Horizonte

Por Vitor Seravalli

Não tenho certeza quando aquela mudança de rumos aconteceu. Há bem pouco tempo eu havia assumido uma importante posição de liderança na empresa e ainda estava sob o efeito de um processo, onde um natural deslumbre pelo novo cargo se misturava com o peso absurdo da responsabilidade que ele trazia, gerando uma certa confusão em minha mente. Em alguns momentos, experimentava uma sensação inusitada de poder e em outros, bem mais frequentes, a sensação de que eu não seria capaz de enfrentar aquela avalanche de problemas que se acumulava sobre a minha mesa.

De um jeito ou de outro, acertando e errando, às vezes sendo atrapalhado por uns poucos e em outras vezes recebendo o suporte essencial de muitos outros, eu fui me adaptando. Precisaria muito mais que um livro para contar somente uma parcela de tudo o que vivenciei naquela época. Mas tantas novidades em tão pouco tempo abriram meus horizontes e, quanto mais conhecimentos eu adquiria, um imenso e desconhecido mar de oportunidades se colocava à frente de meus ávidos olhos.

Creio que o primeiro sinal para uma dessas oportunidades veio após a leitura de um livro relacionado com a importância dos valores pessoais, escrito pelo consultor americano Hyrum Smith*. Sua mensagem contextualizou minhas inúmeras dúvidas em um cenário estruturado e de fácil compreensão. Pela primeira vez, enxerguei minha vida pessoal e profissional na forma de um projeto e, a partir daquele momento, uma nova visão se delineou em minha mente.

Tudo continuava igual e complexo em meu cotidiano, porém, eu já conseguia distinguir diferenças claras entre o instante presente e algo bem distante no tempo. Lá no horizonte, eu pude ver a mim mesmo, feliz e realizado.

Confesso que as coisas não eram tão cristalinas como eu gostaria, mas eu já não via meu futuro no mundo corporativo. Sem que eu já houvesse experimentado algo parecido antes, eu me via como um empreendedor. Mas como isso poderia ser possível se, até então, meu único projeto empreendedor havia sido desenvolvido nos tempos da universidade e ele se resumia em concluir minha graduação, receber o merecido diploma e conseguir um bom emprego? Lamentavelmente, tratava-se de um projeto pobre e pequeno.

Tenho o atenuante de que no passado não possuíamos tantas informações quanto as disponíveis aos jovens de hoje para discernir entre uma carreira convencional e um projeto empreendedor, todavia, com razão ou sem ela, isso acabou me custando muito caro posteriormente.

Voltando ao ponto de minha transformação pessoal, fiz um planejamento para dez anos no qual o meu objetivo seria uma atuação plena em desenvolvimento humano, algo que se definiu ao longo do tempo como minha grande paixão profissional, com um pilar coadjuvante já bastante consolidado em atividades relacionadas à sustentabilidade empresarial.

Levei tão a sério aquele meu projeto e seu consequente plano de ação, que o tempo previsto para sua implementação caiu surpreendentemente pela metade. Pois é, cinco anos depois, entrei na sala de meu líder e contei a ele sobre minha decisão de partir para um novo caminho.

Reconheço que a receptividade e o apoio da empresa como um todo foram fundamentais para que tudo corresse bem naquela fase de transição. Simples palavras de agradecimento não são suficientes para materializar minha gratidão.

Vale dizer, que a percepção criada pela repercussão natural de minha mudança foi muito mais positiva do que a realidade, mas creio que isso decorreu do brilho que nunca mais deixou meus olhos a partir de então. Até porque, me apaixonei pelo que passei a fazer e, assim, meu trabalho se transformou em uma de minhas principais opções de lazer.

Evidentemente, isso não significou facilidades econômicas perenes. Pelo contrário, as crises que o país viveu e ainda vive são desafios constantes para minha resiliência. Contudo, acordar todas as manhãs com a mesma energia para enfrentar leões e outras feras e dormir à noite, em paz, com a certeza de ter caminhado na construção de um legado baseado em valores com os quais me identifico, tudo isso não tem preço. Assim, somente tenho ótimos motivos para continuar, não é mesmo?

Por falar nisso, ainda que mal lhe pergunte, qual é mesmo o seu projeto pessoal ou profissional?

* O que mais importa – A importância de viver seus valores – Hyrum Smith /  Consultoria Franklin Covey

Fonte imagem: arquivo pessoal

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