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8a. Maratona – New York City Marathon – 02/11/2008

 

Logo que o ano começou, eu já havia decidido viver o sonho de todo maratonista. Porém, um bom planejamento seria fundamental para que ele se concretizasse, até porque correr em Nova York seria um projeto com um investimento considerável, somente possível para mim se fosse financiado. Mas, afinal, tudo deu certo.

Na época, meu futuro genro Rodrigo Lobo, foi parceiro dessa viagem.

Com uma organização excelente, uma ótima feira e alguns eventos preparativos deliciosos, não havia do que reclamar, a não ser o forte frio do outono nova-iorquino.

Sobre os eventos preparativos, vale um comentário sobre a corrida de 5 Km onde os corredores de diversos países trocam objetos trazidos especialmente para esta integração cultural. Em meu caso, levei muitas fitas do Senhor do Bonfim, camisetas, bonés e outros badulaques brasileiros. Ganhei itens valiosos como uma camisa amarela e verde de um corredor australiano e uma camiseta de corrida que troquei com um colombiano. Quando voltei ao Brasil, as usava com orgulho, pois eram souvenirs raros.

Outro evento especial foi o jantar de massas no Central Park na véspera da corrida à noite. Sem contar os passeios inesquecíveis que a cidade sempre oferece. Aliás, ir a Nova York é sempre um passeio que vale a pena.

Pela quantidade absurda de inscritos, essa corrida exige certos rituais, por exemplo, na madrugada, temos que tomar um ônibus num lugar específico para irmos ao local da largada, em Staten Island, um pouco atrás da linda ponte Verrazano-Narrows.

Logo na chegada, tremendo de frio, tomamos um café americano como uma inútil tentativa de aquecer o corpo. Para piorar um pouco, como sou bem amador, meu tempo de prova me obrigou a largar bem mais tarde, ou seja, os mais rápidos como o Rodrigo saíram logo, e os lerdos como eu, ficaram lá congelando até chegar sua hora de começar a correr.

Mas que nada! É tudo bastante divertido.

Quando largamos, aí restou somente desfrutar a prova e seguir a multidão.

Na medida em que os quilômetros passavam, milhares de nova-iorquinos vinham às ruas e não paravam de incentivar os corredores. A cidade literalmente parou como acontece em todos os anos.

Quando entrei no Central Park, já na fase final, a emoção começou a tomar conta de mim e não houve outro jeito senão colocar a bandeira do Brasil bem na frente do corpo para que todos vissem. Realmente, emocionante!

Cansado, mas feliz, ainda mais por saber que o brasileiro Marilson Gomes dos Santos havia vencido, tratei de ir para o hotel. Até esse momento foi especial pois os corredores que concluem a maratona ganham uma espécie de reconhecimento quando exibem orgulhosamente suas medalhas. Por exemplo, nem metrô pagam.

Enfim, curti cada momento, até mesmo pela curiosidade de ir aos postos de votação onde os eleitores americanos votavam para eleger Barack Obama em seu primeiro mandato.

Enquanto me lembrava dos detalhes dessa prova, mais de dez anos depois, vieram lembranças não menos interessantes de algumas outras viagens que fiz a Nova York, porém com trajes bem diferentes para eventos na sede nas Nações Unidas.

Em todos eles havia muita responsabilidade e minha preparação em todos os momentos era sempre muito intensa.

Trocar algumas ideias com o Prof. Stuart Hart sobre economia na base da pirâmide, apresentar projetos em eventos globais, participar de cerimônias na plenária da ONU com a presença do Secretário Geral, tudo isso sempre foi adrenalina pura.

Em uma das vezes, fui convidado pela agência UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, para falar com autoridades africanas sobre projetos de sustentabilidade no Brasil. Lembro-me que estava ansioso e tenso antes do evento, mas ao me encontrar com pessoas tão receptivas e simpáticas, relaxei e tudo correu bem.

Certamente, este post poderia se prolongar bastante, pois estar na cidade que nunca dorme, foi sempre uma aventura urbana repleta de bons momentos, estando a trabalho ou mesmo realizando um sonho de corredor por suas movimentadas avenida e seus arranha-céus.

7a. Maratona – XIV Maratona de São Paulo – 01/06/2008

A grande diferença desta prova em relação às anteriores é que eu já havia incorporado aos meus treinamentos uma certa disciplina, a qual me deixava bem tranquilo nos momentos que antecediam a prova em si.

Foi a primeira vez que a Maratona de São Paulo começou seu percurso em um lugar bem diferente, passando pela bela Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, inaugurada no mês anterior.

Além disso, o clima estava diferente, um pouco chuvoso, o que não me agradava. Sempre gostei de correr sob temperaturas mais amenas, ou talvez frias mesmo, mas a chuva não era meu ambiente preferido para correr. Mas, enfim, quem gosta de corrida de rua não escolhe muito não. E lá estava eu com mais de doze mil loucos de dez países diferentes correndo pelas ruas de São Paulo.

Aquela agradável sensação nunca mais me deixou. Ainda bem!

Desde o momento da inscrição, a retirada do kit, a manhã da prova e outros momentos que pertencem a esse ritual de correr uma maratona, sempre foram muito caros para mim. E dessa vez não foi diferente.

