Cinquenta anos

Por Vitor Seravalli

Pois é. Completei cinquenta anos de idade.

Nada de festa de arromba. Nada de muito barulho. Sem grandes manchetes nos jornais.

Mas, com uma paz muito mais valiosa que os diversos presentes que eu poderia receber.

É também importante salientar que meus tesouros estavam todos muito próximos. E se perdi alguns deles pelo caminho, me tranquiliza e me acalma percebê-los vivos em meu coração.

O fato é que minha opção pela comemoração mais tranquila foi a mais adequada ao momento que vivo agora.

Não posso dizer que me sinto em velocidade moderada ao chegar nos cinquenta. Pelo contrário. Vejo que agora até tenho que lutar e correr ainda mais pelos meus objetivos. Porém, parece que consigo seguir em frente rumo à minha visão, com um recurso surpreendentemente valioso, algo que nunca julguei possuir. Sinto-me dividido entre uma parte que segue os passos no chão de modo às vezes até aparentemente desordenado, e outra parte que vai olhando mais longe, como se estivesse sobrevoando os caminhos que talvez eu venha a percorrer.

Muitos exércitos poderosos já perderam guerras fáceis, mas hoje devo admitir que a experiência acumulada, o aprendizado incorporado por incontáveis erros, me dão certa tranquilidade e um certo equilíbrio para seguir.

Contudo, não quero falar sobre isso agora. Precisaria de muitos livros (quem sabe eu ainda os escreva) para compartilhar isso com meu leitor.

Vou continuar um pouco mais sobre o dia do meu aniversário.

Logo pela manhã, mudei os parâmetros de minha balança no banheiro. Tenho uma daquelas modernas que, além de nos mostrar quantos quilogramas temos, o que às vezes incomoda, ela também mede composição corporal, taxa de gordura, etc. E, para isso, é necessário informar a idade. Mudei o número de quarenta e nove para cinquenta. Olhei para os dígitos, olhei para o espelho, e imediatamente veio a lembrança do ano anterior.

Fazendo a mesma coisa, há um ano atrás, tive naquele momento uma sensação de vazio que parecia indicar a proximidade de uma mudança dupla de dígitos que ocorreria no ano seguinte. Acho que me senti velho, e agora vejo o quanto fui tolo.

Dessa vez algo mudou. Ainda tenho os mesmos cinquenta que deram o título a essa crônica, mas o espírito, a vontade, a energia, e arrisco até a incluir um pouco sobre o corpo; todos se sentem com muito menos.

Nesse dia, muitos amigos entraram em contato pessoalmente, por telefone, por e-mail, do jeitinho que eu esperava e torcia que fizessem. Alguns novos amigos, os desconhecidos amigos, os surpreendentes amigos, e os queridos amigos, muitos deles foram ocupando saborosamente os momentos em que desfrutei essa data tão significativa.

Admito que pensei também naquelas pessoas que por algum motivo não me contataram nem por pensamento. Algumas marcaram enorme presença em meu dia por sua inesperada ausência. Mas, por decreto, decidi que isso não me entristeceria. Certamente tiveram coisas mais importantes a fazer, problemas, dificuldades, simples esquecimentos. Sabemos como são essas coisas. E nem precisei decretar que as continuei amando do mesmo jeito que antes.

Cortar bolo, cantar parabéns, ganhar lembranças, soprar velinhas, enfim tudo foi permitido.

Poderia terminar enaltecendo as pequenas e importantes coisas que conquistei nesse microscópico segmento de eternidade onde, graças ao anjo que me acompanha por intermédio de Deus, pude plenamente viver. Em vez disso, quero singela e humildemente, assumir que completar cinquenta anos de idade foi muito bom. Foi como um preâmbulo de tudo o que ainda quero poder viver, pelo menos enquanto eu ainda for uma criança.

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