Arquivos do mês: março 2016

Minha primeira lição

Minha primeira lição 1Por Vitor Seravalli

Eu ficava imaginando o momento em que me tornaria um líder.

As evidências indicavam que isso não demoraria a acontecer, mas eu seguia em frente em meu trabalho e tentava aprender o que fosse possível para não me dar mal quando a oportunidade viesse.

As escolas ensinam os fundamentos, mas a verdadeira aula de liderança somente acontece quando as testemunhas são nossos liderados.

Naquela época, eu também buscava algumas conquistas pessoais e uma delas era a aquisição do primeiro imóvel, um pequeno apartamento, cuja construção chegava ao seu final. Eu já morava num apartamento de outro edifício do mesmo condomínio, mas conseguir um financiamento em meu próprio nome, era algo para se comemorar.

As obras e os acabamentos apresentavam muitas pendências e um grupo de novos proprietários se formou para negociar com a construtora, afinal eles estavam com razão em praticamente todos os pontos. Obviamente, eu era um deles.

Íamos bem e, pouco a pouco, tudo foi sendo colocado em ordem.

Algumas semanas depois, houve a eleição para escolha de um novo síndico do condomínio com a integração dos dois edifícios, um deles mais antigo e com diversas necessidades de manutenção e o outro, novinho em folha, mas ainda com algumas pendências.

Nunca houvera uma reunião com tantos moradores presentes. Quase não havia espaço naquele salão de festas e, após uma acalorada discussão, onde todos tinham suas razões, mas nem todas as razões se sintonizavam, houve o consenso de que somente um morador conhecia os dois edifícios e esse argumento era suficiente para a melhor escolha, então eu fui eleito.

Eu não queria ser líder? Pois então havia chegado a primeira oportunidade. A única remuneração seria o valor da taxa condominial mensal, mas ao final da reunião, eu voltei para casa amedrontado e muito feliz.

Assumi a responsabilidade com muita motivação, montei uma lista de prioridades, estruturei o plano de ação mais consistente que pude e mostrei para os membros do conselho, que eram alguns dos meus novos e entusiasmados vizinhos.

Foi uma fase muito boa, apesar de um desgaste muito maior do que eu poderia esperar. Os moradores do prédio mais antigo não concordavam com nada que apresentávamos como propostas e alguns até nos ameaçavam. O síndico anterior conhecia melhor os problemas existentes e usava as informações para nos desestruturar.

Porém, éramos valentes, competentes e buscávamos equilibrar aquele relacionamento difícil com admirável resiliência.

Creio que nenhum síndico do mundo fez tantas assembleias para alcançar consenso e prestar contas como eu decidi fazer.

Internamente, eu queria que minha gestão tivesse a maior aceitação possível.

Com o tempo, os atritos e as intrigas se tornaram mais frequentes e aquilo elevou meu nível de estresse a um limite nunca antes alcançado.

Até que apareceu uma necessidade comum para ambos os edifícios e eu encontrei a oportunidade que tanto queria para agradar a todos naquela comunidade. Eu somente teria que usar minha competência com plenitude para, finalmente, conseguir a unanimidade de aprovação. Era algo muito importante para mim e assim, fiz o melhor que pude.

Quando a obra terminou, eu estava muito feliz e orgulhoso por ter superado aquele desafio. Com meus botões eu refletia que havia chegado o momento de receber o reconhecimento tão merecido.

Mas ali no interior de minha casa, isso não seria possível. Assim, entrei no elevador, desci ao andar térreo, escolhi um lugar onde todas as pessoas pudessem me ver e, tolo e ingênuo, fiquei à espera dos elogios que, certamente, me fariam.

Após alguns minutos, uma senhora que morava sozinha veio ao meu encontro, respirou fundo e descarregou todas as críticas que encontrou em seu repertório. Chegou uma segunda pessoa e, apesar de reconhecer o trabalho que havia sido feito, compensou seu breve elogio com meia dúzia de reclamações completamente injustas e desnecessárias.

Quando me deixaram sozinho novamente, senti uma frustração que nunca ocorrera em nenhum momento anterior em minha vida.

Talvez tenha até sentido vontade de chorar, mas aguentei firme e voltei para casa. Minha missão estava cumprida e aquele sinal mostrou-me que era chegada a hora de voltar a ser, novamente, um simples morador.

