Arquivos do mês: julho 2016

Uma ótima sacada

Ótima sacada 1

Por Vitor Seravalli

Algumas pessoas possuem o talento de nos surpreender.

Mas não me refiro às surpresas negativas, quando deixam de fazer aquilo que esperávamos ou contávamos que elas fizessem e, inexplicavelmente, não fazem.

Me refiro àquelas pessoas, que mesmo em situações totalmente imprevistas, tal qual um mágico, tiram da cartola um gesto inesperado, ou mesmo uma frase espontânea e, após um segundo de silêncio gerado pela surpresa que causam, nos conquistam pela invejável e difícil capacidade de “pensar fora da caixa” e fazer aquilo que nunca seríamos capazes de, sequer, pensar.

Para ilustrar, cito o caso de um rapaz que almoçava em um restaurante requintado, quando recebeu um pedido de comida vindo de um garoto pobre que entrara sem ser notado. Embora surpreso, o cliente tratou de colocar um pouco de alimento num pequeno prato para dar ao jovem. Mas quando o menino foi identificado, as pessoas responsáveis pela segurança vieram para retirá-lo imediatamente dali. E quando a cena se encaminhava para um fim desagradável para todos, principalmente para o garoto, o cliente interrompeu a ação e justificou simplesmente dizendo que o garoto era seu parente.

Evidente que todos perceberam que ele não falava a verdade, mas sua rapidez e espontaneidade, destruiu qualquer possibilidade de que a boa ação do tal rapaz fosse abortada.

Numa outra situação, o presidente Barack Obama fazia sua visita anual ao congresso norte americano e seu objetivo era pedir apoio aos parlamentares republicanos para um de seus projetos estratégicos. Como isso se passava já em seu segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos disse que precisava da aprovação do congresso sem qualquer objetivo eleitoral, pois não iria mais concorrer numa próxima eleição. Após esse comentário, alguns políticos republicanos iniciaram uma barulhenta sessão de aplausos, cujo objetivo era logicamente desmoralizá-lo pela expressão de uma geral sensação de alívio aos americanos por não correrem o risco de tê-lo como presidente em um novo mandato. A situação parecia tornar-se embaraçosa para o Sr. Obama, mas como um moleque travesso, ele fixou seus olhos no líder da manifestação republicana e falou com palavras firmes e bem-humoradas:

— É verdade, eu não vou mais participar de novas eleições, simplesmente porque já participei de duas – fez uma pequena pausa e completou – e venci ambas.

Deu seu sorriso peculiar, seguido de uma piscada de olho maliciosa para o tal parlamentar e a sessão continuou sem novas ironias.

Com certeza, eu poderia contar muitas outras histórias similares em que o talento para pensar rápido e de maneira inovadora, criativa e, principalmente, inteligente, fizeram seus protagonistas saírem-se bem de uma situação imprevista e com risco potencial, sem qualquer esforço aparente.

Porém, creio que nenhuma delas seria minha, pois, lamentavelmente, não acredito que tenha este dom.

Pelo contrário, às vezes me surpreendo pelo quanto sou óbvio. E nem me lembro quantas foram as vezes em que, além de não surpreender, perdi preciosas oportunidades para ganhar um jogo e errei, unicamente por não conseguir discernir e compreender os sinais escandalosos deixados para mim pelas peças do tabuleiro.

Por outro lado, a vida me compensou generosamente com uma grandiosa capacidade para aprender. Observar os comportamentos e ouvir os interlocutores com atenção, experimentar novos caminhos e treinar o máximo possível cada nova possibilidade. Usar a experiência adquirida e, se o erro for mesmo inevitável por ser humano, que ele ocorra somente uma única vez.

Enfim, pode ser que isto não seja um talento, mas também será sempre uma ótima sacada.