Posts da categoria: Reflexões

O bem e o mal

Por Vitor Seravalli

Há um lado de mim que não sabe o que é a generosidade, que não perdoa e que não demonstra sequer a mínima empatia. Por isso, não o reconheço. Aliás, vou mais adiante e digo que já o neguei por inúmeras vezes. Porém, quando menos espero, vejo-me pensando, agindo e falando através dele.

Em alguns momentos, tive a certeza de tê-lo dizimado de mim. Pouco tempo depois, notei-me ainda mais arrogante, insensível e, paradoxalmente, frágil e susceptível sem ele. Fui surpreendido por minhas certezas e, por completa ausência de referências, cometi erros displicentes, típicos de pessoas que não sabem o que podem perder, e perdem.

Após tanto tempo fugindo de mim mesmo, aprendi que esse lado aparentemente negativo, contraditório e, indesejado de mim, é o contraponto que me faz usar a plenitude de meus valores para avaliar, discernir e escolher entre o certo e o errado, os quais sempre são oferecidos como opções em minha vida cheia de dúvidas.

Com isso, descobri que não sou o bom rapaz que imaginava ser. A princípio, isso me frustra um pouco, mas logo esse choque de realidades faz com que eu me sinta mais leve, mais aberto para melhorar a pessoa imperfeita e real que eu nunca quis ser, mas sou.

Há pessoas que simplesmente escolhem o lado que buscavam rejeitar. Mas, aderir ao lado negro da força, como mostra o vilão Darth Vader em STAR WARS, mostra-se a pior de todas as alternativas com o passar do tempo. E então, a melhor das saídas é mesmo aprender a conviver com o bem e o mal em uma mesma dimensão, aprendendo em cada situação a lidar com aquilo que nunca nos abandona, o dilema.

Aliás, uma das principais habilidades dos líderes plenos, que entendem a importância de seu papel na construção do desenvolvimento sustentável, é a coragem e inteligência para enfrentar dilemas. Quanto maior seu nível de responsabilidades em uma organização, muito maior será a quantidade e a complexidade desses dilemas.

Sem negar, mas tampouco polarizando em qualquer dessas duas perspectivas individuais tão antagônicas, sigo minha vida tendo sempre as opções de escolher entre o que parece ser o mais correto, mas mais difícil, e o incorreto, normalmente mais fácil. Sempre, haverá o risco do erro, mas nunca deverei priorizar a omissão em detrimento da responsabilidade.

Meus valores serão a fundamental referência ética para minhas escolhas, e o livre arbítrio será sempre o meu maior poder. Fácil, definitivamente, não é. Mas por enquanto, tudo corre bem.

E por aí? Tudo bem também?

Fonte imagem: Wikimedia Commons

Sabedoria

Por Vitor Seravalli

Como sempre, eu seguia apressado e, enquanto cruzava a mesma grande praça de todos os dias, não via os sinais do início daquela primavera. Aliás, eu estava em uma fase de minha vida em que notava poucas coisas e, mesmo assim, de modo vago. Fazia, ou pensava que fazia, várias coisas ao mesmo tempo. Por isso, não sobrava tempo para ver as flores, o nascer do sol e, tampouco, as estrelas. Pensando bem, eu nem mesmo prestava muita atenção nas pessoas importantes de minha vida. De qualquer modo, eu levava comigo todas as justificativas, caso alguma delas, tão carentes, pedisse que eu a escutasse de modo ativo. Se elas soubessem de meus problemas, não seriam tão exigentes comigo.

Eu agia como se estivesse compenetrado, mas de fato eu estava completamente disperso. Por isso, quase não percebi quando um senhor bastante idoso, mas jovial e elegante, me chamou. Perguntou as horas e fez menção de pedir alguma informação. Eu quase fingi que não o vi, pois seguia para um compromisso importante e, como de costume, estava atrasado. Mas, enfim, parei e, olhando meu relógio, disse que eram três e meia. O velhinho agradeceu. Ia fazer uma pergunta específica, mas notou minha impaciência e decidiu deixar-me ir, mesmo sem perguntar.

Ao notar sua reação, interrompi a caminhada e me aproximei dele. Sua expressão de reprovação pela minha desnecessária pressa incomodou-me de alguma forma. Apesar de sua opinião não significar nada para mim, notei algo forte em seu olhar e quis saber um pouco mais sobre ele.

