Feedback e o equilíbrio

Por Vitor Seravalli

Feedback e equilíbrio

Após um período de muitas turbulências decorrentes de uma completa falta de organização em uma das áreas mais estratégicas que estavam sob minha responsabilidade, vivíamos agora um período onde os indicadores eram bons.

Inicialmente, eu tentara estruturar as coisas com as próprias mãos, mas minha carga não estava somente ali, e uma recuperação da confiança e dos resultados da equipe necessitava de uma gestão bem mais focada e plena.

Eu possuía alguns bons desafios, a começar pelo desenvolvimento de uma argumentação consistente, que justificasse o investimento em um nível de liderança mais alto para alavancar uma ampla mudança no departamento. Um segundo desafio, se tudo desse certo em relação ao primeiro, seria encontrar um perfil profissional adequado para a difícil tarefa. E o terceiro, não menos importante, seria dar ao novo gerente os recursos necessários para que ele liderasse o processo como um todo.

Mas, enfim, tudo havia corrido bem. Os resultados gerais da área eram ótimos, bem como os seus impactos refletidos em toda a empresa.

Muito trabalho e dedicação de todos, em sinergia com um importante suporte corporativo, explicavam grande parte do sucesso. Porém, havia um reconhecimento formal a ser feito, e ele estava direcionado ao talentoso líder que agora se destacava em meu time. Ele liderara a mudança e tinha méritos claros pelo sucesso alcançado.

Justamente por isso, busquei uma preparação primorosa para o encontro que teríamos para a sua avaliação de desempenho anual, e ele merecia algo acima da média. Aliás, esta não era somente a minha opinião.

Limpei a agenda, e reservei tempo suficiente para uma boa conversa, que não somente estava repleta de elogios, mas também definiria um plano de carreira coerente com um profissional de tão alto potencial.

Quando ele chegou, notei algo inusitado. Vestia um terno impecável, usava uma bela gravata, e imagino que até seus cabelos haviam recebido algum cuidado especial para a ocasião. Embora cuidasse da aparência, aquilo não era seu comportamento normal.

Apesar disso, fiz uma brincadeira qualquer, e pedi que entrasse e se sentasse.

O que aconteceu em seguida, surpreendeu até mesmo minha assistente, que ainda se acostumava com aquele visual cerimonioso.

Eu ainda me ajeitava para iniciar a falar, quando ele se antecipou.

De uma forma rigorosamente ensaiada, sem interrupções, e com uma voz empostada e cheia de palavras complexas, o rapaz disparou um monólogo que imaginei ser uma tentativa de autoavaliação, mas que não tinha o menor sentido àquela altura.

Deixei que ele descarregasse um pouco de sua ansiedade, e num determinado momento o interrompi. Não me lembro se fui educado o suficiente, mas aquilo não poderia continuar daquela forma.

Ele levou um susto, mas evidentemente percebeu que tudo o que deveria fazer naquele momento, era unicamente escutar. E se quisesse mesmo falar, seria somente para esclarecer algo que não houvesse compreendido. Afinal, feedback é isso, e ele não parecia não saber.

E o que seria uma sessão de elogios, sofreu uma adaptação providencial.

Sim, eu continuava em frente a um excelente profissional com um perfil de competências absolutamente diferenciado, mas que não necessariamente se encontrava em equilíbrio.

Meu valioso colaborador era possuidor de algumas competências, cuja avaliação numa escala de zero a dez, dava a ele uma nota entre onze e doze. Algo inimaginável.

Uma vez, ele me confidenciou que gostava de observar detalhadamente as minhas melhores performances, e também os bons desempenhos de nosso chefe comum, para em seguida praticar, e pasmem, quase sempre ele conseguia nos superar a ambos. Tudo isso ele contava com total naturalidade, sem qualquer traço de arrogância, mas com extrema convicção. Para ser sincero, ele não mentia. Era bom mesmo.

Contudo, ele também tinha alguns problemas, e eles residiam numa outra perspectiva.

Meu destacado gerente, quando avaliado em algumas outras competências também importantes, na mesma escala de avaliação, de zero a dez, levava notas negativas.

Inacreditável, mas era isso mesmo o que acontecia em um mesmo profissional.

Em resumo, a sessão de feedback tomou seu rumo normal. Todos os seus aspectos positivos e também os pontos de melhoria foram pontuados. E uma das pessoas mais especiais com quem pude trabalhar durante toda a minha carreira seguiu seu caminho como deveria acontecer.

Em pouco tempo, ele conseguiu uma mudança de atividade numa outra área que julgou ser de maior importância, mas não se adaptou, e acabou sendo demitido.

Apesar de sua inteligência e de seu potencial, ninguém se surpreendeu.

Algum tempo depois, o encontrei numa cerimônia de premiação corporativa, onde ele representava sua nova empresa como um executivo de alto nível.

Ele estava muito feliz, e fazia questão de demonstrar isso para mim a cada momento.

Duas coisas chamaram a minha atenção. A primeira delas é que seus olhos pareciam ter compreendido a importância do equilíbrio até mesmo na dosagem de coisas boas como talentos e competências. E a segunda estava naquele elegante terno, agora escolhido para momento certo e muito mais adequado.

E mais duas lições foram aprendidas por mim numa mesma história:

Dar e receber feedback é a arte da sensibilidade. E cuidar para o desenvolvimento de um perfil de competências temperado pelo equilíbrio é pura sabedoria.

 

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