Aquela experiência foi a primeira de uma infinidade de outras que tive posteriormente ao longo do caminho que escolhi seguir para me tornar um líder de verdade.

Confesso que esses aprendizados ainda se renovam a cada dia, contudo, a primeira lição nunca mais esquecerei, pois fundamentou algo que todos os líderes, em qualquer dimensão, deveriam saber:

“Cuide de seus valores, busque seus objetivos, evidencie seus resultados e comemore suas conquistas, mas em nenhum momento, tenha a ilusão de que conseguirá agradar a todos”.

Pequenas superstições

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Por Vitor Seravalli

Mesmo quando eu ainda era uma criança rumo à adolescência, já possuía total consciência de que meus conhecimentos gerais eram escassos. Porém, sempre sobrou uma vontade doida para aprender.

Além disso, tive sorte. Uma tia muito querida se lembrou de mim quando soube que a empresa onde ela trabalhava mantinha uma escola profissionalizante de ótimo nível, na qual os parentes de funcionários poderiam ser indicados, e ela o fez.

Assim, desde os dez anos de idade, eu saía bem cedo da cidade onde morava, tomava um trem subúrbio invariavelmente lotado e, após caminhar mais alguns quilômetros, eu chegava para as aulas. Essa experiência rara e inimaginável para mim até então, colocou-me em contato com o mundo real, acelerou meu desenvolvimento e creio que isso foi o alicerce do meu projeto de carreira.

Naquela época, talvez por influência de minha família vinda do interior, eu era um garoto muito supersticioso, embora não tivesse a menor ideia do que fosse um transtorno obsessivo compulsivo, o famoso TOC. De qualquer modo, um punhado deles integrava o meu cotidiano.

Era comum voltar várias vezes para ter certeza de que uma porta estava fechada, ou então gastava um tempo considerável para colocar um objeto na posição correta, e muitos outros comportamentos inúteis dos quais eu era refém, ou seja, eu não conseguia controlar a necessidade de repeti-los, como se eu viesse a ser punido, caso não os fizesse por várias vezes.

Um destes comportamentos ficou em minha memória.

Eu fazia o mesmo caminho todos dias desde a estação de trem até a escola e, numa determinada casa, havia uma daquelas janelas bem antigas. Em cada lado dessa janela, havia uma pequena haste que era usada para prender a veneziana quando aberta e, não sei por qual motivo, a partir de um determinado dia, cismei de bater com minha mão nas duas hastes em todas as vezes que passava por aquela casa.

É bem possível que eu fizesse algo similar em outros lugares. Troco o “bem possível” por um “com certeza”.

Até que numa manhã cheia de nuvens, bati minha mão na pequena peça metálica e, antes que eu pudesse prever, alguém abriu com violência desnecessária a tal janela e perguntou num grito estridente:

— Por que você faz isso todos os dias, seu moleque?

Não posso me lembrar qual foi minha reação após ter parado de correr, várias quadras adiante, como um moleque fujão.

Mas aquele susto interrompeu inexplicavelmente aquele e todos os outros atos supersticiosos que eu praticava. Aliás, foi como uma lavagem cerebral, que talvez pudesse ser classificada como uma espécie de libertação.

O susto foi o remédio, assim como minha mãe fazia para interromper as contrações involuntárias de meu diafragma, as quais eu chamava de “soluço”.

Contei essa história toda, como uma espécie de parábola relacionada aos indesejáveis vícios profissionais que, apesar de não conectados com superstições, muitas vezes não conseguimos interromper.

O medo de perder o respeito dos colegas, o medo de ser mal interpretado, o medo de falhar ou fracassar e muitos outros medos, nos levam a atos involuntários que nos escravizam em comportamentos medíocres, desrespeitosos e de baixo valor, mas o pior é que não temos consciência do mal que eles podem estar causando às outras pessoas e fundamentalmente a nós mesmos.

Até que alguém nos dá um grande susto e nos liberta, mas infelizmente isso pode significar uma indesejada demissão.

Talvez eu nunca consiga me livrar de algumas pequenas superstições, mas os meus medos, creio que tenha aprendido a enfrentar…

… sem sustos.