Posts da categoria: Histórias

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.

A maratona

Mizuno Uphill Marathon 2015

Por Vitor Seravalli

Para muitas pessoas, correr uma maratona é algo completamente fora de propósito, coisa de maluco mesmo. Afinal, são quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros percorridos a pé de uma só vez. Essa maluquice pode durar um pouco mais de duas horas para os atletas profissionais, mas pode chegar até seis horas para os amadores.

Os especialistas dizem que o fator de sucesso dos “finishers”, ou daqueles que conseguem alcançar a linha de chegada, está mais relacionado à mente do que ao corpo. Há sentido nessa afirmação, pois muitos atletas bem preparados, dependendo do ritmo que escolhem adotar, “quebram” principalmente após ultrapassarem a barreira dos trinta quilômetros. Este termo comum é um estado em que um corredor constata que não conseguirá chegar ao final da prova no ritmo que a iniciou.

Comecei este texto para contar mais uma história de liderança. Mas o que isso tem a ver com liderança?

Com liderança de processos, acredito que tenha uma plena relação. E estou apto a dizer isso, pois já enfrentei este desafio por vinte e duas vezes.

Porém, a última vez em que decidi fazê-lo, foi uma experiência diferente das outras em diversos sentidos.

A começar pela beleza ímpar do local, uma serra tão linda quanto difícil de ser vencida. Em seguida, a primeira disputa seria no processo inscrição pela internet em data e horário pré-determinados. Somente os mais rápidos no teclado conseguiriam preencher as aproximadamente quinhentas vagas. Comecei bem, porque eu estava entre eles.

O percurso seria tão desafiador que os organizadores decidiram provocar os corredores inscritos dizendo que somente os vencedores seriam os verdadeiros “ninja runners”.

Eu estava um pouco assustado, mas já havia decidido me tornar um desses tais “ninjas”.

Minha preparação foi semelhante às corridas anteriores, mas confesso que ela deveria ter sido mais intensa, afinal um paredão de quase um quilômetro e meio de altura estaria à minha frente antes da chegada.

Enfim, chegou o grande dia.

O clima estava ameno e todos torciam para que não chovesse durante o percurso.

Às quatro horas e trinta minutos da tarde, partimos. Muita animação em todos os rostos, tanto dos atletas quanto dos amigos e familiares que torciam incrédulos por aquele bando de doidos varridos.

Logo, percebi que não seria possível acelerar muito, pois embora o grande aclive ainda estivesse bem distante, desde o começo já não estávamos correndo no plano. Ou seja, já subíamos pouco a pouco.

Algumas escolhas erradas já começavam a me incomodar. Com medo de um eventual frio intenso, optei em correr com uma jaqueta plástica do tipo “corta-vento”. Como não estava frio, ela já teve que ser retirada e tornou-se um peso morto em minha cintura. Pensei até em descartá-la, mas se tratava de uma roupa cara e de qualidade. Assim, segui adiante.

Um pouco mais à frente, a noite foi ganhando espaço e, juntamente com ela, veio a escuridão. Eu nunca havia participado de um evento em que uma simples lanterna, generosamente emprestada, assumisse uma função tão importante.

Um outro detalhe relevante foi perceber que durante boa parte do tempo, eu estava completamente só.

Tudo continuava sob controle e meu plano era manter o ritmo e não gastar qualquer energia além do essencial, pois ela seria fundamental quando a subida final chegasse.

A meta era completar o percurso, mas além disso havia um limite máximo de tempo. Eu deveria cruzar a linha de chegada antes do tempo limite de seis horas. Para atletas adequadamente preparados, este limite seria uma brincadeira. Mas àquela altura, eu sabia que precisaria de muita determinação, porque uma subida íngreme se apresentava insuperável em frente ao meu incrédulo olhar.

Num último posto de abastecimento, eu tomei a decisão de investir alguns minutos a mais e tomar bastante água, comer frutas e, enfim, encher meu tanque de combustível, pois dali para frente, eu enfrentaria a batalha final.

As passadas tornaram-se mais lentas e um trote confiante se transformou numa caminhada, muitas vezes, ofegante.

O tempo seguia acelerado e, quando consegui escutar algumas vozes, elas eram genuínas ameaças.

O tempo limite se aproximava e o narrador avisava que quando este se esgotasse, todos os corredores retardatários não receberiam a premiação reservada somente aos tais “ninja runners”.

Fui em frente, mas já não seria possível chegar a tempo.

Cruzei a linha final.

Eu venci por ter chegado, mas perdi por ter ultrapassado o tempo máximo. Meu percurso foi completado em seis horas e cinco minutos.

Vi expressões frustradas das pessoas queridas que me esperavam, mas afinal, eu estava bem. Chegar inteiro naquelas condições tão adversas já se configurava uma grande vitória, mesmo sem a merecida medalha que não me foi entregue pelo capricho de um regulamento rigoroso demais.

Enquanto voltava para o hotel, uma reflexão imediata sobre minha performance mostrou-me alguns pontos positivos e também diversos aprendizados vindos daquela rica experiência, a maioria deles já conhecidos por mim.

