Arquivos do mês: fevereiro 2017

Pontualidade

Por Vitor Seravalli

Não nego. Embora fosse óbvio encontrar o trânsito complicado naquela manhã de segunda-feira, eu nada havia feito para evitá-lo. Desnecessariamente estressado, eu poderia ter saído de casa mais cedo, mas tive que me acalmar até que chegasse ao escritório central da empresa para uma rápida e importante reunião com meu chefe.

Por sua vez, ele era um alemão bastante sério, mas talvez por ter vivido algum tempo na Colômbia, deixava escapar alguns comportamentos latinos que, em certos momentos, expunham seu forte lado humano. Definitivamente, eu me dava bem com ele e sua prioridade ao meu desenvolvimento era uma evidência disso.

Fechei o carro e subi as escadas apressado. Quando entrei em sua sala, ele já estava com uma pessoa que participaria da reunião para a qual eu me atrasara. Olhou para mim com certa incredulidade e se levantou da cadeira com rapidez desnecessária. Pediu um minuto à outra pessoa e, me pegando pelo braço, saímos da sala.

Perguntou se eu havia perdido meu relógio e com uma expressão que se confundia entre alguém furioso e paternal, avisou que eu estava atrasado. A reunião se iniciara às sete e trinta da manhã e eu chegara com absurdos três minutos de atraso.

Pedi desculpas inúteis e a vida seguiu.

Dois dias depois, coincidentemente, eu teria uma nova reunião, que seria uma continuidade do mesmo assunto. Dessa vez, saí com trinta minutos de antecedência. Eu sabia que seu lado latino não incluía qualquer tolerância à nossa conhecida displicência com horários.

Tudo deveria correr bem no trajeto, mas um acidente com um veículo grande bloqueou a avenida por onde eu deveria alcançar meu destino. Eu não preciso descrever os detalhes, mas os trinta minutos de folga que eu possuía, rapidamente se foram. E quando estacionei e, ofegante, subi ao seu escritório, já estava um minuto além do horário marcado.

Às sete horas e trinta e um minutos, recebi um olhar com temperatura muitos graus abaixo de zero. A reunião transcorreu normalmente, mas ao seu encerramento, o chefe pediu que eu permanecesse sentado. A porta se fechou e, embora eu iniciasse uma justificativa, ele se antecipou.

Lembrou da reincidência de meu atraso e avisou-me que não toleraria uma nova falha. Despediu-se com a mesma frieza de seu olhar quando entrei e eu me fui.

A partir daquela data, tive muitas outras intervenções com ele, contudo em nenhuma delas cheguei com menos de trinta minutos de antecedência dos horários agendados.

Àquela altura, eu acreditava ter aprendido a lição. Mas quando assumi uma posição de liderança mais alta, aliás graças à confiança que aquele rigoroso chefe alemão depositara em minha capacidade de trabalho, lamentavelmente, tive uma recaída crônica, e tornei-me uma referência em atrasos aos meus compromissos.

Fiquei tão bom nisso que me atrasava sistematicamente sem exceção. O pior é que as pessoas pareciam se convencer com meus criativos argumentos e justificativas. Pareciam ter dó de mim e de minha tão complicada e incontrolável agenda. Como um completo idiota, eu cheguei mesmo a acreditar nisso.

Porém, em algum momento dessa história, o livro “O Monge e o Executivo” de James Hunter caiu em minhas mãos.

Lembro-me que sua leitura fácil se interrompeu em um trecho específico que falava sobre as mensagens que passamos quando nos atrasamos. Sem que percebamos, dizemos às pessoas que elas não são importantes. Ou pior que isso, que nosso tempo é mais importante do que os delas, o que é uma evidência clara de arrogância.

O texto se aprofundava mais nesse assunto, porém o mais surpreendente é que uma simples leitura fez com que eu finalmente refletisse sobre minha forma de agir com o tempo das outras pessoas e, confesso, fiquei sinceramente muito envergonhado.

Felizmente, após este sensível episódio, percebi que havia mudado. Não vou afirmar que estive livre de um atraso sequer nesses anos todos, pois em alguns casos, meus cuidados não puderam ser eficazes em relação a imprevistos legítimos. Todavia, foram exceções e, mesmo com elas, tratei de aprender algo para que não se repetissem.

E hoje, mesmo que o atraso deliberado ainda seja uma insistente demonstração de falso poder e desrespeito que observo em algumas pessoas de meu meio, entendo que a pontualidade é uma atitude simples, mas fundamental, quando nos referimos ao respeito mútuo que todos nós merecemos.

Vou parar por aqui, pois tenho um compromisso logo mais e não quero me atrasar. Tcháu!

fonte imagem: http://desejodevencer.blogspot.com.br