Não choveu durante a corrida, apesar do chão permanecer molhado durante todo o tempo. Eu estava bem e completei com tranquilidade o novo percurso em quatro horas e quarenta e três minutos, um tempo bom para meu perfil considerando as dificuldades do trajeto, repleto de subidas e descidas.

Eu vivia um ano interessante. Minha carreira como consultor seguia relativamente bem e eu consegui naquele ano ser eleito para o maior papel institucional de toda a minha carreira como líder da rede brasileira do Pacto Global das Nações Unidas.

Tenho consciência de que sem minha amiga Gilda Pessoa, também corredora, eu nunca teria sido escolhido para tão importante missão. Sem contar que ela seguiu ao meu lado durante quase três anos de meu mandato. Gratidão!

Foi algo indescritível liderar a maior iniciativa de responsabilidade corporativa do mundo em meu país. Estar ao lado das principais empresas, universidades e instituições num esforço conjunto para levar a sustentabilidade aos negócios, à educação e evidenciar a importância dos dez princípios fundamentais da iniciativa foi uma das maiores experiências de toda a minha vida.

Na época, tínhamos poucos recursos e nosso objetivo principal era mudar o modelo de governança para que a rede brasileira se fortalecesse. Lutamos pela sua institucionalização, todavia o caminho para isso precisaria de muito mais tempo.

A integração com a ONU (PNUD) no Brasil foi fundamental e estou certo de que isso, entre outras coisas, fortaleceu o movimento em prol da sustentabilidade no país.

Durante o tempo em que pude liderar essa rede, tive muitas dificuldades e grandes foram as resistências para gerar a mudança que era necessária.

Como já era um consultor, cheguei até a escutar que promovia mudanças para meu próprio interesse. Isso era mentira, pois nunca ganhei um tostão pelo que pude fazer. Mas algo é verdade, cresci muito como líder e como profissional.

Além disso, conheci a iniciativa em diversos outros países por ser uma iniciativa das Nações Unidas. Um presente valioso nesse processo foi conhecer e interagir com pessoas simplesmente maravilhosas da África, da Ásia, da Europa, da América, enfim, do mundo todo. Lembro-me de todos os rostos e nunca me esquecerei do carinho que tiveram comigo. Se consegui ajudar em algo, foi muito pouco perto do que recebi.

Evidentemente, meu histórico na empresa BASF deu a credibilidade que sempre precisei, principalmente no início do desafio.

Hoje, ao olhar para as atuais lideranças e também o que estão fazendo com o foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, fico muito feliz.

Desejo que continuem assim e saibam que certamente estarei sempre pronto para contribuir, mesmo que meu alcance seja deveras singelo em comparação ao que as grandes lideranças e organizações já estão fazendo.

Sem que eu consiga controlar, esta lembrança traz ao meu rosto o mesmo indisfarçável sorriso do momento em que cruzei a linha de chegada ali no Parque Ibirapuera.

6a. Maratona – Berlin Marathon – 27/09/2007

Apesar do ano de 2006 ter sido um ano menos ativo devido à cirurgia de ombro já citada antes, isso não impediu que eu participasse de diversas corridas de curta distância. Entre elas, quatro provas de 10 Km compuseram um circuito novo  de São Paulo que recebeu o sugestivo título de “Circuito das Estações”, cada uma com o nome e na época de uma estação do ano.

Antes da cirurgia eu havia participado da etapa de outono, na fase de recuperação avançada da mesma, corri a etapa de inverno e as etapas da primavera e verão ocorreram no segundo semestre.

Mas o que isso tem a ver com a Maratona deste capítulo? Muita coisa, como poderão constatar.

A certa altura do ano de 2007, eu já estava de volta a um ritmo normal de atividades esportivas e, como eu havia corrido todas as etapas em 2006, pude participar de um concurso de frases promovido pela patrocinadora do circuito, a empresa Adidas, cujo ganhador receberia como prêmio a participação na Maratona de Berlim de 2007.

Passagem aérea, hospedagem, inscrição na prova e outros mimos adicionais, tudo isso tornou-se tão atrativo que não pude ficar sem contribuir com minha melhor participação possível.

O concurso pedia uma resposta criativa para a seguinte pergunta: “O que você faria para participar da Maratona de Berlin?”

Fiquei matutando vários dias em busca de uma resposta que pudesse ter chances, mas eu nunca havia ganho qualquer concurso desse tipo. Aliás, minha criatividade jamais havia sido sequer percebida como relevante.

Mas numa certa manhã, veio uma inspiração inesperada e esbocei uma frase que se definiu como minha resposta à pergunta da seguinte forma:

“Se fosse somente uma viagem, eu iria. Se fosse uma corrida, eu simplesmente correria. Mas como é um sonho, eu quero é sonhar. Ir, correr e acordar.”

Achei que ficou boa e a enviei, ainda sem grandes pretensões.

Pois não é que algumas semanas depois, recebi uma ligação com a surpresa de que eu havia sido um dos ganhadores. Minha frase havia sido escolhida como uma das melhores e, acreditem, ganhei o direito de correr uma das maratonas mais lindas de todo o mundo. Uau!!!!!!!

Obviamente, dei um jeito para que minha companheira de maratonas pudesse me acompanhar e, no final de setembro, viajamos para a capital da Alemanha.

