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8a. Maratona – New York City Marathon – 02/11/2008

 

Logo que o ano começou, eu já havia decidido viver o sonho de todo maratonista. Porém, um bom planejamento seria fundamental para que ele se concretizasse, até porque correr em Nova York seria um projeto com um investimento considerável, somente possível para mim se fosse financiado. Mas, afinal, tudo deu certo.

Na época, meu futuro genro Rodrigo Lobo, foi parceiro dessa viagem.

Com uma organização excelente, uma ótima feira e alguns eventos preparativos deliciosos, não havia do que reclamar, a não ser o forte frio do outono nova-iorquino.

Sobre os eventos preparativos, vale um comentário sobre a corrida de 5 Km onde os corredores de diversos países trocam objetos trazidos especialmente para esta integração cultural. Em meu caso, levei muitas fitas do Senhor do Bonfim, camisetas, bonés e outros badulaques brasileiros. Ganhei itens valiosos como uma camisa amarela e verde de um corredor australiano e uma camiseta de corrida que troquei com um colombiano. Quando voltei ao Brasil, as usava com orgulho, pois eram souvenirs raros.

Outro evento especial foi o jantar de massas no Central Park na véspera da corrida à noite. Sem contar os passeios inesquecíveis que a cidade sempre oferece. Aliás, ir a Nova York é sempre um passeio que vale a pena.

Pela quantidade absurda de inscritos, essa corrida exige certos rituais, por exemplo, na madrugada, temos que tomar um ônibus num lugar específico para irmos ao local da largada, em Staten Island, um pouco atrás da linda ponte Verrazano-Narrows.

Logo na chegada, tremendo de frio, tomamos um café americano como uma inútil tentativa de aquecer o corpo. Para piorar um pouco, como sou bem amador, meu tempo de prova me obrigou a largar bem mais tarde, ou seja, os mais rápidos como o Rodrigo saíram logo, e os lerdos como eu, ficaram lá congelando até chegar sua hora de começar a correr.

Mas que nada! É tudo bastante divertido.

Quando largamos, aí restou somente desfrutar a prova e seguir a multidão.

Na medida em que os quilômetros passavam, milhares de nova-iorquinos vinham às ruas e não paravam de incentivar os corredores. A cidade literalmente parou como acontece em todos os anos.

Quando entrei no Central Park, já na fase final, a emoção começou a tomar conta de mim e não houve outro jeito senão colocar a bandeira do Brasil bem na frente do corpo para que todos vissem. Realmente, emocionante!

Cansado, mas feliz, ainda mais por saber que o brasileiro Marilson Gomes dos Santos havia vencido, tratei de ir para o hotel. Até esse momento foi especial pois os corredores que concluem a maratona ganham uma espécie de reconhecimento quando exibem orgulhosamente suas medalhas. Por exemplo, nem metrô pagam.

Enfim, curti cada momento, até mesmo pela curiosidade de ir aos postos de votação onde os eleitores americanos votavam para eleger Barack Obama em seu primeiro mandato.

Enquanto me lembrava dos detalhes dessa prova, mais de dez anos depois, vieram lembranças não menos interessantes de algumas outras viagens que fiz a Nova York, porém com trajes bem diferentes para eventos na sede nas Nações Unidas.

Em todos eles havia muita responsabilidade e minha preparação em todos os momentos era sempre muito intensa.

Trocar algumas ideias com o Prof. Stuart Hart sobre economia na base da pirâmide, apresentar projetos em eventos globais, participar de cerimônias na plenária da ONU com a presença do Secretário Geral, tudo isso sempre foi adrenalina pura.

Em uma das vezes, fui convidado pela agência UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, para falar com autoridades africanas sobre projetos de sustentabilidade no Brasil. Lembro-me que estava ansioso e tenso antes do evento, mas ao me encontrar com pessoas tão receptivas e simpáticas, relaxei e tudo correu bem.

Certamente, este post poderia se prolongar bastante, pois estar na cidade que nunca dorme, foi sempre uma aventura urbana repleta de bons momentos, estando a trabalho ou mesmo realizando um sonho de corredor por suas movimentadas avenida e seus arranha-céus.

7a. Maratona – XIV Maratona de São Paulo – 01/06/2008

A grande diferença desta prova em relação às anteriores é que eu já havia incorporado aos meus treinamentos uma certa disciplina, a qual me deixava bem tranquilo nos momentos que antecediam a prova em si.

Foi a primeira vez que a Maratona de São Paulo começou seu percurso em um lugar bem diferente, passando pela bela Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, inaugurada no mês anterior.

Além disso, o clima estava diferente, um pouco chuvoso, o que não me agradava. Sempre gostei de correr sob temperaturas mais amenas, ou talvez frias mesmo, mas a chuva não era meu ambiente preferido para correr. Mas, enfim, quem gosta de corrida de rua não escolhe muito não. E lá estava eu com mais de doze mil loucos de dez países diferentes correndo pelas ruas de São Paulo.

Aquela agradável sensação nunca mais me deixou. Ainda bem!

Desde o momento da inscrição, a retirada do kit, a manhã da prova e outros momentos que pertencem a esse ritual de correr uma maratona, sempre foram muito caros para mim. E dessa vez não foi diferente.

Não choveu durante a corrida, apesar do chão permanecer molhado durante todo o tempo. Eu estava bem e completei com tranquilidade o novo percurso em quatro horas e quarenta e três minutos, um tempo bom para meu perfil considerando as dificuldades do trajeto, repleto de subidas e descidas.

Eu vivia um ano interessante. Minha carreira como consultor seguia relativamente bem e eu consegui naquele ano ser eleito para o maior papel institucional de toda a minha carreira como líder da rede brasileira do Pacto Global das Nações Unidas.