O velhinho sorriu e pediu para que eu me sentasse ao seu lado. Hesitei, pois como disse antes, estava com pressa. Contudo, minha intuição fez com que eu me acalmasse e, por algum motivo desconhecido, me acomodei. Aquele homem possuía um olhar sereno e sua expressão transmitia uma estranha e positiva energia, da qual meu corpo não conseguiu se furtar. Puxei conversa e, logo ele começou a falar.

Inicialmente, quis saber sobre mim. Pediu que eu lhe contasse sobre coisas vagas, como por exemplo, minhas aflições, preocupações, angústias, dúvidas, enfim, ele queria compreender a óbvia relação entre meus passos tão acelerados e meus problemas. Vi uma desconfortável ingenuidade em suas perguntas, mas apesar de meu atraso iminente, não consegui mais deixá-lo. Pelo contrário, comecei a descrever minha rotina como se quisesse iluminar o enorme contraste que existia entre nós dois. Ele me escutava com atenção e seus olhos reagiam sem surpresa às minhas caras e bocas. No fundo, eu tinha o objetivo de impressioná-lo, mas ele já parecia saber de tudo, antes de minhas palavras.

À medida que ia descrevendo minhas dificuldades, vivia a sensação de retirar um enorme peso de minhas costas. Nunca alguém se dera ao trabalho de me ouvir daquela forma tão plena. E eu nunca imaginei ser capaz de me despir da armadura inútil, que me transformava em alguém muito diferente do que eu queria ser.

Quando terminei meu surpreendente e absurdo relato, olhei para seu rosto e vi que ele havia acreditado em mim, como se estivesse revivendo algo que fizera parte de sua própria experiência pessoal em um passado distante.

Fiquei à espera de um feedback, mas antes ele ainda perguntou sobre meus sonhos e sobre minha família. Quis também conhecer minha visão pessoal e meus objetivos de longo prazo. Por último, perguntou-me a respeito de meu entendimento sobre a vida. Definitivamente, eu o compreendia cada vez menos e não tinha a menor ideia de onde ele queria chegar.

Falou-me sobre incoerência de construirmos muros, quando deveríamos construir pontes em relação aos nossos relacionamentos. Contou sobre a importância de perdoarmos as pessoas que nos machucam, sem levar ressentimentos ou qualquer rancor. Recomendou a escolha perene pelo amor em detrimento do ódio. Mostrou-me todas as vantagens de usarmos o tempo a nosso favor, para fazermos as coisas que realmente nos importam. E entre outras sábias lições, sugeriu sempre a preferência de primeiro escutar, depois falar.

Quando terminou, o adorável velhinho ficou pensativo. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e suas mãos apoiaram seu queixo, enquanto ele olhava o horizonte como se estivesse buscando alguma coisa muito importante ao alcance de seus olhos. Eu o observava atento e nem me lembrava mais de meu compromisso.

Diversos pensamentos vinham à minha mente refletindo tudo o que deveria ter sido feito e não foi, as lições que deveriam ter sido aprendidas e incorporadas à minha forma de escolher, de decidir e de viver minha própria vida. Não sei o porquê, mas aparentemente tudo estava escondido em algum lugar secreto e inatingível dentro de mim, e agora se tornava tão claro, tão nítido aos meus olhos.

Algum tempo depois, tomei consciência do óbvio. Não havia nenhum velhinho. Eu mesmo estava sentado sozinho em um banco daquela praça, na mesma posição que imaginei a personificação do pouco de sabedoria que incorporei durante a vida, naquele sábio ancião.

Sempre soube que a sabedoria é algo que quanto mais buscamos, mais parece se distanciar de nós. Todavia, se quisermos liderar nossas vidas, nossos projetos pessoais e profissionais, e decidirmos assumir o papel de um eficaz agente de mudanças em prol de um mundo melhor e mais sustentável, não poderemos abrir mão de nada do que vida já nos tenha ensinado.  Isto significará assumir o compromisso de sermos, no presente, a melhor versão da pessoa que podemos vir a ser.

Levantei-me e segui meu caminho sentindo-me uma nova pessoa. É verdade que não houve qualquer metamorfose. Meus problemas e minhas falhas ainda permaneciam comigo. Mas um novo entendimento sobre sabedoria, essência de minha singela reflexão, nunca mais me abandonou.

