Não

Por Vitor Seravalli

Era o início de minha carreira e não faltava energia e vontade para conquistar espaço na empresa que havia me contratado. Pelo contrário, eu queria mostrar a todos que o investimento em mim teria retorno certo em prazo bem curto, por isso, tarefas de todos os tipos caiam sobre minha mesa e eu ainda não possuía outra resposta, senão o espontâneo “sim”.

Evidentemente, fui conquistando novas responsabilidades e um certo reconhecimento, até porque meus pares não pareciam estar na mesma frequência. Às vezes, eu chegava à exaustão, mas minha escolha pela prontidão irrestrita já estava gravada em minha mente e evidenciava resultados positivos.

O tempo passou e em algum momento dessa trajetória, tornei-me o líder de um pequeno setor da organização. Eu estava plenamente consciente de que o sucesso alcançado até aquele momento havia sido consequência de algumas características e resultados, mas principalmente, pela disposição em atender a todas as solicitações possíveis.

Porém, logo depois percebi que essa atitude passou a custar muito e o impacto chegou a um estágio em que me tornei incapaz de resolver meus próprios problemas, ou seja, eu estava com tantas pendências de terceiros, que não sobrava tempo, tampouco capacidade, para sanar minhas próprias pendências e alcançar os resultados que estavam bem claros em meus objetivos e compromissos.

Uma pequena crise existencial de incompetência me invadiu e atingiu o centro de minha autoestima. Até então, mesmo com algumas inimizades, desdém e inveja de alguns colegas, eu seguia firme com minha excessiva e desnecessária vontade de agradar a todos, todavia, tornava-se urgente a interrupção de tamanha disponibilidade.

Além do mais, muitas das tarefas que integravam meu pacote de benevolências não eram importantes, aliás, muitas delas eram pedidos tolos e inúteis de pares ou mesmo de superiores.

Quando eu já sentia os primeiros sintomas de um inexplicável pânico por não dar conta de meu trabalho, vi que a principal falha não estava em meus problemas não resolvidos. O ponto crítico estava em minha enorme dificuldade de dizer: “não”.

Nem preciso detalhar a dimensão da dificuldade que tive ao enfrentar a primeira entre tantas mudanças de comportamento que ocorreram em minha carreira.

Ainda hoje, sinto certo incômodo em decepcionar meus interlocutores quando, após avaliar qualquer demanda, concluo pela impossibilidade de executá-la e, com a melhor das argumentações, balanço negativamente com a cabeça.

Tenho conversado com muitos profissionais nos últimos tempos e, quase sem exceção, eles confessam dificuldades em dar contar de suas inúmeras tarefas por estarem sobrecarregados com excesso de pendências, as quais nem eles mesmos sabem porque as aceitaram.

Por isso, essa é uma lição básica a ser aprendida com a máxima prioridade. Um exercício básico para os jovens e uma mudança necessária e urgente para aqueles, que como eu, se deixaram levar pela inútil escolha em aceitar quaisquer demandas.

Mas, cuidado! Não sejamos simplistas quando optarmos pela resposta negativa.

Uma análise criteriosa, sempre baseada em prioridades reais, recursos necessários e disponíveis, valor agregado, impacto e, principalmente, na origem da solicitação, será essencial para que sigamos em frente e que o guardião do sucesso em algum tempo no futuro, nunca seja obrigado a nos dizer: “Não”.

fonte imagem: visaocidade.com.br

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