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4a. Maratona – Frankfurt Marathon – 30 de outubro de 2005

Àquela altura, já estava em meus planos a possibilidade de correr uma maratona fora do Brasil. Creio que este seja um sonho para qualquer maratonista.

E em meu caso, a primeira oportunidade veio quando eu faria uma viagem a trabalho para a Alemanha e vi que ela coincidiria com a maratona de Frankfurt.

Não tive dúvidas e fiz minha inscrição, pois eu teria que permanecer ali por perto durante aquele final de semana, indo no domingo à noite num voo de Frankfurt para Genebra.

Dessa vez eu estava melhor preparado, então as expectativas de conseguir um bom tempo de prova em um percurso praticamente plano, aumentaram minhas expectativas.

Porém. talvez por ser uma experiência nova, a qual trazia um significado especial para mim, senti uma certa preocupação antecipada de que algo não corresse bem, conforme eu havia planejado.

Eram possibilidades remotas de problemas que incluíam desde o cancelamento da viagem, alguma lesão antes do desafio ou outro contratempo qualquer. Naquele momento, deduzi com certa indignação que aquilo acontecia comigo pela primeira vez.

Um fato interessante é que eu já havia identificado tal sensação em outras pessoas e, com assertividade, a diagnosticava como um sintoma do conhecido “Medo de ser feliz”.

Porém, agora o problema estava comigo e confesso que precisei de alguma concentração adicional para que não atrapalhasse o alcance de meu objetivo naquele momento.

No final das contas, tudo correu bem. Fiz o percurso sem contratempos e, se minha meta era correr abaixo de 4 horas e meia, cruzei a linha de chegada em 4 horas e vinte e sete minutos, ainda conhecendo um pouco mais de uma cidade adorável.

Foi uma emoção diferenciada, principalmente porque um novo e distinto tipo de superação fora vivenciado.

Hoje, consigo olhar para trás e ver que, embora não tivesse percebido antes, senti este mesmo tipo de medo desnecessário em diversas outras ocasiões durante minha vida.

Antes de contar um exemplo garimpado em minhas próprias vivências e ressaltando que se trata de algo que nunca aconteceu comigo, imagino o que passa pela cabeça de alguém quando se torna o ganhador solitário de um prêmio acumulado, uma grande bolada, em alguma loteria qualquer.

Após a natural empolgação inicial, e também após os primeiros contatos com as novidades que causam impactos tão absurdos ao estilo de vida do ganhador, já ouvi histórias em que alguns dos ganhadores, a partir de algum momento, começam a sentir medo do que poderá lhes acontecer como contrapartida do inesperado benefício recebido.

É certo que o ser humano se adapta a tudo, principalmente se as mudanças são para melhor, como nesse caso. Por outro lado, apesar da maioria elevar seu patamar de vida em todos os níveis, são comuns os casos de pessoas que não se adaptam à nova situação e perdem tudo o que ganharam, além de vida pacata e feliz que possuíam antes.

Em uma escala incomparavelmente menor, houve um momento em que uma sensação similar me ocorreu. Contradizendo todos os prognósticos, eu recebi a confirmação de que havia sido promovido para uma posição executiva na empresa em que trabalhava. Era uma situação bastante improvável, pois eu ocupava um cargo dois níveis abaixo de minha nova posição e isso nunca havia ocorrido antes, pelo menos era o que todos falavam.

Mas o fato é que eu iria assumir uma responsabilidade muito grande e, por conhecer plenamente seu alcance, nem tive a chance de me empolgar.

Tendo meus pés fincados no chão desde o momento inicial, sendo bastante realista perante os desafios que iria enfrentar e com o suporte total de meu antecessor, pude desenvolver um planejamento adequado, o que me ajudou muito a partir do momento de posse no novo cargo.

Mas agora, após tanto tempo, consigo discernir muito bem os momentos em que não consegui evitar algum deslumbramento pelo poder, deveras limitado, e também dos momentos em que ingenuamente não percebi e não filtrei alguns falsos afagos.

Confesso que nesses momentos, apesar da oportunidade e da confiança que recebi, tive medo de não alcançar o sucesso e fracassar.

Não que o processo todo que se seguiu tenha sido fácil, pois enfrentei diversas situações bem difíceis. Mas, reconheço que pessoas muito importantes em minha carreira fizeram muito mais por mim do que precisariam fazer. Além disso, muitas das competências que acredito possuir hoje, somente se desenvolveram graças aos apertos pelos quais passei. Por isso, tenho apenas motivos para agradecer e sei que venci esta etapa de minha vida.

Hoje, com a sensibilidade aguçada por tão rica experiência, consigo às vezes, perceber alguma insegurança em jovens profissionais que temem o sucesso e, se protegendo dele, criam seus próprios argumentos para não vencer, impõem a si mesmos, certas dificuldades ou bloqueios para justificar antecipadamente suas limitações quase sempre imaginárias e, até mesmo, eventuais futuros fracassos.

Nesses casos, gosto de compartilhar com eles um ensinamento que um dia alguém generosamente me deu e que diz assim:

“Se algo muito bom acontecer graças à sua “boa sorte”, muito além de suas expectativas, agradeça com sinceridade e se comprometa em transferir uma parcela dos benefícios recebidos em prol de causas que valham a pena e ajude outras pessoas. Ou seja, retribua e amplie seu legado.”

Uma sensação de leveza e energia tomará conta de você e, assim como eu, você nunca terá medo de ser feliz.

3a. Maratona – XI Maratona de São Paulo – 17 de abril de 2005

Apesar de fazer uma preparação bastante diversificada, correr pela segunda vez a maratona de São Paulo trazia o objetivo principal da continuidade. Eu já corria há quase 3 anos e havia decidido que as corridas de rua seriam o meu esporte definitivo.