Tenho consciência de que sem minha amiga Gilda Pessoa, também corredora, eu nunca teria sido escolhido para tão importante missão. Sem contar que ela seguiu ao meu lado durante quase três anos de meu mandato. Gratidão!

Foi algo indescritível liderar a maior iniciativa de responsabilidade corporativa do mundo em meu país. Estar ao lado das principais empresas, universidades e instituições num esforço conjunto para levar a sustentabilidade aos negócios, à educação e evidenciar a importância dos dez princípios fundamentais da iniciativa foi uma das maiores experiências de toda a minha vida.

Na época, tínhamos poucos recursos e nosso objetivo principal era mudar o modelo de governança para que a rede brasileira se fortalecesse. Lutamos pela sua institucionalização, todavia o caminho para isso precisaria de muito mais tempo.

A integração com a ONU (PNUD) no Brasil foi fundamental e estou certo de que isso, entre outras coisas, fortaleceu o movimento em prol da sustentabilidade no país.

Durante o tempo em que pude liderar essa rede, tive muitas dificuldades e grandes foram as resistências para gerar a mudança que era necessária.

Como já era um consultor, cheguei até a escutar que promovia mudanças para meu próprio interesse. Isso era mentira, pois nunca ganhei um tostão pelo que pude fazer. Mas algo é verdade, cresci muito como líder e como profissional.

Além disso, conheci a iniciativa em diversos outros países por ser uma iniciativa das Nações Unidas. Um presente valioso nesse processo foi conhecer e interagir com pessoas simplesmente maravilhosas da África, da Ásia, da Europa, da América, enfim, do mundo todo. Lembro-me de todos os rostos e nunca me esquecerei do carinho que tiveram comigo. Se consegui ajudar em algo, foi muito pouco perto do que recebi.

Evidentemente, meu histórico na empresa BASF deu a credibilidade que sempre precisei, principalmente no início do desafio.

Hoje, ao olhar para as atuais lideranças e também o que estão fazendo com o foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, fico muito feliz.

Desejo que continuem assim e saibam que certamente estarei sempre pronto para contribuir, mesmo que meu alcance seja deveras singelo em comparação ao que as grandes lideranças e organizações já estão fazendo.

Sem que eu consiga controlar, esta lembrança traz ao meu rosto o mesmo indisfarçável sorriso do momento em que cruzei a linha de chegada ali no Parque Ibirapuera.

6a. Maratona – Berlin Marathon – 27/09/2007

Apesar do ano de 2006 ter sido um ano menos ativo devido à cirurgia de ombro já citada antes, isso não impediu que eu participasse de diversas corridas de curta distância. Entre elas, quatro provas de 10 Km compuseram um circuito novo  de São Paulo que recebeu o sugestivo título de “Circuito das Estações”, cada uma com o nome e na época de uma estação do ano.

Antes da cirurgia eu havia participado da etapa de outono, na fase de recuperação avançada da mesma, corri a etapa de inverno e as etapas da primavera e verão ocorreram no segundo semestre.

Mas o que isso tem a ver com a Maratona deste capítulo? Muita coisa, como poderão constatar.

A certa altura do ano de 2007, eu já estava de volta a um ritmo normal de atividades esportivas e, como eu havia corrido todas as etapas em 2006, pude participar de um concurso de frases promovido pela patrocinadora do circuito, a empresa Adidas, cujo ganhador receberia como prêmio a participação na Maratona de Berlim de 2007.

Passagem aérea, hospedagem, inscrição na prova e outros mimos adicionais, tudo isso tornou-se tão atrativo que não pude ficar sem contribuir com minha melhor participação possível.

O concurso pedia uma resposta criativa para a seguinte pergunta: “O que você faria para participar da Maratona de Berlin?”

Fiquei matutando vários dias em busca de uma resposta que pudesse ter chances, mas eu nunca havia ganho qualquer concurso desse tipo. Aliás, minha criatividade jamais havia sido sequer percebida como relevante.

Mas numa certa manhã, veio uma inspiração inesperada e esbocei uma frase que se definiu como minha resposta à pergunta da seguinte forma:

“Se fosse somente uma viagem, eu iria. Se fosse uma corrida, eu simplesmente correria. Mas como é um sonho, eu quero é sonhar. Ir, correr e acordar.”

Achei que ficou boa e a enviei, ainda sem grandes pretensões.

Pois não é que algumas semanas depois, recebi uma ligação com a surpresa de que eu havia sido um dos ganhadores. Minha frase havia sido escolhida como uma das melhores e, acreditem, ganhei o direito de correr uma das maratonas mais lindas de todo o mundo. Uau!!!!!!!

Obviamente, dei um jeito para que minha companheira de maratonas pudesse me acompanhar e, no final de setembro, viajamos para a capital da Alemanha.

A prova em si foi espetacular. Embora o clima não estivesse tão bonito na véspera e uma chuvinha chata era a melhor previsão de tempo para aquele domingo, a meteorologia alemã fez algo que raramente faz, ou seja, errou feio.

Assim, numa temperatura bem agradável e com um sol tímido, mas presente em boa parte do percurso, consegui chegar ao final com o melhor tempo de todas as minhas maratonas, quatro horas e vinte cinco minutos. Ao concluí-la, eu já sabia que dificilmente conseguiria melhorar esse tempo futuramente.

Um detalhe importante que constatei nessa prova foi que o controle rígido em meu desgaste na fase inicial da corrida foi fundamental para que eu pudesse dar tudo de mim, sem o conhecido cansaço comum aos maratonistas a partir do 30º quilômetro, e alcançasse um tempo final tão acima de minhas melhores expectativas.

Nem preciso dizer que cruzar o Portão de Brandemburgo, passar por tantos pontos turísticos distribuídos pelas ruas de Berlin e desfrutar do calor humano tantas pessoas em praticamente toda parte, foi mágico.

Certamente, nunca me esquecerei dessa experiência maravilhosa.