Os pontos positivos foram: o prazer pelo desafio, a determinação, a persistência, a resistência e o autocontrole.

Quanto aos aprendizados principais, o primeiro deles é bem básico: Se o projeto é um grande desafio, a qualidade de seu planejamento deve ser proporcional.

Em seguida, os ingredientes para o sucesso devem incluir disciplina, monitoramento constante dos indicadores, avaliação mais precisa do ambiente, escolha e priorização dos recursos necessários. Em relação a este último, estou certo que o peso de minha jaqueta desnecessária impactou em meu tempo total.

Acredito também que tenha subestimado a necessidade de algumas simulações e treinamentos prévios da situação que enfrentei ao encontrar a tal subida.

Além disso, a necessidade de uma maior prevenção de desperdícios se evidenciou nos minutos preciosos que perdi em meu último reabastecimento. Não sei precisar o quanto ele me ajudou, mas os cinco minutos que deixei ali, já seriam suficientes para que eu chegasse antes do limite.

Finalmente, pensei no reconhecimento. Os líderes na maior parte do tempo estão sós. E muitas vezes, mesmo após suas conquistas, não são reconhecidos adequadamente e podem não receber a sua medalha. Nem por isso, eles devem desistir, pois são movidos por algo muito maior. Algo que somente eles conseguem ver no horizonte.

Por falar nisso, já estou me preparando para minha próxima maratona.

Vamos nessa?

Minha primeira lição

Minha primeira lição 1Por Vitor Seravalli

Eu ficava imaginando o momento em que me tornaria um líder.

As evidências indicavam que isso não demoraria a acontecer, mas eu seguia em frente em meu trabalho e tentava aprender o que fosse possível para não me dar mal quando a oportunidade viesse.

As escolas ensinam os fundamentos, mas a verdadeira aula de liderança somente acontece quando as testemunhas são nossos liderados.

Naquela época, eu também buscava algumas conquistas pessoais e uma delas era a aquisição do primeiro imóvel, um pequeno apartamento, cuja construção chegava ao seu final. Eu já morava num apartamento de outro edifício do mesmo condomínio, mas conseguir um financiamento em meu próprio nome, era algo para se comemorar.

As obras e os acabamentos apresentavam muitas pendências e um grupo de novos proprietários se formou para negociar com a construtora, afinal eles estavam com razão em praticamente todos os pontos. Obviamente, eu era um deles.

Íamos bem e, pouco a pouco, tudo foi sendo colocado em ordem.

Algumas semanas depois, houve a eleição para escolha de um novo síndico do condomínio com a integração dos dois edifícios, um deles mais antigo e com diversas necessidades de manutenção e o outro, novinho em folha, mas ainda com algumas pendências.

Nunca houvera uma reunião com tantos moradores presentes. Quase não havia espaço naquele salão de festas e, após uma acalorada discussão, onde todos tinham suas razões, mas nem todas as razões se sintonizavam, houve o consenso de que somente um morador conhecia os dois edifícios e esse argumento era suficiente para a melhor escolha, então eu fui eleito.

Eu não queria ser líder? Pois então havia chegado a primeira oportunidade. A única remuneração seria o valor da taxa condominial mensal, mas ao final da reunião, eu voltei para casa amedrontado e muito feliz.

Assumi a responsabilidade com muita motivação, montei uma lista de prioridades, estruturei o plano de ação mais consistente que pude e mostrei para os membros do conselho, que eram alguns dos meus novos e entusiasmados vizinhos.

Foi uma fase muito boa, apesar de um desgaste muito maior do que eu poderia esperar. Os moradores do prédio mais antigo não concordavam com nada que apresentávamos como propostas e alguns até nos ameaçavam. O síndico anterior conhecia melhor os problemas existentes e usava as informações para nos desestruturar.

Porém, éramos valentes, competentes e buscávamos equilibrar aquele relacionamento difícil com admirável resiliência.

Creio que nenhum síndico do mundo fez tantas assembleias para alcançar consenso e prestar contas como eu decidi fazer.

Internamente, eu queria que minha gestão tivesse a maior aceitação possível.

Com o tempo, os atritos e as intrigas se tornaram mais frequentes e aquilo elevou meu nível de estresse a um limite nunca antes alcançado.

Até que apareceu uma necessidade comum para ambos os edifícios e eu encontrei a oportunidade que tanto queria para agradar a todos naquela comunidade. Eu somente teria que usar minha competência com plenitude para, finalmente, conseguir a unanimidade de aprovação. Era algo muito importante para mim e assim, fiz o melhor que pude.

Quando a obra terminou, eu estava muito feliz e orgulhoso por ter superado aquele desafio. Com meus botões eu refletia que havia chegado o momento de receber o reconhecimento tão merecido.

Mas ali no interior de minha casa, isso não seria possível. Assim, entrei no elevador, desci ao andar térreo, escolhi um lugar onde todas as pessoas pudessem me ver e, tolo e ingênuo, fiquei à espera dos elogios que, certamente, me fariam.