O percurso dessa corrida nunca foi fácil, mas essa edição da prova teve a inesperada vantagem de ter ocorrido a uma temperatura não muito alta. Correr sua primeira metade nunca foi algo tão difícil, porém a segunda parte, que incluía um trecho dentro e ao redor da USP – Universidade de São Paulo, sempre trouxe e continuou trazendo muito desgaste e dificuldades no decorrer dos anos, principalmente quando o calor foi intenso.

Por esse motivo, a partir dessa maratona, pedi ajuda. Do 21º quilômetro até o 31º, minha filha Fernanda me acompanhou. E do 31º ao 42º, a outra filha Cecilia, tratou de me puxar para que eu conseguisse finalizar o percurso. Como poderão ver em futuros relatos, essa estratégia passou a ser utilizada com frequência e sempre com bastante sucesso.

Algo similar ocorreu em minha vida profissional quando, numa certa tarde, um documento literalmente aterrissou sobre minha mesa.

Era uma simples sugestão enviada por um funcionário e que integrava um programa de melhoria contínua, na época, bastante disseminado e popular na empresa BASF, onde eu trabalhava.

Falar sobre os desdobramentos dessa ideia seria suficiente para um livro exclusivo, tamanha era a dimensão e a complexidade dos desafios que ela trazia. Obviamente, estou falando de desafios de alto nível, daqueles que sempre gostei de ter, mas enfim, eu nunca poderia vencê-los se não houvesse uma mobilização especial para eles.

Sob minha perspectiva, meu grande mérito nessa história toda foi acreditar na ideia em todos os momentos, desde o princípio até o momento em que um projeto realmente inovador, com características que o tornaram referência em sua forma e área de atuação, se transformou em realidade.

Porém, sua realização teve profissionais protagonistas de primeira qualidade. Em diversos momentos, percebi que minha melhor contribuição se resumia em tentar não atrapalhar. Felizmente, creio que consegui fazer isto também.

Lembro-me dos que cuidaram com carinho do projeto quando ele ainda não possuía estrutura alguma. Sua perseverança, ou mesmo esperança, beirava o cúmulo do otimismo. Impossível também me esquecer daqueles que me trouxeram inúmeras ótimas ideias e que ajudaram a formar aqueles estudos iniciais em um empreendimento que possuía potencial passível de concretização, apesar dos diversos obstáculos que enfrentou.

E quando a coisa cresceu para além das fronteiras regionais e passou a ser desenvolvido com a ambição de conquistar parcerias de repercussão global, eu não poderia encontrar um aliado tão talentoso quanto visionário como tive a sorte de poder contar na sede global da empresa.

Devo admitir que nunca, em nenhum momento, tive facilidade para liderar o enfrentamento de todas as barreiras que foram surgindo etapa a etapa.

Enfrentamos céticos, pessimistas, lideranças oposicionistas sem qualquer argumento que justificasse seus posicionamentos, incrédulos e até mesmo invejosos sem causa, mas não me recordo de um só momento em que passou pela cabeça desistirmos de nosso sonho.

E, quando chegou o momento da concretização, ou seja, quando eu precisava de alguém que colocasse em operação aquela bela instituição que estava prestes a nascer, mais uma vez tive o suporte da pessoa certa e na hora certa.

Em resumo, com a ajuda e o suporte de pessoas muito especiais, assim como em minhas maratonas, somente precisaríamos continuar em frente até a linha da chegada.

É certo que a comparação termina por aqui, até porque quando instituímos uma organização da dimensão da Fundação Espaço Eco, que integra uma empresa global líder de mercado como é a BASF, uma simplista analogia com uma maratona não faz o menor sentido. Talvez, um parto complicado para o nascimento de uma criança forte e saudável pudesse ser uma melhor comparação.

Mas, independentemente disso, agradecer a ajuda de minhas filhas nas maratonas, assim como às pessoas criativas, competentes, resilientes e inovadoras que estiveram comigo, sem me esquecer das lideranças que acreditaram naquele maravilhoso projeto, isso sim, é adequado e completamente justo.

Que esse singelo agradecimento seja o prenúncio para muitas outras maratonas, e também represente o desejo para uma vida longa e próspera à Fundação Espaço Eco.

2a. Maratona – X Maratona de São Paulo – 2 de maio de 2004

Eu vivia uma fase bastante agitada em minha vida. O cotidiano corporativo intenso se contrapunha drasticamente à busca de um estilo de vida mais equilibrado. Mas, de qualquer modo, eu estava convicto do meu papel como um agente disseminador da importância da atividade física e dos bons hábitos para um melhor resultado pessoal e profissional de minha equipe.

Por isso, eu participava de diversas atividades que pudessem me colocar como exemplo. Aliás, sempre acreditei que exemplos valem muito mais que palavras.

Assim, mesmo com um histórico recente de algumas lesões, a inscrição para a X Maratona de São Paulo foi uma oportunidade para mostrar que minha atitude não era somente um discurso. Por outro lado, essa decisão foi um ato de coragem com certa dose de irresponsabilidade. Minha rotina de treinos era mais que suficiente para corridas de curta e média distância, mas para esta maratona, eu não tinha qualquer outra ambição que não fosse simplesmente chegar.

Lembro-me bem daquela manhã de sol. Com a cabeça cheia outros assuntos alheios àquele evento esportivo, parti para mais um novo desafio. Caso não tivesse o suporte de meu inesquecível amigo Valdomiro Manoel, que infelizmente já nos deixou, eu nunca teria conseguido alcançar meu objetivo. Mas, afinal, cruzei a linha de chegada em 5 horas e 21 minutos e percebi que aquele exercício de resistência havia me ensinado algo muito importante para os maratonistas, ou seja, aprendi a conhecer profundamente os limites de meu corpo.