Ainda bem!

fonte imagem: http://acibel.com.br

Horizonte

Por Vitor Seravalli

Não tenho certeza quando aquela mudança de rumos aconteceu. Há bem pouco tempo eu havia assumido uma importante posição de liderança na empresa e ainda estava sob o efeito de um processo, onde um natural deslumbre pelo novo cargo se misturava com o peso absurdo da responsabilidade que ele trazia, gerando uma certa confusão em minha mente. Em alguns momentos, experimentava uma sensação inusitada de poder e em outros, bem mais frequentes, a sensação de que eu não seria capaz de enfrentar aquela avalanche de problemas que se acumulava sobre a minha mesa.

De um jeito ou de outro, acertando e errando, às vezes sendo atrapalhado por uns poucos e em outras vezes recebendo o suporte essencial de muitos outros, eu fui me adaptando. Precisaria muito mais que um livro para contar somente uma parcela de tudo o que vivenciei naquela época. Mas tantas novidades em tão pouco tempo abriram meus horizontes e, quanto mais conhecimentos eu adquiria, um imenso e desconhecido mar de oportunidades se colocava à frente de meus ávidos olhos.

Creio que o primeiro sinal para uma dessas oportunidades veio após a leitura de um livro relacionado com a importância dos valores pessoais, escrito pelo consultor americano Hyrum Smith*. Sua mensagem contextualizou minhas inúmeras dúvidas em um cenário estruturado e de fácil compreensão. Pela primeira vez, enxerguei minha vida pessoal e profissional na forma de um projeto e, a partir daquele momento, uma nova visão se delineou em minha mente.

Tudo continuava igual e complexo em meu cotidiano, porém, eu já conseguia distinguir diferenças claras entre o instante presente e algo bem distante no tempo. Lá no horizonte, eu pude ver a mim mesmo, feliz e realizado.

Confesso que as coisas não eram tão cristalinas como eu gostaria, mas eu já não via meu futuro no mundo corporativo. Sem que eu já houvesse experimentado algo parecido antes, eu me via como um empreendedor. Mas como isso poderia ser possível se, até então, meu único projeto empreendedor havia sido desenvolvido nos tempos da universidade e ele se resumia em concluir minha graduação, receber o merecido diploma e conseguir um bom emprego? Lamentavelmente, tratava-se de um projeto pobre e pequeno.

Tenho o atenuante de que no passado não possuíamos tantas informações quanto as disponíveis aos jovens de hoje para discernir entre uma carreira convencional e um projeto empreendedor, todavia, com razão ou sem ela, isso acabou me custando muito caro posteriormente.

Voltando ao ponto de minha transformação pessoal, fiz um planejamento para dez anos no qual o meu objetivo seria uma atuação plena em desenvolvimento humano, algo que se definiu ao longo do tempo como minha grande paixão profissional, com um pilar coadjuvante já bastante consolidado em atividades relacionadas à sustentabilidade empresarial.

Levei tão a sério aquele meu projeto e seu consequente plano de ação, que o tempo previsto para sua implementação caiu surpreendentemente pela metade. Pois é, cinco anos depois, entrei na sala de meu líder e contei a ele sobre minha decisão de partir para um novo caminho.

Reconheço que a receptividade e o apoio da empresa como um todo foram fundamentais para que tudo corresse bem naquela fase de transição. Simples palavras de agradecimento não são suficientes para materializar minha gratidão.

Vale dizer, que a percepção criada pela repercussão natural de minha mudança foi muito mais positiva do que a realidade, mas creio que isso decorreu do brilho que nunca mais deixou meus olhos a partir de então. Até porque, me apaixonei pelo que passei a fazer e, assim, meu trabalho se transformou em uma de minhas principais opções de lazer.

Evidentemente, isso não significou facilidades econômicas perenes. Pelo contrário, as crises que o país viveu e ainda vive são desafios constantes para minha resiliência. Contudo, acordar todas as manhãs com a mesma energia para enfrentar leões e outras feras e dormir à noite, em paz, com a certeza de ter caminhado na construção de um legado baseado em valores com os quais me identifico, tudo isso não tem preço. Assim, somente tenho ótimos motivos para continuar, não é mesmo?

Por falar nisso, ainda que mal lhe pergunte, qual é mesmo o seu projeto pessoal ou profissional?

* O que mais importa – A importância de viver seus valores – Hyrum Smith /  Consultoria Franklin Covey

Fonte imagem: arquivo pessoal

Webinar: Desafios da Construção Sustentável & ODS

A Seravalli, em parceria com a StraubJunqueira, fará um Webinar sobre os desafios da construção sustentável e os ODS.

O webinar será no dia 12/07, às 14h.