A prova em si foi espetacular. Embora o clima não estivesse tão bonito na véspera e uma chuvinha chata era a melhor previsão de tempo para aquele domingo, a meteorologia alemã fez algo que raramente faz, ou seja, errou feio.

Assim, numa temperatura bem agradável e com um sol tímido, mas presente em boa parte do percurso, consegui chegar ao final com o melhor tempo de todas as minhas maratonas, quatro horas e vinte cinco minutos. Ao concluí-la, eu já sabia que dificilmente conseguiria melhorar esse tempo futuramente.

Um detalhe importante que constatei nessa prova foi que o controle rígido em meu desgaste na fase inicial da corrida foi fundamental para que eu pudesse dar tudo de mim, sem o conhecido cansaço comum aos maratonistas a partir do 30º quilômetro, e alcançasse um tempo final tão acima de minhas melhores expectativas.

Nem preciso dizer que cruzar o Portão de Brandemburgo, passar por tantos pontos turísticos distribuídos pelas ruas de Berlin e desfrutar do calor humano tantas pessoas em praticamente toda parte, foi mágico.

Certamente, nunca me esquecerei dessa experiência maravilhosa.

Hoje, olhando para a frase que criei, chego à conclusão de que era boa mesmo, mas confesso que depois disso, participei de diversos outros concursos e em nenhuma vez mais, ganhei coisa alguma. Nem precisava.

Ao me lembrar da especial lembrança desta prova, uma singela reflexão mostrou-me que se fizermos algo que proporcione sucesso ou algo bom, como essa linda viagem grátis, logo pensaremos ou escutaremos de outros o comentário de que tivemos sorte.

Há certa verdade nisso. Acredito mesmo que os sucessos de nossa vida carreguem consigo alguma coisa parecida com o que costumamos chamar de sorte. Mas num sentido mais amplo, será mesmo sorte?

Depois de ler o livro “A Boa Sorte” dos autores Álex Rovira Celma e Fernando Trias de Bes Mingot, compreendi que a sorte verdadeira contempla as pessoas que tem atitude, que acreditam nos seus talentos e, definitivamente, não tem preguiça, ou melhor, não esperam o sucesso cair em seu colo. Elas, deliberadamente, vão ao seu encalço.

Embora sem consciência, desde muito cedo em minha vida, corri e lutei muito por tudo o que consegui. Sem dúvida, perdi diversas vezes, mas nunca deixei de aprender algo com isso, o que me ajudou muito durante embates posteriores. Hoje, sei que as vitórias que pude conquistar sempre tiveram esse componente da “Boa Sorte”, como por exemplo no momento em que ouvi minha intuição, acreditei em minha inspiração e, como prêmio, realizei o sonho de correr a mundialmente famosa “Maratona de Berlin”.

O bem e o mal

Por Vitor Seravalli

Há um lado de mim que não sabe o que é a generosidade, que não perdoa e que não demonstra sequer a mínima empatia. Por isso, não o reconheço. Aliás, vou mais adiante e digo que já o neguei por inúmeras vezes. Porém, quando menos espero, vejo-me pensando, agindo e falando através dele.

Em alguns momentos, tive a certeza de tê-lo dizimado de mim. Pouco tempo depois, notei-me ainda mais arrogante, insensível e, paradoxalmente, frágil e susceptível sem ele. Fui surpreendido por minhas certezas e, por completa ausência de referências, cometi erros displicentes, típicos de pessoas que não sabem o que podem perder, e perdem.

Após tanto tempo fugindo de mim mesmo, aprendi que esse lado aparentemente negativo, contraditório e, indesejado de mim, é o contraponto que me faz usar a plenitude de meus valores para avaliar, discernir e escolher entre o certo e o errado, os quais sempre são oferecidos como opções em minha vida cheia de dúvidas.

Com isso, descobri que não sou o bom rapaz que imaginava ser. A princípio, isso me frustra um pouco, mas logo esse choque de realidades faz com que eu me sinta mais leve, mais aberto para melhorar a pessoa imperfeita e real que eu nunca quis ser, mas sou.

Há pessoas que simplesmente escolhem o lado que buscavam rejeitar. Mas, aderir ao lado negro da força, como mostra o vilão Darth Vader em STAR WARS, mostra-se a pior de todas as alternativas com o passar do tempo. E então, a melhor das saídas é mesmo aprender a conviver com o bem e o mal em uma mesma dimensão, aprendendo em cada situação a lidar com aquilo que nunca nos abandona, o dilema.

Aliás, uma das principais habilidades dos líderes plenos, que entendem a importância de seu papel na construção do desenvolvimento sustentável, é a coragem e inteligência para enfrentar dilemas. Quanto maior seu nível de responsabilidades em uma organização, muito maior será a quantidade e a complexidade desses dilemas.

Sem negar, mas tampouco polarizando em qualquer dessas duas perspectivas individuais tão antagônicas, sigo minha vida tendo sempre as opções de escolher entre o que parece ser o mais correto, mas mais difícil, e o incorreto, normalmente mais fácil. Sempre, haverá o risco do erro, mas nunca deverei priorizar a omissão em detrimento da responsabilidade.

Meus valores serão a fundamental referência ética para minhas escolhas, e o livre arbítrio será sempre o meu maior poder. Fácil, definitivamente, não é. Mas por enquanto, tudo corre bem.