Hoje, olhando para a frase que criei, chego à conclusão de que era boa mesmo, mas confesso que depois disso, participei de diversos outros concursos e em nenhuma vez mais, ganhei coisa alguma. Nem precisava.

Ao me lembrar da especial lembrança desta prova, uma singela reflexão mostrou-me que se fizermos algo que proporcione sucesso ou algo bom, como essa linda viagem grátis, logo pensaremos ou escutaremos de outros o comentário de que tivemos sorte.

Há certa verdade nisso. Acredito mesmo que os sucessos de nossa vida carreguem consigo alguma coisa parecida com o que costumamos chamar de sorte. Mas num sentido mais amplo, será mesmo sorte?

Depois de ler o livro “A Boa Sorte” dos autores Álex Rovira Celma e Fernando Trias de Bes Mingot, compreendi que a sorte verdadeira contempla as pessoas que tem atitude, que acreditam nos seus talentos e, definitivamente, não tem preguiça, ou melhor, não esperam o sucesso cair em seu colo. Elas, deliberadamente, vão ao seu encalço.

Embora sem consciência, desde muito cedo em minha vida, corri e lutei muito por tudo o que consegui. Sem dúvida, perdi diversas vezes, mas nunca deixei de aprender algo com isso, o que me ajudou muito durante embates posteriores. Hoje, sei que as vitórias que pude conquistar sempre tiveram esse componente da “Boa Sorte”, como por exemplo no momento em que ouvi minha intuição, acreditei em minha inspiração e, como prêmio, realizei o sonho de correr a mundialmente famosa “Maratona de Berlin”.

5a. Maratona – XIII Maratona de São Paulo – 03/06/2007

Com a ambição de iniciar minha participação em uma prova de Triathlon, comprei uma bicicleta e também voltei a nadar. Como sempre acontece comigo, fixei uma meta, fiz inscrição em uma determinada prova e fui treinar como louco.

Infelizmente, a falta de habilidade com os pedais fez com que eu tivesse uma queda e uma consequente rotura no tendão supra espinhoso de meu ombro direito. Após me submeter a uma cirurgia para reconstituição do tal tendão, passei por um difícil processo de fisioterapia e isso me tirou das corridas por um bom tempo.

Voltei aos poucos, mas não consegui correr nenhuma maratona no ano de 2006.

O ano de 2007 começou com a meta pré-definida de voltar a correr uma prova de 42 Km e isso ocorreu em São Paulo no mês de junho.

Com a ajuda de sempre, enfrentei o mesmo percurso e, sem dúvidas, senti o fato de ficar um ano e oito meses longe de uma prova desse tipo. Mas até com direito a um “sprint” no final, concluí o percurso dentro de minha meta, abaixo de 5 horas.

Que sensação boa é a superação!

Aliás, tenho o privilégio de ter sentido isso durante diversos episódios em minha vida.

A superação é uma coisa que está na cabeça dos que não desistem, pessoas resilientes que quando caem, se levantam e seguem em frente.

Aliás, isso já é reconhecido no mercado de trabalho como uma competência essencial para profissionais, cuja existência pode ser testada durante os processos de recrutamento e seleção dos profissionais de diversos níveis.

Certamente, tive tombos e voltas por cima em diversos momentos de minha carreira, mas um deles foi bastante importante.

Eu seguia com meu trabalho, no qual defender projetos e enfrentar situações desafiadoras era parte comum de meu cotidiano.

Lembro-me de um momento em que eu recebia colegas da Alemanha e apresentava a eles os resultados do período anterior e os planos para o futuro próximo.

Embora eu estivesse preparado para a ocasião, creio que uma excessiva autoconfiança reduziu a necessária concentração que esse tipo de intervenção exige.

O fato é que em determinado momento, fui questionado com rigor sobre algum aspecto de meu trabalho e minha resposta não foi assertiva como deveria ter sido.

Meu líder na época adotava um modelo de gestão que se baseava em processos deliberados de geração de crises. Ou seja, se algo ia bem, ele procurava algum flanco descoberto e criava um problema para causar estresse onde quer que fosse. Estou simplesmente contando sobre seu estilo e não quero entrar no processo de julgamento se sua estratégica era certa ou não. Mas após aquela apresentação, eu me vi em lençóis não tão bons.

Logo no dia seguinte, fui colocado à prova novamente, mas agora minha apresentação seria para um membro da alta direção da empresa no nível global.

Sem qualquer displicência e com o nível correto de mentalização da nova tarefa, tudo acabou dando certo.

Mas um processo de fritura estava apenas começando e quem estava na frigideira era eu.

O tempo passou bem rápido e logo fui informado sobre uma viagem que faríamos à matriz e a mim caberia a missão de fazer uma nova apresentação, mas agora, além do “big boss”, estaria também toda a diretoria global de nosso negócio.

Se, após tanto tempo, eu omitisse o estado de apreensão e estresse a que fui submetido, seria injusto comigo mesmo e com meus leitores.

Então, investi tudo em minha preparação. Eu estava consciente de que corria risco bastante alto, mas quando entrei no avião, eu também sabia que o sucesso era possível e estava em minhas mãos.

Lembro-me bem que aquele início de dezembro indicava um inverno antecipado na Alemanha. Quando olhei pela janela poucos minutos antes da aterrisagem, tudo lá embaixo era neve, muita neve.

Entre o momento em que nos hospedamos e o horário marcado para a reunião, ainda havia um dia e meio, assim, sem perda de tempo, iniciamos o trabalho de refinamento de dados, argumentos, etc.

Havia rivalidade forte entre os membros da equipe, mas ali não sobrava qualquer espaço para atitudes não profissionais.

Indo diretamente ao ponto, não houve noite para qualquer descanso, tampouco intervalo sequer para uma alimentação adequada. Até tentamos, porém àquela hora da noite, nenhum restaurante ou similar ainda atendia a seus fregueses.