A partir dessa corrida e até hoje, nunca terminei qualquer percurso com a sensação de ter ultrapassado o limiar seguro de minha capacidade. Algo que passei a usar em outras situações de minha vida.

Por exemplo, quando consegui adquirir o primeiro imóvel de minha vida, graças a um longo financiamento, eu não imaginava viver a experiência que algumas coincidências me proporcionaram. Era um prédio novo dentro de um condomínio que já possuía um outro mais antigo completamente ocupado e, pelo uso contínuo por diversos anos, apresentava sensíveis sinais de desgaste. Casualmente, eu era morador desse edifício mais antigo, mas como locatário.

Ao receber as chaves do meu, eu disse “meu” apartamento, percebi que eu me tornara involuntariamente o único condômino que conhecia os dois prédios muito bem. Ninguém mais tinha o mesmo perfil.

Durante o processo de recebimento do novo imóvel, construí uma relação muito boa com outros novos moradores, por isso, quando houve a reunião de integração do condomínio, eu fui eleito por unanimidade como o novo síndico.

Não vou me aprofundar nessa história porque isso daria um livro completo com muitos capítulos de muitas páginas. Mas enfrentar aquele desafio inesperado, embora aparentemente singelo, acabou trazendo ricos em aprendizados, alguns agradáveis e outros nem tanto.

Foi minha primeira experiência oficial como líder, afinal alguns funcionários reportavam diretamente a mim. E essa pequena experiência foi bastante útil em minha vida profissional que, por sinal, tornou-se bem mais complexa pouco tempo depois. Além disso, melhorar o local onde eu morava, e perceber que tais melhorias traziam benefícios para mais de uma centena de famílias, era também um ponto bastante positivo. Enfim, foi um período intenso e repleto de novidades.

Contudo, os principais desafios, nos quais o grau de dificuldade crescia a cada momento, estavam na gestão das pessoas nem sempre dispostas a conviver contribuindo com aquele processo de integração. A cada dia, os problemas resolvidos pouco significavam e o problemas pendentes, por menores que fossem, geravam atritos e situações de estresse muito mais fortes do que minha baixa resiliência àquela altura da vida.

Para complicar e fragilizar minha capacidade de resistir às ameaças e provocações, eu optei por um modelo de gestão democrático. Eu me disponibilizava para ouvir todas as reivindicações e reclamações de moradores, os quais não possuíam o menor bom senso. Eu continuava recebendo apoio das pessoas que estavam comigo, todavia, no final das contas, eu era o único responsável formal daquilo e o foco estava em mim.

Logo, alguns sintomas físicos decorrentes daquele desgaste já se tornavam visíveis, mas continuei firme e, em um certo momento, decidi fazer algo que em minha cabeça traria satisfação unânime. Havia um problema crítico em ambos os prédios e, com meu conhecimento técnico, consegui aprovar um investimento que traria uma solução simplesmente ideal.

Dei o máximo de mim e, após algum tempo, tudo ficou pronto. Devo admitir que o resultado final foi até melhor que minhas melhores expectativas.

Logo que recebi o documento de entrega da obra, fui para minha casa. Porém, logo que entrei, alguma coisa dentro de mim clamou por reconhecimento. Após tantas críticas injustas, eu merecia receber um elogio. Não, um elogio só, não. Eu queria muitos elogios.

Assim, tomei o elevador novamente e desci até o pátio de entrada. Em minha santa ingenuidade, eu imaginava que várias pessoas não hesitariam em reconhecer meu trabalho como síndico daquela comunidade.

Cheguei de mansinho e fiquei à espera de todos.

Após uns dez minutos, apareceu uma senhora que morava no edifício mais antigo. Ela me viu e se aproximou com uma suspeita calma. Quando chegou, eu a cumprimentei, ela levantou seu rosto e, sem que eu pudesse sequer reagir, despejou sobre mim todas as críticas que pode. Acredito que a escutei por cerca de cinco minutos, então meu limite de segurança me avisou que alguma coisa mais decisiva deveria ser feita exatamente naquele momento.

Deixei a moradora praticamente falando sozinha e voltei novamente para casa.

Eu havia vencido o desafio com a maior dedicação e competência que pude agregar, mas seu final havia chegado.

Telefonei imediatamente para a empresa que administrava as contas do condomínio e marquei unilateralmente uma assembleia extraordinária, cuja pauta possuía dois itens: “Prestação de contas” e, “Eleição de um novo síndico”.

Todos se surpreenderam e tentaram mudar minha decisão, mas não houve jeito. A partir daquele dia, eu voltava a ser um simples condômino.

De todas as lições que aprendi naquele período, a mais importante foi renunciar eternamente à ingênua esperança de conseguir, em qualquer circunstância, agradar a todos os envolvidos em meus projetos ou decisões, pessoais ou profissionais.

Esta foi uma lição para toda a vida. Não nego que tive algumas recaídas, afinal sou humano, mas com o tempo consegui tirar muito proveito disso.

E outra lição, não menos relevante, foi manter atenção aos meus limites físicos e emocionais. Nunca desisti de uma corrida, mesmo cansado como estava em minha segunda maratona, mas não hesitarei em fazê-lo se meu limite for ultrapassado.

Esta é uma questão de duas perspectivas: uma delas relacionada com nossa sensibilidade aos sinais que o corpo nos dá. E outra, bem mais difícil, é respeitar estes sinais e parar, mesmo que nossas fundamentais persistência e determinação, nos implorem para continuar.