E por aí? Tudo bem também?

Fonte imagem: Wikimedia Commons

Sabedoria

Por Vitor Seravalli

Como sempre, eu seguia apressado e, enquanto cruzava a mesma grande praça de todos os dias, não via os sinais do início daquela primavera. Aliás, eu estava em uma fase de minha vida em que notava poucas coisas e, mesmo assim, de modo vago. Fazia, ou pensava que fazia, várias coisas ao mesmo tempo. Por isso, não sobrava tempo para ver as flores, o nascer do sol e, tampouco, as estrelas. Pensando bem, eu nem mesmo prestava muita atenção nas pessoas importantes de minha vida. De qualquer modo, eu levava comigo todas as justificativas, caso alguma delas, tão carentes, pedisse que eu a escutasse de modo ativo. Se elas soubessem de meus problemas, não seriam tão exigentes comigo.

Eu agia como se estivesse compenetrado, mas de fato eu estava completamente disperso. Por isso, quase não percebi quando um senhor bastante idoso, mas jovial e elegante, me chamou. Perguntou as horas e fez menção de pedir alguma informação. Eu quase fingi que não o vi, pois seguia para um compromisso importante e, como de costume, estava atrasado. Mas, enfim, parei e, olhando meu relógio, disse que eram três e meia. O velhinho agradeceu. Ia fazer uma pergunta específica, mas notou minha impaciência e decidiu deixar-me ir, mesmo sem perguntar.

Ao notar sua reação, interrompi a caminhada e me aproximei dele. Sua expressão de reprovação pela minha desnecessária pressa incomodou-me de alguma forma. Apesar de sua opinião não significar nada para mim, notei algo forte em seu olhar e quis saber um pouco mais sobre ele.

O velhinho sorriu e pediu para que eu me sentasse ao seu lado. Hesitei, pois como disse antes, estava com pressa. Contudo, minha intuição fez com que eu me acalmasse e, por algum motivo desconhecido, me acomodei. Aquele homem possuía um olhar sereno e sua expressão transmitia uma estranha e positiva energia, da qual meu corpo não conseguiu se furtar. Puxei conversa e, logo ele começou a falar.

Inicialmente, quis saber sobre mim. Pediu que eu lhe contasse sobre coisas vagas, como por exemplo, minhas aflições, preocupações, angústias, dúvidas, enfim, ele queria compreender a óbvia relação entre meus passos tão acelerados e meus problemas. Vi uma desconfortável ingenuidade em suas perguntas, mas apesar de meu atraso iminente, não consegui mais deixá-lo. Pelo contrário, comecei a descrever minha rotina como se quisesse iluminar o enorme contraste que existia entre nós dois. Ele me escutava com atenção e seus olhos reagiam sem surpresa às minhas caras e bocas. No fundo, eu tinha o objetivo de impressioná-lo, mas ele já parecia saber de tudo, antes de minhas palavras.

À medida que ia descrevendo minhas dificuldades, vivia a sensação de retirar um enorme peso de minhas costas. Nunca alguém se dera ao trabalho de me ouvir daquela forma tão plena. E eu nunca imaginei ser capaz de me despir da armadura inútil, que me transformava em alguém muito diferente do que eu queria ser.

Quando terminei meu surpreendente e absurdo relato, olhei para seu rosto e vi que ele havia acreditado em mim, como se estivesse revivendo algo que fizera parte de sua própria experiência pessoal em um passado distante.

Fiquei à espera de um feedback, mas antes ele ainda perguntou sobre meus sonhos e sobre minha família. Quis também conhecer minha visão pessoal e meus objetivos de longo prazo. Por último, perguntou-me a respeito de meu entendimento sobre a vida. Definitivamente, eu o compreendia cada vez menos e não tinha a menor ideia de onde ele queria chegar.

Falou-me sobre incoerência de construirmos muros, quando deveríamos construir pontes em relação aos nossos relacionamentos. Contou sobre a importância de perdoarmos as pessoas que nos machucam, sem levar ressentimentos ou qualquer rancor. Recomendou a escolha perene pelo amor em detrimento do ódio. Mostrou-me todas as vantagens de usarmos o tempo a nosso favor, para fazermos as coisas que realmente nos importam. E entre outras sábias lições, sugeriu sempre a preferência de primeiro escutar, depois falar.

Quando terminou, o adorável velhinho ficou pensativo. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e suas mãos apoiaram seu queixo, enquanto ele olhava o horizonte como se estivesse buscando alguma coisa muito importante ao alcance de seus olhos. Eu o observava atento e nem me lembrava mais de meu compromisso.

Diversos pensamentos vinham à minha mente refletindo tudo o que deveria ter sido feito e não foi, as lições que deveriam ter sido aprendidas e incorporadas à minha forma de escolher, de decidir e de viver minha própria vida. Não sei o porquê, mas aparentemente tudo estava escondido em algum lugar secreto e inatingível dentro de mim, e agora se tornava tão claro, tão nítido aos meus olhos.

Algum tempo depois, tomei consciência do óbvio. Não havia nenhum velhinho. Eu mesmo estava sentado sozinho em um banco daquela praça, na mesma posição que imaginei a personificação do pouco de sabedoria que incorporei durante a vida, naquele sábio ancião.

