Arquivos do mês: setembro 2016

Desarmando o algoz

algoz 5

Por Vitor Seravalli

Situação fácil na gestão de negócios do mundo corporativo, das duas, uma: ou é fantasia de profissional ingênuo ou é pura obra de ficção.

E a situação que vivíamos naquela época, não deixava dúvidas disso. Nossos resultados seguiam abaixo das irreais expectativas do líder global de nosso negócio, que periodicamente nos visitava aqui no hemisfério sul, somente para evidenciar algo já consolidado em sua perspectiva pessoal, ou seja, que éramos genuínos incompetentes.

Eu liderava as áreas de produção e infraestrutura e, por isso, não vendia nada, não gerava qualquer receita, mas era responsável por custos enormes e inaceitáveis. Por esse motivo, eu era merecedor dos piores adjetivos de inoperância e irrelevância operacional.

Evidentemente, que isto não era verdade. Se não éramos perfeitos, nossa equipe possuía muitas competências e conduzíamos com admirável resiliência os projetos de negócios em um ambiente que era a pura materialização do que poderia se caracterizar como hostil.

Estávamos nos preparando para uma reunião anual e a hora do julgamento se aproximava.

O time da liderança era composto por cinco profissionais, sendo que eu era o único da área produtiva. Nosso chefe tentava nos preparar e, como ainda havia alguma tolerância em relação aos meus colegas pela sua atividade mais comercial, todos ali sabiam que o alvo perfeito seria eu, ou seja, a probabilidade de minha sobrevivência na organização decrescia a cada dia.

E a culpa era toda minha. Afinal, no ano anterior, eu aceitara uma meta de redução de custos de vinte por cento em minhas áreas de responsabilidade e, após um trabalho surreal, consegui somente alcançar dezoito por cento. Aliás, quando apresentei o resultado em um evento realizado meses antes, ouvi que eu possuía o mal hábito de não cumprir o que prometia.

Enfim, creio que meu destino já estava mesmo traçado.

Viajei para o local do evento com um dos membros mais importantes de minha equipe e, durante a voo, refletíamos sobre possíveis estratégias que pudessem nos blindar. Mas não conseguíamos imaginar nada que fosse suficientemente consistente, até porque não havia lógica naquele processo de fritura deliberada.

Quando nos hospedamos, já fomos informados que o temível “Big Boss” resolvera fazer uma reunião prévia com a equipe de um dos negócios, justamente o que estava em situação mais crítica. Olhei para meu colega e notei que sua expressão mudou drasticamente ao imaginar o nível de tensão que deveriam estar enfrentando e, como estavam em uma sala próxima, constatamos que alguns gritos em inglês com sotaque francês não necessitavam de qualquer tradução.

Naquele momento de grande apreensão, refleti por alguns segundos, troquei algumas palavras com meu aliado e tomamos a decisão, aparentemente maluca, de entrar sem qualquer convite na tal reunião.

Confesso que me senti como se estivesse entrando desarmado em uma arena onde leões famintos e irritados esperavam por uma nova presa. Talvez minha percepção estivesse parcialmente certa, pois quando me viu, notei que sua incredulidade por minha atitude ilógica e aparentemente suicida, se transformava numa espécie de raiva. Acredito que ele me julgava, ao mesmo tempo, ingênuo e petulante.

Quando voltou a falar, ele não se dirigia mais aos outros colegas. Suas armas foram rapidamente mudando de direção e, em poucos segundos, estavam todas apontadas para mim. Iniciou um verdadeiro bombardeio de críticas carregadas de raiva desnecessária, porém, notamos que ele decidiu justificá-las apontando exemplos melhores de outras regiões, justamente para fundamentar nossa má gestão.

Poderíamos, mas preferimos não contestar nenhuma de suas acusações, a não ser para que nos explicasse algum detalhe adicional dos bons exemplos que citava.

Foram cerca de vinte minutos de um absoluto massacre e nem imagino como estávamos no momento em que o percebemos exausto, após falar tão alto e ininterruptamente durante tanto tempo, sempre com seu dedo apontado para mim.

Ao final, ficou uma sensação estranha de que aquilo tudo nos fortalecera de algum modo inexplicável e, quando saímos, comentamos que nossa entrada no meio daquele tiroteio fizera com que ele descarregasse toda a munição, provavelmente, reservada para a verdadeira reunião que ocorreria somente na manhã seguinte.

Saímos dali e, imediatamente, reconstruímos nosso material de apresentação. Praticamente, jogamos fora toda a argumentação prévia e juntamos peça por peça todos os itens que nosso algoz desperdiçou enquanto nos atacava de forma precipitada e em hora completamente errada. Cada tópico recebia uma ação corretiva que sempre se adaptava às referências positivas mencionadas por ele. Na verdade, eram respostas precisas para todas as questões que certamente seriam arremessadas contra nós, caso não tivéssemos participado daquela reunião em que não estávamos sequer convidados.

Para encurtar a história, a reunião ocorreu e minha apresentação foi um surpreendente sucesso. Logo que terminei, meu chefe direto, até então preocupado com o que pudesse acontecer, nem esperou o momento posterior para nos cumprimentar e enviou uma mensagem entusiasmada ao meu telefone celular, a qual foi lida somente muito tempo depois.

Não foi a primeira batalha que enfrentamos, tampouco a última, mas o uso de uma estratégia de enfrentamento prévio do desafio iminente, como uma simulação em ambiente real, foi a fonte perfeita de informações para que pudéssemos estruturar nossa argumentação para o sucesso.

Sofremos um pouco, mas aquela improvável composição com pequenas doses de coragem e intuição, desarmou nosso pretensioso algoz.