Evidente que elas sempre serão ouvidas, pois são características das pessoas vencedoras, mas a decisão de seguir em frente ou não estará sempre e somente aqui, dentro de mim.

1a. Maratona – Maratona das Águas – 23 de março de 2003

A experiência de correr pela primeira vez a distância de 42,195 Km é algo especial por diversos aspectos. Inicialmente, por não ser algo tão comum, também por ser desafiador, depois pelo temor gerado por diversas histórias assustadoras já vividas por corredores experientes, e ainda pela lenda do enfrentamento da tal muralha que se ergue à frente dos atletas após ultrapassam a distância mágica dos 30 km.

Enfim, pessoalmente, eu conheço muitos corredores infinitamente superiores a mim, mas que nunca se sentiram seguros o suficiente para correr uma maratona.

Em meu caso específico, confesso que enfrentar minha primeira maratona era uma meta desde o momento em que comecei a correr, mas isto não significa que eu estava plenamente preparado para ela. Evidentemente, treinei bastante, recebi o suporte de um corredor experiente, mas em nenhum momento, tive qualquer certeza se conseguiria ou não concluir tal distância.

Escolhi uma prova no interior de São Paulo que nunca havia sido realizada antes, ou seja, minha discreta opção chamou-se 1ª. Maratona da Águas e cruzou um bom pedaço do interior do estado de São Paulo.

O percurso se iniciava na cidade de Amparo, passando depois por Monte Alegre do Sul, Serra Negra, Lindóia e terminando em Águas de Lindóia. Não me recordo bem, mas ouvi dizer na época, que um pouco mais da metade do percurso era em aclive e um terço em declive, ou seja, quase como subir e descer uma grande montanha.

Com suporte direto de minha filha e companheira Cecilia, que correu comigo os últimos 15 Km, completei o percurso em 4 horas e 57 minutos. Nada mal para um intrépido iniciante.

Mas já que comecei falando do desafio que foi correr minha primeira maratona, contarei agora um pouco de um outro desafio inicial em minha vida que foi a batalha pelo meu primeiro emprego logo após sair da universidade.

Na época, meu pobre e frágil projeto de carreira se resumia a tomar posse imediata de meu diploma de engenharia e conseguir urgentemente um emprego. Hoje, vejo como os jovens com meu perfil se preparam desde a universidade e sinto um pouco de vergonha, ou talvez inveja. Lamentavelmente, eu possuía um nível de informação muitíssimo menor, e confesso que também não conhecia nada sobre as características comportamentais necessárias para um empreendedor. Aliás, eu tampouco sabia o que era ser um empreendedor.

Assim, me tornei “Procurador do Estado”.

Sim, em meus tempos de recém-formado, este era o melhor jeito de conseguir um emprego. Todos os domingos, eu ia até a banca de jornais mais próxima e comprava o jornal O Estado de São Paulo e ficava procurando.

Para ampliar minhas dificuldades, o país vivia uma crise – felizmente, isso acabou. –  E, por esse motivo, o caderno de empregos do Estadão vinha com pouquíssimas páginas.

A saída foi buscar atividades alternativas, o que me levou a algumas escolas de informática. Eu dominava uma linguagem de microcomputadores, o BASIC, e isto me possibilitou ganhar algum dinheiro lecionando em escolas de informática, muito pouco é bem verdade, mas o suficiente para garantir a dose mínima de autoestima e resiliência às dezenas de respostas negativas que eu seguia recebendo com o passar dos meses.

Já que estou falando de desafios, devo dizer que, por diversas vezes (multiplicadas por dez), eu chegava à conclusão inevitável de que nunca chegaria o momento em que alguma empresa tomaria a decisão de dar uma oportunidade para mim.

Meu fundamental diferencial, desenvolvido a fórceps naquela difícil fase de minha vida, foi uma composição generosa de alguns ingredientes, entre os quais, perseverança, otimismo, intuição, crença em todas as improváveis oportunidades, fé e, evidentemente, o essencial apoio de minha família. Felizmente, como disse certa vez Ariano Suassuna, esse jeito “realista esperançoso” tornou-se uma de minhas principais características até hoje.

Um detalhe crucial: eu não conhecia a força e o impacto do termo “networking”. Se conhecesse e praticasse isso, pelo menos um pouco, minhas chances teriam sido bem maiores.

Assim, quando a mais improvável oportunidade apareceu, talvez por acreditar nela, o meu primeiro desafio profissional foi surpreendentemente vencido.

Devo admitir que chegar a essa conquista foi muito mais difícil do que concluir minha primeira maratona. Mas ambos os momentos foram inesquecíveis, tanto o momento em que cruzei a linha de chegada da corrida, quanto o momento em que entrei pela primeira vez naquela empresa como seu novo funcionário.

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.

A maratona

Mizuno Uphill Marathon 2015

Por Vitor Seravalli

Para muitas pessoas, correr uma maratona é algo completamente fora de propósito, coisa de maluco mesmo. Afinal, são quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros percorridos a pé de uma só vez. Essa maluquice pode durar um pouco mais de duas horas para os atletas profissionais, mas pode chegar até seis horas para os amadores.

Os especialistas dizem que o fator de sucesso dos “finishers”, ou daqueles que conseguem alcançar a linha de chegada, está mais relacionado à mente do que ao corpo. Há sentido nessa afirmação, pois muitos atletas bem preparados, dependendo do ritmo que escolhem adotar, “quebram” principalmente após ultrapassarem a barreira dos trinta quilômetros. Este termo comum é um estado em que um corredor constata que não conseguirá chegar ao final da prova no ritmo que a iniciou.

Comecei este texto para contar mais uma história de liderança. Mas o que isso tem a ver com liderança?

