Na palma da minha mão

Na palma da mão 1

Por Vitor Seravalli

Era um dia normal. Ou melhor, quase normal.

Estávamos numa reunião do comitê de contingência, e o objetivo era buscar o necessário alinhamento entre todos os responsáveis pelas fábricas, pois uma greve se mostrava iminente.

Num determinado momento, o líder do comitê perguntou a todos nós como estava a situação em cada unidade, e nós, gerentes de fábrica, um a um, iniciamos o relato.

O responsável pela maior planta estava pessimista. Por se tratar de um processo com várias etapas, esta seria a primeira a parar. Más notícias para começar.

O segundo líder não era menos realista. E não seria tarefa fácil, mantê-la em continuidade.

E assim seguiram os outros.

Eu estava surpreendentemente tranquilo. A fábrica sob minha responsabilidade tinha processos com reações de síntese, e pela sua característica de maior periculosidade, era sempre poupada nos movimentos de mobilização. Além disso, os supervisores de cada turno eram muito experientes, e sabiam lidar com essas situações muito bem. Realmente, não tínhamos qualquer história de interrupção, desde quando esses movimentos integraram a rotina das empresas do setor.

Por esse motivo, minha resposta não evidenciou qualquer displicência ou arrogância, mesmo quando se resumiu numa frase seguida de um leve sorriso no canto dos lábios:

_ Tudo sobre controle. Estou com a equipe na palma da minha mão.

Todos se admiraram, e um elogio de nosso líder fez com que meu ego se inflasse discretamente, sem que isso pudesse ser evitado. Em resumo, eu fui um tolo.

O tempo passou, como sempre, muito rápido.

E a greve começou.

Numa nova reunião, já estávamos com novos relatos atualizados de todas as unidades, e uma notícia chamou a atenção de todos. A primeira fábrica a aderir ao movimento de paralização foi justamente aquela que estava sob minha responsabilidade.

Apesar da ausência de histórico, e de todas as outras características que a blindassem, a sua parada colocou-me em cheque.

Todos olharam para mim, alguns com ironia, e pediram que eu mostrasse a palma de minha mão. Queriam saber se a equipe ainda estava escondida em algum lugar por ali.

Fiquei envergonhado, e saí sem muitas explicações, pois algo deveria ser feito imediatamente.

Uma primeira lição, nunca mais esquecida, foi a extinção de uma palavra em meu dicionário: a presunção. O fato é que eu não havia feito a lição de casa de forma plena. E o preço, ao final, acabou sendo extremamente caro.

A segunda lição, foi uma necessária resiliência. Após o duro golpe, o tombo, e o início da contagem, tratei de me levantar rapidamente. E então, fiz tudo o que deveria ter sido feito antes, turno por turno, num diálogo franco e transparente com toda a equipe.

Aqui, não estão em questão as peculiaridades daquele episódio, e sim, as lições que ensinaram aquele jovem líder a abandonar a definitivamente a displicência, e a desenvolver com grande prioridade a resiliência como uma competência essencial para os muitos desafios que vieram posteriormente. Doeu, mas valeu!

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