Arquivos do mês: dezembro 2015

O trem elétrico

Trem elétrico 1

 

Por Vitor Seravalli

Professora Hille era uma mulher bastante séria.

Ela sempre chegava a passos duros, com suas vestes germanicamente conservadoras e, embora fosse relativamente jovem, talvez com um pouco mais de cinquenta anos de idade, parecia ser bem mais idosa.

Se acomodava em sua cadeira, já começava a perguntar coisas difíceis em alemão, e aquilo se traduzia numa espécie de suplício para seus alunos, que em muitas ocasiões não compreendiam nada do que ela falava, e tampouco o que estavam fazendo ali. Evidentemente, um deles era eu.

O aprendizado daquele idioma era difícil demais, e ela não parecia ter paciência para enfrentar nossa apatia.

As coisas somente melhoravam quando ela iniciava uma estranha viagem pelo tempo, e de repente, chegava à sua terra natal, em algum período após o final da segunda guerra mundial.

Na época, ela deveria estar com uns dez anos de idade, e seus olhos brilhavam quando ela falava de sua vida e de sua família naqueles tempos muito difíceis, mas nem por isso, infelizes.

De tudo o que ela contou sobre suas recordações, algo ficou inexplicavelmente gravado em minha mente.

Seus gestos e seu olhar eram tão intensos, que até conseguíamos vencer a barreira do idioma, e então, ela começava a contar sobre o Natal. Na verdade, ela contava sobre um ritual que se incorporou à rotina de sua família nos tempos de pobreza que vieram após a guerra, especialmente nos períodos natalinos

Seus pais não tinham dinheiro para comprar presentes para ela e seus irmãos, porém eles possuíam um trem elétrico, aliás o único brinquedo que restara depois que a guerra terminou.

Então, logo no começo de cada dezembro, as crianças ficavam excitadas pela possibilidade de todos poderem rever o tal trem, que ficava cuidadosamente guardado pelos pais durante o ano todo, mas que em dezembro se materializava em frente àqueles olhos infantis, como se sua simples remontagem fosse algo mágico e único.

Lembro-me de ter visto algumas lágrimas rolarem de seus olhos, enquanto ela falava da alegria de todos quando acompanhavam o movimento dos vagões, principalmente nas horas que invadiam a noite de cada Natal.

Quando o ano novo se iniciava, tudo era desmontado com o mesmo cuidado, E uma longa espera somente se encerraria onze meses depois, no próximo dezembro.

As aulas de alemão se perderam no tempo de minha vida, contudo nunca mais me esqueci da emoção que vi nos olhos de minha professora.

Reflito sobre o efeito desse episódio em minha vida, e vejo como as coisas mudaram nos dias atuais.

Nossa relação atual com os valores fundamentais da vida tornou-se muito frágil. Por isso, não consigo compreender porque às vezes nos esquecemos de nossos pequenos rituais.

Tampouco entendo os motivos que nos fazem trocar o simples e importante cuidado com nossas relações por uma indiferença ignorante. E afinal, chegamos até mesmo a substituir nossa responsabilidade por escassos recursos existentes pelo desperdício inconsequente.

Assim, sinto que necessitamos acordar para a realidade e lutar contra as tendências que nos afastam das escolhas perenes, que compreendamos nosso papel de cuidar da vida e que nos tornemos líderes singulares da mudança para um futuro onde sejamos, pelo menos, viáveis.

Que sejamos esses líderes em nossas organizações, mas que também os sejamos em nossas casas.

Pode ser exagero, mas essa ingênua história de meu passado distante foi tão impactante, que já há alguns anos, em todos os natais, monto meu próprio trem elétrico – sim, isto é verdade – com a falsa justificativa de que é um hobbie.

Foi a forma que encontrei para poder sempre renovar minha reflexão sobre a lição de vida que as lágrimas de minha sábia professora de alemão me ensinaram. Faço isso a cada ano, enquanto desfruto do seu vai e vem pelos pequenos trilhos de uma viagem através de minha imaginação.