Nos arredores de Paris

Por Vitor Seravalli

José estava bastante animado. Afinal, estava às vésperas de uma viagem internacional e viajar para longe é sempre muito bom, pelo menos para a maioria das pessoas. Embora fosse uma viagem profissional, iria para um lugar onde nunca havia estado antes, então queria aproveitar cada momento dessa nova experiência.

Entrou em minha sala para explicar seus objetivos e foi logo contando que havia sido convidado para participar de um encontro global de diversos profissionais de sua área de atuação e, como era um representante regional do tema, poderia compartilhar suas experiências e aprender um pouco com seus colegas também.

Fiz algumas perguntas por pura curiosidade, pois minha aprovação era desnecessária. A excelente oportunidade de divulgação do nosso trabalho na região já seria mais que suficiente para justificar a viagem e o investimento decorrente da mesma.

Quando me contou que o evento seria na França, quis saber alguns detalhes e ele me disse que seria numa pequena cidade nos arredores de Paris, chamada Chantilly. Ele viajaria numa sexta-feira e, do Aeroporto Charles de Gaulle, tomaria um taxi que o levaria diretamente ao hotel onde o encontro se realizaria a partir da segunda-feira pela manhã. Garantiu aliviado que teria tempo suficiente para se recuperar da mudança de fuso horário.

Ele mencionou que, em Chantilly, talvez pudesse visitar um magnífico castelo com o mesmo nome, onde ocorrera o casamento de um casal bastante badalado de celebridades brasileiras há algum tempo atrás, aliás, desfeito logo depois.

José estava animado em visitar a França e também por poder interagir um pouco com a cultura local. Perguntei quando estaria de volta e ele me disse que o evento duraria três dias e que na quarta-feira à noite já tomaria seu voo de volta ao Brasil.

Definitivamente, uma viagem bastante rápida, mas mesmo assim, ele estava radiante. Perguntei também se ele já conhecia Paris, afinal estaria tão perto, e qual não foi minha surpresa quando ele confessou nunca ter estado lá.

Não me contive e o questionei o motivo de não permanecer a noite de sábado e o domingo todo em Paris, indo para Chantilly à noite, visto que a reunião se iniciaria somente na segunda cedo. Sua expressão foi de surpresa, como se minha consulta fosse ilegal. Após uma pausa, olhou para mim meio sem graça e eu disse que não haveria qualquer problema, pois como iria mesmo dormir em algum lugar, que fosse então em Paris. Por que não?

Estou certo que José entendeu aquilo como um presente, mas na verdade, foi apenas um oportuno investimento cultural em um competente colega que simplesmente o merecia. Não me lembro de muitos detalhes posteriores à viagem de José, mas sei que foi uma ótima viagem tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

As viagens a trabalho, além de eventos profissionais importantes, são oportunidades únicas para incorporação de um conhecimento pessoal que amplia nossa visão sistêmica, desenvolve nossa capacidade de adaptação em novos ambientes e expande nossa empatia pelo contato com novas e interessantes pessoas. E todas são competências que usamos muito durante toda a nossa carreira.

Felizmente, pude repetir a mesma ação mais vezes com outros membros de minha equipe. Não disse a eles, mas em cada caso, eu meramente replicava algo que um de meus líderes me ensinou quando fez o mesmo comigo em algum momento do passado.

Mais que um presente ou um investimento, foi mesmo um belo ensinamento que me regozijo por ter compartilhado.

Fonte imagem: http://www.parisattitude.com

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