Improvisamos com algumas bolachas, alguns copos de água e ajustamos os detalhes que ainda esperavam por definições.

Vale ressaltar, que durante o tempo em que nos preparávamos, fizemos duas apresentações prévias com pessoas que tinham condições de avaliar nosso material. Após ambas, tivemos que rever praticamente tudo e foi muito difícil manter a calma e o bom senso para refinar o material final, mas conseguimos.

Em resumo, a apresentação foi literalmente um sucesso e até mesmo um surpreendente e inesperado elogio não pode ser evitado.

Quando viajava de volta ao Brasil, olhei novamente pela janela do avião e agora bem mais relaxado, percebi que acabava de ter superado um enorme desafio, com diversos fatores de sucesso, desde minha fé, determinação, competência, mas principalmente, minha capacidade de superação, tal qual senti em São Paulo após minha quinta Maratona.

4a. Maratona – Frankfurt Marathon – 30 de outubro de 2005

Àquela altura, já estava em meus planos a possibilidade de correr uma maratona fora do Brasil. Creio que este seja um sonho para qualquer maratonista.

E em meu caso, a primeira oportunidade veio quando eu faria uma viagem a trabalho para a Alemanha e vi que ela coincidiria com a maratona de Frankfurt.

Não tive dúvidas e fiz minha inscrição, pois eu teria que permanecer ali por perto durante aquele final de semana, indo no domingo à noite num voo de Frankfurt para Genebra.

Dessa vez eu estava melhor preparado, então as expectativas de conseguir um bom tempo de prova em um percurso praticamente plano, aumentaram minhas expectativas.

Porém. talvez por ser uma experiência nova, a qual trazia um significado especial para mim, senti uma certa preocupação antecipada de que algo não corresse bem, conforme eu havia planejado.

Eram possibilidades remotas de problemas que incluíam desde o cancelamento da viagem, alguma lesão antes do desafio ou outro contratempo qualquer. Naquele momento, deduzi com certa indignação que aquilo acontecia comigo pela primeira vez.

Um fato interessante é que eu já havia identificado tal sensação em outras pessoas e, com assertividade, a diagnosticava como um sintoma do conhecido “Medo de ser feliz”.

Porém, agora o problema estava comigo e confesso que precisei de alguma concentração adicional para que não atrapalhasse o alcance de meu objetivo naquele momento.

No final das contas, tudo correu bem. Fiz o percurso sem contratempos e, se minha meta era correr abaixo de 4 horas e meia, cruzei a linha de chegada em 4 horas e vinte e sete minutos, ainda conhecendo um pouco mais de uma cidade adorável.

Foi uma emoção diferenciada, principalmente porque um novo e distinto tipo de superação fora vivenciado.

Hoje, consigo olhar para trás e ver que, embora não tivesse percebido antes, senti este mesmo tipo de medo desnecessário em diversas outras ocasiões durante minha vida.

Antes de contar um exemplo garimpado em minhas próprias vivências e ressaltando que se trata de algo que nunca aconteceu comigo, imagino o que passa pela cabeça de alguém quando se torna o ganhador solitário de um prêmio acumulado, uma grande bolada, em alguma loteria qualquer.

Após a natural empolgação inicial, e também após os primeiros contatos com as novidades que causam impactos tão absurdos ao estilo de vida do ganhador, já ouvi histórias em que alguns dos ganhadores, a partir de algum momento, começam a sentir medo do que poderá lhes acontecer como contrapartida do inesperado benefício recebido.

É certo que o ser humano se adapta a tudo, principalmente se as mudanças são para melhor, como nesse caso. Por outro lado, apesar da maioria elevar seu patamar de vida em todos os níveis, são comuns os casos de pessoas que não se adaptam à nova situação e perdem tudo o que ganharam, além de vida pacata e feliz que possuíam antes.

Em uma escala incomparavelmente menor, houve um momento em que uma sensação similar me ocorreu. Contradizendo todos os prognósticos, eu recebi a confirmação de que havia sido promovido para uma posição executiva na empresa em que trabalhava. Era uma situação bastante improvável, pois eu ocupava um cargo dois níveis abaixo de minha nova posição e isso nunca havia ocorrido antes, pelo menos era o que todos falavam.

Mas o fato é que eu iria assumir uma responsabilidade muito grande e, por conhecer plenamente seu alcance, nem tive a chance de me empolgar.

Tendo meus pés fincados no chão desde o momento inicial, sendo bastante realista perante os desafios que iria enfrentar e com o suporte total de meu antecessor, pude desenvolver um planejamento adequado, o que me ajudou muito a partir do momento de posse no novo cargo.

Mas agora, após tanto tempo, consigo discernir muito bem os momentos em que não consegui evitar algum deslumbramento pelo poder, deveras limitado, e também dos momentos em que ingenuamente não percebi e não filtrei alguns falsos afagos.

Confesso que nesses momentos, apesar da oportunidade e da confiança que recebi, tive medo de não alcançar o sucesso e fracassar.

Não que o processo todo que se seguiu tenha sido fácil, pois enfrentei diversas situações bem difíceis. Mas, reconheço que pessoas muito importantes em minha carreira fizeram muito mais por mim do que precisariam fazer. Além disso, muitas das competências que acredito possuir hoje, somente se desenvolveram graças aos apertos pelos quais passei. Por isso, tenho apenas motivos para agradecer e sei que venci esta etapa de minha vida.

Hoje, com a sensibilidade aguçada por tão rica experiência, consigo às vezes, perceber alguma insegurança em jovens profissionais que temem o sucesso e, se protegendo dele, criam seus próprios argumentos para não vencer, impõem a si mesmos, certas dificuldades ou bloqueios para justificar antecipadamente suas limitações quase sempre imaginárias e, até mesmo, eventuais futuros fracassos.