Faça sua inscrição e garanta já a sua presença! Próximo ao evento você irá receber no e-mail cadastrado o link de acesso ao vivo. A palestra tem duração prevista de 45min e mais uma rodada de perguntas de 15min.

Incrições em: goo.gl/V5vzFQ

 

Procrastinação

Por Vitor Seravalli

“Usar de delongas”. Este foi o significado mais exótico que encontrei em dicionários para esta palavra que está presente na vida de muitos de nós, o verbo “procrastinar”.

Ela não pede para entrar. Nós mesmos a convidamos a incorporar nossos hábitos, ou seriam vícios, pela porta da frente.

E o momento mais propício a este imprudente convite é normalmente aquele que nos pede concentração para tarefas importantes, mas que por diversos motivos, são indesejáveis.

Ou porque envolvem atividades chatas mesmo, ou porque não dominamos o assunto em questão, ou porque não há uma gratificação imediata pela sua conclusão, enfim, a procrastinação é a resposta imediata e espontânea à nossa baixa determinação em executar coisas que parecem querer nos desgastar de alguma forma.

Assim, nos dispersamos e inexplicavelmente, ou propositalmente, as colocamos em segundo plano, e mergulhamos em algo muito mais agradável, de menor prioridade, ou pior ainda, inútil.

Evidentemente, não me excluo deste problema que criamos para nós mesmos,

E esta reflexão se evidencia como resultado de uma discussão imaginária recorrente, que ainda travo com minha imagem refletida no espelho, mesmo com a evolução que já logrei conquistar com tantas experiências vividas.

Desde os tempos escolares, sempre fui bom em estudar na véspera das provas. Cheguei a transferir know-how a alguns de meus colegas, tamanha era a competência em ir bem nos testes mesmo não tendo priorizado, como poderia, os estudos no tempo certo e adequado. Atravessei várias e várias noites sem dormir e, com uma inacreditável capacidade de mentalização e uso otimizado de energia física residual, alcancei a nota que precisava em diversas ocasiões.

Em outras vezes, liderei projetos com resultados finais admiráveis, mas que foram alcançados graças a uma surpreendentemente eficácia no curto período que antecedia o prazo final.

Então, se isto ocorre também com outras pessoas, por que deveríamos mudar nosso comportamento? Por que deixar de procrastinar, se no final das contas, tudo acaba bem?

Hoje, consigo articular melhor uma resposta honesta para esta pergunta tão desafiadora, e ela se baseia em algo muito simples.

Um dia desses me contaram sobre um lado extremamente positivo dos procrastinadores, com o qual concordo plenamente, que é a confiança.

Quem tem autoconfiança, sabe que pode procrastinar. Ou seja, aqueles que tem competência sabem que, mesmo nos minutos finais de seus prazos, conseguirão dar conta de seu trabalho.

O problema está no estresse e no consequente desgaste que a ansiedade e pressão pela urgência e atrasos gerados nos causam, justamente enquanto deixamos o mais importante para depois.

Lembro-me de um dia em que eu tinha duas coisas para fazer. Uma delas era um trabalho fundamental, tão difícil quanto desagradável. E a outra era um passeio a um lugar bonito e em boa companhia.

Nem preciso dizer que fiz a escolha mais fácil.

Quando voltei, não houve outro jeito, tive que priorizar o tal trabalho e, obviamente, foi muito difícil vencer o desafio de conclui-lo a tempo e com a qualidade exigida.

O ponto chave é que, em nenhum momento durante o passeio, eu pude me esquecer da pendência que ficara sobre minha mesa. Foi bom, mas não foi pleno. E depois, na volta, manter o foco e a concentração no trabalho foi algo bastante difícil. Parecia uma espécie de punição por ter tomado o atalho incorreto.

Desde o dia em que isso aconteceu, nunca mais consegui me entregar a uma fuga que me afastasse da minha tarefa definida. E se ainda não assumo formalmente a mudança que aconteceu em minha atitude, é para a procrastinação não perceber que, a qualquer momento, eu ainda posso me distrair e ter uma inesperada e indesejável recaída.

Até rimou. Alguém duvida?

Emoção e razão

Razao e Emoção 2

Por Vitor Seravalli

Quando observamos as pessoas em ambientes de trabalho, logo notamos que seus relacionamentos muitas vezes não diferenciam a convivência profissional e o lado pessoal de suas vidas.

Chega até a ser bem comum encontrarmos inúmeros casais que trabalham juntos, se enamoram e, posteriormente, se casam.

