Arquivos do mês: junho 2017

Webinar: Desafios da Construção Sustentável & ODS

A Seravalli, em parceria com a StraubJunqueira, fará um Webinar sobre os desafios da construção sustentável e os ODS.

O webinar será no dia 12/07, às 14h.

Faça sua inscrição e garanta já a sua presença! Próximo ao evento você irá receber no e-mail cadastrado o link de acesso ao vivo. A palestra tem duração prevista de 45min e mais uma rodada de perguntas de 15min.

Incrições em: goo.gl/V5vzFQ

 

O preguiçoso

Por Vitor Seravalli

Eu experimentava meu lado institucional e aquilo era algo diferente para mim. Papéis institucionais são assim, você trabalha com dedicação e a maior recompensa é o prazer da realização. Porém, embora não existam metas concretas de compensação financeira, desenvolver uma rede de contatos relevante, usar a experiência e o conhecimento para ajudar os outros, enfim, compartilhar deliberadamente o que se sabe, é algo que pode gerar ganhos em todas as dimensões, pois é fundamental que seja viável para que tenha sustentabilidade. De qualquer modo, acredito que todos deveriam experimentar estes tipos de vivência em algum momento.

É certo que essa possibilidade está mais acessível aos profissionais mais experientes, aqueles que estão na fase da vida em que a autorrealização é mais do que uma meta, é uma forma de viver. Eu ainda estava bem longe dessa etapa de minha carreira, contudo iniciei-me no trabalho institucional com o foco claro de ampliar minha rede de relacionamentos. Precisava disso para viabilizar meu projeto empreendedor e, como contrapartida, estava aberto e motivado para contribuir.

Por decisão pessoal, eu deixara a vida corporativa por esse projeto, e ainda não tinha muita noção se a troca teria viabilidade no médio e longo prazo, mas seguia em frente com determinação. A empresa em que eu trabalhava colaborou efetivamente e em pouco tempo eu já ocupava uma posição interessante em uma organização representativa no âmbito empresarial de minha região.

Em frente a tantas novidades boas, alguns detalhes no mínimo pitorescos chamavam minha atenção, por exemplo, muitos de seus diretores gostavam, ou melhor, faziam questão de serem chamados de “Doutor”, muitas vezes sem sequer terem concluído uma graduação qualquer. Confesso que nunca compreendi aquela necessidade.

Nesse contexto, por motivos óbvios, pedi que minha assistente, uma profissional com bastante tempo de casa e experiência, me chamasse pelo primeiro nome, simples assim. Ela prontamente respondeu: ­_Pois não, “Doutor”!

Quando insisti, ela me pediu desculpas antecipadas, mas disse que se suas colegas a vissem me chamando informalmente pelo meu nome, a reprovariam e a julgariam de modo errado. Assim, não mudou o tratamento em lugares públicos. Felizmente, mudou quando não havia ninguém por perto.

Após tanto tempo, ainda mantenho vínculo com esta organização que, cada vez mais, mostra-se importante para seus públicos de interesse. Com certeza, aprendi muito com ela e vivenciei diversas histórias memoráveis.

Por exemplo, nunca me esquecerei de um episódio em que discutíamos em reunião de diretoria a importância da transparência e da verdade nos relacionamentos pessoais e organizacionais. Alguns questionavam se em alguns momentos não seria bom, omitirmos a verdade plena. Argumentavam com palavras frágeis e se faziam valer até mesmo de analogias às mentiras que contamos aos nossos filhos, sob a justificativa de que ainda não estão preparados para compreender certas verdades que somente os adultos aceitam, muitas vezes por falta de sensibilidade ou pura ignorância.

A conversa estava animada e havia sido provocada por uma situação empresarial em que o dono de uma empresa omitiu informação crítica de seus funcionários para que a produção não parasse, o que causaria uma interrupção de fornecimento primordial para as finanças da empresa. O argumento era forte e se baseava numa consequência potencial possível caso algo desse errado: a empresa teria que demitir pessoas. No final das contas, seria uma omissão ou mentira por uma boa causa. Em outras palavras, um dilema comum nos dias de hoje para aqueles que se envolvem com gestão de negócios.

Até que em um determinado momento, nosso líder, uma pessoa de sólidos valores e com personalidade forte, afirmou em alto e bom som que não mentia nunca. Todos riram da forma absolutamente sincera que se expressou. O fato é que todos sabiam que ele sempre falava mesmo a verdade, doesse a quem doesse, mas um dos colegas o desafiou perguntando o motivo de tanta convicção em não mentir em nenhuma situação.