Com liderança de processos, acredito que tenha uma plena relação. E estou apto a dizer isso, pois já enfrentei este desafio por vinte e duas vezes.

Porém, a última vez em que decidi fazê-lo, foi uma experiência diferente das outras em diversos sentidos.

A começar pela beleza ímpar do local, uma serra tão linda quanto difícil de ser vencida. Em seguida, a primeira disputa seria no processo inscrição pela internet em data e horário pré-determinados. Somente os mais rápidos no teclado conseguiriam preencher as aproximadamente quinhentas vagas. Comecei bem, porque eu estava entre eles.

O percurso seria tão desafiador que os organizadores decidiram provocar os corredores inscritos dizendo que somente os vencedores seriam os verdadeiros “ninja runners”.

Eu estava um pouco assustado, mas já havia decidido me tornar um desses tais “ninjas”.

Minha preparação foi semelhante às corridas anteriores, mas confesso que ela deveria ter sido mais intensa, afinal um paredão de quase um quilômetro e meio de altura estaria à minha frente antes da chegada.

Enfim, chegou o grande dia.

O clima estava ameno e todos torciam para que não chovesse durante o percurso.

Às quatro horas e trinta minutos da tarde, partimos. Muita animação em todos os rostos, tanto dos atletas quanto dos amigos e familiares que torciam incrédulos por aquele bando de doidos varridos.

Logo, percebi que não seria possível acelerar muito, pois embora o grande aclive ainda estivesse bem distante, desde o começo já não estávamos correndo no plano. Ou seja, já subíamos pouco a pouco.

Algumas escolhas erradas já começavam a me incomodar. Com medo de um eventual frio intenso, optei em correr com uma jaqueta plástica do tipo “corta-vento”. Como não estava frio, ela já teve que ser retirada e tornou-se um peso morto em minha cintura. Pensei até em descartá-la, mas se tratava de uma roupa cara e de qualidade. Assim, segui adiante.

Um pouco mais à frente, a noite foi ganhando espaço e, juntamente com ela, veio a escuridão. Eu nunca havia participado de um evento em que uma simples lanterna, generosamente emprestada, assumisse uma função tão importante.

Um outro detalhe relevante foi perceber que durante boa parte do tempo, eu estava completamente só.

Tudo continuava sob controle e meu plano era manter o ritmo e não gastar qualquer energia além do essencial, pois ela seria fundamental quando a subida final chegasse.

A meta era completar o percurso, mas além disso havia um limite máximo de tempo. Eu deveria cruzar a linha de chegada antes do tempo limite de seis horas. Para atletas adequadamente preparados, este limite seria uma brincadeira. Mas àquela altura, eu sabia que precisaria de muita determinação, porque uma subida íngreme se apresentava insuperável em frente ao meu incrédulo olhar.

Num último posto de abastecimento, eu tomei a decisão de investir alguns minutos a mais e tomar bastante água, comer frutas e, enfim, encher meu tanque de combustível, pois dali para frente, eu enfrentaria a batalha final.

As passadas tornaram-se mais lentas e um trote confiante se transformou numa caminhada, muitas vezes, ofegante.

O tempo seguia acelerado e, quando consegui escutar algumas vozes, elas eram genuínas ameaças.

O tempo limite se aproximava e o narrador avisava que quando este se esgotasse, todos os corredores retardatários não receberiam a premiação reservada somente aos tais “ninja runners”.

Fui em frente, mas já não seria possível chegar a tempo.

Cruzei a linha final.

Eu venci por ter chegado, mas perdi por ter ultrapassado o tempo máximo. Meu percurso foi completado em seis horas e cinco minutos.

Vi expressões frustradas das pessoas queridas que me esperavam, mas afinal, eu estava bem. Chegar inteiro naquelas condições tão adversas já se configurava uma grande vitória, mesmo sem a merecida medalha que não me foi entregue pelo capricho de um regulamento rigoroso demais.

Enquanto voltava para o hotel, uma reflexão imediata sobre minha performance mostrou-me alguns pontos positivos e também diversos aprendizados vindos daquela rica experiência, a maioria deles já conhecidos por mim.

Os pontos positivos foram: o prazer pelo desafio, a determinação, a persistência, a resistência e o autocontrole.

Quanto aos aprendizados principais, o primeiro deles é bem básico: Se o projeto é um grande desafio, a qualidade de seu planejamento deve ser proporcional.

Em seguida, os ingredientes para o sucesso devem incluir disciplina, monitoramento constante dos indicadores, avaliação mais precisa do ambiente, escolha e priorização dos recursos necessários. Em relação a este último, estou certo que o peso de minha jaqueta desnecessária impactou em meu tempo total.

Acredito também que tenha subestimado a necessidade de algumas simulações e treinamentos prévios da situação que enfrentei ao encontrar a tal subida.

Além disso, a necessidade de uma maior prevenção de desperdícios se evidenciou nos minutos preciosos que perdi em meu último reabastecimento. Não sei precisar o quanto ele me ajudou, mas os cinco minutos que deixei ali, já seriam suficientes para que eu chegasse antes do limite.

Finalmente, pensei no reconhecimento. Os líderes na maior parte do tempo estão sós. E muitas vezes, mesmo após suas conquistas, não são reconhecidos adequadamente e podem não receber a sua medalha. Nem por isso, eles devem desistir, pois são movidos por algo muito maior. Algo que somente eles conseguem ver no horizonte.

Por falar nisso, já estou me preparando para minha próxima maratona.

Vamos nessa?

Minha primeira lição

Minha primeira lição 1Por Vitor Seravalli

Eu ficava imaginando o momento em que me tornaria um líder.

