Arquivos do mês: março 2015

Um!

Um 2Por Vitor Seravalli

Ele era um aluno diferente. A má notícia é que era diferente para pior.

Em cursos de pós-graduação, isto não deveria acontecer, mas aquela turma fora sorteada.

Não era um aluno ignorante, pelo contrário, era um rapaz inteligente, mas usava toda a massa cinzenta, ou pelo menos, boa parte dela para atazanar a vida de seus colegas e também a vida de seus professores. Pois é. E eu era um deles.

Logo na primeira aula. Ou melhor, logo que iniciei minha introdução ao curso, ele já pediu a palavra. Começou a fazer perguntas desconexas sobre suas dúvidas em relação àquela disciplina. Falaríamos de responsabilidade social, e vi que ele não entendia absolutamente nada do assunto e, se seus colegas o escutassem, perderiam o mínimo que já houvessem aprendido.

Dei um pouco de corda para que ele descarregasse sua adrenalina, e minha esperança era que se acalmasse com o tempo.

O tiro saiu pela culatra, pois ele concluiu que havia ganho espaço, e começou a falar com empolgação, e a se transformar num ativista social em plena sala de aula.

Eu continuava com minha introdução, à medida que ele precisava de ar para recuperar seu fôlego. Então, disse que o programa incluía um tópico sobre ética, e minha deixa era tudo o que ele poderia esperar para colocar-me numa situação difícil.

Eu era um professor de uma disciplina única, e não vivia a rotina daquela escola. Por algum motivo interno, a Diretoria da havia decidido pela troca do nome da instituição, e meu aluno especial era contra a mudança. Ele não tinha um argumento lógico para sua opinião. Simplesmente, era contra a decisão, e subitamente me perguntou se achava ético o que a escola estava fazendo.

Foi incisivo, e seu objetivo era me obrigar a um posicionamento, que não trazia uma saída possível para mim. Se concordasse, ele usaria isso para colocar-me em conflito com a escola. E se discordasse, ele diria que eu estava ensinando algo que não praticava de fato.

A sala ficou em silêncio, e muitos ali já concluíam que eu estava numa sinuca de bico.

Foram poucos segundos de hesitação, e enquanto respirava, lembrei-me de uma história que havia visto num programa de variedades na televisão. Não tenho ideia do que me levou a fazer aquilo, mas levantei-me, fui até o meio da sala, respirei, olhei para o tresloucado aluno, e iniciei uma resposta.

Na verdade, disse que iria responder, mas antes queria contar uma pequena história.

Tenho certeza que ele teve vontade de não deixar que eu usasse aquele artifício, mas ali o “chefe” ainda era eu, e ele conhecia bem a antiga lei da hierarquia, composta de dois artigos:

1º artigo: O chefe tem sempre razão.

2º artigo: Caso o chefe não tenha razão, então, vale o 1º artigo.

Bom, mas a história começava com uma entrevista num programa de TV em que uma famosa apresentadora perguntava a um casal, que acabara de completar sessenta anos de um feliz casamento, qual era o segredo para uma relação tão bem sucedida e duradoura.

O marido olhou desconfiado e sinalizou que ficaria quieto. Por isso, a sua esposa decidiu contar.

A essa altura, meu aluno já havia se ajeitado melhor na cadeira, pois queria ver até onde eu chegaria com aquilo, pois ele já ultrapassara todos os limites, mas ainda queria mais.

A mulher começou falando que o segredo de tanta felicidade se revelara a ela no dia de seu casamento. Uma cerimônia simples, numa pequena capela de uma bucólica cidade no interior do estado, era tudo o que ambos desejavam para sua união.

Os parentes lotavam o local, e tudo estava muito limpo e florido. Todos ali vestiam suas melhores roupas, e o padre se preparara de modo especial para uma bela cerimônia.

Havia mais um detalhe especial: o marido possuía uma mula de estimação, que fora um presente durante sua adolescência, e pelo amor que nutria pelo animal, o preparara para que conduzisse o casal para onde teriam sua noite de núpcias.

Tudo corria com a pompa e circunstância que era possível naquele singelo lugarejo.

A classe continuava a me ouvir com atenção, e um certo alguém esperava uma mínima oportunidade para sua interrupção certeira. Mas essa oportunidade, não aconteceu.

