Arquivos do mês: setembro 2017

Horizonte

Por Vitor Seravalli

Não tenho certeza quando aquela mudança de rumos aconteceu. Há bem pouco tempo eu havia assumido uma importante posição de liderança na empresa e ainda estava sob o efeito de um processo, onde um natural deslumbre pelo novo cargo se misturava com o peso absurdo da responsabilidade que ele trazia, gerando uma certa confusão em minha mente. Em alguns momentos, experimentava uma sensação inusitada de poder e em outros, bem mais frequentes, a sensação de que eu não seria capaz de enfrentar aquela avalanche de problemas que se acumulava sobre a minha mesa.

De um jeito ou de outro, acertando e errando, às vezes sendo atrapalhado por uns poucos e em outras vezes recebendo o suporte essencial de muitos outros, eu fui me adaptando. Precisaria muito mais que um livro para contar somente uma parcela de tudo o que vivenciei naquela época. Mas tantas novidades em tão pouco tempo abriram meus horizontes e, quanto mais conhecimentos eu adquiria, um imenso e desconhecido mar de oportunidades se colocava à frente de meus ávidos olhos.

Creio que o primeiro sinal para uma dessas oportunidades veio após a leitura de um livro relacionado com a importância dos valores pessoais, escrito pelo consultor americano Hyrum Smith*. Sua mensagem contextualizou minhas inúmeras dúvidas em um cenário estruturado e de fácil compreensão. Pela primeira vez, enxerguei minha vida pessoal e profissional na forma de um projeto e, a partir daquele momento, uma nova visão se delineou em minha mente.

Tudo continuava igual e complexo em meu cotidiano, porém, eu já conseguia distinguir diferenças claras entre o instante presente e algo bem distante no tempo. Lá no horizonte, eu pude ver a mim mesmo, feliz e realizado.

Confesso que as coisas não eram tão cristalinas como eu gostaria, mas eu já não via meu futuro no mundo corporativo. Sem que eu já houvesse experimentado algo parecido antes, eu me via como um empreendedor. Mas como isso poderia ser possível se, até então, meu único projeto empreendedor havia sido desenvolvido nos tempos da universidade e ele se resumia em concluir minha graduação, receber o merecido diploma e conseguir um bom emprego? Lamentavelmente, tratava-se de um projeto pobre e pequeno.

Tenho o atenuante de que no passado não possuíamos tantas informações quanto as disponíveis aos jovens de hoje para discernir entre uma carreira convencional e um projeto empreendedor, todavia, com razão ou sem ela, isso acabou me custando muito caro posteriormente.

Voltando ao ponto de minha transformação pessoal, fiz um planejamento para dez anos no qual o meu objetivo seria uma atuação plena em desenvolvimento humano, algo que se definiu ao longo do tempo como minha grande paixão profissional, com um pilar coadjuvante já bastante consolidado em atividades relacionadas à sustentabilidade empresarial.

Levei tão a sério aquele meu projeto e seu consequente plano de ação, que o tempo previsto para sua implementação caiu surpreendentemente pela metade. Pois é, cinco anos depois, entrei na sala de meu líder e contei a ele sobre minha decisão de partir para um novo caminho.

Reconheço que a receptividade e o apoio da empresa como um todo foram fundamentais para que tudo corresse bem naquela fase de transição. Simples palavras de agradecimento não são suficientes para materializar minha gratidão.

Vale dizer, que a percepção criada pela repercussão natural de minha mudança foi muito mais positiva do que a realidade, mas creio que isso decorreu do brilho que nunca mais deixou meus olhos a partir de então. Até porque, me apaixonei pelo que passei a fazer e, assim, meu trabalho se transformou em uma de minhas principais opções de lazer.

Evidentemente, isso não significou facilidades econômicas perenes. Pelo contrário, as crises que o país viveu e ainda vive são desafios constantes para minha resiliência. Contudo, acordar todas as manhãs com a mesma energia para enfrentar leões e outras feras e dormir à noite, em paz, com a certeza de ter caminhado na construção de um legado baseado em valores com os quais me identifico, tudo isso não tem preço. Assim, somente tenho ótimos motivos para continuar, não é mesmo?

Por falar nisso, ainda que mal lhe pergunte, qual é mesmo o seu projeto pessoal ou profissional?

* O que mais importa – A importância de viver seus valores – Hyrum Smith /  Consultoria Franklin Covey

Fonte imagem: arquivo pessoal

Proficiência

Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone e, quando atendi, logo reconheci a voz animada de meu chefe.

— Guten Tag!