As evidências indicavam que isso não demoraria a acontecer, mas eu seguia em frente em meu trabalho e tentava aprender o que fosse possível para não me dar mal quando a oportunidade viesse.

As escolas ensinam os fundamentos, mas a verdadeira aula de liderança somente acontece quando as testemunhas são nossos liderados.

Naquela época, eu também buscava algumas conquistas pessoais e uma delas era a aquisição do primeiro imóvel, um pequeno apartamento, cuja construção chegava ao seu final. Eu já morava num apartamento de outro edifício do mesmo condomínio, mas conseguir um financiamento em meu próprio nome, era algo para se comemorar.

As obras e os acabamentos apresentavam muitas pendências e um grupo de novos proprietários se formou para negociar com a construtora, afinal eles estavam com razão em praticamente todos os pontos. Obviamente, eu era um deles.

Íamos bem e, pouco a pouco, tudo foi sendo colocado em ordem.

Algumas semanas depois, houve a eleição para escolha de um novo síndico do condomínio com a integração dos dois edifícios, um deles mais antigo e com diversas necessidades de manutenção e o outro, novinho em folha, mas ainda com algumas pendências.

Nunca houvera uma reunião com tantos moradores presentes. Quase não havia espaço naquele salão de festas e, após uma acalorada discussão, onde todos tinham suas razões, mas nem todas as razões se sintonizavam, houve o consenso de que somente um morador conhecia os dois edifícios e esse argumento era suficiente para a melhor escolha, então eu fui eleito.

Eu não queria ser líder? Pois então havia chegado a primeira oportunidade. A única remuneração seria o valor da taxa condominial mensal, mas ao final da reunião, eu voltei para casa amedrontado e muito feliz.

Assumi a responsabilidade com muita motivação, montei uma lista de prioridades, estruturei o plano de ação mais consistente que pude e mostrei para os membros do conselho, que eram alguns dos meus novos e entusiasmados vizinhos.

Foi uma fase muito boa, apesar de um desgaste muito maior do que eu poderia esperar. Os moradores do prédio mais antigo não concordavam com nada que apresentávamos como propostas e alguns até nos ameaçavam. O síndico anterior conhecia melhor os problemas existentes e usava as informações para nos desestruturar.

Porém, éramos valentes, competentes e buscávamos equilibrar aquele relacionamento difícil com admirável resiliência.

Creio que nenhum síndico do mundo fez tantas assembleias para alcançar consenso e prestar contas como eu decidi fazer.

Internamente, eu queria que minha gestão tivesse a maior aceitação possível.

Com o tempo, os atritos e as intrigas se tornaram mais frequentes e aquilo elevou meu nível de estresse a um limite nunca antes alcançado.

Até que apareceu uma necessidade comum para ambos os edifícios e eu encontrei a oportunidade que tanto queria para agradar a todos naquela comunidade. Eu somente teria que usar minha competência com plenitude para, finalmente, conseguir a unanimidade de aprovação. Era algo muito importante para mim e assim, fiz o melhor que pude.

Quando a obra terminou, eu estava muito feliz e orgulhoso por ter superado aquele desafio. Com meus botões eu refletia que havia chegado o momento de receber o reconhecimento tão merecido.

Mas ali no interior de minha casa, isso não seria possível. Assim, entrei no elevador, desci ao andar térreo, escolhi um lugar onde todas as pessoas pudessem me ver e, tolo e ingênuo, fiquei à espera dos elogios que, certamente, me fariam.

Após alguns minutos, uma senhora que morava sozinha veio ao meu encontro, respirou fundo e descarregou todas as críticas que encontrou em seu repertório. Chegou uma segunda pessoa e, apesar de reconhecer o trabalho que havia sido feito, compensou seu breve elogio com meia dúzia de reclamações completamente injustas e desnecessárias.

Quando me deixaram sozinho novamente, senti uma frustração que nunca ocorrera em nenhum momento anterior em minha vida.

Talvez tenha até sentido vontade de chorar, mas aguentei firme e voltei para casa. Minha missão estava cumprida e aquele sinal mostrou-me que era chegada a hora de voltar a ser, novamente, um simples morador.

Aquela experiência foi a primeira de uma infinidade de outras que tive posteriormente ao longo do caminho que escolhi seguir para me tornar um líder de verdade.

Confesso que esses aprendizados ainda se renovam a cada dia, contudo, a primeira lição nunca mais esquecerei, pois fundamentou algo que todos os líderes, em qualquer dimensão, deveriam saber:

“Cuide de seus valores, busque seus objetivos, evidencie seus resultados e comemore suas conquistas, mas em nenhum momento, tenha a ilusão de que conseguirá agradar a todos”.

Pequenas superstições

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Por Vitor Seravalli

Mesmo quando eu ainda era uma criança rumo à adolescência, já possuía total consciência de que meus conhecimentos gerais eram escassos. Porém, sempre sobrou uma vontade doida para aprender.

Além disso, tive sorte. Uma tia muito querida se lembrou de mim quando soube que a empresa onde ela trabalhava mantinha uma escola profissionalizante de ótimo nível, na qual os parentes de funcionários poderiam ser indicados, e ela o fez.

Assim, desde os dez anos de idade, eu saía bem cedo da cidade onde morava, tomava um trem subúrbio invariavelmente lotado e, após caminhar mais alguns quilômetros, eu chegava para as aulas. Essa experiência rara e inimaginável para mim até então, colocou-me em contato com o mundo real, acelerou meu desenvolvimento e creio que isso foi o alicerce do meu projeto de carreira.

Naquela época, talvez por influência de minha família vinda do interior, eu era um garoto muito supersticioso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse um transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC. De qualquer modo, um punhado deles integrava o meu cotidiano.

