Arquivos do mês: fevereiro 2020

8a. Maratona – New York City Marathon – 02/11/2008

 

Logo que o ano começou, eu já havia decidido viver o sonho de todo maratonista. Porém, um bom planejamento seria fundamental para que ele se concretizasse, até porque correr em Nova York seria um projeto com um investimento considerável, somente possível para mim se fosse financiado. Mas, afinal, tudo deu certo.

Na época, meu futuro genro Rodrigo Lobo, foi parceiro dessa viagem.

Com uma organização excelente, uma ótima feira e alguns eventos preparativos deliciosos, não havia do que reclamar, a não ser o forte frio do outono nova-iorquino.

Sobre os eventos preparativos, vale um comentário sobre a corrida de 5 Km onde os corredores de diversos países trocam objetos trazidos especialmente para esta integração cultural. Em meu caso, levei muitas fitas do Senhor do Bonfim, camisetas, bonés e outros badulaques brasileiros. Ganhei itens valiosos como uma camisa amarela e verde de um corredor australiano e uma camiseta de corrida que troquei com um colombiano. Quando voltei ao Brasil, as usava com orgulho, pois eram souvenirs raros.

Outro evento especial foi o jantar de massas no Central Park na véspera da corrida à noite. Sem contar os passeios inesquecíveis que a cidade sempre oferece. Aliás, ir a Nova York é sempre um passeio que vale a pena.

Pela quantidade absurda de inscritos, essa corrida exige certos rituais, por exemplo, na madrugada, temos que tomar um ônibus num lugar específico para irmos ao local da largada, em Staten Island, um pouco atrás da linda ponte Verrazano-Narrows.

Logo na chegada, tremendo de frio, tomamos um café americano como uma inútil tentativa de aquecer o corpo. Para piorar um pouco, como sou bem amador, meu tempo de prova me obrigou a largar bem mais tarde, ou seja, os mais rápidos como o Rodrigo saíram logo, e os lerdos como eu, ficaram lá congelando até chegar sua hora de começar a correr.

Mas que nada! É tudo bastante divertido.

Quando largamos, aí restou somente desfrutar a prova e seguir a multidão.

Na medida em que os quilômetros passavam, milhares de nova-iorquinos vinham às ruas e não paravam de incentivar os corredores. A cidade literalmente parou como acontece em todos os anos.

Quando entrei no Central Park, já na fase final, a emoção começou a tomar conta de mim e não houve outro jeito senão colocar a bandeira do Brasil bem na frente do corpo para que todos vissem. Realmente, emocionante!

Cansado, mas feliz, ainda mais por saber que o brasileiro Marilson Gomes dos Santos havia vencido, tratei de ir para o hotel. Até esse momento foi especial pois os corredores que concluem a maratona ganham uma espécie de reconhecimento quando exibem orgulhosamente suas medalhas. Por exemplo, nem metrô pagam.

Enfim, curti cada momento, até mesmo pela curiosidade de ir aos postos de votação onde os eleitores americanos votavam para eleger Barack Obama em seu primeiro mandato.

Enquanto me lembrava dos detalhes dessa prova, mais de dez anos depois, vieram lembranças não menos interessantes de algumas outras viagens que fiz a Nova York, porém com trajes bem diferentes para eventos na sede nas Nações Unidas.

Em todos eles havia muita responsabilidade e minha preparação em todos os momentos era sempre muito intensa.

Trocar algumas ideias com o Prof. Stuart Hart sobre economia na base da pirâmide, apresentar projetos em eventos globais, participar de cerimônias na plenária da ONU com a presença do Secretário Geral, tudo isso sempre foi adrenalina pura.

Em uma das vezes, fui convidado pela agência UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, para falar com autoridades africanas sobre projetos de sustentabilidade no Brasil. Lembro-me que estava ansioso e tenso antes do evento, mas ao me encontrar com pessoas tão receptivas e simpáticas, relaxei e tudo correu bem.

Certamente, este post poderia se prolongar bastante, pois estar na cidade que nunca dorme, foi sempre uma aventura urbana repleta de bons momentos, estando a trabalho ou mesmo realizando um sonho de corredor por suas movimentadas avenida e seus arranha-céus.

7a. Maratona – XIV Maratona de São Paulo – 01/06/2008

A grande diferença desta prova em relação às anteriores é que eu já havia incorporado aos meus treinamentos uma certa disciplina, a qual me deixava bem tranquilo nos momentos que antecediam a prova em si.

