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1a. Maratona – Maratona das Águas – 23 de março de 2003

A experiência de correr pela primeira vez a distância de 42,195 Km é algo especial por diversos aspectos. Inicialmente, por não ser algo tão comum, também por ser desafiador, depois pelo temor gerado por diversas histórias assustadoras já vividas por corredores experientes, e ainda pela lenda do enfrentamento da tal muralha que se ergue à frente dos atletas após ultrapassam a distância mágica dos 30 km.

Enfim, pessoalmente, eu conheço muitos corredores infinitamente superiores a mim, mas que nunca se sentiram seguros o suficiente para correr uma maratona.

Em meu caso específico, confesso que enfrentar minha primeira maratona era uma meta desde o momento em que comecei a correr, mas isto não significa que eu estava plenamente preparado para ela. Evidentemente, treinei bastante, recebi o suporte de um corredor experiente, mas em nenhum momento, tive qualquer certeza se conseguiria ou não concluir tal distância.

Escolhi uma prova no interior de São Paulo que nunca havia sido realizada antes, ou seja, minha discreta opção chamou-se 1ª. Maratona da Águas e cruzou um bom pedaço do interior do estado de São Paulo.

O percurso se iniciava na cidade de Amparo, passando depois por Monte Alegre do Sul, Serra Negra, Lindóia e terminando em Águas de Lindóia. Não me recordo bem, mas ouvi dizer na época, que um pouco mais da metade do percurso era em aclive e um terço em declive, ou seja, quase como subir e descer uma grande montanha.

Com suporte direto de minha filha e companheira Cecilia, que correu comigo os últimos 15 Km, completei o percurso em 4 horas e 57 minutos. Nada mal para um intrépido iniciante.

Mas já que comecei falando do desafio que foi correr minha primeira maratona, contarei agora um pouco de um outro desafio inicial em minha vida que foi a batalha pelo meu primeiro emprego logo após sair da universidade.

Na época, meu pobre e frágil projeto de carreira se resumia a tomar posse imediata de meu diploma de engenharia e conseguir urgentemente um emprego. Hoje, vejo como os jovens com meu perfil se preparam desde a universidade e sinto um pouco de vergonha, ou talvez inveja. Lamentavelmente, eu possuía um nível de informação muitíssimo menor, e confesso que também não conhecia nada sobre as características comportamentais necessárias para um empreendedor. Aliás, eu tampouco sabia o que era ser um empreendedor.

Assim, me tornei “Procurador do Estado”.

Sim, em meus tempos de recém-formado, este era o melhor jeito de conseguir um emprego. Todos os domingos, eu ia até a banca de jornais mais próxima e comprava o jornal O Estado de São Paulo e ficava procurando.

Para ampliar minhas dificuldades, o país vivia uma crise – felizmente, isso acabou. –  E, por esse motivo, o caderno de empregos do Estadão vinha com pouquíssimas páginas.

A saída foi buscar atividades alternativas, o que me levou a algumas escolas de informática. Eu dominava uma linguagem de microcomputadores, o BASIC, e isto me possibilitou ganhar algum dinheiro lecionando em escolas de informática, muito pouco é bem verdade, mas o suficiente para garantir a dose mínima de autoestima e resiliência às dezenas de respostas negativas que eu seguia recebendo com o passar dos meses.

Já que estou falando de desafios, devo dizer que, por diversas vezes (multiplicadas por dez), eu chegava à conclusão inevitável de que nunca chegaria o momento em que alguma empresa tomaria a decisão de dar uma oportunidade para mim.

Meu fundamental diferencial, desenvolvido a fórceps naquela difícil fase de minha vida, foi uma composição generosa de alguns ingredientes, entre os quais, perseverança, otimismo, intuição, crença em todas as improváveis oportunidades, fé e, evidentemente, o essencial apoio de minha família. Felizmente, como disse certa vez Ariano Suassuna, esse jeito “realista esperançoso” tornou-se uma de minhas principais características até hoje.

Um detalhe crucial: eu não conhecia a força e o impacto do termo “networking”. Se conhecesse e praticasse isso, pelo menos um pouco, minhas chances teriam sido bem maiores.

Assim, quando a mais improvável oportunidade apareceu, talvez por acreditar nela, o meu primeiro desafio profissional foi surpreendentemente vencido.

Devo admitir que chegar a essa conquista foi muito mais difícil do que concluir minha primeira maratona. Mas ambos os momentos foram inesquecíveis, tanto o momento em que cruzei a linha de chegada da corrida, quanto o momento em que entrei pela primeira vez naquela empresa como seu novo funcionário.