Arquivos do mês: fevereiro 2016

A primeira aula

A primeira aula 1

 

Por Vitor Seravalli

Na busca de um diferencial para concorrer no mercado de trabalho, vale tudo. E isto não é privilégio das gerações atuais.

Confesso que em meus tempos na universidade, eu não possuía qualquer habilidade ou competência que me distinguisse de meus colegas concorrentes, por exemplo, nas disputas por estágios. A história se repetia sempre da mesma maneira, ou seja, dependíamos unicamente da empatia para a conquista de uma vaga.

Por isso, logo que terminei o curso, fui atrás de um trabalho que pudesse me ajudar a ganhar alguma experiência e alguns trocados, é claro.

Eu havia investido no aprendizado de linguagens de programação, pois percebera que, naquela época, os tais microcomputadores estavam chegando para ficar.

Estava na moda aprender uma tal linguagem Basic e eu já a estava dominando, quando surgiu uma oportunidade para que eu me transformasse num facilitador de uma turma da escola onde eu mesmo estudara.

O diretor foi logo me avisando que o meu antecessor fora demitido pelos próprios alunos, pois eles eram exigentes executivos de empresas multinacionais e o avaliaram mal.

Embora aquela informação fosse indesejável para mim, pois, até então, eu nunca houvera experimentado ensinar alguém, ainda mais com perfil de exigência tão alto, aceitei o desafio e iniciei um processo de preparação. Eu teria uma semana até minha primeira aula.

Como eu gostava do assunto, descobri que durante o final de semana que se aproximava, ocorreria uma feira de informática de grande dimensão. Assim, tomei a decisão de chegar bem cedo à tal feira e buscar todas informações que estivessem disponíveis. Nem me lembro se cheguei a almoçar ou jantar, mas o que nunca me esqueci é que entrei em praticamente todos os estandes. Sai de lá exausto, porém repleto de detalhes e informações técnicas sobre todos os equipamentos, softwares, sistemas, etc.

O tempo passou rápido e, chegou a hora de conhecer meus potenciais algozes.

Entrei na sala e, como devia ter um perfil físico parecido com meu colega anterior, notei um discreto e generalizado clima de desconfiança. Talvez fossemos jovens demais.

Busquei capturar as expectativas de cada aluno, deixando que pusessem para fora tudo o que eu pudesse aproveitar quando realmente o curso começasse. Tentei quebrar o gelo de todos os modos possíveis. E, apesar de minha insegurança, sobrevivi.

Mas o fato é que a aula ainda não havia começado para valer e, nesse banho maria, chegou a hora do intervalo.

Antes de voltarmos, eu refleti um pouco e cheguei à conclusão de que precisaria conquistá-los de algum modo, e a única estratégia disponível dependia do arsenal de informações que ainda estava quente em minha cabeça.

Assim, os informei que no tempo que restava daquela primeira aula, eu iria atualizá-los sobre o cenário dos recursos disponíveis no mercado.

Respirei fundo, e coloquei tudo para fora, com a maior quantidade de detalhes e da melhor forma que pude. Eu teria aproximadamente uma hora e meia até o final da aula, mas extrapolei. Foram duas horas e alguns minutos de aula e, surpreendentemente, ninguém piscava. Quando terminei, a classe estava em êxtase. Eu voltei para casa feliz, mas confesso que, internamente, eu mesmo me surpreendera com minha performance.

O curso seguiu em frente sem que eu me lembrasse da insegurança que senti antes do curso começar.

No final, eles estavam até tentando me ajudar a conseguir um bom emprego e o melhor de tudo foi perceber que eles todos ficaram tão empolgados, que até compraram seus próprios equipamentos, pois se sentiam capazes de utilizá-los com os conhecimentos recém-adquiridos.

Aquele episódio me fortaleceu e pouco tempo depois eu, finalmente, consegui conquistar a tão desejada vaga numa grande empresa, aliás, a mesma onde construí minha carreira posteriormente.

O aprendizado principal que incorporei para as etapas seguintes de minha carreira foi a necessidade de uma percepção aguçada às novas oportunidades. Além disso, a minha intuição sempre me alertou nos momentos em que eu deveria acreditar e investir com plenitude em tudo o que pudesse me agregar valor, por exemplo, quando passei pela porta de entrada daquela que se tornou a mais importante feira de informática de toda a minha vida.

