Isto não é do seu nível!

Isto não é do seu nível 1Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone, e era mais um pedido para um pulinho na sala do chefe.

Já havia tarefas demais sobre a minha mesa. Aliás, caso o tal chefe se esquecesse de mim por um mês, eu não teria nem cinco minutos de ociosidade até que se lembrasse de me chamar novamente. Porém, nosso projeto era importante demais, e qualquer reclamação seria injusta àquela altura. Pessoalmente, eu estava vivendo uma oportunidade rara de aprendizado, e tinha consciência de que tudo aquilo traria resultados fundamentais para meu futuro.

Pasta preta embaixo do braço, lapiseira no bolso da camisa, e lá fui eu.

Meu chefe não era um líder qualquer. Sua última experiência fora um projeto similar em outro país, e agora ele assumira a responsabilidade de replicar o investimento numa escala bem maior, porém num ambiente com uma cultura não tão baseada em planejamento de médio e longo prazo como a anterior.

Eu fora escolhido para colocar em prática toda a bagagem de conhecimentos que estava na mente daquela pessoa, que me esperava na sala onde cheguei com passos, como sempre, apressados.

Recebi as explicações necessárias para atendimento de mais uma demanda, e sem mais delongas, voltei ao meu posto de trabalho.

Logo vi que teria dificuldades de atender aos prazos todos, e percebi também que teria algumas escolhas a fazer.

Fiz uma triagem de todas as prioridades do melhor jeito que pude, escolhi aquilo que era mais urgente, e tratei de colocar a mão na massa.

O tempo passou rapidamente, e quando o prazo da tal demanda se esgotou, tratei de entregá-la pessoalmente ao ilustríssimo solicitante.

Nada fora fácil, mas embora eu não contasse com muitos recursos, a lição de casa estava feita.

Cheguei à sua sala, e logo fui convidado a entrar. Sentamos nas cadeiras de uma pequena mesa de reuniões, e então, aconteceu algo que, definitivamente, não estava previsto em minhas expectativas.

Ele ouviu minha explicação, viu o material com seu peculiar detalhamento, ficou com a expressão mais séria que eu já havia visto, olhou para mim aparentemente incrédulo e, levantando-se em direção à sua mesa, emitiu um definitivo parecer:

_ Infelizmente, meu caro, eu não posso receber este material.

Um pouco assustado e surpreendido com sua reação, somente pude perguntar: _ Por que Chefe?

Ele, já sentado à sua mesa e iniciando uma chamada telefônica, olhou para mim e simplesmente disse:

_ Isto não é do seu nível.

Recolhi os cacos de mim mesmo, saí de mansinho e, sem saber o que pensar, voltei à estaca zero.

Tanto estresse, tanta pressão, e tamanho esforço para nada.

Ao final daquela tarde, deixei a empresa com a sensação de que minha casa havia caído.

Mas apesar de abatido, eu sabia que meus trabalhos eram realmente melhores do que aquela porcaria que eu havia entregue, ou melhor, que eu tentara entregar.

Cheguei bem cedo na manhã seguinte, e tratei de refazer tudo a partir do zero. Não precisei mudar radicalmente nada. Somente, me concentrei e cuidei para que o trabalho ficasse como, deveras, deveria ter sido apresentado já na tarde anterior.

Sem perder tempo, voltei ao seu escritório, pedi um minuto, pedi desculpas, e entreguei a nova versão.

Obviamente, ele foi bastante rigoroso em sua reavaliação, mas afinal, sorriu para mim e, com a sua expressão normal, bateu sua mão em meu ombro e falou: _ Pois é, agora sim, isto é do seu nível.

Aquele episódio não foi registrado em minha lembrança como um processo que pudesse ser classificado como agradável. Mas, a partir daquele dia, passei a exigir algo como requisito essencial, não somente em todos os meus trabalhos, mas também em muitas outras coisas de minha vida, e eu estou falando de EXCELÊNCIA.

E caso queiram saber de algo mais: esta mudança valeu completamente a pena.

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