Nunca mais me esqueci de sua resposta. Sei que não era inédita, mas fui incapaz de evitar um sorriso espontâneo quando ele, em um momento de rara descontração, confessou que não mentia, unicamente por um decisivo motivo: era um irrecuperável preguiçoso.

E, segundo ele, um mentiroso não pode em hipótese alguma ser preguiçoso, principalmente pela necessidade constante de contar sempre a mesma versão dos fatos, sob o risco de ser desmascarado caso seja, por um segundo, displicente com sua memória.

Todos riram do seu jeito debochado em qualificar ironicamente os bons mentirosos.

Confesso que não concordava com a forma aparentemente insensível com que tratava certas situações muitas vezes simples, mas sempre o admirei pela sinceridade, pela lealdade como valorizava as coisas certas, pelo respeito aos seus valores éticos e pela forma singular como conseguiu incorporar, em si próprio, um defeito que deveras não teve em sequer um momento de sua vida, a preguiça.

fonte imagem: www.targetcomunica.com.br

Nos arredores de Paris

Por Vitor Seravalli

José estava bastante animado. Afinal, estava às vésperas de uma viagem internacional e viajar para longe é sempre muito bom, pelo menos para a maioria das pessoas. Embora fosse uma viagem profissional, iria para um lugar onde nunca havia estado antes, então queria aproveitar cada momento dessa nova experiência.

Entrou em minha sala para explicar seus objetivos e foi logo contando que havia sido convidado para participar de um encontro global de diversos profissionais de sua área de atuação e, como era um representante regional do tema, poderia compartilhar suas experiências e aprender um pouco com seus colegas também.

Fiz algumas perguntas por pura curiosidade, pois minha aprovação era desnecessária. A excelente oportunidade de divulgação do nosso trabalho na região já seria mais que suficiente para justificar a viagem e o investimento decorrente da mesma.

Quando me contou que o evento seria na França, quis saber alguns detalhes e ele me disse que seria numa pequena cidade nos arredores de Paris, chamada Chantilly. Ele viajaria numa sexta-feira e, do Aeroporto Charles de Gaulle, tomaria um taxi que o levaria diretamente ao hotel onde o encontro se realizaria a partir da segunda-feira pela manhã. Garantiu aliviado que teria tempo suficiente para se recuperar da mudança de fuso horário.

Ele mencionou que, em Chantilly, talvez pudesse visitar um magnífico castelo com o mesmo nome, onde ocorrera o casamento de um casal bastante badalado de celebridades brasileiras há algum tempo atrás, aliás, desfeito logo depois.

José estava animado em visitar a França e também por poder interagir um pouco com a cultura local. Perguntei quando estaria de volta e ele me disse que o evento duraria três dias e que na quarta-feira à noite já tomaria seu voo de volta ao Brasil.

Definitivamente, uma viagem bastante rápida, mas mesmo assim, ele estava radiante. Perguntei também se ele já conhecia Paris, afinal estaria tão perto, e qual não foi minha surpresa quando ele confessou nunca ter estado lá.

Não me contive e o questionei o motivo de não permanecer a noite de sábado e o domingo todo em Paris, indo para Chantilly à noite, visto que a reunião se iniciaria somente na segunda cedo. Sua expressão foi de surpresa, como se minha consulta fosse ilegal. Após uma pausa, olhou para mim meio sem graça e eu disse que não haveria qualquer problema, pois como iria mesmo dormir em algum lugar, que fosse então em Paris. Por que não?

Estou certo que José entendeu aquilo como um presente, mas na verdade, foi apenas um oportuno investimento cultural em um competente colega que simplesmente o merecia. Não me lembro de muitos detalhes posteriores à viagem de José, mas sei que foi uma ótima viagem tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

As viagens a trabalho, além de eventos profissionais importantes, são oportunidades únicas para incorporação de um conhecimento pessoal que amplia nossa visão sistêmica, desenvolve nossa capacidade de adaptação em novos ambientes e expande nossa empatia pelo contato com novas e interessantes pessoas. E todas são competências que usamos muito durante toda a nossa carreira.

Felizmente, pude repetir a mesma ação mais vezes com outros membros de minha equipe. Não disse a eles, mas em cada caso, eu meramente replicava algo que um de meus líderes me ensinou quando fez o mesmo comigo em algum momento do passado.

Mais que um presente ou um investimento, foi mesmo um belo ensinamento que me regozijo por ter compartilhado.

Fonte imagem: http://www.parisattitude.com