Na calada da noite

Na calada da noite 5Por Vitor Seravalli

Compreender o comportamento de algumas pessoas pode ser considerada uma das tarefas mais difíceis em algumas circunstâncias. Mas eu, em meus tempos iniciais como executivo, já estava me acostumando com aquelas notícias que chegavam à minha mesa todos os dias.

Um supervisor do período noturno, que tinha um horário fixo para um longo cochilo durante o período de trabalho, com a conivência e proteção de seus passivos e medrosos subordinados. Ou aquele funcionário que aproveitava momentos de baixa circulação de pessoas e invadia o sistema de controle de pessoal da empresa para agregar horas extras indevidas ao seu prontuário.

Nem me lembro quantos casos ocorreram durante a minha gestão. Contudo, minha equipe era treinada e conseguia resolver a grande maioria das aberrações que ocorriam.

Lembro-me de um rapaz que participava do programa social mantido pela empresa para desenvolvimento de jovens da comunidade. E nunca consegui entender o motivo que o fez, mesmo depois de ser contratado graças ao curso técnico que fora oferecido a ele gratuitamente, entrar de madrugada num laboratório que estava fechado, com um disfarce cobrindo sua cabeça, para roubar alguns objetos. Foi pego em flagrante, perdeu o emprego e quase comprometeu a iniciativa como um todo.

Outra vez, descobrimos um funcionário antigo roubando brindes em grande quantidade. Ele era um funcionário da área comercial e tinha acesso à área onde os mesmos eram guardados. O problema é que o tal profissional, os levava para tirar algum benefício pessoal completamente irregular.

Nunca me esquecerei de um outro caso, em que um funcionário terceirizado foi pego com a mão na massa numa irregularidade de dimensão maior e, quando questionado, sorriu ironicamente, dizendo que a segurança da empresa era muito fraca. Chegou ao cúmulo de contar uma história maluca em que pegou um equipamento valioso, saiu da empresa com ele, como se estivesse testando os sistemas de detecção e depois voltou para dentro sem ser pego. Não roubou, mas zombou da empresa com outros colegas

Por isso, sempre começo os processos de capacitação sobre gestão da ética, com a afirmação de que, nas empresas, a ética tem duas dimensões: a individual e a empresarial.

Evidentemente, as empresas devem definir claramente os seus valores. É também importante que estes valores estratégicos e as regras de conduta estejam formalizadas num claro e esclarecedor código de ética e conduta. É fundamental a manutenção de programas que garantam um modelo de gestão da ética e compliance em todos os processos existentes, é primordial que as organizações implantem canais para a devida comunicação de quaisquer infrações, sem que o denunciante seja exposto. Obviamente, nem é necessário dizer, que as ações posteriores à identificação das más condutas devam seguir procedimentos justos, adequados e transparentes.

Porém, a atitude que será a essência de tudo o que vier ocorrer, depende única e exclusivamente de um indivíduo. Mesmo que a responsabilidade sobre um mal comportamento recaia sobre um grupo de pessoas, em algum momento, alguém tem uma ideia e, após acreditar que ela seja viável, mesmo contrariando referências éticas, a compartilha.

Quando isso acontece, há a oportunidade para que os sistemas e programas mencionados anteriormente, sejam testados. A má noticia mostra que a criatividade também é uma competência de pessoas de baixo valor.

Mas uma luz, ainda tênue é bem verdade, já se mostra cada vez mais evidente no fim do túnel. Embora, muitos não acreditem que as culturas da corrupção e da falta de ética possam ser derrotadas algum dia, principalmente pela divulgação ampla que novos casos ganham nos noticiários, cada vez fica mais improvável o cenário da impunidade eterna.

Pode demorar, mas os fatos mostram que, mais cedo ou mais tarde, as infrações são descobertas e os seus responsáveis são incriminados.

Alguns destes infratores nos surpreendem pela resiliência e pela alta capacidade de escapar dos mecanismos de controle. Porém, minha percepção é que a única variável existente, e que atrasa a punição merecida dos mesmos, é o tempo.

Nada mais animador, em tempos onde os valores são castigados, maltratados e mesmo pessoas originalmente honestas, sucumbem às “maracutaias” encrustadas nos sistemas públicos e privados.

As novas leis ajudarão. A imprensa ética e não sensacionalista contribuirá. Bons exemplos proliferarão.

Mas a decisão final estará sempre na solidão de nossa consciência, em nosso interior. E acredito fortemente, que finalmente saberemos discernir e faremos a boa escolha, mesmo sem fiscalização, mesmo que ninguém esteja nos vendo, e mesmo que estejamos completamente protegidos pela escuridão da calada da noite.