Mãos vazias, nem pensar!

Mãos vazias 1

Por Vitor Seravalli

Eu ia bem.

Apesar de ainda estar numa fase inicial de minha carreira, alguns sinais indicavam algo promissor para o futuro. Porém, minha remuneração parecia não acompanhar essa positiva autoavaliação.

O estilo de vida queria avançar, contudo as despesas vinham crescendo no mesmo ritmo, e assim era chegada a hora de buscar um justo aumento de salário. Obviamente, eu faria isso diretamente com a pessoa mais adequada para resolver o problema rapidamente: o meu chefe.

Cheguei de mansinho, vi que ele estava só em sua sala, e pedi para entrar. Muito simpático, pegou sua pasta com vários papéis cheios de anotações, e após nos sentarmos, me perguntou:

_ E então, sobre o que quer falar?

Eu me embaracei com tamanha receptividade, porém comecei falando de minha impressão positiva sobre o aprendizado dos últimos tempos, e engatilhei com uma argumentação sobre reconhecimento, e que deveria se materializar em um aumento salarial, afinal eu o merecia de fato.

Ele ouviu com atenção minha argumentação, e quando eu parei de falar, foi logo pedindo alguma referência para justificar tal ajuste.

Não compreendi que buscava saber se eu havia pesquisado minha situação e meu nível em relação ao mercado, e ainda cometi um erro básico dizendo que um outro colega de nossa equipe, um profissional com perfil similar ao meu, tinha o salário melhor, e eu reivindicava somente uma igualdade de critérios.

Minha resposta o irritou um pouco, pois havia nas entrelinhas uma sugestão de que sua liderança não mantinha uma base justa para diferenciação de reconhecimento, e isto não era verdade

Abriu sua pasta, mexeu nos papéis, e após escolher um deles, que infelizmente estava longe de meus olhos curiosos, virou-se para mim e falou.

_ Bom, embora você não esteja errado em buscar uma melhoria de seu salário, não concordo com sua reivindicação de equiparação ao seu colega, afinal suas atividades são completamente distintas, e embora goste do trabalho de ambos, não posso compará-los.

Infelizmente, ele tinha razão.

Olhou para o tal papel, e disse que tinha em mãos uma pesquisa salarial de mercado, e que meu salário estava de acordo com a média ali apresentada. E se eu não tivesse algo similar em mãos para que discutíssemos no mesmo nível de um modo mais tangível, a conversa estava terminada.

Eu pensei em desafiá-lo a me mostrar tal pesquisa, que naquele momento me pareceu um blefe. Mas pensei melhor, e dizendo que iria fazer uma pesquisa própria para voltar a procurá-lo depois, pedi licença e fui em direção à porta com uma típica expressão submissa hostil.

Antes que saísse, ele me chamou pelo nome, e falou um pouco mais:

_ Faça sua pesquisa e volte. Certamente, estarei aberto para uma melhor discussão, pois hoje você não veio preparado. E deixo uma dica: nunca vá a qualquer discussão, por mais simples que seja, sem alguma informação preparada. Se possível, anote-a num papel com a maior precisão que puder. A chance de seus interlocutores não terem nada em mãos, assim como você chegou aqui hoje, será sempre muito alta. Acredite em mim, as suas chances de fazer uma boa negociação serão sempre maiores.

Saí dali pensativo, mas decidi seguir sua recomendação, e hoje, muito anos após aquela tarde, minhas experiências me impelem ao compartilhamento de tão singelo e valioso ensinamento,

Assim, ao entrar em qualquer negociação, por menor que seja: “Mãos vazias, nem pensar!”

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