Sempre soube que a sabedoria é algo que quanto mais buscamos, mais parece se distanciar de nós. Todavia, se quisermos liderar nossas vidas, nossos projetos pessoais e profissionais, e decidirmos assumir o papel de um eficaz agente de mudanças em prol de um mundo melhor e mais sustentável, não poderemos abrir mão de nada do que vida já nos tenha ensinado.  Isto significará assumir o compromisso de sermos, no presente, a melhor versão da pessoa que podemos vir a ser.

Levantei-me e segui meu caminho sentindo-me uma nova pessoa. É verdade que não houve qualquer metamorfose. Meus problemas e minhas falhas ainda permaneciam comigo. Mas um novo entendimento sobre sabedoria, essência de minha singela reflexão, nunca mais me abandonou.

Ainda bem!

fonte imagem: http://acibel.com.br

Horizonte

Por Vitor Seravalli

Não tenho certeza quando aquela mudança de rumos aconteceu. Há bem pouco tempo eu havia assumido uma importante posição de liderança na empresa e ainda estava sob o efeito de um processo, onde um natural deslumbre pelo novo cargo se misturava com o peso absurdo da responsabilidade que ele trazia, gerando uma certa confusão em minha mente. Em alguns momentos, experimentava uma sensação inusitada de poder e em outros, bem mais frequentes, a sensação de que eu não seria capaz de enfrentar aquela avalanche de problemas que se acumulava sobre a minha mesa.

De um jeito ou de outro, acertando e errando, às vezes sendo atrapalhado por uns poucos e em outras vezes recebendo o suporte essencial de muitos outros, eu fui me adaptando. Precisaria muito mais que um livro para contar somente uma parcela de tudo o que vivenciei naquela época. Mas tantas novidades em tão pouco tempo abriram meus horizontes e, quanto mais conhecimentos eu adquiria, um imenso e desconhecido mar de oportunidades se colocava à frente de meus ávidos olhos.

Creio que o primeiro sinal para uma dessas oportunidades veio após a leitura de um livro relacionado com a importância dos valores pessoais, escrito pelo consultor americano Hyrum Smith*. Sua mensagem contextualizou minhas inúmeras dúvidas em um cenário estruturado e de fácil compreensão. Pela primeira vez, enxerguei minha vida pessoal e profissional na forma de um projeto e, a partir daquele momento, uma nova visão se delineou em minha mente.

Tudo continuava igual e complexo em meu cotidiano, porém, eu já conseguia distinguir diferenças claras entre o instante presente e algo bem distante no tempo. Lá no horizonte, eu pude ver a mim mesmo, feliz e realizado.

Confesso que as coisas não eram tão cristalinas como eu gostaria, mas eu já não via meu futuro no mundo corporativo. Sem que eu já houvesse experimentado algo parecido antes, eu me via como um empreendedor. Mas como isso poderia ser possível se, até então, meu único projeto empreendedor havia sido desenvolvido nos tempos da universidade e ele se resumia em concluir minha graduação, receber o merecido diploma e conseguir um bom emprego? Lamentavelmente, tratava-se de um projeto pobre e pequeno.

Tenho o atenuante de que no passado não possuíamos tantas informações quanto as disponíveis aos jovens de hoje para discernir entre uma carreira convencional e um projeto empreendedor, todavia, com razão ou sem ela, isso acabou me custando muito caro posteriormente.

Voltando ao ponto de minha transformação pessoal, fiz um planejamento para dez anos no qual o meu objetivo seria uma atuação plena em desenvolvimento humano, algo que se definiu ao longo do tempo como minha grande paixão profissional, com um pilar coadjuvante já bastante consolidado em atividades relacionadas à sustentabilidade empresarial.

Levei tão a sério aquele meu projeto e seu consequente plano de ação, que o tempo previsto para sua implementação caiu surpreendentemente pela metade. Pois é, cinco anos depois, entrei na sala de meu líder e contei a ele sobre minha decisão de partir para um novo caminho.

Reconheço que a receptividade e o apoio da empresa como um todo foram fundamentais para que tudo corresse bem naquela fase de transição. Simples palavras de agradecimento não são suficientes para materializar minha gratidão.

Vale dizer, que a percepção criada pela repercussão natural de minha mudança foi muito mais positiva do que a realidade, mas creio que isso decorreu do brilho que nunca mais deixou meus olhos a partir de então. Até porque, me apaixonei pelo que passei a fazer e, assim, meu trabalho se transformou em uma de minhas principais opções de lazer.

Evidentemente, isso não significou facilidades econômicas perenes. Pelo contrário, as crises que o país viveu e ainda vive são desafios constantes para minha resiliência. Contudo, acordar todas as manhãs com a mesma energia para enfrentar leões e outras feras e dormir à noite, em paz, com a certeza de ter caminhado na construção de um legado baseado em valores com os quais me identifico, tudo isso não tem preço. Assim, somente tenho ótimos motivos para continuar, não é mesmo?

Por falar nisso, ainda que mal lhe pergunte, qual é mesmo o seu projeto pessoal ou profissional?

* O que mais importa – A importância de viver seus valores – Hyrum Smith /  Consultoria Franklin Covey

Fonte imagem: arquivo pessoal

Proficiência

Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone e, quando atendi, logo reconheci a voz animada de meu chefe.