Após os cumprimentos de todos, e uma chuva torrencial de arroz à saída da capela, os noivos deixaram o local, sob uma efusiva salva de palmas, e a nobre mula puxou com energia uma decorada charrete com muitas latas penduradas em sua parte traseira, onde se lia: “RECÉM-CASADOS”.

Os dois seguiam felizes, e seus olhos brilhavam de felicidade e ansiedade para os primeiros momentos de sua nova vida em comum. Tudo corria maravilhosamente, até que a mula tropeçou, e isso fez com que o casal se assustasse, e quase caísse para frente.

O noivo, puxou a rédea com força absoluta. Desceu rapidamente, pegou sua espingarda, e foi em direção ao animal. Levantou a arma em direção ao meio de sua testa, preparou-se para atirar com a noiva estática a observá-lo.

Fez uma pausa, baixou a arma, e levantou seu dedo indicador em frente aos olhos assustados da mula, e disse em alto e bom som: _ UM!

Silêncio absoluto. E segundos depois, ele voltou para o lado de sua esposa.

Ela preferiu minimizar, afinal estava muito feliz, e a viagem continuou.

Vários minutos se passaram, e ela nem se lembrava mais do ocorrido há pouco.

Quando tudo parecia voltar à perfeição anterior, veio um novo tropeço da coitada da mula.

Rédea novamente puxada com vigor, e lá se foi o noivo novamente com sua espingarda em direção à descuidada mula.

Preparou a arma, apontou, e mais uma vez, após incontáveis segundos, ele baixou sua arma, levantou sua mão direita, agora com os dedos polegar e indicador esticados, e olhando com ferocidade nunca percebida antes, bradou para o animal: _ DOIS!

A noiva já não conseguia esconder sua apreensão para o potencial significado daquele comportamento, algo que ela nunca observara em seu amado.

A viagem continuou, mas a velocidade se reduziu a um nível tal que parecia garantir uma desejável tranquilidade até seu destino final.

Mas, infelizmente, isto não aconteceu.

Poucos minutos depois um último e fatal tropeço.

Dessa vez, os passos do noivo não deixavam qualquer dúvida sobre o que iria acontecer. Ele levantou sua arma, e mesmo com ela erguida, levantou sua mão direita aos olhos assustados da pobre mula, e vociferou: _TRÊS!!!

Um segundo de silêncio, e um estampido anunciou o final daquela curta viagem. O animal tombou.

O noivo nem havia chegado de volta, e a noiva disparou um desabafo incontrolável:

_ O que é isso? Você é um louco! Onde eu estava com a cabeça quando decidi me casar com você? A mula o acompanhava há tantos anos, e eu sei que você a adorava. Eu sei disso. Como pode fazer uma atrocidade dessas? Você estragou tudo! Como vou conseguir continuar com isso? Minha nossa! Ninguém acreditaria no que eu vi com meus próprios olhos. – e ia continuando a gritaria, quando o noivo, pegou sua espingarda, a levantou em direção à jovem descontrolada, e calmamente, suavemente, olhou bem dentro de seus olhos, e sussurrou: _ UM!

Bem, e então eles viveram felizes para sempre!

A classe veio abaixo.

Creio que a aula que seguia na sala ao lado foi momentaneamente afetada pelo rebuliço que provoquei.

Até o tal aluno não resistiu e, sem que percebesse, baixou sua guarda.

Eu me levantei, e sem que ele percebesse, me aproximei implacável. Fiquei bem à sua frente, e mesmo não possuindo qualquer espingarda, levantei minha mão direita, armei meu dedo indicador, e antes que ele pudesse evitar, o coloquei bem próximo aos seus olhos. Ele o olhou com involuntário estrabismo, e completamente sem reação, escutou a minha voz em tom definitivo: _UM!!!

Seus colegas não sabiam se explodiam numa gargalhada, ou se ficavam em silencio para evitar futuras represálias.

Definitivamente, eu não sei onde encontrei aquela piada sem graça e com final tão previsível. Mas o fato é que o curso prosseguiu normalmente, e até o seu final, a pobre mula nunca mais voltou a ser lembrada.

E meu aluno, enfim, transformou-se num estudante normal.

Não me recordo se foi aprovado, mas acredito que tenha aprendido a lição mais importante, ou seja: respeito é bom, e todos nós gostamos.

Bom dia João Claudio!