Foi a primeira vez que a Maratona de São Paulo começou seu percurso em um lugar bem diferente, passando pela bela Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira, inaugurada no mês anterior.

Além disso, o clima estava diferente, um pouco chuvoso, o que não me agradava. Sempre gostei de correr sob temperaturas mais amenas, ou talvez frias mesmo, mas a chuva não era meu ambiente preferido para correr. Mas, enfim, quem gosta de corrida de rua não escolhe muito não. E lá estava eu com mais de doze mil loucos de dez países diferentes correndo pelas ruas de São Paulo.

Aquela agradável sensação nunca mais me deixou. Ainda bem!

Desde o momento da inscrição, a retirada do kit, a manhã da prova e outros momentos que pertencem a esse ritual de correr uma maratona, sempre foram muito caros para mim. E dessa vez não foi diferente.

Não choveu durante a corrida, apesar do chão permanecer molhado durante todo o tempo. Eu estava bem e completei com tranquilidade o novo percurso em quatro horas e quarenta e três minutos, um tempo bom para meu perfil considerando as dificuldades do trajeto, repleto de subidas e descidas.

Eu vivia um ano interessante. Minha carreira como consultor seguia relativamente bem e eu consegui naquele ano ser eleito para o maior papel institucional de toda a minha carreira como líder da rede brasileira do Pacto Global das Nações Unidas.

Tenho consciência de que sem minha amiga Gilda Pessoa, também corredora, eu nunca teria sido escolhido para tão importante missão. Sem contar que ela seguiu ao meu lado durante quase três anos de meu mandato. Gratidão!

Foi algo indescritível liderar a maior iniciativa de responsabilidade corporativa do mundo em meu país. Estar ao lado das principais empresas, universidades e instituições num esforço conjunto para levar a sustentabilidade aos negócios, à educação e evidenciar a importância dos dez princípios fundamentais da iniciativa foi uma das maiores experiências de toda a minha vida.

Na época, tínhamos poucos recursos e nosso objetivo principal era mudar o modelo de governança para que a rede brasileira se fortalecesse. Lutamos pela sua institucionalização, todavia o caminho para isso precisaria de muito mais tempo.

A integração com a ONU (PNUD) no Brasil foi fundamental e estou certo de que isso, entre outras coisas, fortaleceu o movimento em prol da sustentabilidade no país.

Durante o tempo em que pude liderar essa rede, tive muitas dificuldades e grandes foram as resistências para gerar a mudança que era necessária.

Como já era um consultor, cheguei até a escutar que promovia mudanças para meu próprio interesse. Isso era mentira, pois nunca ganhei um tostão pelo que pude fazer. Mas algo é verdade, cresci muito como líder e como profissional.

Além disso, conheci a iniciativa em diversos outros países por ser uma iniciativa das Nações Unidas. Um presente valioso nesse processo foi conhecer e interagir com pessoas simplesmente maravilhosas da África, da Ásia, da Europa, da América, enfim, do mundo todo. Lembro-me de todos os rostos e nunca me esquecerei do carinho que tiveram comigo. Se consegui ajudar em algo, foi muito pouco perto do que recebi.

Evidentemente, meu histórico na empresa BASF deu a credibilidade que sempre precisei, principalmente no início do desafio.

Hoje, ao olhar para as atuais lideranças e também o que estão fazendo com o foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, fico muito feliz.

Desejo que continuem assim e saibam que certamente estarei sempre pronto para contribuir, mesmo que meu alcance seja deveras singelo em comparação ao que as grandes lideranças e organizações já estão fazendo.

Sem que eu consiga controlar, esta lembrança traz ao meu rosto o mesmo indisfarçável sorriso do momento em que cruzei a linha de chegada ali no Parque Ibirapuera.

6a. Maratona – Berlin Marathon – 27/09/2007

Apesar do ano de 2006 ter sido um ano menos ativo devido à cirurgia de ombro já citada antes, isso não impediu que eu participasse de diversas corridas de curta distância. Entre elas, quatro provas de 10 Km compuseram um circuito novo  de São Paulo que recebeu o sugestivo título de “Circuito das Estações”, cada uma com o nome e na época de uma estação do ano.

Antes da cirurgia eu havia participado da etapa de outono, na fase de recuperação avançada da mesma, corri a etapa de inverno e as etapas da primavera e verão ocorreram no segundo semestre.

Mas o que isso tem a ver com a Maratona deste capítulo? Muita coisa, como poderão constatar.

