O advogado


Advogado 1Por Vitor Seravalli

Sempre tive prazer em incentivar o desenvolvimento das pessoas que pertenciam aos times que liderei.

Mesmo os mais acomodados se rendiam, pois sabiam que a recompensa viria em algum momento. Nem sempre imediata, mas a conquista do conhecimento e a evidência de competências adquiridas eram coisas impossíveis de se ocultar.

Porém, as exceções também eram resilientes. E qualquer motivo ou justificativa fazia com que uma parte da equipe optasse pela mediocridade, como se isso fosse uma característica imutável.

Por isso, quando eu percebia alguém com vontade de aprender, imediatamente o adotava e buscava ajudá-lo, pois eu acreditava que sua eventual vitória seria um exemplo a ser seguido pelos acomodados.

Nesse contexto, vibrei quando um simples ajudante de um dos turnos entrou em minha sala e contou-me seu sonho em se tornar um advogado. Mais que isso, ele havia passado no vestibular, e viera me procurar para que o ajudasse nas escalas de turnos, de modo que ele conseguisse estudar e trabalhar.

Como não ajudá-lo? Ele representava o motim contra uma cultura baseada na ignorância inevitável, e eu não o deixaria desistir.

Fiz das tripas coração, quebrei regras, e até prejudiquei alguns outros não tão determinados, mas o advogado não poderia abdicar de seu sonho.

Infelizmente, esse entusiasmo irresponsável me cegou. Afinal, a formação de meu esforçado funcionário em direito não tinha nada em comum com a atividade de minha área de responsabilidade. Se o rapaz queria seguir esta carreira, isto era ótimo, mas sua escolha não se sintonizava em nada com as tarefas da equipe.

E embora eu continuasse míope, o tempo foi evidenciando que algo drástico deveria ser feito. Eram atrasos seguidos, faltas com a justificativa de trabalhos acadêmicos, e seu desempenho no trabalho ia se desintegrando.

O restante da equipe me olhava atravessado, mas eu sempre me justificava a favor da opção pelo autodesenvolvimento.

Eu segurava as pontas com todo empenho, e o advogado em gestação seguia fazendo cada vez menos pelo trabalho.

O fato é que eu já começava a não aguentar a pressão de toda a equipe.

Até que numa tarde, logo que aconteceu a mudança de turno, decidi finalmente tomar a única decisão que me cabia naquele momento.

Chamei o rapaz ao meu escritório. Fiz um discurso tão emocional quanto desnecessário, e ao final, o demiti, deixando claro que se tratava de uma decisão difícil, mas necessária. Inevitável, embora contra a minha vontade.

Ele estava sério, mas muito tranquilo. Esperou calmamente que eu terminasse a minha ladainha, e quando eu me calei, ele falou.

_ Você não acha que demorou muito para tomar essa decisão? Eu acho.

Este foi um dos feedbacks mais duros e verdadeiros que recebi em toda a minha vida profissional.

Eu não respondi nada, pois um bom feedback é sempre assim: Bateu, doeu… toma que ele é teu!

Depois disso, é óbvio que não mudei minhas prioridades para o desenvolvimento de competências, mas um melhor alinhamento com as prioridades do negócio, um maior equilíbrio entre recursos e necessidades, e principalmente um melhor planejamento, fizeram toda a diferença.

Não tenho ideia se o ajudei a ser um bom advogado, mas ele certamente me ajudou a me tornar um líder melhor.

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