JC1

Por Vitor Seravalli

Aquela situação, aparentemente irrelevante, trazia um leve desconforto diário. Eu acessava a empresa com meu automóvel, e a cada dia vinha uma pessoa uniformizada para checar meu porta-malas.

Certamente, eu não me incomodava com o procedimento, pois afinal aquele tipo de checagem era normal, e eu não tinha nada a esconder,

O que me incomodava era receber um cumprimento nominal, respeitoso, e não conseguir responder da mesma forma, simplesmente porque os seguranças se revezavam diariamente naquele posto, e eu nunca conseguia memorizar seus nomes.

Um fato era verdadeiro, eu não era muito bom na memorização de nomes de pessoas, mas aquela situação precisaria de uma solução.

Pensei um pouco, e veio uma ideia óbvia. Telefonei para o supervisor, e pedi que providenciasse uma folha de papel com pequenas fotos de todos os profissionais que trabalhavam na segurança da empresa, obviamente, com seus nomes em letras bem legíveis sob suas poses formais.

Embora o líder dos seguranças apresentasse uma expressão incrédula ao meu pedido, o atendeu prontamente.

No dia seguinte, parei o automóvel em frente ao portão da empresa, e ao ver o segurança do dia vindo em minha direção, peguei a folha ainda de modo desajeitado, busquei identificar seu rosto nas fotos, abri a janela, e o cumprimentei pelo nome.

Ele demonstrou surpresa, mas devolveu o cumprimento com a melhor entonação que pode expressar. E eu segui para meu escritório sem o desconforto de todas as vezes anteriores.

Aquilo tornou-se um hábito, e até hoje, anos e anos depois, lembro-me do impacto positivo que aquele simples ato causou às minhas manhãs carregadas de trabalho e problemas para resolver.

Mas, muito mais que isso, nunca me esquecerei da fisionomia daquelas pessoas humildes, que pareciam sentir-se diferenciadas simplesmente por serem tratadas pelo seu próprio nome.

E um dia desses, caminhando pela cidade, dei de cara com um dos profissionais, que talvez fosse um dos mais educados daquela época.

Apesar de tanto tempo depois, minha ótima capacidade de guardar bem as fisionomias compensou a insistente dificuldade em lembrar nomes das pessoas, e ambos se reconheceram. Veio em minha direção com a mão estendida, e eu, milagrosamente, como se conseguisse ver aquela página de papel cheia de fotografias com nomes em frente aos meus olhos, não hesitei. Estendi minha mão de encontro à dele, e como fazia no passado, tive o privilégio de retribuir sua simpatia e o cumprimentei com toda a minha energia:

Bom dia João Claudio!

Não me recordo o nome de quem me ensinou a agir assim, mas se me lembrasse, o cumprimentaria também, e agradeceria por um dos melhores presentes que recebi em toda a minha vida.

Why not?

Por Vitor Seravalli

why_not

 

Mensalmente, eu avaliava um relatório que trazia os resultados de funcionários dos diversos departamentos em seus cursos de inglês. Era um investimento especial da empresa direcionado a alguns profissionais selecionados por um critério baseado no potencial para contatos com pessoas de outros países.

Contudo, nem sempre este critério óbvio era bem compreendido e aceito por todos.

Lembro-me bem de ter escutado de um colaborador que a capacitação era uma espécie de “cala boca” para que não reivindicasse tanto a sua promoção quanto um merecido aumento salarial. Ou seja, o investimento era também percebido como uma espécie de prêmio de consolação, ou uma concessão para evitar perda de motivação. Enfim, um monte de tolices.

Tenho a consciência tranquila de que sempre buscava o critério mais correto e justo. E por isso, gostava de ver como estavam evoluindo conforme o tempo passava.

E naquele final de tarde, eu mais uma vez constatava que Clara mantinha a liderança de performance em relação a todos os seus colegas. Suas notas e seu desempenho geral estavam novamente muito acima da média.

Quando investimos no desenvolvimento das pessoas, não existe nada mais gratificante do que perceber que os resultados estão sendo concretos. E nesse caso, não havia dúvidas: Clara era “The Best”.

E foi por isso mesmo, que não hesitei em incluí-la no programa da visita de um colega estrangeiro que chegaria para conhecer nossas instalações. Havia também um outro motivo até mais importante, esse visitante era o responsável pela área que Clara liderava, porém em nossa matriz.

Seria o momento certo para que ela colocasse em prática tudo o que havia aprendido nas muitas aulas assistidas até aquele momento.