A certa altura do ano de 2007, eu já estava de volta a um ritmo normal de atividades esportivas e, como eu havia corrido todas as etapas em 2006, pude participar de um concurso de frases promovido pela patrocinadora do circuito, a empresa Adidas, cujo ganhador receberia como prêmio a participação na Maratona de Berlim de 2007.

Passagem aérea, hospedagem, inscrição na prova e outros mimos adicionais, tudo isso tornou-se tão atrativo que não pude ficar sem contribuir com minha melhor participação possível.

O concurso pedia uma resposta criativa para a seguinte pergunta: “O que você faria para participar da Maratona de Berlin?”

Fiquei matutando vários dias em busca de uma resposta que pudesse ter chances, mas eu nunca havia ganho qualquer concurso desse tipo. Aliás, minha criatividade jamais havia sido sequer percebida como relevante.

Mas numa certa manhã, veio uma inspiração inesperada e esbocei uma frase que se definiu como minha resposta à pergunta da seguinte forma:

“Se fosse somente uma viagem, eu iria. Se fosse uma corrida, eu simplesmente correria. Mas como é um sonho, eu quero é sonhar. Ir, correr e acordar.”

Achei que ficou boa e a enviei, ainda sem grandes pretensões.

Pois não é que algumas semanas depois, recebi uma ligação com a surpresa de que eu havia sido um dos ganhadores. Minha frase havia sido escolhida como uma das melhores e, acreditem, ganhei o direito de correr uma das maratonas mais lindas de todo o mundo. Uau!!!!!!!

Obviamente, dei um jeito para que minha companheira de maratonas pudesse me acompanhar e, no final de setembro, viajamos para a capital da Alemanha.

A prova em si foi espetacular. Embora o clima não estivesse tão bonito na véspera e uma chuvinha chata era a melhor previsão de tempo para aquele domingo, a meteorologia alemã fez algo que raramente faz, ou seja, errou feio.

Assim, numa temperatura bem agradável e com um sol tímido, mas presente em boa parte do percurso, consegui chegar ao final com o melhor tempo de todas as minhas maratonas, quatro horas e vinte cinco minutos. Ao concluí-la, eu já sabia que dificilmente conseguiria melhorar esse tempo futuramente.

Um detalhe importante que constatei nessa prova foi que o controle rígido em meu desgaste na fase inicial da corrida foi fundamental para que eu pudesse dar tudo de mim, sem o conhecido cansaço comum aos maratonistas a partir do 30º quilômetro, e alcançasse um tempo final tão acima de minhas melhores expectativas.

Nem preciso dizer que cruzar o Portão de Brandemburgo, passar por tantos pontos turísticos distribuídos pelas ruas de Berlin e desfrutar do calor humano tantas pessoas em praticamente toda parte, foi mágico.

Certamente, nunca me esquecerei dessa experiência maravilhosa.

Hoje, olhando para a frase que criei, chego à conclusão de que era boa mesmo, mas confesso que depois disso, participei de diversos outros concursos e em nenhuma vez mais, ganhei coisa alguma. Nem precisava.

Ao me lembrar da especial lembrança desta prova, uma singela reflexão mostrou-me que se fizermos algo que proporcione sucesso ou algo bom, como essa linda viagem grátis, logo pensaremos ou escutaremos de outros o comentário de que tivemos sorte.

Há certa verdade nisso. Acredito mesmo que os sucessos de nossa vida carreguem consigo alguma coisa parecida com o que costumamos chamar de sorte. Mas num sentido mais amplo, será mesmo sorte?

Depois de ler o livro “A Boa Sorte” dos autores Álex Rovira Celma e Fernando Trias de Bes Mingot, compreendi que a sorte verdadeira contempla as pessoas que tem atitude, que acreditam nos seus talentos e, definitivamente, não tem preguiça, ou melhor, não esperam o sucesso cair em seu colo. Elas, deliberadamente, vão ao seu encalço.

Embora sem consciência, desde muito cedo em minha vida, corri e lutei muito por tudo o que consegui. Sem dúvida, perdi diversas vezes, mas nunca deixei de aprender algo com isso, o que me ajudou muito durante embates posteriores. Hoje, sei que as vitórias que pude conquistar sempre tiveram esse componente da “Boa Sorte”, como por exemplo no momento em que ouvi minha intuição, acreditei em minha inspiração e, como prêmio, realizei o sonho de correr a mundialmente famosa “Maratona de Berlin”.