Da mesma forma, há milhares de colegas de trabalho que se completam como amigos inseparáveis, mesmo após o encerramento da jornada diária. Chegam a morar numa mesma casa, viajam juntos, enfim, estabelecem alianças muito mais fortes do que seria um contato estritamente profissional.

Mesmo que mudem de empresa, seus relacionamentos resistem e, não raro, ficam mais fortes, ainda que com menor convivência.

Durante minha carreira, conheci ótimos colegas que se tornaram pessoas muito caras para mim. Com alguns deles, ainda mantenho contato mesmo longo tempo após o fim do vínculo profissional. E isso é muito bom.

Por outro lado, nossa percepção muda quando olhamos para o cotidiano dessas relações, onde as pessoas não estão mais no foco da análise, mas sim as interações de trabalho entre elas, os dilemas e as discussões para solução de seus problemas.

Sob esta perspectiva, a minha experiência pessoal escancara algo que considero um de meus maiores aprendizados.

Em minha opinião, quando estamos falando de questões de trabalho, a razão não deve conviver com a emoção. Aliás, não me lembro de uma única vez em toda a minha vida em que decisões profissionais influenciadas por fortes emoções prevaleceram sem deixar sequelas ou marcas negativas.

Lembro-me de algumas situações em que presenciei ótimos profissionais jogarem seu emprego fora, graças ao desequilíbrio proporcionado por um momento de fúria. Deveriam ter contado até dez, mas pularam esta etapa.

Outras vezes, uma inexplicável insegurança, ou mesmo uma indesejável ansiedade, percebidas como descontrole pessoal, puseram tudo a perder em situações onde sobravam competências técnicas.

Uma necessária demissão que tenha sido evitada por sentimentos de compaixão, ou mesmo aqueles profissionais que se sobrecarregam e erram por não conseguirem dizer “não”, somente para não magoarem seus superiores ou mesmo pares, ou seja, estes são apenas alguns exemplos que deveriam nos fazer pensar e agir do modo mais racional possível, pelo menos enquanto estivermos no exercício profissional, para o bem de todos.

Isto não significa que as pessoas tenham que ser frias como pedra. Pelo contrário, empatia e sensibilidade em dose certa são fatores de sucesso dos líderes e suas equipes bem-sucedidas e de alta performance.

Prova disso é que ambientes de trabalho com clima organizacional em harmonia são, geralmente, são liderados por pessoas, cujos comportamentos são baseados em respeito e maior valor humano, e suas atitudes, escolhas e decisões ocorrem com pleno uso da inteligência emocional.

No final das contas, precisamos tanto da razão quanto da emoção. Sem emoção, nossa vida não tem a menor graça e sem a razão, ela não consegue o mínimo equilíbrio.

No trabalho, a razão nos dá o bom senso, um certo controle e, ainda, um necessário nível de previsibilidade. E, com eles, alcançamos os resultados para comemorarmos depois, com muita emoção.

Cinquenta anos

Por Vitor Seravalli

Pois é. Completei cinquenta anos de idade.

Nada de festa de arromba. Nada de muito barulho. Sem grandes manchetes nos jornais.

Mas, com uma paz muito mais valiosa que os diversos presentes que eu poderia receber.

É também importante salientar que meus tesouros estavam todos muito próximos. E se perdi alguns deles pelo caminho, me tranquiliza e me acalma percebê-los vivos em meu coração.

O fato é que minha opção pela comemoração mais tranquila foi a mais adequada ao momento que vivo agora.

Não posso dizer que me sinto em velocidade moderada ao chegar nos cinquenta. Pelo contrário. Vejo que agora até tenho que lutar e correr ainda mais pelos meus objetivos. Porém, parece que consigo seguir em frente rumo à minha visão, com um recurso surpreendentemente valioso, algo que nunca julguei possuir. Sinto-me dividido entre uma parte que segue os passos no chão de modo às vezes até aparentemente desordenado, e outra parte que vai olhando mais longe, como se estivesse sobrevoando os caminhos que talvez eu venha a percorrer.

Muitos exércitos poderosos já perderam guerras fáceis, mas hoje devo admitir que a experiência acumulada, o aprendizado incorporado por incontáveis erros, me dão certa tranquilidade e um certo equilíbrio para seguir.

Contudo, não quero falar sobre isso agora. Precisaria de muitos livros (quem sabe eu ainda os escreva) para compartilhar isso com meu leitor.

Vou continuar um pouco mais sobre o dia do meu aniversário.