— Guten Tag!

Disse boa tarde em alemão e continuou a conversa querendo testar minha capacidade de compreender e responder naquele idioma que sempre gostei, mas nunca dominei. Apesar disso, pareceu satisfeito, embora seu nível de exigência estivesse uma ordem de grandeza abaixo dos critérios de minha rígida professora de alemão. Em seguida, perguntou se meu passaporte estava em ordem e, quando confirmei positivamente, disse que me inscrevera em um programa de treinamento na cidade de Kaiserslautern na Alemanha. Um programa de dois dias sobre desenvolvimento de pessoas, totalmente em alemão. Ele sabia que seria muito difícil para mim, por isso determinou que eu fizesse um curso intensivo do idioma com um mês de duração, exatamente o tempo que restava até o início do treinamento.

Já terminando a conversa, sugeriu que eu conversasse com um colega de outra área, pois ele já havia participado do mesmo programa no ano anterior e, como também era um estrangeiro não fluente, poderia me dar dicas e informações sobre sua experiência.

Agradeci, desliguei o telefone e, em seguida, disquei para o tal colega. Quando contei a ele para onde iria, o outro lado da linha se transformou em um longo silêncio. Pensei até que a linha tivesse caído, mas ele pigarreou e confessou que sua experiência havia sido, no mínimo, dificílima. Desejou-me boa sorte e recomendou que eu cuidasse com carinho de minha autoestima.

Estou frito! — Pensei comigo.

Fiz tudo o que pude, estudei, pratiquei, até sonhei em alemão e, enfim, viajei. Apesar disso, reconheço que minha participação no tal treinamento foi, no máximo, medíocre. Após essa vivência, tive muitas outras intervenções com colegas e mesmo lideranças germânicas e, entre tropeços e boas evoluções, acredito que ganhei mais que perdi. Enfim, sobrevivi.

Evidentemente, se eu houvesse morado uns tempos por lá, este texto não existiria, mas no embalo desta abordagem, se eu olhar para trás em minha carreira, eu poderia contar várias histórias relacionadas às minhas diversas incursões em outros idiomas não nativos, como inglês e espanhol. Algumas foram inexplicavelmente bem-sucedidas, como por exemplo, ter sido palestrante no idioma espanhol em diferentes países latinos, sem nunca ter assistido sequer a uma única aula básica do idioma. “Madre mía!” Na verdade, aprendi a sobreviver heroicamente graças ao domínio de uma interlíngua – conforme definida em alguns dicionários – conhecida como “portunhol”.

Em uma outra situação, fui duramente repreendido por um simpático colega italiano, porque eu mesclava portunhol com um carregado sotaque da novela brasileira “Terra Nostra”, enquanto conversava animadamente com seus conterrâneos pelas ruas de Milão. Em um determinado momento, ele me puxou pelo braço e disse em tom definitivo:  — Fale normalmente, homem de Deus! Quem disse a você que os italianos falam desse jeito cantado? Se você insistir, eu fingirei que não o conheço, entendeu?

Tive dificuldades para compreender bem a sua repreensão feita em péssimo inglês. Mas admito que mudei imediatamente, pois vi que ela era bem mais clara e correta do que as minhas frases no idioma italiano.

Bem, mas a esta altura de minha vida, não creio que eu ainda tenha a intenção de investir grande energia para aperfeiçoar minha proficiência em outros idiomas, a não ser que alguma oportunidade de trabalho assim o exija. Nesse caso, certamente, eu mergulharei de cabeça. Aliás, ultimamente, tenho até estudado um pouco de italiano, mas somente para poder assistir às óperas de Verdi e Puccini sem depender tanto das legendas em português.

De qualquer modo, uma coisa é certa. Se eu estivesse iniciando minha carreira agora, ou mesmo, estivesse ainda definindo meu futuro profissional, eu investiria pelo menos o suficiente para dominar dois ou três idiomas importantes, obviamente após me sentir competente em relação à minha própria língua portuguesa.

Se fui um sortudo por não depender tanto disso quando iniciei e construí minha carreira, ainda assim, o que conquistei devo também à minha coragem e falta de vergonha em me comunicar mesmo com baixíssimos recursos de gramática e vocabulário em outras línguas.

Atualmente, o domínio de idiomas é o bilhete de entrada para participação em praticamente todas as oportunidades relevantes nas empresas globais, mas muito mais que isso, é a porta de acesso a valiosos conhecimentos, a novos relacionamentos e ao imenso patrimônio cultural disponível nas diversas regiões do mundo. Não temos mais o direito de renunciar a estas oportunidades.

Falando nisso: — Sprichst du Deutsch?

fonte imagem: http://webpinoy.asia

Oportunidade

Por Vitor Seravalli

Já escutei muito sobre a importância de estarmos sempre atentos às oportunidades que surgem à nossa frente. Infelizmente, tenho consciência de ter perdido algumas delas em minha vida pessoal e profissional, mas também levo em minha história, alguns momentos em que pude aproveitá-las. Em alguns casos, desperdicei ingenuamente chances óbvias e, em outros, fui surpreendido positivamente pelo êxito aparentemente improvável.

