Arquivos do mês: maio 2017

Orientação para resultados

Por Vitor Seravalli

Puxa! Mas ele era tão esforçado!

Realmente, Tilson vestia a camisa, como é comum nos referirmos às pessoas que não medem a quantidade de energia dispendida e dedicação pessoal em seu trabalho. Mas infelizmente, ele acabara de ser demitido.

Não houve sequer um local da empresa onde não se escutassem críticas e lamentos à aparente injustiça ocorrida lá no almoxarifado, um espaço que parecia pertencer àquele lapidado exemplo de gente boa.

Ele não havia optado por uma evolução nos estudos, pois achava que suas responsabilidades exigiam somente muita dedicação, responsabilidade e não precisavam de qualquer teoria. Aliás, ele vivia repetindo isso aos novatos que chegavam ao seu setor. Era espirituoso e muito bem-humorado, então todos sempre pensavam que ele dizia aquilo por brincadeira. Contudo, ele falava sério.

Gostava de trabalhar em horário extraordinário, pois aumentava a quantidade de dígitos em seu holerite no final do mês. Tinha orgulho em evidenciar seu compromisso com a empresa e sorria quando era repreendido por seu supervisor, sempre que sua dedicação exagerada ultrapassava as regras da empresa.

Não tinha noção dos indicadores que sua área buscava durante o mês e, menos ainda, quais eram os resultados mais prioritários de seu negócio. Aliás, qual era mesmo o seu negócio?

Essas coisas incompreensíveis integravam as responsabilidades de seu chefe, de seu gerente, de seu diretor e não dele. Tilson acreditava ter outras coisas mais importantes para fazer.

O tempo foi passando e numa tarde de sexta-feira, foi surpreendido com uma inesperada demissão.

Tilson havia sido avisado que sua performance estava abaixo do mínimo esperado, mas ele compensava os feedbacks negativos com muito, muito esforço e sua já peculiar entrega pessoal.

O que Tilson não sabia é que lhe faltava algo fundamental nos dias de hoje: a orientação para resultados.

Isto não significa dizer que dedicação, esforço e compromisso não sejam importantes. Eles são pré-requisitos essenciais, mas são insuficientes e frágeis quando não acompanhados por resultados previamente planejados, definidos e baseados em valores e princípios éticos.

Infelizmente, como escutei certa vez, a única pessoa que consegue perceber e, eventualmente reconhecer o esforço de alguém por si só é o seu superior imediato. Ninguém mais.

Aliás, quando alguém exagera em sua dedicação a partir de um determinado momento, logo seus superiores desconfiam e normalmente descobrem que a mudança ocorreu após uma falha importante ou um insucesso que busca de compensação pelo esforço.

Soube também de Meila, uma assistente executiva que atendia a três diretores de uma empresa e que, para conseguir dar conta de seu trabalho, permanecia todos os dias por duas horas a mais e ainda estendia sua jornada de trabalho semanal, também de modo extraordinário, às manhãs dos sábados.

Com tanta dedicação, nenhum dos diretores a questionava.

Num determinado momento, Meila engravidou e, durante uma conversa com seus chefes, informou que estava preocupada com os impactos que seu período de licença maternidade traria ao atendimento de seus ocupados chefes. Disse a eles que buscaria uma profissional temporária, cuja jornada pudesse ser rigorosamente cumprida pela mesma. Todos acharam que esse seria um grande desafio, tamanha era sua dedicação, mas aceitaram.

O processo de seleção foi complicado e também demorado, mas foi encontrada uma jovem profissional com ótimo perfil, a Silvia, que embora desconfiada, aceitou a jornada estendida.

O tempo foi passando e Silvia respeitou o acordo sem qualquer falha. Todavia, em uma certa manhã, pediu uma conversa rápida com seus três superiores.

Foi logo ao ponto e disse que estava gostando de seu trabalho na empresa, mas achava que a jornada extra lhe parecia desnecessária. Os três chefes se entreolharam desconfiados, contudo aceitaram que fosse feito um teste durante uma semana, na qual ela cumpriria jornada normal, inclusive, eliminando sua vinda aos sábados.

Na sexta-feira seguinte, Meila apareceu de surpresa na empresa, pois já estava informada que sua substituta estava descumprindo o que fora combinado. Foi logo se desculpando com os diretores e disse que buscaria uma solução mesmo estando afastada.

Um dos três executivos a interrompeu e recomendou com simpatia que ela ficasse tranquila e voltasse para casa. Naquele momento, seu filho precisava dela, eles não.

Mudanças de processo nos arquivos, na gestão de agenda, e muitas outras formas de trabalho simples e modernas haviam sido implantadas e as coisas, seguiam bem sob o comando da organizada e competente Silvia. Então, Meila retomou sua licença maternidade, agora com uma pequena e incômoda “pulga atrás da orelha”, como ela mesma comentou com suas outras colegas antes de voltar para casa.

O final desta história é previsível, mas o pequeno grupo de executivos pode constatar na prática que sua nova assistente era competente em diversos aspectos, mas principalmente em sua orientação para resultados. E preferiram continuar com ela.