Após alguns minutos, uma senhora que morava sozinha veio ao meu encontro, respirou fundo e descarregou todas as críticas que encontrou em seu repertório. Chegou uma segunda pessoa e, apesar de reconhecer o trabalho que havia sido feito, compensou seu breve elogio com meia dúzia de reclamações completamente injustas e desnecessárias.

Quando me deixaram sozinho novamente, senti uma frustração que nunca ocorrera em nenhum momento anterior em minha vida.

Talvez tenha até sentido vontade de chorar, mas aguentei firme e voltei para casa. Minha missão estava cumprida e aquele sinal mostrou-me que era chegada a hora de voltar a ser, novamente, um simples morador.

Aquela experiência foi a primeira de uma infinidade de outras que tive posteriormente ao longo do caminho que escolhi seguir para me tornar um líder de verdade.

Confesso que esses aprendizados ainda se renovam a cada dia, contudo, a primeira lição nunca mais esquecerei, pois fundamentou algo que todos os líderes, em qualquer dimensão, deveriam saber:

“Cuide de seus valores, busque seus objetivos, evidencie seus resultados e comemore suas conquistas, mas em nenhum momento, tenha a ilusão de que conseguirá agradar a todos”.

Pequenas superstições

superstiçoes7

 

Por Vitor Seravalli

Mesmo quando eu ainda era uma criança rumo à adolescência, já possuía total consciência de que meus conhecimentos gerais eram escassos. Porém, sempre sobrou uma vontade doida para aprender.

Além disso, tive sorte. Uma tia muito querida se lembrou de mim quando soube que a empresa onde ela trabalhava mantinha uma escola profissionalizante de ótimo nível, na qual os parentes de funcionários poderiam ser indicados, e ela o fez.

Assim, desde os dez anos de idade, eu saía bem cedo da cidade onde morava, tomava um trem subúrbio invariavelmente lotado e, após caminhar mais alguns quilômetros, eu chegava para as aulas. Essa experiência rara e inimaginável para mim até então, colocou-me em contato com o mundo real, acelerou meu desenvolvimento e creio que isso foi o alicerce do meu projeto de carreira.

Naquela época, talvez por influência de minha família vinda do interior, eu era um garoto muito supersticioso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse um transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC. De qualquer modo, um punhado deles integrava o meu cotidiano.

Era comum voltar várias vezes para ter certeza de que uma porta estava fechada, ou então gastava um tempo considerável para colocar um objeto na posição correta, e muitos outros comportamentos inúteis dos quais eu era refém, ou seja, eu não conseguia controlar a necessidade de repeti-los, como se eu viesse a ser punido, caso não os fizesse por várias vezes.

Um destes comportamentos ficou em minha memória.

Eu fazia o mesmo caminho todos dias desde a estação de trem até a escola e, numa determinada casa, havia uma daquelas janelas bem antigas. Em cada lado dessa janela, havia uma pequena haste que era usada para prender a veneziana quando aberta e, não sei por qual motivo, a partir de um determinado dia, cismei de bater com minha mão nas duas hastes em todas as vezes que passava por aquela casa.

É bem possível que eu fizesse algo similar em outros lugares. Troco o “bem possível” por um “com certeza”.

Até que numa manhã cheia de nuvens, bati minha mão na pequena peça metálica e, antes que eu pudesse prever, alguém abriu com violência desnecessária a tal janela e perguntou num grito estridente:

— Por que você faz isso todos os dias, seu moleque?

Não posso me lembrar qual foi minha reação após ter parado de correr, várias quadras adiante, como um moleque fujão.

Mas aquele susto interrompeu inexplicavelmente aquele e todos os outros atos supersticiosos que eu praticava. Aliás, foi como uma lavagem cerebral, que talvez pudesse ser classificada como uma espécie de libertação.

O susto foi o remédio, assim como minha mãe fazia para interromper as contrações involuntárias de meu diafragma, as quais eu chamava de “soluço”.

Contei essa história toda, como uma espécie de parábola relacionada aos indesejáveis vícios profissionais que, apesar de não conectados com superstições, muitas vezes não conseguimos interromper.

O medo de perder o respeito dos colegas, o medo de ser mal interpretado, o medo de falhar ou fracassar e muitos outros medos, nos levam a atos involuntários que nos escravizam em comportamentos medíocres, desrespeitosos e de baixo valor, mas o pior é que não temos consciência do mal que eles podem estar causando às outras pessoas e fundamentalmente a nós mesmos.

Até que alguém nos dá um grande susto e nos liberta, mas infelizmente isso pode significar uma indesejada demissão.

Talvez eu nunca consiga me livrar de algumas pequenas superstições, mas os meus medos, creio que tenha aprendido a enfrentar…

… sem sustos.

A primeira aula

A primeira aula 1

 

Por Vitor Seravalli

Na busca de um diferencial para concorrer no mercado de trabalho, vale tudo. E isto não é privilégio das gerações atuais.

