Arquivos do mês: agosto 2017

Oportunidade

Por Vitor Seravalli

Já escutei muito sobre a importância de estarmos sempre atentos às oportunidades que surgem à nossa frente. Infelizmente, tenho consciência de ter perdido algumas delas em minha vida pessoal e profissional, mas também levo em minha história, alguns momentos em que pude aproveitá-las. Em alguns casos, desperdicei ingenuamente chances óbvias e, em outros, fui surpreendido positivamente pelo êxito aparentemente improvável.

Em um determinado período, a fase não era das melhores. Nem sei se a causa estava em problemas decorrentes de performance abaixo das expectativas ou outro fator, mas o fato é que impactos gerados por sucessos recentes de um forte concorrente direto diminuíam minha autoconfiança.

Era um fim de tarde como outro qualquer, quando recebi um convite para um evento que envolveria todas as lideranças da empresa. Eu me incluía no grupo mais numeroso, composto pelos líderes de unidades operacionais. Eu era um dos chefes de produção.

E, após tanto tempo, ainda me surpreendo em manter na memória o número total de 144 participantes de todos os níveis naquele encontro, desde a alta direção até a liderança operacional.

O trabalho fora muito bem planejado com dinâmicas realizadas em grupos que se modificavam a cada etapa, com pessoas de níveis e áreas diferentes, para que ideias novas pudessem levar a resultados inovadores para os negócios. O levantamento de questões sobre problemas existentes, a discussão de possíveis alternativas de encaminhamento e, finalmente, a priorização em temas estratégicos se concentraram em 3 grupos de líderes formados por 48 participantes, que seriam responsáveis para desenvolver uma proposta de planos de ação específicos por tema.

O momento mais importante do evento previa a apresentação de um sumário executivo dos três materiais elaborados pelos distintos grupos. Para garantir que isso fosse feito de modo legítimo, cada grupo deveria escolher democraticamente um porta voz para apresentar os resultados a todos ali presentes.

Em um grupo tão forte, alguns profissionais poderiam ser classificados como favoritos prévios, ou por experiências anteriores bem-sucedidas, ou por suas atividades estarem ligadas a processos de comunicação. Lembro-me muito bem que um dos grupos definiu um líder de marketing extremamente comunicativo. O segundo grupo logo escolheu o gerente de comunicação corporativa da empresa. Mas o terceiro grupo demorou um pouco mais e o motivo do atraso era devido à ausência de alternativas óbvias de candidatos para aquela importante tarefa.

Eu acompanhava aquela discussão a uma certa distância e notei que houve uma discussão final, restrita a um grupo de líderes mais influentes, até que o maior nível hierárquico do grupo se aproximou de mim e solenemente informou que eu havia sido o escolhido.

Como dizia a letra de uma música bastante antiga: “não sei o que pensei, mas eu não acreditei”, contudo, sem pensar muito, respirei fundo, fiz uma oração instantânea, e disfarcei minha insegurança pedindo que todos me ajudassem a checar se minha proposta de apresentação atendia às expectativas de todos.

Nunca entendi os motivos de meu comportamento, mas enquanto todos buscavam alguém para representar o grupo no momento final daquela intervenção, eu fiquei todo o tempo em um canto, quietinho, pensando como o resultado deveria ser apresentado.

Assim, de modo surpreendente para muitos que lá estavam, fiz o que tinha a fazer da melhor forma que pude e com ótimo resultado. Para ser sincero, eu mesmo me surpreendi.

Minha vida no dia a dia não se tornou fácil por causa daquele momento positivo, tive mais percalços e novas dificuldades, mas admito que aquela oportunidade tão bem aproveitada abriu caminhos fundamentais para desenvolvimento posterior de minha carreira.

Uma vez, li uma história sobre Kairós, o deus da oportunidade. Descrito como um jovem calvo com uma trança de cabelos em sua testa, só era possível de ser alcançado, se agarrado pelo topete, ou seja, quando encarado de frente. Depois que ele passasse, não seria mais possível pegá-lo novamente.

Experiência vivida, lição aprendida.

fonte imagem: http://eventosmitologiagrega.blogspot.com.br/

Ocupado

Por Vitor Seravalli

No início de minha vida executiva, quando eu precisava de algum trabalho com maior demanda de tempo e empenho, meu impulso inicial era procurar por alguém que estivesse com maior disponibilidade. Algo aparentemente óbvio, mas que poucas vezes trouxe resultados satisfatórios.

Aos poucos fui aprendendo que meu critério lógico não funcionava na prática. Surpreendentemente, as melhores delegações ocorriam quando alguém aparentemente atribulado assumia a responsabilidade e, como dizíamos na época, “dava conta do recado”.

Excepcionalmente, a sinergia entre tarefas distintas, quando caem nas mesmas mãos, pode torná-las mais simples. Parece impossível, mas lembro-me de um período em que eu era responsável por uma área de infraestrutura e quando recebi de presente a enorme responsabilidade de cuidar de toda a área de produção, minha vida melhorou substancialmente. Afinal, ficou muito mais fácil, integrar recursos e necessidades estruturais, além de ganhar o reforço de profissionais que se somaram aos que já pertenciam ao nosso time.

Realmente, tive sorte naquela oportunidade. Mas a inspiração deste texto não se relaciona com estas exceções surpreendentes e desejáveis.

Meu objetivo aqui é contar um pouco sobre a importância de identificarmos pessoas, cujos comportamentos fazem com que vontade, motivação, simplicidade e inovação, componham uma competência capaz de produzir resultados que os profissionais comuns consideram impossíveis. Reconhecê-los em meio a tantos perfis somente é possível quando suas atitudes de materializam em tarefas e projetos concluídos com sucesso.

