Comunicação

Por Vitor Seravalli

O toque do telefone àquela hora da tarde indicava algo não previsto em minha agenda. Afinal, o dia fora carregado o suficiente de problemas comuns, reuniões intermináveis e eu já estava concentrado no planejamento do dia seguinte. Atendi diretamente e Letícia, nossa competente assessora de imprensa, com uma voz suave demais e com certa hesitação perguntou-me se eu poderia participar de um programa de televisão regional ainda naquela noite.

Até então, em minhas atividades como gestor industrial, eu nunca estivera envolvido em algo similar. Às vezes, uma entrevista para o jornal da região, outras intervenções nos veículos de comunicação internos da empresa, mas uma aparição na TV seria grande novidade para mim.

Assim, embora estivesse cansado, aceitei o convite. O programa se iniciaria às nove horas da noite no Canal UHF 45, no município vizinho de onde nossa fábrica se situava.

Seguimos para o local com algum tempo de sobra para que ela pudesse me orientar sobre o programa que se chamava ABC Brasil, no qual eu e mais três profissionais da região seríamos entrevistados por seu apresentador.

Confessei a Letícia que eu nunca havia assistido um programa sequer daquela emissora e, sem que pudesse evitar, perguntei o que ela pretendia de fato ao me fazer participar de uma intervenção que ninguém no universo iria assistir. Perguntei com respeitosa dúvida, pois eu sabia das qualidades e da seriedade de minha colega.

Com toda a paciência do mundo, ela começou dizendo que, apesar de meu desconhecimento, o canal tinha boa audiência regional e que seria uma ótima oportunidade para apresentarmos algo sobre a empresa para um público relevante e que incluía a comunidade de seu entorno.

Em seguida, foi direta, e disse que seria também um treinamento de comunicação em uma situação real. Eu poderia experimentar um ambiente de exposição praticamente sem riscos e, segundo ela, isso poderia ser muito importante para mim no futuro. Concordei com Letícia e comecei a gostar da ideia de estar ao vivo na televisão, mesmo que ninguém estivesse assistindo.

Apesar de todas as evidências, eu ainda continuava incrédulo.

A princípio, imaginei que minha intervenção fosse curta e rápida, mas como havia mais participantes, aliás muito bons, acabei permanecendo no ar por quase duas horas. Incrivelmente, conheci pessoas que se tornaram companheiros de muitas jornadas até os dias atuais e, no final das contas, tudo foi extremamente positivo.

Sei que errei muito, mas acertei também, e Letícia fez questão de registrar tudo com comentários extremamente profissionais e didáticos enquanto tomávamos o caminho de volta.

Cheguei em casa e constatei que, pelo menos em algum lugar, a TV estava sintonizada no tal canal 45.

No dia seguinte, várias pessoas contaram que haviam assistido a entrevista. Fiquei surpreso, mas logo me explicaram que estavam em suas casas curtindo a programação televisiva e, quando mudavam de canal, davam de cara comigo falando e aí passavam a me acompanhar.

Gostei da experiencia e decidi buscar novas participações também em outras mídias, além de investir um pouco mais na elaboração de textos e rascunhos de artigos. Enfim, percebi que se eu desenvolvesse alguma competência em comunicação, isso poderia me ajudar, e muito, em minhas atividades.

Graças ao convite e aos bons argumentos de minha valiosa colega, percebi em boa hora a importância que aquele simples exercício significou para mim.

Não vou me aprofundar no detalhamento das inúmeras situações onde fui radicalmente exigido posteriormente, exatamente nos atributos que adquiri praticando a comunicação corporativa em momentos que não possuíam qualquer impacto.

Em algumas dessas situações específicas e bastante críticas, eu sabia que estava com a reputação da própria empresa em minhas mãos e, felizmente, não me lembro de ter decepcionado. Obviamente, tive sempre a sorte e o privilégio de estar muito bem assessorado, mas a valorização da empatia e simpatia com meus interlocutores, a opção deliberada por uma preparação sempre séria e meticulosa e uma certa capacidade de mentalização antes das intervenções, foram fatores de sucesso inquestionáveis para a carreira que pude construir.

Agora peço licença, pois quero compartilhar imediatamente este texto que acabo de escrever. Não estou certo se ele tem a qualidade que eu gostaria que realmente tivesse, mas acredito que sua mensagem com doses adequadas de transparência, credibilidade, ética, assertividade e simplicidade poderão ser úteis para todos aqueles que, assim como eu, valorizam os caminhos da liderança.

Fonte imagem: http://toquedeareia.com.br

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