Logo pela manhã, mudei os parâmetros de minha balança no banheiro. Tenho uma daquelas modernas que, além de nos mostrar quantos quilogramas temos, o que às vezes incomoda, ela também mede composição corporal, taxa de gordura, etc. E, para isso, é necessário informar a idade. Mudei o número de quarenta e nove para cinquenta. Olhei para os dígitos, olhei para o espelho, e imediatamente veio a lembrança do ano anterior.

Fazendo a mesma coisa, há um ano atrás, tive naquele momento uma sensação de vazio que parecia indicar a proximidade de uma mudança dupla de dígitos que ocorreria no ano seguinte. Acho que me senti velho, e agora vejo o quanto fui tolo.

Dessa vez algo mudou. Ainda tenho os mesmos cinquenta que deram o título a essa crônica, mas o espírito, a vontade, a energia, e arrisco até a incluir um pouco sobre o corpo; todos se sentem com muito menos.

Nesse dia, muitos amigos entraram em contato pessoalmente, por telefone, por e-mail, do jeitinho que eu esperava e torcia que fizessem. Alguns novos amigos, os desconhecidos amigos, os surpreendentes amigos, e os queridos amigos, muitos deles foram ocupando saborosamente os momentos em que desfrutei essa data tão significativa.

Admito que pensei também naquelas pessoas que por algum motivo não me contataram nem por pensamento. Algumas marcaram enorme presença em meu dia por sua inesperada ausência. Mas, por decreto, decidi que isso não me entristeceria. Certamente tiveram coisas mais importantes a fazer, problemas, dificuldades, simples esquecimentos. Sabemos como são essas coisas. E nem precisei decretar que as continuei amando do mesmo jeito que antes.

Cortar bolo, cantar parabéns, ganhar lembranças, soprar velinhas, enfim tudo foi permitido.

Poderia terminar enaltecendo as pequenas e importantes coisas que conquistei nesse microscópico segmento de eternidade onde, graças ao anjo que me acompanha por intermédio de Deus, pude plenamente viver. Em vez disso, quero singela e humildemente, assumir que completar cinquenta anos de idade foi muito bom. Foi como um preâmbulo de tudo o que ainda quero poder viver, pelo menos enquanto eu ainda for uma criança.

Um pouco sobre virtudes e talentos

Virtudes e talentos 1

Por Vitor Seravalli

Nem me lembro por quantas vezes tentei encontrar um artigo que li anos atrás sobre a importância das virtudes e dos talentos em nossas vidas.

Sem dúvida, este é um tema recorrente e fundamental para todos nós, seja na vida pessoal ou em nossas carreiras, mas aquele texto específico apresentava uma provocação evidenciada por fortes exemplos, a qual nunca me esqueci.

Assim, começo pedindo desculpas ao autor pela indelicadeza de sequer me lembrar seu nome, mas gostaria que soubesse o quanto me influenciou.

O texto afirmava que, se uma pessoa tiver algum talento ou virtude, que lhe dê condições de realizar alguma coisa melhor do que dez mil pessoas, poderá ficar milionário por causa disso.

Dez mil pessoas é muita gente, não é mesmo? Talvez nem tanto.

E nos parágrafos seguintes, se referia ao tanto de energia, tempo e dinheiro que investimos em nossas fraquezas, obviamente para eliminá-las ou transformá-las.

Tudo isso para o autor do artigo era um enorme desperdício, ou seja, todo e qualquer esforço de desenvolvimento deveria estar focado nos nossos talentos, justamente naquilo em que já somos bons. E para que? Para sermos muito melhores.

Ele citava dois exemplos de pessoas famosas. O primeiro deles era o jogador de golfe Tiger Woods.

Numa determinada época, seu exigente técnico forçava os treinamentos para corrigir suas tacadas ruins. Porém, o resultado de tanto esforço mostrava que, além de não melhorá-las em nada, ainda piorava as tacadas naturalmente ótimas. Pior que isso, Tiger não vencia os torneios em que participava.

Até que em algum momento, a estratégia foi mudada radicalmente e passou a intensificar e diversificar os treinamentos justamente das suas melhores tacadas.

Mas, por que seu técnico investiria onde ele já era bom? Não me pergunte, pois minha singela capacidade lógica também não tinha a menor ideia até então. Porém, Tiger começou a ganhar tudo o que disputava e o resto da história já está bem documentada nos livros sobre este sofisticado esporte.