Em um determinado período, a fase não era das melhores. Nem sei se a causa estava em problemas decorrentes de performance abaixo das expectativas ou outro fator, mas o fato é que impactos gerados por sucessos recentes de um forte concorrente direto diminuíam minha autoconfiança.

Era um fim de tarde como outro qualquer, quando recebi um convite para um evento que envolveria todas as lideranças da empresa. Eu me incluía no grupo mais numeroso, composto pelos líderes de unidades operacionais. Eu era um dos chefes de produção.

E, após tanto tempo, ainda me surpreendo em manter na memória o número total de 144 participantes de todos os níveis naquele encontro, desde a alta direção até a liderança operacional.

O trabalho fora muito bem planejado com dinâmicas realizadas em grupos que se modificavam a cada etapa, com pessoas de níveis e áreas diferentes, para que ideias novas pudessem levar a resultados inovadores para os negócios. O levantamento de questões sobre problemas existentes, a discussão de possíveis alternativas de encaminhamento e, finalmente, a priorização em temas estratégicos se concentraram em 3 grupos de líderes formados por 48 participantes, que seriam responsáveis para desenvolver uma proposta de planos de ação específicos por tema.

O momento mais importante do evento previa a apresentação de um sumário executivo dos três materiais elaborados pelos distintos grupos. Para garantir que isso fosse feito de modo legítimo, cada grupo deveria escolher democraticamente um porta voz para apresentar os resultados a todos ali presentes.

Em um grupo tão forte, alguns profissionais poderiam ser classificados como favoritos prévios, ou por experiências anteriores bem-sucedidas, ou por suas atividades estarem ligadas a processos de comunicação. Lembro-me muito bem que um dos grupos definiu um líder de marketing extremamente comunicativo. O segundo grupo logo escolheu o gerente de comunicação corporativa da empresa. Mas o terceiro grupo demorou um pouco mais e o motivo do atraso era devido à ausência de alternativas óbvias de candidatos para aquela importante tarefa.

Eu acompanhava aquela discussão a uma certa distância e notei que houve uma discussão final, restrita a um grupo de líderes mais influentes, até que o maior nível hierárquico do grupo se aproximou de mim e solenemente informou que eu havia sido o escolhido.

Como dizia a letra de uma música bastante antiga: “não sei o que pensei, mas eu não acreditei”, contudo, sem pensar muito, respirei fundo, fiz uma oração instantânea, e disfarcei minha insegurança pedindo que todos me ajudassem a checar se minha proposta de apresentação atendia às expectativas de todos.

Nunca entendi os motivos de meu comportamento, mas enquanto todos buscavam alguém para representar o grupo no momento final daquela intervenção, eu fiquei todo o tempo em um canto, quietinho, pensando como o resultado deveria ser apresentado.

Assim, de modo surpreendente para muitos que lá estavam, fiz o que tinha a fazer da melhor forma que pude e com ótimo resultado. Para ser sincero, eu mesmo me surpreendi.

Minha vida no dia a dia não se tornou fácil por causa daquele momento positivo, tive mais percalços e novas dificuldades, mas admito que aquela oportunidade tão bem aproveitada abriu caminhos fundamentais para desenvolvimento posterior de minha carreira.

Uma vez, li uma história sobre Kairós, o deus da oportunidade. Descrito como um jovem calvo com uma trança de cabelos em sua testa, só era possível de ser alcançado, se agarrado pelo topete, ou seja, quando encarado de frente. Depois que ele passasse, não seria mais possível pegá-lo novamente.

Experiência vivida, lição aprendida.

fonte imagem: http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/

Ocupado

Por Vitor Seravalli

No início de minha vida executiva, quando eu precisava de algum trabalho com maior demanda de tempo e empenho, meu impulso inicial era procurar por alguém que estivesse com maior disponibilidade. Algo aparentemente óbvio, mas que poucas vezes trouxe resultados satisfatórios.

Aos poucos fui aprendendo que meu critério lógico não funcionava na prática. Surpreendentemente, as melhores delegações ocorriam quando alguém aparentemente atribulado assumia a responsabilidade e, como dizíamos na época, “dava conta do recado”.

Excepcionalmente, a sinergia entre tarefas distintas, quando caem nas mesmas mãos, pode torná-las mais simples. Parece impossível, mas lembro-me de um período em que eu era responsável por uma área de infraestrutura e quando recebi de presente a enorme responsabilidade de cuidar de toda a área de produção, minha vida melhorou substancialmente. Afinal, ficou muito mais fácil, integrar recursos e necessidades estruturais, além de ganhar o reforço de profissionais que se somaram aos que já pertenciam ao nosso time.

Realmente, tive sorte naquela oportunidade. Mas a inspiração deste texto não se relaciona com estas exceções surpreendentes e desejáveis.

Meu objetivo aqui é contar um pouco sobre a importância de identificarmos pessoas, cujos comportamentos fazem com que vontade, motivação, simplicidade e inovação, componham uma competência capaz de produzir resultados que os profissionais comuns consideram impossíveis. Reconhecê-los em meio a tantos perfis somente é possível quando suas atitudes de materializam em tarefas e projetos concluídos com sucesso.

Tive um colega que possuía esta capacidade. Dificilmente, o que lhe era delegado não alcançava o êxito. Porém, sua primeira reação quando tomava conhecimento de novos desafios era sempre negativa.