Era comum voltar várias vezes para ter certeza de que uma porta estava fechada, ou então gastava um tempo considerável para colocar um objeto na posição correta, e muitos outros comportamentos inúteis dos quais eu era refém, ou seja, eu não conseguia controlar a necessidade de repeti-los, como se eu viesse a ser punido, caso não os fizesse por várias vezes.

Um destes comportamentos ficou em minha memória.

Eu fazia o mesmo caminho todos dias desde a estação de trem até a escola e, numa determinada casa, havia uma daquelas janelas bem antigas. Em cada lado dessa janela, havia uma pequena haste que era usada para prender a veneziana quando aberta e, não sei por qual motivo, a partir de um determinado dia, cismei de bater com minha mão nas duas hastes em todas as vezes que passava por aquela casa.

É bem possível que eu fizesse algo similar em outros lugares. Troco o “bem possível” por um “com certeza”.

Até que numa manhã cheia de nuvens, bati minha mão na pequena peça metálica e, antes que eu pudesse prever, alguém abriu com violência desnecessária a tal janela e perguntou num grito estridente:

— Por que você faz isso todos os dias, seu moleque?

Não posso me lembrar qual foi minha reação após ter parado de correr, várias quadras adiante, como um moleque fujão.

Mas aquele susto interrompeu inexplicavelmente aquele e todos os outros atos supersticiosos que eu praticava. Aliás, foi como uma lavagem cerebral, que talvez pudesse ser classificada como uma espécie de libertação.

O susto foi o remédio, assim como minha mãe fazia para interromper as contrações involuntárias de meu diafragma, as quais eu chamava de “soluço”.

Contei essa história toda, como uma espécie de parábola relacionada aos indesejáveis vícios profissionais que, apesar de não conectados com superstições, muitas vezes não conseguimos interromper.

O medo de perder o respeito dos colegas, o medo de ser mal interpretado, o medo de falhar ou fracassar e muitos outros medos, nos levam a atos involuntários que nos escravizam em comportamentos medíocres, desrespeitosos e de baixo valor, mas o pior é que não temos consciência do mal que eles podem estar causando às outras pessoas e fundamentalmente a nós mesmos.

Até que alguém nos dá um grande susto e nos liberta, mas infelizmente isso pode significar uma indesejada demissão.

Talvez eu nunca consiga me livrar de algumas pequenas superstições, mas os meus medos, creio que tenha aprendido a enfrentar…

… sem sustos.

A primeira aula

A primeira aula 1

 

Por Vitor Seravalli

Na busca de um diferencial para concorrer no mercado de trabalho, vale tudo. E isto não é privilégio das gerações atuais.

Confesso que em meus tempos na universidade, eu não possuía qualquer habilidade ou competência que me distinguisse de meus colegas concorrentes, por exemplo, nas disputas por estágios. A história se repetia sempre da mesma maneira, ou seja, dependíamos unicamente da empatia para a conquista de uma vaga.

Por isso, logo que terminei o curso, fui atrás de um trabalho que pudesse me ajudar a ganhar alguma experiência e alguns trocados, é claro.

Eu havia investido no aprendizado de linguagens de programação, pois percebera que, naquela época, os tais microcomputadores estavam chegando para ficar.

Estava na moda aprender uma tal linguagem Basic e eu já a estava dominando, quando surgiu uma oportunidade para que eu me transformasse num facilitador de uma turma da escola onde eu mesmo estudara.

O diretor foi logo me avisando que o meu antecessor fora demitido pelos próprios alunos, pois eles eram exigentes executivos de empresas multinacionais e o avaliaram mal.

Embora aquela informação fosse indesejável para mim, pois, até então, eu nunca houvera experimentado ensinar alguém, ainda mais com perfil de exigência tão alto, aceitei o desafio e iniciei um processo de preparação. Eu teria uma semana até minha primeira aula.

Como eu gostava do assunto, descobri que durante o final de semana que se aproximava, ocorreria uma feira de informática de grande dimensão. Assim, tomei a decisão de chegar bem cedo à tal feira e buscar todas informações que estivessem disponíveis. Nem me lembro se cheguei a almoçar ou jantar, mas o que nunca me esqueci é que entrei em praticamente todos os estandes. Sai de lá exausto, porém repleto de detalhes e informações técnicas sobre todos os equipamentos, softwares, sistemas, etc.

O tempo passou rápido e, chegou a hora de conhecer meus potenciais algozes.

Entrei na sala e, como devia ter um perfil físico parecido com meu colega anterior, notei um discreto e generalizado clima de desconfiança. Talvez fossemos jovens demais.

Busquei capturar as expectativas de cada aluno, deixando que pusessem para fora tudo o que eu pudesse aproveitar quando realmente o curso começasse. Tentei quebrar o gelo de todos os modos possíveis. E, apesar de minha insegurança, sobrevivi.

Mas o fato é que a aula ainda não havia começado para valer e, nesse banho maria, chegou a hora do intervalo.

Antes de voltarmos, eu refleti um pouco e cheguei à conclusão de que precisaria conquistá-los de algum modo, e a única estratégia disponível dependia do arsenal de informações que ainda estava quente em minha cabeça.

Assim, os informei que no tempo que restava daquela primeira aula, eu iria atualizá-los sobre o cenário dos recursos disponíveis no mercado.

Respirei fundo, e coloquei tudo para fora, com a maior quantidade de detalhes e da melhor forma que pude. Eu teria aproximadamente uma hora e meia até o final da aula, mas extrapolei. Foram duas horas e alguns minutos de aula e, surpreendentemente, ninguém piscava. Quando terminei, a classe estava em êxtase. Eu voltei para casa feliz, mas confesso que, internamente, eu mesmo me surpreendera com minha performance.