Felizmente, Meila pode ser realocada dentro da mesma empresa, pelo menos até que decidisse mudar de emprego por conta própria. Depois, em sua nova posição bem longe dali, nunca mais acreditou em reconhecimento que não estivesse baseado em um desempenho superior e evidenciado pela superação de metas e resultados concretos e consistentes. Tilson também não.

fonte imagem: http://www.comportese.com

 

Adaptação cultural

Por Vitor Seravalli

Ele acabara de chegar. Meu novo chefe ainda arrumava suas coisas no novo escritório, mas logo pela manhã pegou o telefone e pediu que eu fosse até lá.

Todos estavam bem impressionados com seu jeito de líder motivado. Ele realmente queria evoluir profissionalmente nessa sua nova fase e, definitivamente, parecia não ter medo do trabalho. Era um típico alemão bem-humorado e, logo que entrei, foi logo perguntando em esforçado português se eu gostava de futebol. Quando acenei positivamente com a cabeça, quis saber se haveria alguma partida nos próximos dias, pois queria assistir. Na Alemanha, era um torcedor do Schalke04, um clube de sua região, mas gostaria de escolher uma equipe para torcer aqui também.

Fomos a um jogo de meu time, mas depois ele viu também outras opções e acabou escolhendo justamente uma agremiação rival à minha. Sem problemas.

O que mais chamou-me a atenção foi sua atitude deliberada de se adaptar em diversas perspectivas ao país, que seria sua casa por pelo menos quatro anos. Adorava uma picanha fatiada, curtia e cantava músicas brasileiras como se fosse um brasileiro, enfim, muitos anos depois, ainda me lembro da conexão que criou conosco.

Em outro momento, chegou mais um novo colega, também da Alemanha.

Falando alemão nativo, perguntou sobre locais preferidos por comunidades alemãs em São Paulo. Visitou bairros e condomínios fechados na cidade onde expatriados se juntavam para que pudessem conviver, principalmente nos finais de semana. Quis saber se os jogos de futebol da Bundesliga, o campeonato alemão, eram transmitidos aqui, pois ele não poderia perder contato com seu Bayern de Munique.

No final das contas, o tempo passou e ele mal aprendeu a se comunicar em português. De qualquer modo, se deu melhor que sua esposa. Ela, em nenhum momento, se interessou em conhecer algo sobre o Brasil.

Dois casos reais e completamente opostos em relação às escolhas, atitudes e comportamentos fizeram-me refletir sobre mim mesmo.

Lembro-me de momentos no início de minha carreira em que evitava contatos, além dos obrigatórios, com visitantes do exterior. Sim, havia a deficiência do idioma, mas o grande limitante não estava nisso, e sim em minha tola opção por não vivenciar, experimentar e desfrutar das diversas culturas que se aproximavam.

Felizmente, tudo mudou quando me tornei um visitante. Durante uma estadia mais longa fora de meu país, fui surpreendido pela forma com que alguns colegas me trataram. Não foram muitos, contudo nunca me esquecerei daqueles que cuidaram de mim com um prazer inusitado. Levaram-me para jantar em suas casas com suas famílias. Descobriram que eu apreciava museus e me levaram a alguns deles confessando que os visitavam pela primeira vez, somente por minha causa. Descobriram que eu gostava de óperas e, por não se imaginarem em uma, me presentearam com um ingresso em local privilegiado.

Enfim, quando voltei para casa, vi que havia compreendido o real significado da palavra gentileza. Vale aqui o lugar comum: antes tarde do que nunca.

Obviamente, após esse episódio, cuidei melhor de meus colegas visitantes, porém, este não foi o maior ganho proporcionado por esta experiência. A grande mudança aconteceu com minhas escolhas. A partir de então, passei a valorizar cada vez mais a opção de conhecer novas pessoas, novos hábitos, novos modos de ver a vida e, principalmente, novas culturas.

Soube de uma história maluca sobre um jogador de futebol que fechou um contrato milionário com uma equipe da Espanha e, após apenas três meses, decidiu voltar ao Brasil porque sentia muita falta de feijoada e samba. Não tenho nada contra ambas riquezas nacionais de meu país, muito pelo contrário, mas o tal craque não tem a menor ideia do que perdeu.

O fato é que somos assim. Temos medo da mudança e não gostamos de sair da situação de conforto. Talvez esta seja uma peça frágil de nossa cultura.

Escutei também que, em certa empresa, uma garota promovida para uma melhor função havia mudado de setor, mas mantinha o hábito de almoçar todos os dias com seus antigos colegas. Nada de errado com isso, mas será que não seria interessante para sua adaptação conviver um pouco mais com seu novo time?

No mesmo contexto, algo já corriqueiro no ambiente corporativo é a situação onde uma empresa adquire uma outra. Com isso, os profissionais da empresa incorporada sabem que a chance de perderem espaço é sempre maior. Entre eles, há os que se conformam, se escondem ou deixam a organização. Porém, há outros que se adaptam rapidamente, mostram seus talentos e competências e crescem como se esperassem pela mudança como oportunidade de crescimento.

Enfim, acredito que a busca deliberada pela adaptação identifica a incorporação de uma competência extremamente atual. Além de nossa competitividade no ambiente profissional, ela amplia nossos horizontes e contribui para que nos tornemos a melhor pessoa que possamos chegar a ser.