Arquivos do mês: abril 2015

Atitudes sustentáveis

banho sustentável 1

Por Vitor Seravalli

Professor! Gostaria de fazer um comentário.

Estranhei aquela solicitação logo no início da aula. Mas, como os cursos de pós-graduação precisam da participação ativa dos alunos, dei toda a atenção ao rapaz que queria contar algo sobre a aula anterior.

_ Em sua última aula, houve um momento em que foi mostrado um certo “slide”, e você fez questão de frisar que ele era o mais importante de todo o curso. Olhou para nós e, inclusive, disse que era algo com grande chance de estar na avaliação final.

Todos prestavam a atenção, e ele continuou.

_ Era o “slide” que definia o “Desenvolvimento Sustentável”, e me lembro bem que dizia: “Desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”.

Falou com tanta propriedade que seus colegas o aplaudiram.

_ Muito bem – disse eu – mas e então?

_ Pois é Professor, eu sempre imaginei que sustentabilidade fosse abraçar árvores, e de repente compreendi que era algo muito mais amplo, e relacionado com a atitude tanto das organizações quanto de nós mesmos como cidadãos.

A essa altura, seus colegas já pensavam em elegê-lo como o líder da turma, e brinquei que sua bela contribuição não o isentaria da avaliação ao final do curso.

Ele sorriu, mas seguiu com sua história.

_ Bom, mas ao final da aula, eu fui para casa, e no caminho continuava a pensar no que eu deveria fazer como indivíduo para ser sustentável. Quando cheguei, conversei com minha esposa, que também havia chegado da escola como eu, e ela gostou de discutir um pouco sobre esse assunto. Falamos de nossos filhos, e o quanto seria importante ensiná-los sobre a sustentabilidade. Depois disso, fui tomar um banho antes de dormir, e acredite Professor, eu continuei a pensar no assunto.

Fez uma “cara de conteúdo”, mas eu não pude deixar de fazer uma consulta a ele.

_ Tenho uma pergunta: enquanto você pensava na sustentabilidade, a válvula da água estava aberta ou fechada?

Os outros alunos caíram na gargalhada, e ele mudou sua expressão mas admitiu o óbvio:

_ É, a água estava aberta.

Embora fosse somente um comentário com fins didáticos, eu disse a ele que podia interromper sua história ali mesmo, e que ao final da aula me procurasse para que pudéssemos agendar uma aula de reposição, pois definitivamente, ele não havia aprendido bem a lição da aula anterior.

Todos sorriram concordando comigo, inclusive o meu importantíssimo aluno.

Sim, um aluno importantíssimo, pois sua história continua sendo contada por mim em praticamente todas as aulas e palestras que tive após aquela noite.

Evidentemente, o agradeci ao final daquela intervenção, e ele certamente mudou sua atitude a partir de então.

Ensinar os fundamentos da sustentabilidade é muito mais que um privilégio, é uma missão.

Mas ainda mais importante do que apresentar os fundamentos e conceitos de algo tão complexo e tão simples ao mesmo tempo, é certamente ensinar pelo próprio exemplo.

E nesse caminho, eu confesso ter ainda muito a percorrer.

Mas se muitos outros estiverem comigo, tenho certeza que chegarei mais longe.

Vamos nessa?

Isto não é do seu nível!

Isto não é do seu nível 1Por Vitor Seravalli

Tocou o telefone, e era mais um pedido para um pulinho na sala do chefe.

Já havia tarefas demais sobre a minha mesa. Aliás, caso o tal chefe se esquecesse de mim por um mês, eu não teria nem cinco minutos de ociosidade até que se lembrasse de me chamar novamente. Porém, nosso projeto era importante demais, e qualquer reclamação seria injusta àquela altura. Pessoalmente, eu estava vivendo uma oportunidade rara de aprendizado, e tinha consciência de que tudo aquilo traria resultados fundamentais para meu futuro.

Pasta preta embaixo do braço, lapiseira no bolso da camisa, e lá fui eu.

Meu chefe não era um líder qualquer. Sua última experiência fora um projeto similar em outro país, e agora ele assumira a responsabilidade de replicar o investimento numa escala bem maior, porém num ambiente com uma cultura não tão baseada em planejamento de médio e longo prazo como a anterior.

Eu fora escolhido para colocar em prática toda a bagagem de conhecimentos que estava na mente daquela pessoa, que me esperava na sala onde cheguei com passos, como sempre, apressados.

Recebi as explicações necessárias para atendimento de mais uma demanda, e sem mais delongas, voltei ao meu posto de trabalho.

Logo vi que teria dificuldades de atender aos prazos todos, e percebi também que teria algumas escolhas a fazer.

Fiz uma triagem de todas as prioridades do melhor jeito que pude, escolhi aquilo que era mais urgente, e tratei de colocar a mão na massa.