O outro exemplo era sobre o maior jogador de basquetebol de todos os tempos, Michael Jordan. Com ele se passou o mesmo e sua descoberta como um fenômeno do esporte aconteceu quando seu técnico também priorizava treinos em fundamentos nos quais Michael Jordan já era absurdamente bom.

Esta prioridade em relação aos nossos pontos fortes em detrimento dos fracos não significa que possamos nos dar ao luxo de ser péssimos em alguma coisa. Isso não faria sentido. Por exemplo, o candidato a uma vaga numa instituição importante nunca poderia obter uma única nota zero em um exame multidisciplinar, pois mesmo que tirasse várias notas dez em todas as outras disciplinas, ele seria reprovado.

O problema é que, normalmente, não nos conformamos com nossos pontos fracos e nos esforçamos demais para, na melhor das hipóteses, nos tornarmos medíocres naquilo que infelizmente não temos o talento necessário e suficiente para algum destaque diferencial.

Assim sendo, somente uma escolha é certa: jogar todas as fichas em nossos talentos.

Todavia, o desafio deste argumento reside numa questão crucial e de alta relevância: Como identificar nossos talentos? Afinal, já ouvimos tantas pessoas afirmarem que, simplesmente, não sabem fazer nada que seja especial ou brilhante.

Talvez estejamos prestando muita atenção nos outros e nos esqueçamos de olhar com alguma prioridade para nós mesmos, sem excessos de narcisismo, mas com um olhar positivamente crítico.

Ou ainda, sejamos tímidos e medrosos demais para perguntar às pessoas próximas, que sejam minimamente sinceras, se algo bom lhes chama à atenção em relação às nossas atitudes e nossos comportamentos.

Parece tolice, mas talvez esta seja a forma mais simples para descobrirmos um possível talento que já exista em nós e, incrivelmente, nós não saibamos.

Se a boa sorte estiver do nosso lado e algo valioso puder ser descoberto, então o próximo passo será lapidarmos este diamante bruto.

O caminho terá apenas começado, mas não imagino uma melhor alternativa de planejamento pessoal do que esboçar um projeto de carreira baseado naquilo que temos de melhor, não é mesmo?

E por falar em virtudes e talentos, você já identificou os seus?

Uma ótima sacada

Ótima sacada 1

Por Vitor Seravalli

Algumas pessoas possuem o talento de nos surpreender.

Mas não me refiro às surpresas negativas, quando deixam de fazer aquilo que esperávamos ou contávamos que elas fizessem e, inexplicavelmente, não fazem.

Me refiro àquelas pessoas, que mesmo em situações totalmente imprevistas, tal qual um mágico, tiram da cartola um gesto inesperado, ou mesmo uma frase espontânea e, após um segundo de silêncio gerado pela surpresa que causam, nos conquistam pela invejável e difícil capacidade de “pensar fora da caixa” e fazer aquilo que nunca seríamos capazes de, sequer, pensar.

Para ilustrar, cito o caso de um rapaz que almoçava em um restaurante requintado, quando recebeu um pedido de comida vindo de um garoto pobre que entrara sem ser notado. Embora surpreso, o cliente tratou de colocar um pouco de alimento num pequeno prato para dar ao jovem. Mas quando o menino foi identificado, as pessoas responsáveis pela segurança vieram para retirá-lo imediatamente dali. E quando a cena se encaminhava para um fim desagradável para todos, principalmente para o garoto, o cliente interrompeu a ação e justificou simplesmente dizendo que o garoto era seu parente.

Evidente que todos perceberam que ele não falava a verdade, mas sua rapidez e espontaneidade, destruiu qualquer possibilidade de que a boa ação do tal rapaz fosse abortada.

Numa outra situação, o presidente Barack Obama fazia sua visita anual ao congresso norte americano e seu objetivo era pedir apoio aos parlamentares republicanos para um de seus projetos estratégicos. Como isso se passava já em seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos disse que precisava da aprovação do congresso sem qualquer objetivo eleitoral, pois não iria mais concorrer numa próxima eleição. Após esse comentário, alguns políticos republicanos iniciaram uma barulhenta sessão de aplausos, cujo objetivo era logicamente desmoralizá-lo pela expressão de uma geral sensação de alívio aos americanos por não correrem o risco de tê-lo como presidente em um novo mandato. A situação parecia tornar-se embaraçosa para o Sr. Obama, mas como um moleque travesso, ele fixou seus olhos no líder da manifestação republicana e falou com palavras firmes e bem-humoradas:

— É verdade, eu não vou mais participar de novas eleições, simplesmente porque já participei de duas – fez uma pequena pausa e completou – e venci ambas.

