Arquivos do mês: janeiro 2017

Saudade

Por Vitor Seravalli

No dia trinta de janeiro, comemora-se o Dia da Saudade.

Fico imaginando quem teria sido a pessoa que instituiu um dia em homenagem à saudade. Provavelmente, alguém que tem muita saudade de outro alguém. Ou, talvez, alguém que sofre por não saber o que é, ou por não saber o que sente quem a pode experimentar.

O fato é que isso me despertou um universo desse sentimento que levo guardado aqui no peito.

Saudade de pessoas queridas, mas também das que abdicaram do meu amor, e mesmo de quem eu mesmo me afastei.

Saudade de momentos em que o mundo parou e saudades falsas de outros momentos que poderiam ter acontecido, e por pura molecagem decidiram ser somente sonhos.

Não conheço alguém que nunca tenha sentido saudades, pelo menos uma vez. Por outro lado, sei de muitos que sofrem sozinhos, mas nunca admitem a dor de sua própria saudade.

Quem sabe eu já não seja um destes.

Mas, na tentativa de redimir-me, confesso publicamente a abundância de sua presença em cada célula do meu corpo e em cada espaço de minha alma. Sei que carrego comigo um mar de saudades, e creio que ainda é pouco.

E se, em alguns momentos, elas ferem como a dor aguda, na maior parte do tempo somente me fazem bem.

É como se, num passe de mágica, elas me unissem novamente àqueles que não convivem mais comigo e que fazem tanta falta.

É como se momentos inesquecíveis voltassem brilhantes e coloridos à minha mente na forma de uma doce e suave lembrança.

Por outro lado, é grande a probabilidade que alguns considerem inútil falar do tempo que já passou, e que talvez fosse melhor olhar somente para frente.

Pode ser que isso seja mesmo uma verdade irrefutável. Mas agora, nem que seja por um instante apenas, eu não quero falar do futuro. Eu quero somente escancarar a importância do passado que a saudade generosamente decidiu me brindar como presente.

O presente precioso.

Sentir saudade de você!

Procrastinação

Por Vitor Seravalli

“Usar de delongas”. Este foi o significado mais exótico que encontrei em dicionários para esta palavra que está presente na vida de muitos de nós, o verbo “procrastinar”.

Ela não pede para entrar. Nós mesmos a convidamos a incorporar nossos hábitos, ou seriam vícios, pela porta da frente.

E o momento mais propício a este imprudente convite é normalmente aquele que nos pede concentração para tarefas importantes, mas que por diversos motivos, são indesejáveis.

Ou porque envolvem atividades chatas mesmo, ou porque não dominamos o assunto em questão, ou porque não há uma gratificação imediata pela sua conclusão, enfim, a procrastinação é a resposta imediata e espontânea à nossa baixa determinação em executar coisas que parecem querer nos desgastar de alguma forma.

Assim, nos dispersamos e inexplicavelmente, ou propositalmente, as colocamos em segundo plano, e mergulhamos em algo muito mais agradável, de menor prioridade, ou pior ainda, inútil.

Evidentemente, não me excluo deste problema que criamos para nós mesmos,

E esta reflexão se evidencia como resultado de uma discussão imaginária recorrente, que ainda travo com minha imagem refletida no espelho, mesmo com a evolução que já logrei conquistar com tantas experiências vividas.

Desde os tempos escolares, sempre fui bom em estudar na véspera das provas. Cheguei a transferir know-how a alguns de meus colegas, tamanha era a competência em ir bem nos testes mesmo não tendo priorizado, como poderia, os estudos no tempo certo e adequado. Atravessei várias e várias noites sem dormir e, com uma inacreditável capacidade de mentalização e uso otimizado de energia física residual, alcancei a nota que precisava em diversas ocasiões.

Em outras vezes, liderei projetos com resultados finais admiráveis, mas que foram alcançados graças a uma surpreendentemente eficácia no curto período que antecedia o prazo final.

Então, se isto ocorre também com outras pessoas, por que deveríamos mudar nosso comportamento? Por que deixar de procrastinar, se no final das contas, tudo acaba bem?

Hoje, consigo articular melhor uma resposta honesta para esta pergunta tão desafiadora, e ela se baseia em algo muito simples.

Um dia desses me contaram sobre um lado extremamente positivo dos procrastinadores, com o qual concordo plenamente, que é a confiança.