O curso seguiu em frente sem que eu me lembrasse da insegurança que senti antes do curso começar.

No final, eles estavam até tentando me ajudar a conseguir um bom emprego e o melhor de tudo foi perceber que eles todos ficaram tão empolgados, que até compraram seus próprios equipamentos, pois se sentiam capazes de utilizá-los com os conhecimentos recém-adquiridos.

Aquele episódio me fortaleceu e pouco tempo depois eu, finalmente, consegui conquistar a tão desejada vaga numa grande empresa, aliás, a mesma onde construí minha carreira posteriormente.

O aprendizado principal que incorporei para as etapas seguintes de minha carreira foi a necessidade de uma percepção aguçada às novas oportunidades. Além disso, a minha intuição sempre me alertou nos momentos em que eu deveria acreditar e investir com plenitude em tudo o que pudesse me agregar valor, por exemplo, quando passei pela porta de entrada daquela que se tornou a mais importante feira de informática de toda a minha vida.

Na calada da noite

Na calada da noite 5Por Vitor Seravalli

Compreender o comportamento de algumas pessoas pode ser considerada uma das tarefas mais difíceis em algumas circunstâncias. Mas eu, em meus tempos iniciais como executivo, já estava me acostumando com aquelas notícias que chegavam à minha mesa todos os dias.

Um supervisor do período noturno, que tinha um horário fixo para um longo cochilo durante o período de trabalho, com a conivência e proteção de seus passivos e medrosos subordinados. Ou aquele funcionário que aproveitava momentos de baixa circulação de pessoas e invadia o sistema de controle de pessoal da empresa para agregar horas extras indevidas ao seu prontuário.

Nem me lembro quantos casos ocorreram durante a minha gestão. Contudo, minha equipe era treinada e conseguia resolver a grande maioria das aberrações que ocorriam.

Lembro-me de um rapaz que participava do programa social mantido pela empresa para desenvolvimento de jovens da comunidade. E nunca consegui entender o motivo que o fez, mesmo depois de ser contratado graças ao curso técnico que fora oferecido a ele gratuitamente, entrar de madrugada num laboratório que estava fechado, com um disfarce cobrindo sua cabeça, para roubar alguns objetos. Foi pego em flagrante, perdeu o emprego e quase comprometeu a iniciativa como um todo.

Outra vez, descobrimos um funcionário antigo roubando brindes em grande quantidade. Ele era um funcionário da área comercial e tinha acesso à área onde os mesmos eram guardados. O problema é que o tal profissional, os levava para tirar algum benefício pessoal completamente irregular.

Nunca me esquecerei de um outro caso, em que um funcionário terceirizado foi pego com a mão na massa numa irregularidade de dimensão maior e, quando questionado, sorriu ironicamente, dizendo que a segurança da empresa era muito fraca. Chegou ao cúmulo de contar uma história maluca em que pegou um equipamento valioso, saiu da empresa com ele, como se estivesse testando os sistemas de detecção e depois voltou para dentro sem ser pego. Não roubou, mas zombou da empresa com outros colegas

Por isso, sempre começo os processos de capacitação sobre gestão da ética, com a afirmação de que, nas empresas, a ética tem duas dimensões: a individual e a empresarial.

Evidentemente, as empresas devem definir claramente os seus valores. É também importante que estes valores estratégicos e as regras de conduta estejam formalizadas num claro e esclarecedor código de ética e conduta. É fundamental a manutenção de programas que garantam um modelo de gestão da ética e compliance em todos os processos existentes, é primordial que as organizações implantem canais para a devida comunicação de quaisquer infrações, sem que o denunciante seja exposto. Obviamente, nem é necessário dizer, que as ações posteriores à identificação das más condutas devam seguir procedimentos justos, adequados e transparentes.

Porém, a atitude que será a essência de tudo o que vier ocorrer, depende única e exclusivamente de um indivíduo. Mesmo que a responsabilidade sobre um mal comportamento recaia sobre um grupo de pessoas, em algum momento, alguém tem uma ideia e, após acreditar que ela seja viável, mesmo contrariando referências éticas, a compartilha.

Quando isso acontece, há a oportunidade para que os sistemas e programas mencionados anteriormente, sejam testados. A má noticia mostra que a criatividade também é uma competência de pessoas de baixo valor.

Mas uma luz, ainda tênue é bem verdade, já se mostra cada vez mais evidente no fim do túnel. Embora, muitos não acreditem que as culturas da corrupção e da falta de ética possam ser derrotadas algum dia, principalmente pela divulgação ampla que novos casos ganham nos noticiários, cada vez fica mais improvável o cenário da impunidade eterna.

Pode demorar, mas os fatos mostram que, mais cedo ou mais tarde, as infrações são descobertas e os seus responsáveis são incriminados.

Alguns destes infratores nos surpreendem pela resiliência e pela alta capacidade de escapar dos mecanismos de controle. Porém, minha percepção é que a única variável existente, e que atrasa a punição merecida dos mesmos, é o tempo.

Nada mais animador, em tempos onde os valores são castigados, maltratados e mesmo pessoas originalmente honestas, sucumbem às “maracutaias” encrustadas nos sistemas públicos e privados.

As novas leis ajudarão. A imprensa ética e não sensacionalista contribuirá. Bons exemplos proliferarão.

Mas a decisão final estará sempre na solidão de nossa consciência, em nosso interior. E acredito fortemente, que finalmente saberemos discernir e faremos a boa escolha, mesmo sem fiscalização, mesmo que ninguém esteja nos vendo, e mesmo que estejamos completamente protegidos pela escuridão da calada da noite.