Nesses casos, gosto de compartilhar com eles um ensinamento que um dia alguém generosamente me deu e que diz assim:

“Se algo muito bom acontecer graças à sua “boa sorte”, muito além de suas expectativas, agradeça com sinceridade e se comprometa em transferir uma parcela dos benefícios recebidos em prol de causas que valham a pena e ajude outras pessoas. Ou seja, retribua e amplie seu legado.”

Uma sensação de leveza e energia tomará conta de você e, assim como eu, você nunca terá medo de ser feliz.

3a. Maratona – XI Maratona de São Paulo – 17 de abril de 2005

Apesar de fazer uma preparação bastante diversificada, correr pela segunda vez a maratona de São Paulo trazia o objetivo principal da continuidade. Eu já corria há quase 3 anos e havia decidido que as corridas de rua seriam o meu esporte definitivo.

O percurso dessa corrida nunca foi fácil, mas essa edição da prova teve a inesperada vantagem de ter ocorrido a uma temperatura não muito alta. Correr sua primeira metade nunca foi algo tão difícil, porém a segunda parte, que incluía um trecho dentro e ao redor da USP – Universidade de São Paulo, sempre trouxe e continuou trazendo muito desgaste e dificuldades no decorrer dos anos, principalmente quando o calor foi intenso.

Por esse motivo, a partir dessa maratona, pedi ajuda. Do 21º quilômetro até o 31º, minha filha Fernanda me acompanhou. E do 31º ao 42º, a outra filha Cecilia, tratou de me puxar para que eu conseguisse finalizar o percurso. Como poderão ver em futuros relatos, essa estratégia passou a ser utilizada com frequência e sempre com bastante sucesso.

Algo similar ocorreu em minha vida profissional quando, numa certa tarde, um documento literalmente aterrissou sobre minha mesa.

Era uma simples sugestão enviada por um funcionário e que integrava um programa de melhoria contínua, na época, bastante disseminado e popular na empresa BASF, onde eu trabalhava.

Falar sobre os desdobramentos dessa ideia seria suficiente para um livro exclusivo, tamanha era a dimensão e a complexidade dos desafios que ela trazia. Obviamente, estou falando de desafios de alto nível, daqueles que sempre gostei de ter, mas enfim, eu nunca poderia vencê-los se não houvesse uma mobilização especial para eles.

Sob minha perspectiva, meu grande mérito nessa história toda foi acreditar na ideia em todos os momentos, desde o princípio até o momento em que um projeto realmente inovador, com características que o tornaram referência em sua forma e área de atuação, se transformou em realidade.

Porém, sua realização teve profissionais protagonistas de primeira qualidade. Em diversos momentos, percebi que minha melhor contribuição se resumia em tentar não atrapalhar. Felizmente, creio que consegui fazer isto também.

Lembro-me dos que cuidaram com carinho do projeto quando ele ainda não possuía estrutura alguma. Sua perseverança, ou mesmo esperança, beirava o cúmulo do otimismo. Impossível também me esquecer daqueles que me trouxeram inúmeras ótimas ideias e que ajudaram a formar aqueles estudos iniciais em um empreendimento que possuía potencial passível de concretização, apesar dos diversos obstáculos que enfrentou.

E quando a coisa cresceu para além das fronteiras regionais e passou a ser desenvolvido com a ambição de conquistar parcerias de repercussão global, eu não poderia encontrar um aliado tão talentoso quanto visionário como tive a sorte de poder contar na sede global da empresa.

Devo admitir que nunca, em nenhum momento, tive facilidade para liderar o enfrentamento de todas as barreiras que foram surgindo etapa a etapa.

Enfrentamos céticos, pessimistas, lideranças oposicionistas sem qualquer argumento que justificasse seus posicionamentos, incrédulos e até mesmo invejosos sem causa, mas não me recordo de um só momento em que passou pela cabeça desistirmos de nosso sonho.

E, quando chegou o momento da concretização, ou seja, quando eu precisava de alguém que colocasse em operação aquela bela instituição que estava prestes a nascer, mais uma vez tive o suporte da pessoa certa e na hora certa.

Em resumo, com a ajuda e o suporte de pessoas muito especiais, assim como em minhas maratonas, somente precisaríamos continuar em frente até a linha da chegada.

É certo que a comparação termina por aqui, até porque quando instituímos uma organização da dimensão da Fundação Espaço Eco, que integra uma empresa global líder de mercado como é a BASF, uma simplista analogia com uma maratona não faz o menor sentido. Talvez, um parto complicado para o nascimento de uma criança forte e saudável pudesse ser uma melhor comparação.

Mas, independentemente disso, agradecer a ajuda de minhas filhas nas maratonas, assim como às pessoas criativas, competentes, resilientes e inovadoras que estiveram comigo, sem me esquecer das lideranças que acreditaram naquele maravilhoso projeto, isso sim, é adequado e completamente justo.

Que esse singelo agradecimento seja o prenúncio para muitas outras maratonas, e também represente o desejo para uma vida longa e próspera à Fundação Espaço Eco.

2a. Maratona – X Maratona de São Paulo – 2 de maio de 2004

Eu vivia uma fase bastante agitada em minha vida. O cotidiano corporativo intenso se contrapunha drasticamente à busca de um estilo de vida mais equilibrado. Mas, de qualquer modo, eu estava convicto do meu papel como um agente disseminador da importância da atividade física e dos bons hábitos para um melhor resultado pessoal e profissional de minha equipe.

Por isso, eu participava de diversas atividades que pudessem me colocar como exemplo. Aliás, sempre acreditei que exemplos valem muito mais que palavras.

