Arquivos do mês: janeiro 2016

Inexperiência preferencial

inexperiência preferencial 1

Por Vitor Seravalli

Carlos entrou em minha sala com uma expressão diferente.

Certamente, ele estava com alguma notícia nova e, pelo jeito, isto significaria alguma mudança iminente. Os gerentes de recursos humanos que conviveram comigo durante a minha carreira executiva tinham essa característica, ou seja, gostavam de mexer com quem estava quieto.

Bom, mas o fato é que a vida corporativa é uma metamorfose constante, o que no final das contas tem seu lado bom.

Ele foi direto ao ponto:

_Vamos ter que substituir sua consultora. Ela é bastante experiente, e agora cuidará de uma área maior. Seus resultados têm sido tão bons, que ela foi requisitada para maiores desafios.

Não gostei da novidade, pois tínhamos desafios importantes apesar de subestimados por meu colega, e a troca poderia trazer impactos negativos à minha equipe. Liliana era uma profissional competente, e não passava por minha cabeça perdê-la àquela altura.

Todavia, não se tratava de uma consulta. A decisão já estava tomada.

_Mas não se preocupe – disse ele, com olhar confiante. – Tenho ótimas opções de outros profissionais que a substituirão sem qualquer prejuízo para você.

Comigo mesmo eu pensava: Se eles fossem realmente tão bons, por que não foram indicados para a tal área importante?

Ouvi os nomes de dois outros consultores, que embora experientes, não possuíam o perfil de competências que precisávamos.

Pensei um pouco e logo me lembrei de uma jovem bastante inteligente, cuja atitude compensava, de longe, sua falta de experiência.

Sempre proativa, aprendia rápido, e enfrentava as dificuldades do dia a dia sempre com muita motivação e energia.

Na época, ela nem era ainda uma funcionária efetiva da empresa. Como era recém-graduada, possuía apenas um contrato de curto prazo. Enfim, tratava-se de uma profissional em início de carreira e que atuava como auxiliar das consultoras.

Olhei em direção ao Carlos, que aguardava minha escolha às suas indicações, e fui assertivo:

_ Bom, se você me dá a chance de uma escolha, eu não aceito suas sugestões, mas aceitarei que a Julia seja minha nova consultora.

Ele me olhou incrédulo e surpreso, pois Julia nem era uma alternativa. Além de jovem e inexperiente, ela primeiramente precisaria se tornar uma funcionária da empresa.

Discutimos bastante sobre o assunto, mas afinal, ele também valorizava o potencial da garota, e acabou pedindo um tempo para avaliar minha proposta.

Após algum tempo, fiquei feliz em saber que Julia seria contratada e, em algumas semanas, ela passou a cuidar das demandas de desenvolvimento da minha equipe.

O tempo, passou, e sua atuação mostrou que eu estava completamente certo.

Julia nos ajudou muito, e não foram poucas as vezes em que ela foi exigida ao máximo, mas nunca me desapontou.

Esta não foi a última vez que Carlos fez mudanças, e não tardou a hora em que levou Julia para novos caminhos. E o pior é que nem me deu escolhas para sua substituição. Mas isto seria uma outra história.

O que importa, é que o tempo passou, e a carreira de Julia seguiu em frente com bastante sucesso. Até hoje, seu rosto permanece jovial e seu olhar continua empático. Felizmente, isso nunca mudou.

Mas o que ficou como resultado daquela singela passagem foi a importância de alguns detalhes quando buscamos pessoas e profissionais para integrar nossas equipes.

Conhecimentos e habilidades técnicas são importantes. Experiência também.

Mas há algo tão fundamental quanto isso, e que nem sempre se aprende na escola.

Trata-se de uma essência humana que alguns tem e outros vivem a vida inteira sem descobri-la. Energia, motivação, humildade e simplicidade são alguns dos seus componentes.

E o exemplo de Julia serviu-me de ótima referência em diversas boas apostas que fiz posteriormente.

O curto caminho longo

O curto caminho longo 1

 

Por Vitor Seravalli

Quando ouvi meu chefe falar aquilo pela primeira vez, confesso não ter compreendido bem, mas logo ele explicou o que queria dizer.

Ele afirmava que a maioria das pessoas optam pelo longo caminho curto para conseguir as coisas, mas isso não é bom. Bom mesmo é escolher o curto caminho longo.

Obviamente, ele se referia às decisões de curto prazo em detrimento das que priorizam o planejamento de longo prazo.