Deu seu sorriso peculiar, seguido de uma piscada de olho maliciosa para o tal parlamentar e a sessão continuou sem novas ironias.

Com certeza, eu poderia contar muitas outras histórias similares em que o talento para pensar rápido e de maneira inovadora, criativa e, principalmente, inteligente, fizeram seus protagonistas saírem-se bem de uma situação imprevista e com risco potencial, sem qualquer esforço aparente.

Porém, creio que nenhuma delas seria minha, pois, lamentavelmente, não acredito que tenha este dom.

Pelo contrário, às vezes me surpreendo pelo quanto sou óbvio. E nem me lembro quantas foram as vezes em que, além de não surpreender, perdi preciosas oportunidades para ganhar um jogo e errei, unicamente por não conseguir discernir e compreender os sinais escandalosos deixados para mim pelas peças do tabuleiro.

Por outro lado, a vida me compensou generosamente com uma grandiosa capacidade para aprender. Observar os comportamentos e ouvir os interlocutores com atenção, experimentar novos caminhos e treinar o máximo possível cada nova possibilidade. Usar a experiência adquirida e, se o erro for mesmo inevitável por ser humano, que ele ocorra somente uma única vez.

Enfim, pode ser que isto não seja um talento, mas também será sempre uma ótima sacada.

Razão e emoção

Razao e Emoção 3Por Vitor Seravalli

Como equilibrar da melhor maneira os nossos sentimentos e comportamentos, quando buscamos doses adequadas de razão e emoção?  Este talvez seja um dos grandes desafios de todos nós.

Cada pessoa traz consigo uma forma única de evidenciar esse equilíbrio, e muitas vezes o que se percebe é um grande desequilíbrio.

Minha reflexão não refletirá o tema exclusivamente nas nossas vidas pessoais, aliás nem sou capacitado para isso.

O que gostaria de focar é somente uma reflexão de minha experiência sobre a relação “razão versus emoção” em uma perspectiva profissional.

Sim, há sempre uma emoção encravada na mais genuína e pura razão, ou seria o contrário?

O fato é que ambas estão fortemente internalizadas em todos nós. A diferença está no quanto nós externalizamos de cada uma delas, ou mais claramente, o quanto as escancaramos para a vida.

Quanto mais olho para minhas vivências, vejo mais transparente o sucesso nos momentos em que deixei a emoção bem guardada em mim mesmo, e optei por meu lado mais racional.

Isto não significa que o lado direito de meu cérebro, o lado mais complexo e mais sensível, estivesse paralisado. Em todos os momentos, os meus sentidos captavam tudo, e meu sangue não ignorava a pressão, a tensão, e mesmo a dor, de tudo o que acontecia do lado de fora de mim.

Mas, a atitude mais eficaz era aquela que se evidenciava por um comportamento muito mais focado na escuta, do que nos gestos ou na fala.

Ausência de precipitação, de ansiedade, e de uma denunciadora cor rubra em minha pele, sempre aumentaram minha credibilidade e meu poder de influência nas decisões mais importantes que pude protagonizar, independentemente de meu nível hierárquico.

Isso não significa que eu não tenha chorado muitas vezes sozinho, que diferentes partes de meu corpo não tenham denunciado o efeito de um estresse exacerbado em algumas situações críticas que vivi, e nem que minha família não tenha pago um preço demasiadamente alto pelos percalços de minha vida profissional.

Mas, certamente, a vida nos ensina. E não temos direito de não aprender em cada experiência ou oportunidade. Mesmo que seja com uma dor inexplicável.

Por outro lado, uma vida profissional que não carregue um legado de emoções, não pode ser chamada de vida.

Lembro-me de cada momento, bom ou ruim. Recordo-me com saudades de meus colegas, mesmo daqueles que foram os meus mais duros rivais. Lembro-me dos meus bons chefes que nunca desistiram de me ensinar. E não me esqueço dos chefes não tão bons, cuja incompetência colocou-me em alerta.

Lembro dos ganhos, mas não me esqueço das perdas. E na mesma intensidade, vejo o brilho das lembranças de vitórias, assim como a opacidade das derrotas. Afloram lágrimas pelas despedidas, e sorrisos pelos encontros e reencontros.

Afinal, concluo que a prudência da razão convive com a temperança da emoção, num caminho de equilíbrio que poderá nos levar para a sabedoria.

Se minha vida profissional seguiu para esse rumo, então valeu!