Assim, mesmo com um histórico recente de algumas lesões, a inscrição para a X Maratona de São Paulo foi uma oportunidade para mostrar que minha atitude não era somente um discurso. Por outro lado, essa decisão foi um ato de coragem com certa dose de irresponsabilidade. Minha rotina de treinos era mais que suficiente para corridas de curta e média distância, mas para esta maratona, eu não tinha qualquer outra ambição que não fosse simplesmente chegar.

Lembro-me bem daquela manhã de sol. Com a cabeça cheia outros assuntos alheios àquele evento esportivo, parti para mais um novo desafio. Caso não tivesse o suporte de meu inesquecível amigo Valdomiro Manoel, que infelizmente já nos deixou, eu nunca teria conseguido alcançar meu objetivo. Mas, afinal, cruzei a linha de chegada em 5 horas e 21 minutos e percebi que aquele exercício de resistência havia me ensinado algo muito importante para os maratonistas, ou seja, aprendi a conhecer profundamente os limites de meu corpo.

A partir dessa corrida e até hoje, nunca terminei qualquer percurso com a sensação de ter ultrapassado o limiar seguro de minha capacidade. Algo que passei a usar em outras situações de minha vida.

Por exemplo, quando consegui adquirir o primeiro imóvel de minha vida, graças a um longo financiamento, eu não imaginava viver a experiência que algumas coincidências me proporcionaram. Era um prédio novo dentro de um condomínio que já possuía um outro mais antigo completamente ocupado e, pelo uso contínuo por diversos anos, apresentava sensíveis sinais de desgaste. Casualmente, eu era morador desse edifício mais antigo, mas como locatário.

Ao receber as chaves do meu, eu disse “meu” apartamento, percebi que eu me tornara involuntariamente o único condômino que conhecia os dois prédios muito bem. Ninguém mais tinha o mesmo perfil.

Durante o processo de recebimento do novo imóvel, construí uma relação muito boa com outros novos moradores, por isso, quando houve a reunião de integração do condomínio, eu fui eleito por unanimidade como o novo síndico.

Não vou me aprofundar nessa história porque isso daria um livro completo com muitos capítulos de muitas páginas. Mas enfrentar aquele desafio inesperado, embora aparentemente singelo, acabou trazendo ricos em aprendizados, alguns agradáveis e outros nem tanto.

Foi minha primeira experiência oficial como líder, afinal alguns funcionários reportavam diretamente a mim. E essa pequena experiência foi bastante útil em minha vida profissional que, por sinal, tornou-se bem mais complexa pouco tempo depois. Além disso, melhorar o local onde eu morava, e perceber que tais melhorias traziam benefícios para mais de uma centena de famílias, era também um ponto bastante positivo. Enfim, foi um período intenso e repleto de novidades.

Contudo, os principais desafios, nos quais o grau de dificuldade crescia a cada momento, estavam na gestão das pessoas nem sempre dispostas a conviver contribuindo com aquele processo de integração. A cada dia, os problemas resolvidos pouco significavam e o problemas pendentes, por menores que fossem, geravam atritos e situações de estresse muito mais fortes do que minha baixa resiliência àquela altura da vida.

Para complicar e fragilizar minha capacidade de resistir às ameaças e provocações, eu optei por um modelo de gestão democrático. Eu me disponibilizava para ouvir todas as reivindicações e reclamações de moradores, os quais não possuíam o menor bom senso. Eu continuava recebendo apoio das pessoas que estavam comigo, todavia, no final das contas, eu era o único responsável formal daquilo e o foco estava em mim.

Logo, alguns sintomas físicos decorrentes daquele desgaste já se tornavam visíveis, mas continuei firme e, em um certo momento, decidi fazer algo que em minha cabeça traria satisfação unânime. Havia um problema crítico em ambos os prédios e, com meu conhecimento técnico, consegui aprovar um investimento que traria uma solução simplesmente ideal.

Dei o máximo de mim e, após algum tempo, tudo ficou pronto. Devo admitir que o resultado final foi até melhor que minhas melhores expectativas.

Logo que recebi o documento de entrega da obra, fui para minha casa. Porém, logo que entrei, alguma coisa dentro de mim clamou por reconhecimento. Após tantas críticas injustas, eu merecia receber um elogio. Não, um elogio só, não. Eu queria muitos elogios.

Assim, tomei o elevador novamente e desci até o pátio de entrada. Em minha santa ingenuidade, eu imaginava que várias pessoas não hesitariam em reconhecer meu trabalho como síndico daquela comunidade.

Cheguei de mansinho e fiquei à espera de todos.

Após uns dez minutos, apareceu uma senhora que morava no edifício mais antigo. Ela me viu e se aproximou com uma suspeita calma. Quando chegou, eu a cumprimentei, ela levantou seu rosto e, sem que eu pudesse sequer reagir, despejou sobre mim todas as críticas que pode. Acredito que a escutei por cerca de cinco minutos, então meu limite de segurança me avisou que alguma coisa mais decisiva deveria ser feita exatamente naquele momento.

Deixei a moradora praticamente falando sozinha e voltei novamente para casa.

Eu havia vencido o desafio com a maior dedicação e competência que pude agregar, mas seu final havia chegado.

Telefonei imediatamente para a empresa que administrava as contas do condomínio e marquei unilateralmente uma assembleia extraordinária, cuja pauta possuía dois itens: “Prestação de contas” e, “Eleição de um novo síndico”.

Todos se surpreenderam e tentaram mudar minha decisão, mas não houve jeito. A partir daquele dia, eu voltava a ser um simples condômino.

De todas as lições que aprendi naquele período, a mais importante foi renunciar eternamente à ingênua esperança de conseguir, em qualquer circunstância, agradar a todos os envolvidos em meus projetos ou decisões, pessoais ou profissionais.

Esta foi uma lição para toda a vida. Não nego que tive algumas recaídas, afinal sou humano, mas com o tempo consegui tirar muito proveito disso.