Confesso que em meus tempos na universidade, eu não possuía qualquer habilidade ou competência que me distinguisse de meus colegas concorrentes, por exemplo, nas disputas por estágios. A história se repetia sempre da mesma maneira, ou seja, dependíamos unicamente da empatia para a conquista de uma vaga.

Por isso, logo que terminei o curso, fui atrás de um trabalho que pudesse me ajudar a ganhar alguma experiência e alguns trocados, é claro.

Eu havia investido no aprendizado de linguagens de programação, pois percebera que, naquela época, os tais microcomputadores estavam chegando para ficar.

Estava na moda aprender uma tal linguagem Basic e eu já a estava dominando, quando surgiu uma oportunidade para que eu me transformasse num facilitador de uma turma da escola onde eu mesmo estudara.

O diretor foi logo me avisando que o meu antecessor fora demitido pelos próprios alunos, pois eles eram exigentes executivos de empresas multinacionais e o avaliaram mal.

Embora aquela informação fosse indesejável para mim, pois, até então, eu nunca houvera experimentado ensinar alguém, ainda mais com perfil de exigência tão alto, aceitei o desafio e iniciei um processo de preparação. Eu teria uma semana até minha primeira aula.

Como eu gostava do assunto, descobri que durante o final de semana que se aproximava, ocorreria uma feira de informática de grande dimensão. Assim, tomei a decisão de chegar bem cedo à tal feira e buscar todas informações que estivessem disponíveis. Nem me lembro se cheguei a almoçar ou jantar, mas o que nunca me esqueci é que entrei em praticamente todos os estandes. Sai de lá exausto, porém repleto de detalhes e informações técnicas sobre todos os equipamentos, softwares, sistemas, etc.

O tempo passou rápido e, chegou a hora de conhecer meus potenciais algozes.

Entrei na sala e, como devia ter um perfil físico parecido com meu colega anterior, notei um discreto e generalizado clima de desconfiança. Talvez fossemos jovens demais.

Busquei capturar as expectativas de cada aluno, deixando que pusessem para fora tudo o que eu pudesse aproveitar quando realmente o curso começasse. Tentei quebrar o gelo de todos os modos possíveis. E, apesar de minha insegurança, sobrevivi.

Mas o fato é que a aula ainda não havia começado para valer e, nesse banho maria, chegou a hora do intervalo.

Antes de voltarmos, eu refleti um pouco e cheguei à conclusão de que precisaria conquistá-los de algum modo, e a única estratégia disponível dependia do arsenal de informações que ainda estava quente em minha cabeça.

Assim, os informei que no tempo que restava daquela primeira aula, eu iria atualizá-los sobre o cenário dos recursos disponíveis no mercado.

Respirei fundo, e coloquei tudo para fora, com a maior quantidade de detalhes e da melhor forma que pude. Eu teria aproximadamente uma hora e meia até o final da aula, mas extrapolei. Foram duas horas e alguns minutos de aula e, surpreendentemente, ninguém piscava. Quando terminei, a classe estava em êxtase. Eu voltei para casa feliz, mas confesso que, internamente, eu mesmo me surpreendera com minha performance.

O curso seguiu em frente sem que eu me lembrasse da insegurança que senti antes do curso começar.

No final, eles estavam até tentando me ajudar a conseguir um bom emprego e o melhor de tudo foi perceber que eles todos ficaram tão empolgados, que até compraram seus próprios equipamentos, pois se sentiam capazes de utilizá-los com os conhecimentos recém-adquiridos.

Aquele episódio me fortaleceu e pouco tempo depois eu, finalmente, consegui conquistar a tão desejada vaga numa grande empresa, aliás, a mesma onde construí minha carreira posteriormente.

O aprendizado principal que incorporei para as etapas seguintes de minha carreira foi a necessidade de uma percepção aguçada às novas oportunidades. Além disso, a minha intuição sempre me alertou nos momentos em que eu deveria acreditar e investir com plenitude em tudo o que pudesse me agregar valor, por exemplo, quando passei pela porta de entrada daquela que se tornou a mais importante feira de informática de toda a minha vida.

Na calada da noite

Na calada da noite 5Por Vitor Seravalli

Compreender o comportamento de algumas pessoas pode ser considerada uma das tarefas mais difíceis em algumas circunstâncias. Mas eu, em meus tempos iniciais como executivo, já estava me acostumando com aquelas notícias que chegavam à minha mesa todos os dias.

Um supervisor do período noturno, que tinha um horário fixo para um longo cochilo durante o período de trabalho, com a conivência e proteção de seus passivos e medrosos subordinados. Ou aquele funcionário que aproveitava momentos de baixa circulação de pessoas e invadia o sistema de controle de pessoal da empresa para agregar horas extras indevidas ao seu prontuário.

Nem me lembro quantos casos ocorreram durante a minha gestão. Contudo, minha equipe era treinada e conseguia resolver a grande maioria das aberrações que ocorriam.

