Arquivos do mês: agosto 2015

Resiliência

resiliência2Por Vitor Seravalli

Não foi uma surpresa quando vi pela primeira vez, num livro sobre competências comportamentais, um termo normalmente utilizado nas aulas de física para descrever uma propriedade específica dos materiais: a resiliência.

E se a competência de ser resiliente tornou-se praticamente obrigatória para todos os profissionais que atuam principalmente em funções de liderança, o motivo é óbvio. Não há como resistir aos impactos gerados pelas crises em todos os níveis nos dias de hoje sendo simplesmente competente num contexto técnico.

Mais adiante, escutei um especialista em desenvolvimento de pessoas definir resiliência em um profissional como a sua capacidade voltar a ficar de pé rapidamente após um tombo.

E como tomamos tombos corporativos nos dias de hoje, não é mesmo?

Para os despreparados, esses tombos costumam se caracterizar como grandes surpresas, mas outras vezes são como bombas-relógio, cujos ponteiros temos a possibilidade de acompanhar passivamente por muito tempo, até que a explosão ocorra.

De qualquer forma, não são todos os que conseguem prosseguir sem sequelas.

Sabendo de tudo isso, as áreas de recrutamento e seleção da maioria das organizações empresariais já utilizam sofisticados e específicos testes para avaliarem se os profissionais que se candidatam a uma eventual vaga disponível são ou não resilientes.

Contudo, os grandes exemplos somente se materializam na vida real, ou seja, quando levamos o golpe e tentamos nos levantar do chão, com a contagem já iniciada, tal qual numa luta de boxe.

Olho para minhas vivências profissionais e não tenho nenhuma dificuldade para me lembrar dos diversos tombos que tomei. E não sinto qualquer constrangimento em falar sobre isso, pois cada um deles deu-me a contrapartida do aprendizado.

Se evoluí como profissional e como líder, devo uma boa parcela disso aos momentos em que tentei me recuperar de alguma crise ou de algum impacto negativo inesperado que tenha me levado ao chão.

Após tanto tempo, constato que consegui me levantar de todos eles, mas confesso que as cicatrizes causadas por alguns ainda estão comigo. São pequenos troféus que simbolizam os desafios que se seguiram e foram vencidos um a um.

E para sair um pouco do campo abstrato de minhas reflexões, vem à minha mente uma manhã em que fui chamado à sala de meu chefe e, enquanto caminhava para lá, já sabia que o assunto não seria açucarado. Estávamos nos recuperando de um período de má performance, e uma avaliação externa mostrara que não íamos mesmo nada bem.

Quando entrei, ele já foi direto ao ponto. Eu ainda não seria demitido, mas uma de minhas principais atividades teria responsabilidade transferida para um colega de outra unidade por tempo indeterminado. Em seguida, com certa irritação, perguntou-me o que eu tinha a dizer sobre aquela decisão.

Fiquei em silêncio por alguns segundos e, da melhor forma que pude, disse que me sentia frustrado com aquela situação, pois havíamos feito o melhor possível, porém infelizmente os nossos resultados eram mesmo medíocres.

Arrumei-me na cadeira, ergui meu rosto, respirei fundo e continuei.

Por outro lado, deixei clara minha satisfação por estar em uma organização que sabia tomar decisões quando necessário, e reafirmei meu compromisso em apoiar meu colega no necessário processo de melhoria que viria a seguir.

E isso aconteceu com plenitude. Nossa equipe virou o jogo, e meses depois fomos todos reconhecidos pelo sucesso após uma nova e dura reavaliação.

Nunca mais fui o mesmo. Mas esse aprendizado iluminou ainda mais o caminho que pude percorrer nos períodos que vieram posteriormente.

E finalmente percebi a importância da resiliência, algo que somente podemos reconhecer de verdade quando, surpreendentemente, voltamos a ficar de pé.