Disse boa tarde em alemão e continuou a conversa querendo testar minha capacidade de compreender e responder naquele idioma que sempre gostei, mas nunca dominei. Apesar disso, pareceu satisfeito, embora seu nível de exigência estivesse uma ordem de grandeza abaixo dos critérios de minha rígida professora de alemão. Em seguida, perguntou se meu passaporte estava em ordem e, quando confirmei positivamente, disse que me inscrevera em um programa de treinamento na cidade de Kaiserslautern na Alemanha. Um programa de dois dias sobre desenvolvimento de pessoas, totalmente em alemão. Ele sabia que seria muito difícil para mim, por isso determinou que eu fizesse um curso intensivo do idioma com um mês de duração, exatamente o tempo que restava até o início do treinamento.

Já terminando a conversa, sugeriu que eu conversasse com um colega de outra área, pois ele já havia participado do mesmo programa no ano anterior e, como também era um estrangeiro não fluente, poderia me dar dicas e informações sobre sua experiência.

Agradeci, desliguei o telefone e, em seguida, disquei para o tal colega. Quando contei a ele para onde iria, o outro lado da linha se transformou em um longo silêncio. Pensei até que a linha tivesse caído, mas ele pigarreou e confessou que sua experiência havia sido, no mínimo, dificílima. Desejou-me boa sorte e recomendou que eu cuidasse com carinho de minha autoestima.

Estou frito! — Pensei comigo.

Fiz tudo o que pude, estudei, pratiquei, até sonhei em alemão e, enfim, viajei. Apesar disso, reconheço que minha participação no tal treinamento foi, no máximo, medíocre. Após essa vivência, tive muitas outras intervenções com colegas e mesmo lideranças germânicas e, entre tropeços e boas evoluções, acredito que ganhei mais que perdi. Enfim, sobrevivi.

Evidentemente, se eu houvesse morado uns tempos por lá, este texto não existiria, mas no embalo desta abordagem, se eu olhar para trás em minha carreira, eu poderia contar várias histórias relacionadas às minhas diversas incursões em outros idiomas não nativos, como inglês e espanhol. Algumas foram inexplicavelmente bem-sucedidas, como por exemplo, ter sido palestrante no idioma espanhol em diferentes países latinos, sem nunca ter assistido sequer a uma única aula básica do idioma. “Madre mía!” Na verdade, aprendi a sobreviver heroicamente graças ao domínio de uma interlíngua – conforme definida em alguns dicionários – conhecida como “portunhol”.

Em uma outra situação, fui duramente repreendido por um simpático colega italiano, porque eu mesclava portunhol com um carregado sotaque da novela brasileira “Terra Nostra”, enquanto conversava animadamente com seus conterrâneos pelas ruas de Milão. Em um determinado momento, ele me puxou pelo braço e disse em tom definitivo:  — Fale normalmente, homem de Deus! Quem disse a você que os italianos falam desse jeito cantado? Se você insistir, eu fingirei que não o conheço, entendeu?

Tive dificuldades para compreender bem a sua repreensão feita em péssimo inglês. Mas admito que mudei imediatamente, pois vi que ela era bem mais clara e correta do que as minhas frases no idioma italiano.

Bem, mas a esta altura de minha vida, não creio que eu ainda tenha a intenção de investir grande energia para aperfeiçoar minha proficiência em outros idiomas, a não ser que alguma oportunidade de trabalho assim o exija. Nesse caso, certamente, eu mergulharei de cabeça. Aliás, ultimamente, tenho até estudado um pouco de italiano, mas somente para poder assistir às óperas de Verdi e Puccini sem depender tanto das legendas em português.

De qualquer modo, uma coisa é certa. Se eu estivesse iniciando minha carreira agora, ou mesmo, estivesse ainda definindo meu futuro profissional, eu investiria pelo menos o suficiente para dominar dois ou três idiomas importantes, obviamente após me sentir competente em relação à minha própria língua portuguesa.

Se fui um sortudo por não depender tanto disso quando iniciei e construí minha carreira, ainda assim, o que conquistei devo também à minha coragem e falta de vergonha em me comunicar mesmo com baixíssimos recursos de gramática e vocabulário em outras línguas.

Atualmente, o domínio de idiomas é o bilhete de entrada para participação em praticamente todas as oportunidades relevantes nas empresas globais, mas muito mais que isso, é a porta de acesso a valiosos conhecimentos, a novos relacionamentos e ao imenso patrimônio cultural disponível nas diversas regiões do mundo. Não temos mais o direito de renunciar a estas oportunidades.

Falando nisso: — Sprichst du Deutsch?

fonte imagem: http://webpinoy.asia