Quem tem autoconfiança, sabe que pode procrastinar. Ou seja, aqueles que tem competência sabem que, mesmo nos minutos finais de seus prazos, conseguirão dar conta de seu trabalho.

O problema está no estresse e no consequente desgaste que a ansiedade e pressão pela urgência e atrasos gerados nos causam, justamente enquanto deixamos o mais importante para depois.

Lembro-me de um dia em que eu tinha duas coisas para fazer. Uma delas era um trabalho fundamental, tão difícil quanto desagradável. E a outra era um passeio a um lugar bonito e em boa companhia.

Nem preciso dizer que fiz a escolha mais fácil.

Quando voltei, não houve outro jeito, tive que priorizar o tal trabalho e, obviamente, foi muito difícil vencer o desafio de conclui-lo a tempo e com a qualidade exigida.

O ponto chave é que, em nenhum momento durante o passeio, eu pude me esquecer da pendência que ficara sobre minha mesa. Foi bom, mas não foi pleno. E depois, na volta, manter o foco e a concentração no trabalho foi algo bastante difícil. Parecia uma espécie de punição por ter tomado o atalho incorreto.

Desde o dia em que isso aconteceu, nunca mais consegui me entregar a uma fuga que me afastasse da minha tarefa definida. E se ainda não assumo formalmente a mudança que aconteceu em minha atitude, é para a procrastinação não perceber que, a qualquer momento, eu ainda posso me distrair e ter uma inesperada e indesejável recaída.

Até rimou. Alguém duvida?

Emoção e razão

Razao e Emoção 2

Por Vitor Seravalli

Quando observamos as pessoas em ambientes de trabalho, logo notamos que seus relacionamentos muitas vezes não diferenciam a convivência profissional e o lado pessoal de suas vidas.

Chega até a ser bem comum encontrarmos inúmeros casais que trabalham juntos, se enamoram e, posteriormente, se casam.

Da mesma forma, há milhares de colegas de trabalho que se completam como amigos inseparáveis, mesmo após o encerramento da jornada diária. Chegam a morar numa mesma casa, viajam juntos, enfim, estabelecem alianças muito mais fortes do que seria um contato estritamente profissional.

Mesmo que mudem de empresa, seus relacionamentos resistem e, não raro, ficam mais fortes, ainda que com menor convivência.

Durante minha carreira, conheci ótimos colegas que se tornaram pessoas muito caras para mim. Com alguns deles, ainda mantenho contato mesmo longo tempo após o fim do vínculo profissional. E isso é muito bom.

Por outro lado, nossa percepção muda quando olhamos para o cotidiano dessas relações, onde as pessoas não estão mais no foco da análise, mas sim as interações de trabalho entre elas, os dilemas e as discussões para solução de seus problemas.

Sob esta perspectiva, a minha experiência pessoal escancara algo que considero um de meus maiores aprendizados.

Em minha opinião, quando estamos falando de questões de trabalho, a razão não deve conviver com a emoção. Aliás, não me lembro de uma única vez em toda a minha vida em que decisões profissionais influenciadas por fortes emoções prevaleceram sem deixar sequelas ou marcas negativas.

Lembro-me de algumas situações em que presenciei ótimos profissionais jogarem seu emprego fora, graças ao desequilíbrio proporcionado por um momento de fúria. Deveriam ter contado até dez, mas pularam esta etapa.

Outras vezes, uma inexplicável insegurança, ou mesmo uma indesejável ansiedade, percebidas como descontrole pessoal, puseram tudo a perder em situações onde sobravam competências técnicas.

Uma necessária demissão que tenha sido evitada por sentimentos de compaixão, ou mesmo aqueles profissionais que se sobrecarregam e erram por não conseguirem dizer “não”, somente para não magoarem seus superiores ou mesmo pares, ou seja, estes são apenas alguns exemplos que deveriam nos fazer pensar e agir do modo mais racional possível, pelo menos enquanto estivermos no exercício profissional, para o bem de todos.

Isto não significa que as pessoas tenham que ser frias como pedra. Pelo contrário, empatia e sensibilidade em dose certa são fatores de sucesso dos líderes e suas equipes bem-sucedidas e de alta performance.

