Bom dia João Claudio!

JC1

Por Vitor Seravalli

Aquela situação, aparentemente irrelevante, trazia um leve desconforto diário. Eu acessava a empresa com meu automóvel, e a cada dia vinha uma pessoa uniformizada para checar meu porta-malas.

Certamente, eu não me incomodava com o procedimento, pois afinal aquele tipo de checagem era normal, e eu não tinha nada a esconder,

O que me incomodava era receber um cumprimento nominal, respeitoso, e não conseguir responder da mesma forma, simplesmente porque os seguranças se revezavam diariamente naquele posto, e eu nunca conseguia memorizar seus nomes.

Um fato era verdadeiro, eu não era muito bom na memorização de nomes de pessoas, mas aquela situação precisaria de uma solução.

Pensei um pouco, e veio uma ideia óbvia. Telefonei para o supervisor, e pedi que providenciasse uma folha de papel com pequenas fotos de todos os profissionais que trabalhavam na segurança da empresa, obviamente, com seus nomes em letras bem legíveis sob suas poses formais.

Embora o líder dos seguranças apresentasse uma expressão incrédula ao meu pedido, o atendeu prontamente.

No dia seguinte, parei o automóvel em frente ao portão da empresa, e ao ver o segurança do dia vindo em minha direção, peguei a folha ainda de modo desajeitado, busquei identificar seu rosto nas fotos, abri a janela, e o cumprimentei pelo nome.

Ele demonstrou surpresa, mas devolveu o cumprimento com a melhor entonação que pode expressar. E eu segui para meu escritório sem o desconforto de todas as vezes anteriores.

Aquilo tornou-se um hábito, e até hoje, anos e anos depois, lembro-me do impacto positivo que aquele simples ato causou às minhas manhãs carregadas de trabalho e problemas para resolver.

Mas, muito mais que isso, nunca me esquecerei da fisionomia daquelas pessoas humildes, que pareciam sentir-se diferenciadas simplesmente por serem tratadas pelo seu próprio nome.

E um dia desses, caminhando pela cidade, dei de cara com um dos profissionais, que talvez fosse um dos mais educados daquela época.

Apesar de tanto tempo depois, minha ótima capacidade de guardar bem as fisionomias compensou a insistente dificuldade em lembrar nomes das pessoas, e ambos se reconheceram. Veio em minha direção com a mão estendida, e eu, milagrosamente, como se conseguisse ver aquela página de papel cheia de fotografias com nomes em frente aos meus olhos, não hesitei. Estendi minha mão de encontro à dele, e como fazia no passado, tive o privilégio de retribuir sua simpatia e o cumprimentei com toda a minha energia:

Bom dia João Claudio!

Não me recordo o nome de quem me ensinou a agir assim, mas se me lembrasse, o cumprimentaria também, e agradeceria por um dos melhores presentes que recebi em toda a minha vida.

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