Nosso colega era um típico germânico. Possuía um perfil técnico bastante acentuado, mas sabia valorizar seu aprendizado com outras culturas. Fiz questão de recebê-lo pessoalmente, conversamos um pouco em meu escritório, e iniciamos a visita a um laboratório novo, que estava sob a responsabilidade de Clara.

Caminhamos um pouco, e falávamos de tudo. Embora ele quisesse tentar algumas palavras em português, sua única possibilidade de comunicação além de seu idioma nativo, era naturalmente o inglês.

Assim, logo chegamos ao local onde Clara nos esperava com uma expressão que se parecia com uma mistura desequilibrada de simpatia e preocupação. Minimizei minha percepção pois sabia que esta era a primeira vez que ela recebia um visitante internacional.

Cumprimentei Clara e a apresentei ao nosso colega. Ela sorriu, e já tratou de colocar-se numa posição diferente da que eu havia previsto para ela. Em outras palavras, ela pretendia somente nos acompanhar e, pelo jeito, eu deveria apresentar as instalações ao visitante.

Demorei longos segundos para perceber sua intenção. Olhei para ela, e notei que estava paralisada, principalmente depois que pedi uma explicação detalhada sobre o novo laboratório.

Quando finalmente percebi que minha querida colega estava literalmente “travada”, e mais nenhuma palavra, mesmo em português, saía de sua boca, tive que intervir.

Do jeito que pude, conduzi a visita, e ela parecia aliviada à medida que fomos nos encaminhando para a porta de saída.

Nos despedimos, e após visitarmos outras áreas que já não estavam sob a batuta de Clara, ele se foi.

Eu não conseguia compreender o que havia se passado com ela. Mas, internamente eu sabia que a proficiência em idiomas, principalmente para pessoas que não tem oportunidades de vivências internacionais, é algo muito próximo de um obstáculo intransponível.

Sim, a melhor aluna, entre dezenas de outros estudantes de inglês da empresa, simplesmente não conseguia se comunicar no idioma.

O fim de semana veio e se foi.

Logo na segunda-feira, às oito horas da manhã, Clara apareceu em meu escritório, Estava um pouco corada, e sua primeira ação foi um desajeitado pedido de desculpas pelo bloqueio que tivera em frente ao nosso colega comum.

Suas explicações eram as mais comuns. Talvez até eu mesmo já as houvesse usado em algum momento, então pedi que poupássemos nosso tempo e buscássemos um novo caminho.

Recomendei um curso de imersão local, no qual eu mesmo havia participado com relativo sucesso, e pedi que ela o priorizasse. Depois disso, voltaríamos a falar no assunto.

Clara fez sua lição de casa com a competência que lhe era peculiar.

E logo que voltou, tratou de invadir toda sorridente a minha sala e, até com um sotaque americano, falou: _ Good morning, dear boss! How are you today?

Nem preciso dizer, que a partir desse dia, ela libertou-se de si mesma e em pouco tempo já partiu para sua primeira viagem à nossa matriz.

Afinal, ela já possuía conhecimentos muito bem fundamentados no idioma. Ela certamente também já havia desenvolvido habilidades suportadas por estes conhecimentos, tanto é que suas notas eram sempre as melhores. Porém, lamentavelmente, Clara ainda era incompetente em sua proficiência no idioma não nativo, e o motivo estava exclusivamente em sua falta de atitude em se comunicar.

Uma receita composta de um pouco de medo, uma dose original de timidez, e até mesmo uma pitada de um tolo perfeccionismo, era a fórmula perfeita para o mecanismo que trancava sua confiança a sete chaves no indestrutível cofre de sua insegurança. Mas, felizmente, ela o abriu.

O final dessa história foi muito feliz, e acredito que Clara tenha replicado seu sucesso com muitas pessoas que liderou depois disso.

Mas sei que muitos profissionais ainda vivem com a convicção de que são “travados” e que nunca poderão desenvolver essa ou outra competência qualquer.

Quando os vejo por aí, é comum ouvir suas justificativas e argumentos completamente fundamentados, mas que infelizmente não os mudam para melhor.

E, já que estamos falando do idioma inglês, sempre sugiro que abandonem de vez a frase: “Yes, but”, e adotem com muita energia e coragem uma outra frase em forma de pergunta: “Why not?

_ Get it?