2a. Maratona – X Maratona de São Paulo – 2 de maio de 2004

Eu vivia uma fase bastante agitada em minha vida. O cotidiano corporativo intenso se contrapunha drasticamente à busca de um estilo de vida mais equilibrado. Mas, de qualquer modo, eu estava convicto do meu papel como um agente disseminador da importância da atividade física e dos bons hábitos para um melhor resultado pessoal e profissional de minha equipe.

Por isso, eu participava de diversas atividades que pudessem me colocar como exemplo. Aliás, sempre acreditei que exemplos valem muito mais que palavras.

Assim, mesmo com um histórico recente de algumas lesões, a inscrição para a X Maratona de São Paulo foi uma oportunidade para mostrar que minha atitude não era somente um discurso. Por outro lado, essa decisão foi um ato de coragem com certa dose de irresponsabilidade. Minha rotina de treinos era mais que suficiente para corridas de curta e média distância, mas para esta maratona, eu não tinha qualquer outra ambição que não fosse simplesmente chegar.

Lembro-me bem daquela manhã de sol. Com a cabeça cheia outros assuntos alheios àquele evento esportivo, parti para mais um novo desafio. Caso não tivesse o suporte de meu inesquecível amigo Valdomiro Manoel, que infelizmente já nos deixou, eu nunca teria conseguido alcançar meu objetivo. Mas, afinal, cruzei a linha de chegada em 5 horas e 21 minutos e percebi que aquele exercício de resistência havia me ensinado algo muito importante para os maratonistas, ou seja, aprendi a conhecer profundamente os limites de meu corpo.

A partir dessa corrida e até hoje, nunca terminei qualquer percurso com a sensação de ter ultrapassado o limiar seguro de minha capacidade. Algo que passei a usar em outras situações de minha vida.

Por exemplo, quando consegui adquirir o primeiro imóvel de minha vida, graças a um longo financiamento, eu não imaginava viver a experiência que algumas coincidências me proporcionaram. Era um prédio novo dentro de um condomínio que já possuía um outro mais antigo completamente ocupado e, pelo uso contínuo por diversos anos, apresentava sensíveis sinais de desgaste. Casualmente, eu era morador desse edifício mais antigo, mas como locatário.

Ao receber as chaves do meu, eu disse “meu” apartamento, percebi que eu me tornara involuntariamente o único condômino que conhecia os dois prédios muito bem. Ninguém mais tinha o mesmo perfil.

Durante o processo de recebimento do novo imóvel, construí uma relação muito boa com outros novos moradores, por isso, quando houve a reunião de integração do condomínio, eu fui eleito por unanimidade como o novo síndico.

Não vou me aprofundar nessa história porque isso daria um livro completo com muitos capítulos de muitas páginas. Mas enfrentar aquele desafio inesperado, embora aparentemente singelo, acabou trazendo ricos em aprendizados, alguns agradáveis e outros nem tanto.

Foi minha primeira experiência oficial como líder, afinal alguns funcionários reportavam diretamente a mim. E essa pequena experiência foi bastante útil em minha vida profissional que, por sinal, tornou-se bem mais complexa pouco tempo depois. Além disso, melhorar o local onde eu morava, e perceber que tais melhorias traziam benefícios para mais de uma centena de famílias, era também um ponto bastante positivo. Enfim, foi um período intenso e repleto de novidades.

Contudo, os principais desafios, nos quais o grau de dificuldade crescia a cada momento, estavam na gestão das pessoas nem sempre dispostas a conviver contribuindo com aquele processo de integração. A cada dia, os problemas resolvidos pouco significavam e o problemas pendentes, por menores que fossem, geravam atritos e situações de estresse muito mais fortes do que minha baixa resiliência àquela altura da vida.

Para complicar e fragilizar minha capacidade de resistir às ameaças e provocações, eu optei por um modelo de gestão democrático. Eu me disponibilizava para ouvir todas as reivindicações e reclamações de moradores, os quais não possuíam o menor bom senso. Eu continuava recebendo apoio das pessoas que estavam comigo, todavia, no final das contas, eu era o único responsável formal daquilo e o foco estava em mim.

Logo, alguns sintomas físicos decorrentes daquele desgaste já se tornavam visíveis, mas continuei firme e, em um certo momento, decidi fazer algo que em minha cabeça traria satisfação unânime. Havia um problema crítico em ambos os prédios e, com meu conhecimento técnico, consegui aprovar um investimento que traria uma solução simplesmente ideal.

Dei o máximo de mim e, após algum tempo, tudo ficou pronto. Devo admitir que o resultado final foi até melhor que minhas melhores expectativas.

Logo que recebi o documento de entrega da obra, fui para minha casa. Porém, logo que entrei, alguma coisa dentro de mim clamou por reconhecimento. Após tantas críticas injustas, eu merecia receber um elogio. Não, um elogio só, não. Eu queria muitos elogios.

Assim, tomei o elevador novamente e desci até o pátio de entrada. Em minha santa ingenuidade, eu imaginava que várias pessoas não hesitariam em reconhecer meu trabalho como síndico daquela comunidade.

Cheguei de mansinho e fiquei à espera de todos.

Após uns dez minutos, apareceu uma senhora que morava no edifício mais antigo. Ela me viu e se aproximou com uma suspeita calma. Quando chegou, eu a cumprimentei, ela levantou seu rosto e, sem que eu pudesse sequer reagir, despejou sobre mim todas as críticas que pode. Acredito que a escutei por cerca de cinco minutos, então meu limite de segurança me avisou que alguma coisa mais decisiva deveria ser feita exatamente naquele momento.

Deixei a moradora praticamente falando sozinha e voltei novamente para casa.

Eu havia vencido o desafio com a maior dedicação e competência que pude agregar, mas seu final havia chegado.

Telefonei imediatamente para a empresa que administrava as contas do condomínio e marquei unilateralmente uma assembleia extraordinária, cuja pauta possuía dois itens: “Prestação de contas” e, “Eleição de um novo síndico”.

Todos se surpreenderam e tentaram mudar minha decisão, mas não houve jeito. A partir daquele dia, eu voltava a ser um simples condômino.

De todas as lições que aprendi naquele período, a mais importante foi renunciar eternamente à ingênua esperança de conseguir, em qualquer circunstância, agradar a todos os envolvidos em meus projetos ou decisões, pessoais ou profissionais.

Esta foi uma lição para toda a vida. Não nego que tive algumas recaídas, afinal sou humano, mas com o tempo consegui tirar muito proveito disso.

E outra lição, não menos relevante, foi manter atenção aos meus limites físicos e emocionais. Nunca desisti de uma corrida, mesmo cansado como estava em minha segunda maratona, mas não hesitarei em fazê-lo se meu limite for ultrapassado.

Esta é uma questão de duas perspectivas: uma delas relacionada com nossa sensibilidade aos sinais que o corpo nos dá. E outra, bem mais difícil, é respeitar estes sinais e parar, mesmo que nossas fundamentais persistência e determinação, nos implorem para continuar.

Evidente que elas sempre serão ouvidas, pois são características das pessoas vencedoras, mas a decisão de seguir em frente ou não estará sempre e somente aqui, dentro de mim.

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