Lembro-me de um rapaz que participava do programa social mantido pela empresa para desenvolvimento de jovens da comunidade. E nunca consegui entender o motivo que o fez, mesmo depois de ser contratado graças ao curso técnico que fora oferecido a ele gratuitamente, entrar de madrugada num laboratório que estava fechado, com um disfarce cobrindo sua cabeça, para roubar alguns objetos. Foi pego em flagrante, perdeu o emprego e quase comprometeu a iniciativa como um todo.

Outra vez, descobrimos um funcionário antigo roubando brindes em grande quantidade. Ele era um funcionário da área comercial e tinha acesso à área onde os mesmos eram guardados. O problema é que o tal profissional, os levava para tirar algum benefício pessoal completamente irregular.

Nunca me esquecerei de um outro caso, em que um funcionário terceirizado foi pego com a mão na massa numa irregularidade de dimensão maior e, quando questionado, sorriu ironicamente, dizendo que a segurança da empresa era muito fraca. Chegou ao cúmulo de contar uma história maluca em que pegou um equipamento valioso, saiu da empresa com ele, como se estivesse testando os sistemas de detecção e depois voltou para dentro sem ser pego. Não roubou, mas zombou da empresa com outros colegas

Por isso, sempre começo os processos de capacitação sobre gestão da ética, com a afirmação de que, nas empresas, a ética tem duas dimensões: a individual e a empresarial.

Evidentemente, as empresas devem definir claramente os seus valores. É também importante que estes valores estratégicos e as regras de conduta estejam formalizadas num claro e esclarecedor código de ética e conduta. É fundamental a manutenção de programas que garantam um modelo de gestão da ética e compliance em todos os processos existentes, é primordial que as organizações implantem canais para a devida comunicação de quaisquer infrações, sem que o denunciante seja exposto. Obviamente, nem é necessário dizer, que as ações posteriores à identificação das más condutas devam seguir procedimentos justos, adequados e transparentes.

Porém, a atitude que será a essência de tudo o que vier ocorrer, depende única e exclusivamente de um indivíduo. Mesmo que a responsabilidade sobre um mal comportamento recaia sobre um grupo de pessoas, em algum momento, alguém tem uma ideia e, após acreditar que ela seja viável, mesmo contrariando referências éticas, a compartilha.

Quando isso acontece, há a oportunidade para que os sistemas e programas mencionados anteriormente, sejam testados. A má noticia mostra que a criatividade também é uma competência de pessoas de baixo valor.

Mas uma luz, ainda tênue é bem verdade, já se mostra cada vez mais evidente no fim do túnel. Embora, muitos não acreditem que as culturas da corrupção e da falta de ética possam ser derrotadas algum dia, principalmente pela divulgação ampla que novos casos ganham nos noticiários, cada vez fica mais improvável o cenário da impunidade eterna.

Pode demorar, mas os fatos mostram que, mais cedo ou mais tarde, as infrações são descobertas e os seus responsáveis são incriminados.

Alguns destes infratores nos surpreendem pela resiliência e pela alta capacidade de escapar dos mecanismos de controle. Porém, minha percepção é que a única variável existente, e que atrasa a punição merecida dos mesmos, é o tempo.

Nada mais animador, em tempos onde os valores são castigados, maltratados e mesmo pessoas originalmente honestas, sucumbem às “maracutaias” encrustadas nos sistemas públicos e privados.

As novas leis ajudarão. A imprensa ética e não sensacionalista contribuirá. Bons exemplos proliferarão.

Mas a decisão final estará sempre na solidão de nossa consciência, em nosso interior. E acredito fortemente, que finalmente saberemos discernir e faremos a boa escolha, mesmo sem fiscalização, mesmo que ninguém esteja nos vendo, e mesmo que estejamos completamente protegidos pela escuridão da calada da noite.

Inexperiência preferencial

inexperiência preferencial 1

Por Vitor Seravalli

Carlos entrou em minha sala com uma expressão diferente.

Certamente, ele estava com alguma notícia nova e, pelo jeito, isto significaria alguma mudança iminente. Os gerentes de recursos humanos que conviveram comigo durante a minha carreira executiva tinham essa característica, ou seja, gostavam de mexer com quem estava quieto.

Bom, mas o fato é que a vida corporativa é uma metamorfose constante, o que no final das contas tem seu lado bom.

Ele foi direto ao ponto:

_Vamos ter que substituir sua consultora. Ela é bastante experiente, e agora cuidará de uma área maior. Seus resultados têm sido tão bons, que ela foi requisitada para maiores desafios.

Não gostei da novidade, pois tínhamos desafios importantes apesar de subestimados por meu colega, e a troca poderia trazer impactos negativos à minha equipe. Liliana era uma profissional competente, e não passava por minha cabeça perdê-la àquela altura.

Todavia, não se tratava de uma consulta. A decisão já estava tomada.

_Mas não se preocupe – disse ele, com olhar confiante. – Tenho ótimas opções de outros profissionais que a substituirão sem qualquer prejuízo para você.