Fiquei com aquilo na cabeça, até que um dia, pude escolher meu próprio modelo de decisão.

Estávamos lutando para implementar um projeto novo. Tão novo que não possuía referência nenhuma dentro da organização em nenhuma parte do mundo.

Nem me lembro quantas vezes notei as pessoas me olhando como alguém sem noção da realidade. Algumas certamente pensavam que eu vivia em outra dimensão, mas eu estava com uma ideia de ouro em minhas mãos, e sabia disso.

O projeto era bom mesmo, e assim, com perseverança e o apoio de pessoas muito competentes, o processo evoluiu.

Para ser franco eu já estava com a aprovação da alta liderança, mas havia um colega responsável pela área financeira, que agia como um incrédulo. Pela sua origem e pela cultura que trazia consigo, ele não poderia desacreditar no que estávamos fazendo, mas quando se encontrava comigo, sempre colocava grandes obstáculos para minhas ações.

Precisávamos de recursos financeiros, e quando o consultei, ele me deu um acentuado “não”. Disse que eu precisaria buscar aprovação em nível mais alto.

Eu poderia ir diretamente ao presidente, mas ele disse que eu deveria aprovar minha necessidade numa reunião da alta liderança.

Tudo ficou bem mais difícil, porém eu fui. Fui e consegui a aprovação.

Algum tempo depois, ele me disse que eu necessitava aprovar a ação em outra instância, ou seja, individualmente com mais de dez colegas responsáveis por distintos negócios, pois eles teriam que absorver o recurso aprovado proporcionalmente.

Novamente, eu poderia apelar e ir diretamente ao líder mais alto, pois tudo já estava acertado.

Nesse momento, lembrei-me da opção do curto caminho longo. Coloquei a pasta do projeto embaixo de meu braço, e fui peregrinar em cada um de meus colegas. A maioria me recebia bem, mas alguns queriam mesmo me bater.

Afinal, após muita conversa, todos estavam de acordo.

A grande surpresa foi perceber que a pessoa encarregada de fazer a transferência dos recursos para nosso projeto, cometeu um engano, e simplesmente transferiu o dobro do que tínhamos aprovado.

Alguns membros do time de projeto recomendaram que eu ficasse calado, pois se o próprio funcionário de meu rigoroso colega havia errado, isto não era nossa culpa.

Mas isto não faria sentido. Mais cedo ou mais tarde, a informação se tornaria pública e o efeito seria ruim, ou mesmo pior.

Fui ao meu colega, e o informei do erro. Porém, eu disse que como o valor já estava aprovado por todos e já provisionado, eu precisaria ficar com pelo menos uma parcela para compensar a perda inflacionária e um aumento de custos que, infelizmente, ocorreu.

Ele poderia aprovar meu pedido sem questionamentos, pois afinal o impacto não seria grande.

Contudo, ele novamente disse que não. O erro fora cometido, é verdade, mas isso não significaria qualquer concessão. Se eu quisesse mais de dinheiro, que fosse buscar mais uma aprovação.

Tive vontade de mandá-lo para algum lugar não tão desejável, mas novamente veio à minha cabeça: “O curto caminho longo”.

Eu estava determinado, e nada me impediria àquela altura.

Levei o tema para nova deliberação, e ela veio até com certa sobra.

Vou encurtar a história, pois o projeto teve muitas outras dificuldades até que, finalmente, foi concluído.

Meu time foi publicamente reconhecido, assim como eu, e pudemos desfrutar da realização de algo único em toda a organização, e que se tornou uma referência global em sua área de atuação.

Não tenho dúvidas que minhas escolhas pelos caminhos mais difíceis foram muito importantes. Elas pavimentaram um caminho seguro para a construção e conquista daquilo que significava o objetivo do projeto.

Também reconheço que os passos futuros que dei em minha carreira, e mesmo em minha vida, ficaram muitos mais claros e fáceis a partir de então.

Nada de atalhos e nada de “jeitinhos”. Se estávamos desenvolvendo algo tão bom quanto imaginávamos, a estratégia certa indicava nunca pular qualquer etapa, mesmo que muitas barreiras fossem identificadas pela palavra “NÃO”.

Hoje, agradeço ao meu exigente colega por ter se colocado como um obstáculo às minhas pretensões. Se não fosse ele, é bem provável que eu me acomodasse.

Aliás, lembro-me bem de sua expressão de aprovação, quando apresentamos o resultado final positivo.

Ele foi a melhor pedra que poderia aparecer em nosso curto caminho longo.