E outra lição, não menos relevante, foi manter atenção aos meus limites físicos e emocionais. Nunca desisti de uma corrida, mesmo cansado como estava em minha segunda maratona, mas não hesitarei em fazê-lo se meu limite for ultrapassado.

Esta é uma questão de duas perspectivas: uma delas relacionada com nossa sensibilidade aos sinais que o corpo nos dá. E outra, bem mais difícil, é respeitar estes sinais e parar, mesmo que nossas fundamentais persistência e determinação, nos implorem para continuar.

Evidente que elas sempre serão ouvidas, pois são características das pessoas vencedoras, mas a decisão de seguir em frente ou não estará sempre e somente aqui, dentro de mim.

1a. Maratona – Maratona das Águas – 23 de março de 2003

A experiência de correr pela primeira vez a distância de 42,195 Km é algo especial por diversos aspectos. Inicialmente, por não ser algo tão comum, também por ser desafiador, depois pelo temor gerado por diversas histórias assustadoras já vividas por corredores experientes, e ainda pela lenda do enfrentamento da tal muralha que se ergue à frente dos atletas após ultrapassam a distância mágica dos 30 km.

Enfim, pessoalmente, eu conheço muitos corredores infinitamente superiores a mim, mas que nunca se sentiram seguros o suficiente para correr uma maratona.

Em meu caso específico, confesso que enfrentar minha primeira maratona era uma meta desde o momento em que comecei a correr, mas isto não significa que eu estava plenamente preparado para ela. Evidentemente, treinei bastante, recebi o suporte de um corredor experiente, mas em nenhum momento, tive qualquer certeza se conseguiria ou não concluir tal distância.

Escolhi uma prova no interior de São Paulo que nunca havia sido realizada antes, ou seja, minha discreta opção chamou-se 1ª. Maratona da Águas e cruzou um bom pedaço do interior do estado de São Paulo.

O percurso se iniciava na cidade de Amparo, passando depois por Monte Alegre do Sul, Serra Negra, Lindóia e terminando em Águas de Lindóia. Não me recordo bem, mas ouvi dizer na época, que um pouco mais da metade do percurso era em aclive e um terço em declive, ou seja, quase como subir e descer uma grande montanha.

Com suporte direto de minha filha e companheira Cecilia, que correu comigo os últimos 15 Km, completei o percurso em 4 horas e 57 minutos. Nada mal para um intrépido iniciante.

Mas já que comecei falando do desafio que foi correr minha primeira maratona, contarei agora um pouco de um outro desafio inicial em minha vida que foi a batalha pelo meu primeiro emprego logo após sair da universidade.

Na época, meu pobre e frágil projeto de carreira se resumia a tomar posse imediata de meu diploma de engenharia e conseguir urgentemente um emprego. Hoje, vejo como os jovens com meu perfil se preparam desde a universidade e sinto um pouco de vergonha, ou talvez inveja. Lamentavelmente, eu possuía um nível de informação muitíssimo menor, e confesso que também não conhecia nada sobre as características comportamentais necessárias para um empreendedor. Aliás, eu tampouco sabia o que era ser um empreendedor.

Assim, me tornei “Procurador do Estado”.

Sim, em meus tempos de recém-formado, este era o melhor jeito de conseguir um emprego. Todos os domingos, eu ia até a banca de jornais mais próxima e comprava o jornal O Estado de São Paulo e ficava procurando.

Para ampliar minhas dificuldades, o país vivia uma crise – felizmente, isso acabou. –  E, por esse motivo, o caderno de empregos do Estadão vinha com pouquíssimas páginas.

A saída foi buscar atividades alternativas, o que me levou a algumas escolas de informática. Eu dominava uma linguagem de microcomputadores, o BASIC, e isto me possibilitou ganhar algum dinheiro lecionando em escolas de informática, muito pouco é bem verdade, mas o suficiente para garantir a dose mínima de autoestima e resiliência às dezenas de respostas negativas que eu seguia recebendo com o passar dos meses.

Já que estou falando de desafios, devo dizer que, por diversas vezes (multiplicadas por dez), eu chegava à conclusão inevitável de que nunca chegaria o momento em que alguma empresa tomaria a decisão de dar uma oportunidade para mim.

Meu fundamental diferencial, desenvolvido a fórceps naquela difícil fase de minha vida, foi uma composição generosa de alguns ingredientes, entre os quais, perseverança, otimismo, intuição, crença em todas as improváveis oportunidades, fé e, evidentemente, o essencial apoio de minha família. Felizmente, como disse certa vez Ariano Suassuna, esse jeito “realista esperançoso” tornou-se uma de minhas principais características até hoje.

Um detalhe crucial: eu não conhecia a força e o impacto do termo “networking”. Se conhecesse e praticasse isso, pelo menos um pouco, minhas chances teriam sido bem maiores.

Assim, quando a mais improvável oportunidade apareceu, talvez por acreditar nela, o meu primeiro desafio profissional foi surpreendentemente vencido.

Devo admitir que chegar a essa conquista foi muito mais difícil do que concluir minha primeira maratona. Mas ambos os momentos foram inesquecíveis, tanto o momento em que cruzei a linha de chegada da corrida, quanto o momento em que entrei pela primeira vez naquela empresa como seu novo funcionário.

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.

A maratona

Mizuno Uphill Marathon 2015

Por Vitor Seravalli

Para muitas pessoas, correr uma maratona é algo completamente fora de propósito, coisa de maluco mesmo. Afinal, são quarenta e dois quilômetros e cento e noventa e cinco metros percorridos a pé de uma só vez. Essa maluquice pode durar um pouco mais de duas horas para os atletas profissionais, mas pode chegar até seis horas para os amadores.

