A fritura

Por Vitor Seravalli

Um dos chefes que tive durante minha carreira apreciava liderar com o uso deliberado das crises. Hoje em dia, liderar em meio a crises é o óbvio, mas ele agia assim com suas equipes por mera opção pessoal.

Se alguma de suas áreas de responsabilidade aparentasse estar em um ambiente de harmonia, isso o incomodava. Imediatamente, ele se aproximava e, como o mundo corporativo é repleto de oportunidades de melhoria, logo identificava algum problema. Daí para frente, ele posicionava sua eficaz lupa no ponto mais crítico e pronto! Era uma correria para todos os lados.

Sobrava pressão, estresse, pânico e, lamentavelmente, os menos resilientes sucumbiam.

Não concordo com esse modelo de gestão e creio ser praticamente impossível considerá-lo adequado nos tempos atuais, mas admito que, pelo menos em uma importante oportunidade, sua atitude foi transformadora em meu perfil.

Desde o princípio de minha carreira, eu usei e abusei da empatia, ou como alguns generosos colegas diziam, da minha inteligência emocional. Resolução de conflitos, desenvolvimento de relacionamentos, intervenções com profissionais de diferentes níveis, enfim, eu era mesmo muito bom em lidar com situações onde não houvesse confronto.

Foi quando o tal chefe notou o meu “indesejável” comportamento. Logo, o azeite foi para a frigideira, a frigideira foi para o fogo, e percebi que queriam me jogar para dentro dela.

Para catalisar esse processo de fritura, eu tinha um rival. Competente, inteligente e bem mais experiente que eu, esse meu colega percebeu que meu momento era de fragilidade. Em diversas situações, minha posição hierarquicamente superior passou a ser desafiada por ele e, certamente, eu não poderia aceitar aquela situação.

Contudo, eu não estava preparado para aquela inevitável necessidade de mudança e a temperatura na frigideira continuava a subir. Até que em uma situação imprevista, onde diversas pessoas serviam como testemunhas, o confronto inevitável ocorreu.

Todos os presentes já imaginavam um final ruim para mim. A iminente fritura iria realmente acontecer.

Não sei se por um irracional instinto de sobrevivência, ou se pela ajuda fundamental de minha intuição, eu mesmo me surpreendi com o que fiz. Do jeito que pude, o enfrentei e, embora eu não me lembre disso, disseram que terminei a conversa com um forte tapa na mesa.

A discussão se encerrou bruscamente e eu voltei ao meu escritório sem olhar para trás.

Já no caminho, um juiz dentro de mim me julgava imprudente, me sentenciava culpado e me condenava a um inevitável mergulho no azeite quente pela minha atitude imprevista e surpreendente.

Alguns passos depois, ele ainda exigiu que eu voltasse à sala e que me desculpasse, sob a única condição para que tudo voltasse ao normal, como se aquele estado indicasse normalidade.

Não sei o porquê, mas o fato é que não voltei. Fiquei isolado em meu escritório e admito que a noite que se seguiu não foi de sono bom.

No dia seguinte, logo pela manhã, fui chamado pela assistente do meu superior. Pediu que eu fosse com urgência até ele. Pensei comigo: — Acho que perdi.

Inseguro, mas satisfeito comigo e consciente de que deveria ter sido sempre assim, cheguei ao seu escritório. Logo que entrei, ele mudou radicalmente sua expressão. Pois é, ele estava sério e quando me viu, não resistiu e, aproximando-se de mim, sorriu.

Olhou-me de frente e, para minha completa surpresa, disse que já estava sabendo do que eu havia feito. E, aparentemente feliz, me parabenizou.

Um acontecimento mínimo, mas que descartou o azeite ainda quente e guardou a frigideira, pelo menos por mais algum tempo.

Se o azeite não me fritou, o calor certamente me mostrou que a incompetência em lidar com posicionamentos racionais necessários e impopulares estava prejudicando a minha carreira. Assim, depois desse episódio, nunca mais fui o mesmo. Ainda bem!

Obviamente, muitas outras frituras vieram. Mas, como podem perceber, eu ainda estou aqui.

fonte imagem: http://exame.abril.com.br/

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