Tive um colega que possuía esta capacidade. Dificilmente, o que lhe era delegado não alcançava o êxito. Porém, sua primeira reação quando tomava conhecimento de novos desafios era sempre negativa.

Uma expressão de súbito mal humor, sempre com justificativas insanas de que a ação não seria bem-sucedida, gerava um ambiente negativo e desanimador para toda a equipe. Contudo, sua atitude posterior se transformava em uma enorme contradição. Ele entrava em ação com a competência que lhe era peculiar e os problemas raramente não encontravam uma solução adequada.

Infelizmente, meu colega nunca alcançou posições mais importantes na organização, pois a percepção de pessimismo, não abertura às mudanças e de que gostava de reclamar, transformam-se em um estigma negativo. Realmente, uma pena.

Evidentemente, devemos ter um posicionamento assertivo e bem argumentado, quando não concordamos com o que nos é proposto ou quando estamos no limite de nossa capacidade. Todavia, precisamos discernir quando novas responsabilidades possam ser equacionadas, principalmente se forem importantes para nossas equipes, nossos negócios e, finalmente, nossas carreiras.

No final das contas, minhas vivências validaram uma frase pronta que ouvi certa vez e que a cada dia torna-se ainda mais verdadeira:

“Se você quiser que algo importante seja realizado com qualidade e no prazo desejado, procure alguém ocupado para fazê-lo”.

fonte imagem: https://pt.dreamstime.com/

A fritura

Por Vitor Seravalli

Um dos chefes que tive durante minha carreira apreciava liderar com o uso deliberado das crises. Hoje em dia, liderar em meio a crises é o óbvio, mas ele agia assim com suas equipes por mera opção pessoal.

Se alguma de suas áreas de responsabilidade aparentasse estar em um ambiente de harmonia, isso o incomodava. Imediatamente, ele se aproximava e, como o mundo corporativo é repleto de oportunidades de melhoria, logo identificava algum problema. Daí para frente, ele posicionava sua eficaz lupa no ponto mais crítico e pronto! Era uma correria para todos os lados.

Sobrava pressão, estresse, pânico e, lamentavelmente, os menos resilientes sucumbiam.

Não concordo com esse modelo de gestão e creio ser praticamente impossível considerá-lo adequado nos tempos atuais, mas admito que, pelo menos em uma importante oportunidade, sua atitude foi transformadora em meu perfil.

Desde o princípio de minha carreira, eu usei e abusei da empatia, ou como alguns generosos colegas diziam, da minha inteligência emocional. Resolução de conflitos, desenvolvimento de relacionamentos, intervenções com profissionais de diferentes níveis, enfim, eu era mesmo muito bom em lidar com situações onde não houvesse confronto.

Foi quando o tal chefe notou o meu “indesejável” comportamento. Logo, o azeite foi para a frigideira, a frigideira foi para o fogo, e percebi que queriam me jogar para dentro dela.

Para catalisar esse processo de fritura, eu tinha um rival. Competente, inteligente e bem mais experiente que eu, esse meu colega percebeu que meu momento era de fragilidade. Em diversas situações, minha posição hierarquicamente superior passou a ser desafiada por ele e, certamente, eu não poderia aceitar aquela situação.

Contudo, eu não estava preparado para aquela inevitável necessidade de mudança e a temperatura na frigideira continuava a subir. Até que em uma situação imprevista, onde diversas pessoas serviam como testemunhas, o confronto inevitável ocorreu.

Todos os presentes já imaginavam um final ruim para mim. A iminente fritura iria realmente acontecer.

Não sei se por um irracional instinto de sobrevivência, ou se pela ajuda fundamental de minha intuição, eu mesmo me surpreendi com o que fiz. Do jeito que pude, o enfrentei e, embora eu não me lembre disso, disseram que terminei a conversa com um forte tapa na mesa.

A discussão se encerrou bruscamente e eu voltei ao meu escritório sem olhar para trás.

Já no caminho, um juiz dentro de mim me julgava imprudente, me sentenciava culpado e me condenava a um inevitável mergulho no azeite quente pela minha atitude imprevista e surpreendente.

Alguns passos depois, ele ainda exigiu que eu voltasse à sala e que me desculpasse, sob a única condição para que tudo voltasse ao normal, como se aquele estado indicasse normalidade.

Não sei o porquê, mas o fato é que não voltei. Fiquei isolado em meu escritório e admito que a noite que se seguiu não foi de sono bom.

No dia seguinte, logo pela manhã, fui chamado pela assistente do meu superior. Pediu que eu fosse com urgência até ele. Pensei comigo: — Acho que perdi.

Inseguro, mas satisfeito comigo e consciente de que deveria ter sido sempre assim, cheguei ao seu escritório. Logo que entrei, ele mudou radicalmente sua expressão. Pois é, ele estava sério e quando me viu, não resistiu e, aproximando-se de mim, sorriu.

Olhou-me de frente e, para minha completa surpresa, disse que já estava sabendo do que eu havia feito. E, aparentemente feliz, me parabenizou.

Um acontecimento mínimo, mas que descartou o azeite ainda quente e guardou a frigideira, pelo menos por mais algum tempo.

Se o azeite não me fritou, o calor certamente me mostrou que a incompetência em lidar com posicionamentos racionais necessários e impopulares estava prejudicando a minha carreira. Assim, depois desse episódio, nunca mais fui o mesmo. Ainda bem!

Obviamente, muitas outras frituras vieram. Mas, como podem perceber, eu ainda estou aqui.

fonte imagem: http://exame.abril.com.br/