Prova disso é que ambientes de trabalho com clima organizacional em harmonia são, geralmente, são liderados por pessoas, cujos comportamentos são baseados em respeito e maior valor humano, e suas atitudes, escolhas e decisões ocorrem com pleno uso da inteligência emocional.

No final das contas, precisamos tanto da razão quanto da emoção. Sem emoção, nossa vida não tem a menor graça e sem a razão, ela não consegue o mínimo equilíbrio.

No trabalho, a razão nos dá o bom senso, um certo controle e, ainda, um necessário nível de previsibilidade. E, com eles, alcançamos os resultados para comemorarmos depois, com muita emoção.

Cinquenta anos

Por Vitor Seravalli

Pois é. Completei cinquenta anos de idade.

Nada de festa de arromba. Nada de muito barulho. Sem grandes manchetes nos jornais.

Mas, com uma paz muito mais valiosa que os diversos presentes que eu poderia receber.

É também importante salientar que meus tesouros estavam todos muito próximos. E se perdi alguns deles pelo caminho, me tranquiliza e me acalma percebê-los vivos em meu coração.

O fato é que minha opção pela comemoração mais tranquila foi a mais adequada ao momento que vivo agora.

Não posso dizer que me sinto em velocidade moderada ao chegar nos cinquenta. Pelo contrário. Vejo que agora até tenho que lutar e correr ainda mais pelos meus objetivos. Porém, parece que consigo seguir em frente rumo à minha visão, com um recurso surpreendentemente valioso, algo que nunca julguei possuir. Sinto-me dividido entre uma parte que segue os passos no chão de modo às vezes até aparentemente desordenado, e outra parte que vai olhando mais longe, como se estivesse sobrevoando os caminhos que talvez eu venha a percorrer.

Muitos exércitos poderosos já perderam guerras fáceis, mas hoje devo admitir que a experiência acumulada, o aprendizado incorporado por incontáveis erros, me dão certa tranquilidade e um certo equilíbrio para seguir.

Contudo, não quero falar sobre isso agora. Precisaria de muitos livros (quem sabe eu ainda os escreva) para compartilhar isso com meu leitor.

Vou continuar um pouco mais sobre o dia do meu aniversário.

Logo pela manhã, mudei os parâmetros de minha balança no banheiro. Tenho uma daquelas modernas que, além de nos mostrar quantos quilogramas temos, o que às vezes incomoda, ela também mede composição corporal, taxa de gordura, etc. E, para isso, é necessário informar a idade. Mudei o número de quarenta e nove para cinquenta. Olhei para os dígitos, olhei para o espelho, e imediatamente veio a lembrança do ano anterior.

Fazendo a mesma coisa, há um ano atrás, tive naquele momento uma sensação de vazio que parecia indicar a proximidade de uma mudança dupla de dígitos que ocorreria no ano seguinte. Acho que me senti velho, e agora vejo o quanto fui tolo.

Dessa vez algo mudou. Ainda tenho os mesmos cinquenta que deram o título a essa crônica, mas o espírito, a vontade, a energia, e arrisco até a incluir um pouco sobre o corpo; todos se sentem com muito menos.

Nesse dia, muitos amigos entraram em contato pessoalmente, por telefone, por e-mail, do jeitinho que eu esperava e torcia que fizessem. Alguns novos amigos, os desconhecidos amigos, os surpreendentes amigos, e os queridos amigos, muitos deles foram ocupando saborosamente os momentos em que desfrutei essa data tão significativa.

Admito que pensei também naquelas pessoas que por algum motivo não me contataram nem por pensamento. Algumas marcaram enorme presença em meu dia por sua inesperada ausência. Mas, por decreto, decidi que isso não me entristeceria. Certamente tiveram coisas mais importantes a fazer, problemas, dificuldades, simples esquecimentos. Sabemos como são essas coisas. E nem precisei decretar que as continuei amando do mesmo jeito que antes.

Cortar bolo, cantar parabéns, ganhar lembranças, soprar velinhas, enfim tudo foi permitido.

Poderia terminar enaltecendo as pequenas e importantes coisas que conquistei nesse microscópico segmento de eternidade onde, graças ao anjo que me acompanha por intermédio de Deus, pude plenamente viver. Em vez disso, quero singela e humildemente, assumir que completar cinquenta anos de idade foi muito bom. Foi como um preâmbulo de tudo o que ainda quero poder viver, pelo menos enquanto eu ainda for uma criança.