O tempo passou rapidamente, e quando o prazo da tal demanda se esgotou, tratei de entregá-la pessoalmente ao ilustríssimo solicitante.

Nada fora fácil, mas embora eu não contasse com muitos recursos, a lição de casa estava feita.

Cheguei à sua sala, e logo fui convidado a entrar. Sentamos nas cadeiras de uma pequena mesa de reuniões, e então, aconteceu algo que, definitivamente, não estava previsto em minhas expectativas.

Ele ouviu minha explicação, viu o material com seu peculiar detalhamento, ficou com a expressão mais séria que eu já havia visto, olhou para mim aparentemente incrédulo e, levantando-se em direção à sua mesa, emitiu um definitivo parecer:

_ Infelizmente, meu caro, eu não posso receber este material.

Um pouco assustado e surpreendido com sua reação, somente pude perguntar: _ Por que Chefe?

Ele, já sentado à sua mesa e iniciando uma chamada telefônica, olhou para mim e simplesmente disse:

_ Isto não é do seu nível.

Recolhi os cacos de mim mesmo, saí de mansinho e, sem saber o que pensar, voltei à estaca zero.

Tanto estresse, tanta pressão, e tamanho esforço para nada.

Ao final daquela tarde, deixei a empresa com a sensação de que minha casa havia caído.

Mas apesar de abatido, eu sabia que meus trabalhos eram realmente melhores do que aquela porcaria que eu havia entregue, ou melhor, que eu tentara entregar.

Cheguei bem cedo na manhã seguinte, e tratei de refazer tudo a partir do zero. Não precisei mudar radicalmente nada. Somente, me concentrei e cuidei para que o trabalho ficasse como, deveras, deveria ter sido apresentado já na tarde anterior.

Sem perder tempo, voltei ao seu escritório, pedi um minuto, pedi desculpas, e entreguei a nova versão.

Obviamente, ele foi bastante rigoroso em sua reavaliação, mas afinal, sorriu para mim e, com a sua expressão normal, bateu sua mão em meu ombro e falou: _ Pois é, agora sim, isto é do seu nível.

Aquele episódio não foi registrado em minha lembrança como um processo que pudesse ser classificado como agradável. Mas, a partir daquele dia, passei a exigir algo como requisito essencial, não somente em todos os meus trabalhos, mas também em muitas outras coisas de minha vida, e eu estou falando de EXCELÊNCIA.

E caso queiram saber de algo mais: esta mudança valeu completamente a pena.

Mãos vazias, nem pensar!

Mãos vazias 1

Por Vitor Seravalli

Eu ia bem.

Apesar de ainda estar numa fase inicial de minha carreira, alguns sinais indicavam algo promissor para o futuro. Porém, minha remuneração parecia não acompanhar essa positiva autoavaliação.

O estilo de vida queria avançar, contudo as despesas vinham crescendo no mesmo ritmo, e assim era chegada a hora de buscar um justo aumento de salário. Obviamente, eu faria isso diretamente com a pessoa mais adequada para resolver o problema rapidamente: o meu chefe.

Cheguei de mansinho, vi que ele estava só em sua sala, e pedi para entrar. Muito simpático, pegou sua pasta com vários papéis cheios de anotações, e após nos sentarmos, me perguntou:

_ E então, sobre o que quer falar?

Eu me embaracei com tamanha receptividade, porém comecei falando de minha impressão positiva sobre o aprendizado dos últimos tempos, e engatilhei com uma argumentação sobre reconhecimento, e que deveria se materializar em um aumento salarial, afinal eu o merecia de fato.

Ele ouviu com atenção minha argumentação, e quando eu parei de falar, foi logo pedindo alguma referência para justificar tal ajuste.

Não compreendi que buscava saber se eu havia pesquisado minha situação e meu nível em relação ao mercado, e ainda cometi um erro básico dizendo que um outro colega de nossa equipe, um profissional com perfil similar ao meu, tinha o salário melhor, e eu reivindicava somente uma igualdade de critérios.

Minha resposta o irritou um pouco, pois havia nas entrelinhas uma sugestão de que sua liderança não mantinha uma base justa para diferenciação de reconhecimento, e isto não era verdade

Abriu sua pasta, mexeu nos papéis, e após escolher um deles, que infelizmente estava longe de meus olhos curiosos, virou-se para mim e falou.

_ Bom, embora você não esteja errado em buscar uma melhoria de seu salário, não concordo com sua reivindicação de equiparação ao seu colega, afinal suas atividades são completamente distintas, e embora goste do trabalho de ambos, não posso compará-los.

Infelizmente, ele tinha razão.