Uma expressão de súbito mal humor, sempre com justificativas insanas de que a ação não seria bem-sucedida, gerava um ambiente negativo e desanimador para toda a equipe. Contudo, sua atitude posterior se transformava em uma enorme contradição. Ele entrava em ação com a competência que lhe era peculiar e os problemas raramente não encontravam uma solução adequada.

Infelizmente, meu colega nunca alcançou posições mais importantes na organização, pois a percepção de pessimismo, não abertura às mudanças e de que gostava de reclamar, transformam-se em um estigma negativo. Realmente, uma pena.

Evidentemente, devemos ter um posicionamento assertivo e bem argumentado, quando não concordamos com o que nos é proposto ou quando estamos no limite de nossa capacidade. Todavia, precisamos discernir quando novas responsabilidades possam ser equacionadas, principalmente se forem importantes para nossas equipes, nossos negócios e, finalmente, nossas carreiras.

No final das contas, minhas vivências validaram uma frase pronta que ouvi certa vez e que a cada dia torna-se ainda mais verdadeira:

“Se você quiser que algo importante seja realizado com qualidade e no prazo desejado, procure alguém ocupado para fazê-lo”.

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A fritura

Por Vitor Seravalli

Um dos chefes que tive durante minha carreira apreciava liderar com o uso deliberado das crises. Hoje em dia, liderar em meio a crises é o óbvio, mas ele agia assim com suas equipes por mera opção pessoal.

Se alguma de suas áreas de responsabilidade aparentasse estar em um ambiente de harmonia, isso o incomodava. Imediatamente, ele se aproximava e, como o mundo corporativo é repleto de oportunidades de melhoria, logo identificava algum problema. Daí para frente, ele posicionava sua eficaz lupa no ponto mais crítico e pronto! Era uma correria para todos os lados.

Sobrava pressão, estresse, pânico e, lamentavelmente, os menos resilientes sucumbiam.

Não concordo com esse modelo de gestão e creio ser praticamente impossível considerá-lo adequado nos tempos atuais, mas admito que, pelo menos em uma importante oportunidade, sua atitude foi transformadora em meu perfil.

Desde o princípio de minha carreira, eu usei e abusei da empatia, ou como alguns generosos colegas diziam, da minha inteligência emocional. Resolução de conflitos, desenvolvimento de relacionamentos, intervenções com profissionais de diferentes níveis, enfim, eu era mesmo muito bom em lidar com situações onde não houvesse confronto.

Foi quando o tal chefe notou o meu “indesejável” comportamento. Logo, o azeite foi para a frigideira, a frigideira foi para o fogo, e percebi que queriam me jogar para dentro dela.

Para catalisar esse processo de fritura, eu tinha um rival. Competente, inteligente e bem mais experiente que eu, esse meu colega percebeu que meu momento era de fragilidade. Em diversas situações, minha posição hierarquicamente superior passou a ser desafiada por ele e, certamente, eu não poderia aceitar aquela situação.

Contudo, eu não estava preparado para aquela inevitável necessidade de mudança e a temperatura na frigideira continuava a subir. Até que em uma situação imprevista, onde diversas pessoas serviam como testemunhas, o confronto inevitável ocorreu.

Todos os presentes já imaginavam um final ruim para mim. A iminente fritura iria realmente acontecer.

Não sei se por um irracional instinto de sobrevivência, ou se pela ajuda fundamental de minha intuição, eu mesmo me surpreendi com o que fiz. Do jeito que pude, o enfrentei e, embora eu não me lembre disso, disseram que terminei a conversa com um forte tapa na mesa.

A discussão se encerrou bruscamente e eu voltei ao meu escritório sem olhar para trás.

Já no caminho, um juiz dentro de mim me julgava imprudente, me sentenciava culpado e me condenava a um inevitável mergulho no azeite quente pela minha atitude imprevista e surpreendente.

Alguns passos depois, ele ainda exigiu que eu voltasse à sala e que me desculpasse, sob a única condição para que tudo voltasse ao normal, como se aquele estado indicasse normalidade.

Não sei o porquê, mas o fato é que não voltei. Fiquei isolado em meu escritório e admito que a noite que se seguiu não foi de sono bom.

No dia seguinte, logo pela manhã, fui chamado pela assistente do meu superior. Pediu que eu fosse com urgência até ele. Pensei comigo: — Acho que perdi.

Inseguro, mas satisfeito comigo e consciente de que deveria ter sido sempre assim, cheguei ao seu escritório. Logo que entrei, ele mudou radicalmente sua expressão. Pois é, ele estava sério e quando me viu, não resistiu e, aproximando-se de mim, sorriu.

Olhou-me de frente e, para minha completa surpresa, disse que já estava sabendo do que eu havia feito. E, aparentemente feliz, me parabenizou.

Um acontecimento mínimo, mas que descartou o azeite ainda quente e guardou a frigideira, pelo menos por mais algum tempo.

Se o azeite não me fritou, o calor certamente me mostrou que a incompetência em lidar com posicionamentos racionais necessários e impopulares estava prejudicando a minha carreira. Assim, depois desse episódio, nunca mais fui o mesmo. Ainda bem!

Obviamente, muitas outras frituras vieram. Mas, como podem perceber, eu ainda estou aqui.

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