Coração

Coração 1

 

Por Vitor Seravalli

As coisas estavam muito corridas. Por isso pedi para que, pelo menos por algum tempo, eu não fosse interrompido. Precisava despachar várias coisas, e com o telefone tocando a toda hora, isso seria impossível. Fechei a porta e foquei as pendências.

Mas nem cinco minutos haviam passado, quando minha assistente entrou com expressão assustada e, já pedindo desculpas antecipadas, falou:

_Eu sei que não deveria interromper, mas há uma pessoa ao telefone, e disse que é muito urgente.

Bom, eu queria me concentrar e não queria interrupções, mas se era urgente, pedi que transferisse imediatamente a ligação.

Uma voz aflita foi diretamente ao assunto. Era uma assistente social da empresa e dizia com ansiedade que um funcionário estava em cirurgia num hospital da cidade, e precisava que um pequeno instrumento fosse instalado em seu corpo, para que seu coração não parasse. Tal instrumento tinha um valor alto, e que não estava incluído em seu plano de saúde. Eles tinham somente duas possibilidades. Uma delas era instalar o instrumento como uma exceção, totalmente fora das regras da empresa. Na outra, os médicos tentariam uma solução alternativa, com algum risco de vida para o funcionário.

Como tratava-se de um colaborador que pertencia à minha equipe, somente eu poderia autorizar a alternativa mais segura.

Obviamente, qualquer pessoa teria o mesmo impulso que tive em liberar imediatamente a instalação.

Porém, a pessoa do outro lado da linha foi logo avisando, que, se fizesse isso, poderia ter problemas posteriores, pois seria criado um paradigma para outras situações que viessem ocorrer no futuro.

Essas coisas sem qualquer nexo acontecem nas grandes empresas, quando as regras ao invés de ajudarem, imobilizam os tomadores de decisão.

Mas ali, naquele momento, segui a mais primária de minhas intuições. Interrompi a funcionária que seguia colocando barreiras, e sumariamente assumi a responsabilidade pelo caminho da vida.

Quando desliguei o telefone, sabia que não poderia ser outra a minha decisão, mas também tinha noção de que poderia ser cobrado, caso isso se tornasse uma vulnerabilidade para a empresa. Contraditório, mas possível.

Alguns dias depois, o tema já havia sido levado à uma instância superior. Fui chamado, e meu líder na época quis saber detalhes sobre a minha decisão.

Vale dizer, que por outros motivos, eu não vivia uma boa fase em relação à sua percepção sobre meu trabalho.

Ao ser questionado, senti que aquela conversa possuía boas chances de não ter um bom final.

Contudo, descrevi exatamente como tudo se sucedera. Ao final, deixei claro que havia decidido com convicção, e que se aquilo se repetisse, faria o mesmo. Terminei e esperei.

Ele me olhou por cima de seus óculos, aliás que poucas vezes utilizava. Fez uma pausa enigmática. E seu comentário, foi somente uma frase:

_ Rapaz! Ai de você se tivesse tomado uma decisão diferente da que tomou. Mas, e o funcionário? Como está agora?

Respondi que após a cirurgia, ele já estava se recuperando em casa, e em breve voltaria ao seu trabalho.

O chefe balançou a cabeça positivamente, e mudou de assunto.

Internamente, aquilo me fez muito bem. Eu ganhara uma enorme dose de energia para seguir o bom caminho para tornar-me um líder melhor.

Hoje, tenho total consciência que qualquer um faria o mesmo que eu fiz, mas para mim, naquele dia, foi fundamental descobrir o valor de minha intuição, e perceber a importância dos processos de decisão.

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