Comigo mesmo eu pensava: Se eles fossem realmente tão bons, por que não foram indicados para a tal área importante?

Ouvi os nomes de dois outros consultores, que embora experientes, não possuíam o perfil de competências que precisávamos.

Pensei um pouco e logo me lembrei de uma jovem bastante inteligente, cuja atitude compensava, de longe, sua falta de experiência.

Sempre proativa, aprendia rápido, e enfrentava as dificuldades do dia a dia sempre com muita motivação e energia.

Na época, ela nem era ainda uma funcionária efetiva da empresa. Como era recém-graduada, possuía apenas um contrato de curto prazo. Enfim, tratava-se de uma profissional em início de carreira e que atuava como auxiliar das consultoras.

Olhei em direção ao Carlos, que aguardava minha escolha às suas indicações, e fui assertivo:

_ Bom, se você me dá a chance de uma escolha, eu não aceito suas sugestões, mas aceitarei que a Julia seja minha nova consultora.

Ele me olhou incrédulo e surpreso, pois Julia nem era uma alternativa. Além de jovem e inexperiente, ela primeiramente precisaria se tornar uma funcionária da empresa.

Discutimos bastante sobre o assunto, mas afinal, ele também valorizava o potencial da garota, e acabou pedindo um tempo para avaliar minha proposta.

Após algum tempo, fiquei feliz em saber que Julia seria contratada e, em algumas semanas, ela passou a cuidar das demandas de desenvolvimento da minha equipe.

O tempo, passou, e sua atuação mostrou que eu estava completamente certo.

Julia nos ajudou muito, e não foram poucas as vezes em que ela foi exigida ao máximo, mas nunca me desapontou.

Esta não foi a última vez que Carlos fez mudanças, e não tardou a hora em que levou Julia para novos caminhos. E o pior é que nem me deu escolhas para sua substituição. Mas isto seria uma outra história.

O que importa, é que o tempo passou, e a carreira de Julia seguiu em frente com bastante sucesso. Até hoje, seu rosto permanece jovial e seu olhar continua empático. Felizmente, isso nunca mudou.

Mas o que ficou como resultado daquela singela passagem foi a importância de alguns detalhes quando buscamos pessoas e profissionais para integrar nossas equipes.

Conhecimentos e habilidades técnicas são importantes. Experiência também.

Mas há algo tão fundamental quanto isso, e que nem sempre se aprende na escola.

Trata-se de uma essência humana que alguns tem e outros vivem a vida inteira sem descobri-la. Energia, motivação, humildade e simplicidade são alguns dos seus componentes.

E o exemplo de Julia serviu-me de ótima referência em diversas boas apostas que fiz posteriormente.

O curto caminho longo

O curto caminho longo 1

 

Por Vitor Seravalli

Quando ouvi meu chefe falar aquilo pela primeira vez, confesso não ter compreendido bem, mas logo ele explicou o que queria dizer.

Ele afirmava que a maioria das pessoas optam pelo longo caminho curto para conseguir as coisas, mas isso não é bom. Bom mesmo é escolher o curto caminho longo.

Obviamente, ele se referia às decisões de curto prazo em detrimento das que priorizam o planejamento de longo prazo.

Fiquei com aquilo na cabeça, até que um dia, pude escolher meu próprio modelo de decisão.

Estávamos lutando para implementar um projeto novo. Tão novo que não possuía referência nenhuma dentro da organização em nenhuma parte do mundo.

Nem me lembro quantas vezes notei as pessoas me olhando como alguém sem noção da realidade. Algumas certamente pensavam que eu vivia em outra dimensão, mas eu estava com uma ideia de ouro em minhas mãos, e sabia disso.

O projeto era bom mesmo, e assim, com perseverança e o apoio de pessoas muito competentes, o processo evoluiu.

Para ser franco eu já estava com a aprovação da alta liderança, mas havia um colega responsável pela área financeira, que agia como um incrédulo. Pela sua origem e pela cultura que trazia consigo, ele não poderia desacreditar no que estávamos fazendo, mas quando se encontrava comigo, sempre colocava grandes obstáculos para minhas ações.

Precisávamos de recursos financeiros, e quando o consultei, ele me deu um acentuado “não”. Disse que eu precisaria buscar aprovação em nível mais alto.

Eu poderia ir diretamente ao presidente, mas ele disse que eu deveria aprovar minha necessidade numa reunião da alta liderança.

Tudo ficou bem mais difícil, porém eu fui. Fui e consegui a aprovação.

Algum tempo depois, ele me disse que eu necessitava aprovar a ação em outra instância, ou seja, individualmente com mais de dez colegas responsáveis por distintos negócios, pois eles teriam que absorver o recurso aprovado proporcionalmente.

Novamente, eu poderia apelar e ir diretamente ao líder mais alto, pois tudo já estava acertado.

Nesse momento, lembrei-me da opção do curto caminho longo. Coloquei a pasta do projeto embaixo de meu braço, e fui peregrinar em cada um de meus colegas. A maioria me recebia bem, mas alguns queriam mesmo me bater.

