Arquivos do mês: junho 2015

Razão e emoção

Razao e Emoção 3Por Vitor Seravalli

Como equilibrar da melhor maneira os nossos sentimentos e comportamentos, quando buscamos doses adequadas de razão e emoção?  Este talvez seja um dos grandes desafios de todos nós.

Cada pessoa traz consigo uma forma única de evidenciar esse equilíbrio, e muitas vezes o que se percebe é um grande desequilíbrio.

Minha reflexão não refletirá o tema exclusivamente nas nossas vidas pessoais, aliás nem sou capacitado para isso.

O que gostaria de focar é somente uma reflexão de minha experiência sobre a relação “razão versus emoção” em uma perspectiva profissional.

Sim, há sempre uma emoção encravada na mais genuína e pura razão, ou seria o contrário?

O fato é que ambas estão fortemente internalizadas em todos nós. A diferença está no quanto nós externalizamos de cada uma delas, ou mais claramente, o quanto as escancaramos para a vida.

Quanto mais olho para minhas vivências, vejo mais transparente o sucesso nos momentos em que deixei a emoção bem guardada em mim mesmo, e optei por meu lado mais racional.

Isto não significa que o lado direito de meu cérebro, o lado mais complexo e mais sensível, estivesse paralisado. Em todos os momentos, os meus sentidos captavam tudo, e meu sangue não ignorava a pressão, a tensão, e mesmo a dor, de tudo o que acontecia do lado de fora de mim.

Mas, a atitude mais eficaz era aquela que se evidenciava por um comportamento muito mais focado na escuta, do que nos gestos ou na fala.

Ausência de precipitação, de ansiedade, e de uma denunciadora cor rubra em minha pele, sempre aumentaram minha credibilidade e meu poder de influência nas decisões mais importantes que pude protagonizar, independentemente de meu nível hierárquico.

Isso não significa que eu não tenha chorado muitas vezes sozinho, que diferentes partes de meu corpo não tenham denunciado o efeito de um estresse exacerbado em algumas situações críticas que vivi, e nem que minha família não tenha pago um preço demasiadamente alto pelos percalços de minha vida profissional.

Mas, certamente, a vida nos ensina. E não temos direito de não aprender em cada experiência ou oportunidade. Mesmo que seja com uma dor inexplicável.

Por outro lado, uma vida profissional que não carregue um legado de emoções, não pode ser chamada de vida.

Lembro-me de cada momento, bom ou ruim. Recordo-me com saudades de meus colegas, mesmo daqueles que foram os meus mais duros rivais. Lembro-me dos meus bons chefes que nunca desistiram de me ensinar. E não me esqueço dos chefes não tão bons, cuja incompetência colocou-me em alerta.

Lembro dos ganhos, mas não me esqueço das perdas. E na mesma intensidade, vejo o brilho das lembranças de vitórias, assim como a opacidade das derrotas. Afloram lágrimas pelas despedidas, e sorrisos pelos encontros e reencontros.

Afinal, concluo que a prudência da razão convive com a temperança da emoção, num caminho de equilíbrio que poderá nos levar para a sabedoria.

Se minha vida profissional seguiu para esse rumo, então valeu!

Preparação é tudo

Preparação 1

Por Vitor Seravalli

Apresentar um trabalho, propostas de projeto, ou mesmo uma prestação de contas para níveis mais altos da organização, são sempre eventos que necessitam de muito cuidado em sua preparação. Embora fundamentais, não estou falando somente das informações ou da apresentação em si. Refiro-me mesmo à estratégia que deve ser utilizada para convencer com bons argumentos as pessoas para as quais a intervenção será feita.

Em minha carreira tive oportunidade de acertar e errar. Ganhei e perdi. Fiz ótimas apresentações, e outras nem tanto. Mas a partir de uma delas em especial, onde buscava a aprovação de algo muito relevante para meu futuro como líder da área que estava sob minha responsabilidade, tudo mudou.

Inicialmente, eu tinha nas mãos indicadores consistentes de que a coisa não poderia continuar como estava. Porém, a mudança proposta demandaria um investimento importante, e a empresa não estava com recursos planejados isso.

De qualquer forma, juntei todos os argumentos que pude. Pesquisei muito, desenvolvi todas as alianças possíveis, caprichei no material que seria utilizado, mas algo ainda faltava, e isso deixava-me inseguro.

O time que escutaria meus argumentos, e decidiria pela aceitação ou não de minha proposta, era composto pelas cinco pessoas com maior poder na organização.

Eu teria somente quinze minutos e restava menos de uma semana para o grande dia.

Embora bem preparado, eu precisava de algo mais.

Refleti sobre o que poderia melhorar minha sensação de segurança, e depois de muito pensar, tive uma ideia óbvia, mas nova para mim àquela altura.

Entrei em contato com as assistentes de cada um dos cinco executivos, e pedi dez minutos para uma rápida consulta. Não foi fácil, mas aos trancos e barrancos, fui conduzindo conversas informais com esses líderes, e basicamente explicava todos os detalhes de minha proposta e ao final, pedia um feedback, buscava identificar as principais dúvidas, estimulava perguntas, e o que deveria ser acrescentado para aumentar as chances de aprovação da proposta.

Tudo era muito rápido, mas meu foco estava em capturar suas sugestões de melhorias.

Falei com cada um, e posteriormente, reconstruí minha apresentação.

Os argumentos, agora, eram somente respostas a todos os pontos que foram capturados nas entrevistas individuais.

O dia “D” chegou, e quando entrei na sala de reuniões, minha estratégia havia sido completamente modificada. Não fiz mais a apresentação da proposta, pois todos já a conheciam.

Comecei lembrando a eles que meu projeto já era do conhecimento de todos, e em seguida, tudo o que fiz foi apresentar encaminhamentos para cada uma das sugestões que eles fizeram durante as conversas.

Terminei, e apesar de um ou outro comentário, o grau de questionamento foi infinitamente menor que em vezes anteriores.

Saí da sala com a tão desejada aprovação, mas o principal ganho foi a descoberta de uma forma diferente de apresentar projetos.

É óbvio que não venci todas as batalhas posteriores, mas não há dúvidas, passei a dar mais trabalho aos meus interlocutores.

E se reflito sobre os motivos do sucesso dessa experiência, eles podem ser sumarizados em três itens: eu acreditei completamente naquilo que propus, eu percebi que a melhor preparação possível seria o único caminho viável, e finalmente, eu preferi escutar mais e falar menos.

Lição aprendida, não mais esquecida.