Arquivos do mês: novembro 2016

Iniciativa

Iniciativa 2

Por Vitor Seravalli

É óbvia a enorme diferença entre trabalhar no “chão de fábrica” e atuar em um ambiente de escritórios.

Por isso, não me surpreendi com a expressão indignada de meus antigos colegas, quando eu ainda era um jovem engenheiro de processos e contei a eles sobre minha decisão de me transferir definitivamente para a área de produção.

A maioria achava que minha escolha era errada e que não havia nada para aprender lá. Diziam que o ambiente era sujo e que eu iria desaprender o que já sabia, enfim, eu iria me arrepender rapidamente.

Nem dei bola àquele punhado de besteiras e segui meu irreversível caminho para uma das melhores fases de minha carreira. Não foi nada fácil enfrentar tantos problemas todos os dias e, algumas vezes, chegar em casa com odor de solventes impregnado em minhas roupas, mas os ganhos que tive, as pessoas que conheci e o conhecimento que incorporei, deixaram um legado incalculável, que me dão suporte ainda nos dias de hoje.

No embalo desse reconhecimento justo ao período em que minha carreira seguiu pelos caminhos da materialização de diversas teorias relacionadas com a química e com a física, eu vivenciei algumas dezenas de situações, desde belas lições de vida até algumas situações, no mínimo, pitorescas.

Numa delas, logo após iniciar em minha nova atividade, eu estava fazendo uma de minhas rotineiras rondas pela área produtiva e cheguei a um local onde era feita a filtração das resinas. Este era um processo muito importante pois, caso não fosse bem executado, os vernizes sujos deixariam sua marca indesejável nas superfícies metálicas dos automóveis e outros produtos de consumo como refrigeradores, etc.

Cheguei a um dos equipamentos e me deparei com um operador que estava sentado com um palito entre os dentes olhando um pequeno fluxo de produto que enchia um tambor de duzentos litros. A vazão era realmente muito baixa, então perguntei a ele qual era o tempo necessário para alcançar o volume máximo. Ele respondeu com convicção que o tempo era exatamente igual a vinte e dois minutos.

Respirei fundo e perguntei a ele o que fazia durante todo este tempo enquanto aquele líquido viscoso parecido com mel se acomodava na embalagem. O rapaz achou minha pergunta desnecessária, porém disse que cuidava para que tudo corresse bem durante o processo e que não transbordasse quando estivesse cheio.

Evidentemente, expliquei a ele que o tempo era muito valioso e que, embora ele devesse cuidar bem daquele processo, isso não o impediria de fazer outras atividades simultâneas. Falei vários minutos e, mesmo assim, o tambor que estava em envasamento não se encheu.

O operador não gostou nem um pouco do sermão e ficou resmungando quando eu me afastei incrédulo.

No final da tarde, quando já havia ocorrido a troca de turno, voltei ao mesmo local. A filtração seguia da mesma forma e a única diferença era o operador, um rapaz bastante educado e que parecia não ter medo do trabalho.

Ele envazava dois ou três processos similares e simultâneos, e ainda mantinha o local organizado, varria, lavava, organizava os lotes posteriores para o próximo turno e ainda tinha tempo para reportar a situação de tudo com detalhes e garantir a qualidade dos processos num nível de plena excelência.

Surpreso com tão grande contraste, percebi que lidar com equipes heterogêneas seria um dos grandes desafios de meu novo trabalho e que, nem sempre, as pessoas aprenderiam somente pelo exemplo. Aliás, aquele operador exemplar era, obviamente, muito criticado pelos seus pares.

O tempo passou e o rapaz cheio de competência e muita proatividade cresceu profissionalmente, embora eu não saiba se tenha assumido, em algum momento, uma função de liderança de área. Mesmo quando eu mudei de função ele continuou com a mesma performance em altíssimo nível. Alguns de seus colegas resistiram em aprender com ele e, por isso, acabaram demitidos.

Minha carreira seguiu em frente e nunca me esqueci da referência que ele me deixou gravada na memória. Mesmo em funções completamente distintas, sempre busquei profissionais que tivessem a mesma atitude proativa na busca de seus resultados.

Ou seja, é muito bom que olhemos para algum membro de nossas equipes e, como ouvi alguém dizer um dia desses, percebamos que ele tenha “sangue nos olhos”.

Não creio que “iniciativa” seja uma competência baseada em conhecimentos, mas, com certeza, é algo desejável e intrínseco às atitudes e aos comportamentos transformadores.

Ter somente iniciativa não basta, pois precisamos de muito mais. Contudo, estou certo que já é um ótimo começo.

Imagem: Blog Jobeeper