Afinal, após muita conversa, todos estavam de acordo.

A grande surpresa foi perceber que a pessoa encarregada de fazer a transferência dos recursos para nosso projeto, cometeu um engano, e simplesmente transferiu o dobro do que tínhamos aprovado.

Alguns membros do time de projeto recomendaram que eu ficasse calado, pois se o próprio funcionário de meu rigoroso colega havia errado, isto não era nossa culpa.

Mas isto não faria sentido. Mais cedo ou mais tarde, a informação se tornaria pública e o efeito seria ruim, ou mesmo pior.

Fui ao meu colega, e o informei do erro. Porém, eu disse que como o valor já estava aprovado por todos e já provisionado, eu precisaria ficar com pelo menos uma parcela para compensar a perda inflacionária e um aumento de custos que, infelizmente, ocorreu.

Ele poderia aprovar meu pedido sem questionamentos, pois afinal o impacto não seria grande.

Contudo, ele novamente disse que não. O erro fora cometido, é verdade, mas isso não significaria qualquer concessão. Se eu quisesse mais de dinheiro, que fosse buscar mais uma aprovação.

Tive vontade de mandá-lo para algum lugar não tão desejável, mas novamente veio à minha cabeça: “O curto caminho longo”.

Eu estava determinado, e nada me impediria àquela altura.

Levei o tema para nova deliberação, e ela veio até com certa sobra.

Vou encurtar a história, pois o projeto teve muitas outras dificuldades até que, finalmente, foi concluído.

Meu time foi publicamente reconhecido, assim como eu, e pudemos desfrutar da realização de algo único em toda a organização, e que se tornou uma referência global em sua área de atuação.

Não tenho dúvidas que minhas escolhas pelos caminhos mais difíceis foram muito importantes. Elas pavimentaram um caminho seguro para a construção e conquista daquilo que significava o objetivo do projeto.

Também reconheço que os passos futuros que dei em minha carreira, e mesmo em minha vida, ficaram muitos mais claros e fáceis a partir de então.

Nada de atalhos e nada de “jeitinhos”. Se estávamos desenvolvendo algo tão bom quanto imaginávamos, a estratégia certa indicava nunca pular qualquer etapa, mesmo que muitas barreiras fossem identificadas pela palavra “NÃO”.

Hoje, agradeço ao meu exigente colega por ter se colocado como um obstáculo às minhas pretensões. Se não fosse ele, é bem provável que eu me acomodasse.

Aliás, lembro-me bem de sua expressão de aprovação, quando apresentamos o resultado final positivo.

Ele foi a melhor pedra que poderia aparecer em nosso curto caminho longo.

 

O trem elétrico

Trem elétrico 1

 

Por Vitor Seravalli

Professora Hille era uma mulher bastante séria.

Ela sempre chegava a passos duros, com suas vestes germanicamente conservadoras e, embora fosse relativamente jovem, talvez com um pouco mais de cinquenta anos de idade, parecia ser bem mais idosa.

Se acomodava em sua cadeira, já começava a perguntar coisas difíceis em alemão, e aquilo se traduzia numa espécie de suplício para seus alunos, que em muitas ocasiões não compreendiam nada do que ela falava, e tampouco o que estavam fazendo ali. Evidentemente, um deles era eu.

O aprendizado daquele idioma era difícil demais, e ela não parecia ter paciência para enfrentar nossa apatia.

As coisas somente melhoravam quando ela iniciava uma estranha viagem pelo tempo, e de repente, chegava à sua terra natal, em algum período após o final da segunda guerra mundial.

Na época, ela deveria estar com uns dez anos de idade, e seus olhos brilhavam quando ela falava de sua vida e de sua família naqueles tempos muito difíceis, mas nem por isso, infelizes.

De tudo o que ela contou sobre suas recordações, algo ficou inexplicavelmente gravado em minha mente.

Seus gestos e seu olhar eram tão intensos, que até conseguíamos vencer a barreira do idioma, e então, ela começava a contar sobre o Natal. Na verdade, ela contava sobre um ritual que se incorporou à rotina de sua família nos tempos de pobreza que vieram após a guerra, especialmente nos períodos natalinos

Seus pais não tinham dinheiro para comprar presentes para ela e seus irmãos, porém eles possuíam um trem elétrico, aliás o único brinquedo que restara depois que a guerra terminou.

Então, logo no começo de cada dezembro, as crianças ficavam excitadas pela possibilidade de todos poderem rever o tal trem, que ficava cuidadosamente guardado pelos pais durante o ano todo, mas que em dezembro se materializava em frente àqueles olhos infantis, como se sua simples remontagem fosse algo mágico e único.

Lembro-me de ter visto algumas lágrimas rolarem de seus olhos, enquanto ela falava da alegria de todos quando acompanhavam o movimento dos vagões, principalmente nas horas que invadiam a noite de cada Natal.

Quando o ano novo se iniciava, tudo era desmontado com o mesmo cuidado, E uma longa espera somente se encerraria onze meses depois, no próximo dezembro.