Os especialistas dizem que o fator de sucesso dos “finishers”, ou daqueles que conseguem alcançar a linha de chegada, está mais relacionado à mente do que ao corpo. Há sentido nessa afirmação, pois muitos atletas bem preparados, dependendo do ritmo que escolhem adotar, “quebram” principalmente após ultrapassarem a barreira dos trinta quilômetros. Este termo comum é um estado em que um corredor constata que não conseguirá chegar ao final da prova no ritmo que a iniciou.

Comecei este texto para contar mais uma história de liderança. Mas o que isso tem a ver com liderança?

Com liderança de processos, acredito que tenha uma plena relação. E estou apto a dizer isso, pois já enfrentei este desafio por vinte e duas vezes.

Porém, a última vez em que decidi fazê-lo, foi uma experiência diferente das outras em diversos sentidos.

A começar pela beleza ímpar do local, uma serra tão linda quanto difícil de ser vencida. Em seguida, a primeira disputa seria no processo inscrição pela internet em data e horário pré-determinados. Somente os mais rápidos no teclado conseguiriam preencher as aproximadamente quinhentas vagas. Comecei bem, porque eu estava entre eles.

O percurso seria tão desafiador que os organizadores decidiram provocar os corredores inscritos dizendo que somente os vencedores seriam os verdadeiros “ninja runners”.

Eu estava um pouco assustado, mas já havia decidido me tornar um desses tais “ninjas”.

Minha preparação foi semelhante às corridas anteriores, mas confesso que ela deveria ter sido mais intensa, afinal um paredão de quase um quilômetro e meio de altura estaria à minha frente antes da chegada.

Enfim, chegou o grande dia.

O clima estava ameno e todos torciam para que não chovesse durante o percurso.

Às quatro horas e trinta minutos da tarde, partimos. Muita animação em todos os rostos, tanto dos atletas quanto dos amigos e familiares que torciam incrédulos por aquele bando de doidos varridos.

Logo, percebi que não seria possível acelerar muito, pois embora o grande aclive ainda estivesse bem distante, desde o começo já não estávamos correndo no plano. Ou seja, já subíamos pouco a pouco.

Algumas escolhas erradas já começavam a me incomodar. Com medo de um eventual frio intenso, optei em correr com uma jaqueta plástica do tipo “corta-vento”. Como não estava frio, ela já teve que ser retirada e tornou-se um peso morto em minha cintura. Pensei até em descartá-la, mas se tratava de uma roupa cara e de qualidade. Assim, segui adiante.

Um pouco mais à frente, a noite foi ganhando espaço e, juntamente com ela, veio a escuridão. Eu nunca havia participado de um evento em que uma simples lanterna, generosamente emprestada, assumisse uma função tão importante.

Um outro detalhe relevante foi perceber que durante boa parte do tempo, eu estava completamente só.

Tudo continuava sob controle e meu plano era manter o ritmo e não gastar qualquer energia além do essencial, pois ela seria fundamental quando a subida final chegasse.

A meta era completar o percurso, mas além disso havia um limite máximo de tempo. Eu deveria cruzar a linha de chegada antes do tempo limite de seis horas. Para atletas adequadamente preparados, este limite seria uma brincadeira. Mas àquela altura, eu sabia que precisaria de muita determinação, porque uma subida íngreme se apresentava insuperável em frente ao meu incrédulo olhar.

Num último posto de abastecimento, eu tomei a decisão de investir alguns minutos a mais e tomar bastante água, comer frutas e, enfim, encher meu tanque de combustível, pois dali para frente, eu enfrentaria a batalha final.

As passadas tornaram-se mais lentas e um trote confiante se transformou numa caminhada, muitas vezes, ofegante.

O tempo seguia acelerado e, quando consegui escutar algumas vozes, elas eram genuínas ameaças.

O tempo limite se aproximava e o narrador avisava que quando este se esgotasse, todos os corredores retardatários não receberiam a premiação reservada somente aos tais “ninja runners”.

Fui em frente, mas já não seria possível chegar a tempo.

Cruzei a linha final.

Eu venci por ter chegado, mas perdi por ter ultrapassado o tempo máximo. Meu percurso foi completado em seis horas e cinco minutos.

Vi expressões frustradas das pessoas queridas que me esperavam, mas afinal, eu estava bem. Chegar inteiro naquelas condições tão adversas já se configurava uma grande vitória, mesmo sem a merecida medalha que não me foi entregue pelo capricho de um regulamento rigoroso demais.

Enquanto voltava para o hotel, uma reflexão imediata sobre minha performance mostrou-me alguns pontos positivos e também diversos aprendizados vindos daquela rica experiência, a maioria deles já conhecidos por mim.

Os pontos positivos foram: o prazer pelo desafio, a determinação, a persistência, a resistência e o autocontrole.

Quanto aos aprendizados principais, o primeiro deles é bem básico: Se o projeto é um grande desafio, a qualidade de seu planejamento deve ser proporcional.

Em seguida, os ingredientes para o sucesso devem incluir disciplina, monitoramento constante dos indicadores, avaliação mais precisa do ambiente, escolha e priorização dos recursos necessários. Em relação a este último, estou certo que o peso de minha jaqueta desnecessária impactou em meu tempo total.

Acredito também que tenha subestimado a necessidade de algumas simulações e treinamentos prévios da situação que enfrentei ao encontrar a tal subida.

Além disso, a necessidade de uma maior prevenção de desperdícios se evidenciou nos minutos preciosos que perdi em meu último reabastecimento. Não sei precisar o quanto ele me ajudou, mas os cinco minutos que deixei ali, já seriam suficientes para que eu chegasse antes do limite.

Finalmente, pensei no reconhecimento. Os líderes na maior parte do tempo estão sós. E muitas vezes, mesmo após suas conquistas, não são reconhecidos adequadamente e podem não receber a sua medalha. Nem por isso, eles devem desistir, pois são movidos por algo muito maior. Algo que somente eles conseguem ver no horizonte.

Por falar nisso, já estou me preparando para minha próxima maratona.

Vamos nessa?