A entrevista

Por Vitor Seravalli

Embora eu estivesse bastante ansioso, minha intuição já havia revelado, de forma serena e surpreendentemente segura, que minha vida profissional estava prestes a se iniciar.

Eu já não era tão jovem, mas a oportunidade conquistada de estudar em uma universidade pública fora uma grande aposta em mim mesmo. E agora, eu teria o desafio de transformar aquele enorme investimento de meus pais em resultados tangíveis.

Eu não possuía qualquer experiência que justificasse a aposta de alguma empresa em meu potencial, mas eu queria uma chance e, finalmente, a sentia bem perto.

Iniciar a busca de um primeiro emprego em uma época onde não existia a internet, onde os currículos eram datilografados um a um e entregues em mãos nas portarias das empresas, enfim, tudo aquilo se traduzia como grande desafio.

Além disso, restavam somente os magros cadernos de empregos dos jornais de fim de semana, típicos dos tempos de vacas magras, ou seja, o mercado de trabalho vivia mais uma de suas crises.

Havia um otimismo aparentemente sem motivo em torno de mim e, naquela manhã de domingo, vi um anúncio como outro qualquer, que oferecia uma posição de “Assistente de Diretoria de Produção” em uma empresa multinacional. Pedia formação em engenharia química, dois anos de experiência e o desejável domínio do idioma alemão.

Eu somente atendia à primeira exigência, mas resolvi arriscar e fiz questão de levar pessoalmente o envelope ao correio, como se houvesse uma outra opção.

Confesso que não alimentava grandes esperanças de ser chamado, porém algumas semanas depois, recebi um telefonema de uma moça chamada Estrela me convidando para uma entrevista na tal empresa. Se não a houvesse conhecido pessoalmente logo em seguida, eu juraria ter sido iluminado pela generosa luz de uma desconhecida estrela da sorte.

Eu poderia ou deveria ter ido com traje mais social, mas eu nem imaginava essa alternativa, simplesmente porque não possuía um terno ou algo similar. Assim, com meu melhor jeans e uma camisa discretamente estampada, cheguei para a mais importante entrevista de emprego da minha vida.

Surpreendentemente, não encontrei nenhum de meus colegas de universidade, o que já seria algo inusitado. Obviamente, eles também não se enquadravam ao perfil solicitado e, talvez por isso, não tenham se candidatado.

Quando cheguei à empresa, fui encaminhado ao andar do edifício administrativo onde ficavam as salas das diretorias e, ao entrar em uma delas, um senhor alto e bastante acolhedor me recebeu e pediu que eu me sentasse. Antes disso, apresentou-me a um outro senhor com uma expressão mais séria e que se acomodava com suas pernas cruzadas em uma das cadeiras que circundavam a mesa do diretor.

Eu estava preparado para uma entrevista técnica e até imaginei que seria submetido a uma bateria de testes relacionados aos reatores, colunas de destilação e trocadores de calor, mas a conversa seguiu um rumo completamente diferente.

O executivo mais sério, continuou sério, e foi um completo observador durante todo o tempo em que permaneci naquela sala.

O simpático diretor alemão perguntava muitas coisas sobre minha vida, sobre minhas qualidades e defeitos, pedia minha opinião sobre algumas situações que se configuravam como típicos dilemas profissionais. Seguindo minha intuição, respondia às questões espontaneamente e, em nenhum momento, me preocupei em imaginar se minhas respostas estavam certas ou erradas. O fato é que meu interlocutor era bastante hábil, construiu um diálogo franco e, por isso, não me intimidou.

Num determinado momento, ele disse ter somente mais uma pergunta. Olhou diretamente aos meus olhos e disse:

— Então diga meu jovem: Afinal, o que você espera de sua vida?

Disfarcei a surpresa, fiz cara de conteúdo e busquei em minha mente alguma resposta que pudesse traduzir algo de um tema sobre o qual nunca havia sequer pensado.

Com surpreendente calma, disse ter ouvido dizer que no momento final de nossa existência, temos a chance de assistir em pouquíssimos segundos a um rápido vídeo com a síntese de toda a história que construímos durante a vida. Fiz uma pequena pausa e terminei a frase desejando que somente esperava poder comentar ao final: Puxa! Valeu a pena!

Quando já estava com meus novos colegas, escutei deles que eu era o mais jovem e informal de todos os diversos participantes daquele processo de seleção. Porém, a empresa encontrou em mim o que buscava, ou seja, um profissional que demonstrasse vontade de aprender e que não evidenciasse vícios corporativos de suas experiências anteriores. Ali, aprendi que até mesmo a falta de experiência pode ser um diferencial.

Aliás, meu novo chefe era justamente o silencioso senhor que somente acompanhou a conversa. Ele mesmo, alguns dias depois, contou-me que ficou muito feliz pela minha disposição em estudar e aprender o idioma alemão. Naturalmente, falou isso com um forte sotaque germânico.

Hoje em dia, com o alto grau de competitividade do mercado de trabalho em proporção inversa à disponibilidade de oportunidades, a preparação para uma dinâmica, como a descrita acima, exige uma preparação incomparavelmente maior. Aliás, um candidato com chances concretas nunca irá para uma entrevista em uma empresa sem conhecê-la muito bem. Atualmente, ao contrário do passado, é normal um candidato fazer mais perguntas do que dar respostas durante uma entrevista. Seus conhecimentos técnicos serão sempre essenciais para que possa participar dos processos, mas modernos testes buscarão identificar e avaliar a adequação do seu perfil de competências essenciais em relação à posição em questão.

Em meu caso, a inconsciente opção pela simplicidade em minhas respostas e, principalmente, a escolha por não ser ninguém diferente de mim mesmo, possibilitou que a base de minha carreira pudesse se estabelecer, sem me esquecer da ajuda inicial de algumas pessoas essencialmente generosas que me acolheram e sob os valores e princípios de uma organização que nunca poderei me esquecer.

 

fonte ilustração: Blog: AQO – A quinta onda

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