As aulas de alemão se perderam no tempo de minha vida, contudo nunca mais me esqueci da emoção que vi nos olhos de minha professora.

Reflito sobre o efeito desse episódio em minha vida, e vejo como as coisas mudaram nos dias atuais.

Nossa relação atual com os valores fundamentais da vida tornou-se muito frágil. Por isso, não consigo compreender porque às vezes nos esquecemos de nossos pequenos rituais.

Tampouco entendo os motivos que nos fazem trocar o simples e importante cuidado com nossas relações por uma indiferença ignorante. E afinal, chegamos até mesmo a substituir nossa responsabilidade por escassos recursos existentes pelo desperdício inconsequente.

Assim, sinto que necessitamos acordar para a realidade e lutar contra as tendências que nos afastam das escolhas perenes, que compreendamos nosso papel de cuidar da vida e que nos tornemos líderes singulares da mudança para um futuro onde sejamos, pelo menos, viáveis.

Que sejamos esses líderes em nossas organizações, mas que também os sejamos em nossas casas.

Pode ser exagero, mas essa ingênua história de meu passado distante foi tão impactante, que já há alguns anos, em todos os natais, monto meu próprio trem elétrico – sim, isto é verdade – com a falsa justificativa de que é um hobbie.

Foi a forma que encontrei para poder sempre renovar minha reflexão sobre a lição de vida que as lágrimas de minha sábia professora de alemão me ensinaram. Faço isso a cada ano, enquanto desfruto do seu vai e vem pelos pequenos trilhos de uma viagem através de minha imaginação.

 

Preparação é tudo

Preparação 1

Por Vitor Seravalli

Apresentar um trabalho, propostas de projeto, ou mesmo uma prestação de contas para níveis mais altos da organização, são sempre eventos que necessitam de muito cuidado em sua preparação. Embora fundamentais, não estou falando somente das informações ou da apresentação em si. Refiro-me mesmo à estratégia que deve ser utilizada para convencer com bons argumentos as pessoas para as quais a intervenção será feita.

Em minha carreira tive oportunidade de acertar e errar. Ganhei e perdi. Fiz ótimas apresentações, e outras nem tanto. Mas a partir de uma delas em especial, onde buscava a aprovação de algo muito relevante para meu futuro como líder da área que estava sob minha responsabilidade, tudo mudou.

Inicialmente, eu tinha nas mãos indicadores consistentes de que a coisa não poderia continuar como estava. Porém, a mudança proposta demandaria um investimento importante, e a empresa não estava com recursos planejados isso.

De qualquer forma, juntei todos os argumentos que pude. Pesquisei muito, desenvolvi todas as alianças possíveis, caprichei no material que seria utilizado, mas algo ainda faltava, e isso deixava-me inseguro.

O time que escutaria meus argumentos, e decidiria pela aceitação ou não de minha proposta, era composto pelas cinco pessoas com maior poder na organização.

Eu teria somente quinze minutos e restava menos de uma semana para o grande dia.

Embora bem preparado, eu precisava de algo mais.

Refleti sobre o que poderia melhorar minha sensação de segurança, e depois de muito pensar, tive uma ideia óbvia, mas nova para mim àquela altura.

Entrei em contato com as assistentes de cada um dos cinco executivos, e pedi dez minutos para uma rápida consulta. Não foi fácil, mas aos trancos e barrancos, fui conduzindo conversas informais com esses líderes, e basicamente explicava todos os detalhes de minha proposta e ao final, pedia um feedback, buscava identificar as principais dúvidas, estimulava perguntas, e o que deveria ser acrescentado para aumentar as chances de aprovação da proposta.

Tudo era muito rápido, mas meu foco estava em capturar suas sugestões de melhorias.

Falei com cada um, e posteriormente, reconstruí minha apresentação.

Os argumentos, agora, eram somente respostas a todos os pontos que foram capturados nas entrevistas individuais.

O dia “D” chegou, e quando entrei na sala de reuniões, minha estratégia havia sido completamente modificada. Não fiz mais a apresentação da proposta, pois todos já a conheciam.

Comecei lembrando a eles que meu projeto já era do conhecimento de todos, e em seguida, tudo o que fiz foi apresentar encaminhamentos para cada uma das sugestões que eles fizeram durante as conversas.

Terminei, e apesar de um ou outro comentário, o grau de questionamento foi infinitamente menor que em vezes anteriores.

Saí da sala com a tão desejada aprovação, mas o principal ganho foi a descoberta de uma forma diferente de apresentar projetos.

É óbvio que não venci todas as batalhas posteriores, mas não há dúvidas, passei a dar mais trabalho aos meus interlocutores.

E se reflito sobre os motivos do sucesso dessa experiência, eles podem ser sumarizados em três itens: eu acreditei completamente naquilo que propus, eu percebi que a melhor preparação possível seria o único caminho viável, e finalmente, eu preferi escutar mais e falar menos.

Lição aprendida, não mais esquecida.