Olhou para o tal papel, e disse que tinha em mãos uma pesquisa salarial de mercado, e que meu salário estava de acordo com a média ali apresentada. E se eu não tivesse algo similar em mãos para que discutíssemos no mesmo nível de um modo mais tangível, a conversa estava terminada.

Eu pensei em desafiá-lo a me mostrar tal pesquisa, que naquele momento me pareceu um blefe. Mas pensei melhor, e dizendo que iria fazer uma pesquisa própria para voltar a procurá-lo depois, pedi licença e fui em direção à porta com uma típica expressão submissa hostil.

Antes que saísse, ele me chamou pelo nome, e falou um pouco mais:

_ Faça sua pesquisa e volte. Certamente, estarei aberto para uma melhor discussão, pois hoje você não veio preparado. E deixo uma dica: nunca vá a qualquer discussão, por mais simples que seja, sem alguma informação preparada. Se possível, anote-a num papel com a maior precisão que puder. A chance de seus interlocutores não terem nada em mãos, assim como você chegou aqui hoje, será sempre muito alta. Acredite em mim, as suas chances de fazer uma boa negociação serão sempre maiores.

Saí dali pensativo, mas decidi seguir sua recomendação, e hoje, muito anos após aquela tarde, minhas experiências me impelem ao compartilhamento de tão singelo e valioso ensinamento,

Assim, ao entrar em qualquer negociação, por menor que seja: “Mãos vazias, nem pensar!”

O advogado


Advogado 1Por Vitor Seravalli

Sempre tive prazer em incentivar o desenvolvimento das pessoas que pertenciam aos times que liderei.

Mesmo os mais acomodados se rendiam, pois sabiam que a recompensa viria em algum momento. Nem sempre imediata, mas a conquista do conhecimento e a evidência de competências adquiridas eram coisas impossíveis de se ocultar.

Porém, as exceções também eram resilientes. E qualquer motivo ou justificativa fazia com que uma parte da equipe optasse pela mediocridade, como se isso fosse uma característica imutável.

Por isso, quando eu percebia alguém com vontade de aprender, imediatamente o adotava e buscava ajudá-lo, pois eu acreditava que sua eventual vitória seria um exemplo a ser seguido pelos acomodados.

Nesse contexto, vibrei quando um simples ajudante de um dos turnos entrou em minha sala e contou-me seu sonho em se tornar um advogado. Mais que isso, ele havia passado no vestibular, e viera me procurar para que o ajudasse nas escalas de turnos, de modo que ele conseguisse estudar e trabalhar.

Como não ajudá-lo? Ele representava o motim contra uma cultura baseada na ignorância inevitável, e eu não o deixaria desistir.

Fiz das tripas coração, quebrei regras, e até prejudiquei alguns outros não tão determinados, mas o advogado não poderia abdicar de seu sonho.

Infelizmente, esse entusiasmo irresponsável me cegou. Afinal, a formação de meu esforçado funcionário em direito não tinha nada em comum com a atividade de minha área de responsabilidade. Se o rapaz queria seguir esta carreira, isto era ótimo, mas sua escolha não se sintonizava em nada com as tarefas da equipe.

E embora eu continuasse míope, o tempo foi evidenciando que algo drástico deveria ser feito. Eram atrasos seguidos, faltas com a justificativa de trabalhos acadêmicos, e seu desempenho no trabalho ia se desintegrando.

O restante da equipe me olhava atravessado, mas eu sempre me justificava a favor da opção pelo autodesenvolvimento.

Eu segurava as pontas com todo empenho, e o advogado em gestação seguia fazendo cada vez menos pelo trabalho.

O fato é que eu já começava a não aguentar a pressão de toda a equipe.

Até que numa tarde, logo que aconteceu a mudança de turno, decidi finalmente tomar a única decisão que me cabia naquele momento.

Chamei o rapaz ao meu escritório. Fiz um discurso tão emocional quanto desnecessário, e ao final, o demiti, deixando claro que se tratava de uma decisão difícil, mas necessária. Inevitável, embora contra a minha vontade.

Ele estava sério, mas muito tranquilo. Esperou calmamente que eu terminasse a minha ladainha, e quando eu me calei, ele falou.

_ Você não acha que demorou muito para tomar essa decisão? Eu acho.

Este foi um dos feedbacks mais duros e verdadeiros que recebi em toda a minha vida profissional.

Eu não respondi nada, pois um bom feedback é sempre assim: Bateu, doeu… toma que ele é teu!

Depois disso, é óbvio que não mudei minhas prioridades para o desenvolvimento de competências, mas um melhor alinhamento com as prioridades do negócio, um maior equilíbrio entre recursos e necessidades, e principalmente um melhor planejamento, fizeram toda a diferença.

Não tenho ideia se o ajudei a ser um bom advogado, mas ele certamente me ajudou a me tornar um líder melhor.