundo ele, um mentiroso não pode em hipótese alguma ser preguiçoso, principalmente pela necessidade constante de contar sempre a mesma versão dos fatos, sob o risco de ser desmascarado caso seja, por um segundo, displicente com sua memória.

Todos riram do seu jeito debochado em qualificar ironicamente os bons mentirosos.

Confesso que não concordava com a forma aparentemente insensível com que tratava certas situações muitas vezes simples, mas sempre o admirei pela sinceridade, pela lealdade como valorizava as coisas certas, pelo respeito aos seus valores éticos e pela forma singular como conseguiu incorporar, em si próprio, um defeito que deveras não teve em sequer um momento de sua vida, a preguiça.

fonte imagem: www.targetcomunica.com.br

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