O Brasil segue um caminho de mobilidade?

O Brasil segue um caminho de mobilidade?

Por Vitor Gonçalo Seravalli

Recentes dados publicados pelo IBGE apresentam uma tendência importante em relação à população do Brasil. Embora o número de habitantes no país continue crescendo, e já tenha ultrapassado a barreira dos 200 milhões, há uma redução concreta nessa taxa de crescimento, e que a partir de 2042 se reverterá numa redução de nossa população.

Ou seja, em 2042, o Brasil atingirá sua população máxima de aproximadamente 228,4 milhões de habitantes, e já em 2060 seremos “somente” 218,2 milhões.

Vale ressaltar que um estudo similar elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou uma tendência de redução ainda mais agressiva.

Conforme seus resultados, a população brasileira atingirá seu tamanho máximo em 2030, com cerca de 208 milhões de habitantes, e até 2040 deverá diminuir para 205,6 milhões.

Independentemente das diferenças entre os estudos, os números são surpreendentes se considerarmos as dimensões continentais de nosso território, e ainda o paradoxo que se revela em relação ao crescimento da população mundial.

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou recentemente no estudo “Perspectivas de População Mundial”, que a população do planeta já atingiu o valor de 7,2 bilhões de habitantes, e de acordo com as projeções de crescimento demográfico apresentadas pela entidade, a população mundial deve chegar a 8,1 bilhões de pessoas em 2025 e 9,6 bilhões em 2050.
Em outras palavras, se considerarmos a perspectiva global, o desafio do crescimento populacional continuará aumentando e impactando ainda mais a dimensão de outras questões fundamentais da sustentabilidade como: a fome e a miséria, os recursos naturais, a emissão de poluentes e, entre outras, a mobilidade.

Mas, se especificamente no Brasil, o desafio populacional caminha para um estágio de estabilização, poderíamos concluir que, numa visão geral e preliminar, teremos condições melhores de alcançar referências mais favoráveis em relação a essas questões. Certo? Infelizmente, a resposta óbvia demonstra uma total desconexão com a realidade.

Por exemplo, um outro estudo da ONU-Habitat afirma que em 2050, 70% da população mundial viverá em zonas urbanas, sendo que o rápido crescimento urbano está ocorrendo principalmente em países que tem menor capacidade de atender a demanda por postos de trabalho, moradia adequada, e serviços básicos, como o transporte coletivo urbano.

Há muitas cidades no mundo com essas características de desigualdade.
E, infelizmente, o documento “O Estado das Cidades do Mundo 2010/2011: Unindo o Urbano Dividido”, amplamente divulgado durante o 5º Forum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU) que ocorreu em 2010 no Rio de Janeiro, mostra que o Brasil é o país com a maior distância social na América Latina, e possui várias cidades na lista das 20 cidades mais desiguais do mundo.

Como é possível concluir, essa desigualdade se reflete em diversos indicadores sociais, mas um de seus principais impactos está no desafio de disponibilizarmos um serviço de transporte público que possibilite uma mobilidade plena e sustentável, e que finalmente resolva os problemas gerados pelo colapso da alta concentração urbana.

Tudo isso somado à grande contribuição que foi dada através dos anos ao desenvolvimento da mobilidade individual nos confrontam com um futuro onde as lideranças não terão outro caminho a seguir senão a uma profunda reflexão sobre novos caminhos que obrigatoriamente deverão ser seguidos.

Pelo menos, é isso que se evidencia em um dos 283 compromissos que integram a declaração final da conferência das nações unidas sobre desenvolvimento sustentável (Rio + 20), documento chamado de “O Futuro que Queremos”.

Especificamente, no compromisso 133, as lideranças globais se comprometem a apoiar o desenvolvimento de sistemas de transporte sustentáveis, incluindo sistemas multimodais de transporte que utilizem menos energia, em particular para os transportes públicos de massa; combustíveis limpos e veículos não poluentes, bem como sistemas de transporte melhorados nas zonas rurais. Reconhecem também a necessidade de promover uma abordagem integrada à formulação de políticas, em níveis nacional, regional e local dos serviços de transporte e sistemas para promover o desenvolvimento sustentável.

Queremos acreditar nisso, mas os objetivos somente serão alcançados se o tema for amplamente discutido, se as boas práticas existentes forem disseminadas, se a sociedade se mantiver engajada e, principalmente, se um diálogo amplo entre todos os stakeholders estiver estabelecido.

DECLARAÇÃO FINAL DA CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (RIO + 20)

O transporte sustentável.
132. Notamos que o transporte e a mobilidade são fundamentais para o desenvolvimento sustentável. O transporte sustentável pode reforçar o crescimento econômico, bem como melhorar a acessibilidade. O transporte sustentável alcança uma melhor integração da economia quando respeita o meio ambiente. Reconhecemos a importância da circulação eficiente de pessoas e bens, e do acesso ao transporte ambientalmente saudável, seguro e acessível como um meio para melhorar a equidade social, a saúde, a capacidade de adaptação das cidades, as ligações urbano-rurais, e a produtividade das áreas rurais. A esse respeito, devemos levar em conta a segurança rodoviária como uma parte de nossos esforços para alcançar o desenvolvimento sustentável.

133. Apoiamos o desenvolvimento de sistemas de transporte sustentáveis, incluindo sistemas multimodais de transporte que utilizem menos energia, em particular para os transportes públicos de massa; combustíveis limpos e veículos não poluentes, bem como sistemas de transporte melhorados nas zonas rurais. Reconhecemos a necessidade de promover uma abordagem integrada à formulação de políticas, em níveis nacional, regional e local dos serviços de transporte e sistemas para promover o desenvolvimento sustentável. Reconhecemos também que as necessidades especiais relacionadas ao desenvolvimento dos países em desenvolvimento sem litoral e de trânsito precisam ser levadas em conta ao estabelecer sistemas de transporte sustentáveis de trânsito. Reconhecemos a necessidade de apoio internacional aos países em desenvolvimento a esse respeito.

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