Arquivos do mês: fevereiro 2015

Feedback e o equilíbrio

Por Vitor Seravalli

Feedback e equilíbrio

Após um período de muitas turbulências decorrentes de uma completa falta de organização em uma das áreas mais estratégicas que estavam sob minha responsabilidade, vivíamos agora um período onde os indicadores eram bons.

Inicialmente, eu tentara estruturar as coisas com as próprias mãos, mas minha carga não estava somente ali, e uma recuperação da confiança e dos resultados da equipe necessitava de uma gestão bem mais focada e plena.

Eu possuía alguns bons desafios, a começar pelo desenvolvimento de uma argumentação consistente, que justificasse o investimento em um nível de liderança mais alto para alavancar uma ampla mudança no departamento. Um segundo desafio, se tudo desse certo em relação ao primeiro, seria encontrar um perfil profissional adequado para a difícil tarefa. E o terceiro, não menos importante, seria dar ao novo gerente os recursos necessários para que ele liderasse o processo como um todo.

Mas, enfim, tudo havia corrido bem. Os resultados gerais da área eram ótimos, bem como os seus impactos refletidos em toda a empresa.

Muito trabalho e dedicação de todos, em sinergia com um importante suporte corporativo, explicavam grande parte do sucesso. Porém, havia um reconhecimento formal a ser feito, e ele estava direcionado ao talentoso líder que agora se destacava em meu time. Ele liderara a mudança e tinha méritos claros pelo sucesso alcançado.

Justamente por isso, busquei uma preparação primorosa para o encontro que teríamos para a sua avaliação de desempenho anual, e ele merecia algo acima da média. Aliás, esta não era somente a minha opinião.

Limpei a agenda, e reservei tempo suficiente para uma boa conversa, que não somente estava repleta de elogios, mas também definiria um plano de carreira coerente com um profissional de tão alto potencial.

Quando ele chegou, notei algo inusitado. Vestia um terno impecável, usava uma bela gravata, e imagino que até seus cabelos haviam recebido algum cuidado especial para a ocasião. Embora cuidasse da aparência, aquilo não era seu comportamento normal.

Apesar disso, fiz uma brincadeira qualquer, e pedi que entrasse e se sentasse.

O que aconteceu em seguida, surpreendeu até mesmo minha assistente, que ainda se acostumava com aquele visual cerimonioso.

Eu ainda me ajeitava para iniciar a falar, quando ele se antecipou.

De uma forma rigorosamente ensaiada, sem interrupções, e com uma voz empostada e cheia de palavras complexas, o rapaz disparou um monólogo que imaginei ser uma tentativa de autoavaliação, mas que não tinha o menor sentido àquela altura.

Deixei que ele descarregasse um pouco de sua ansiedade, e num determinado momento o interrompi. Não me lembro se fui educado o suficiente, mas aquilo não poderia continuar daquela forma.

Ele levou um susto, mas evidentemente percebeu que tudo o que deveria fazer naquele momento, era unicamente escutar. E se quisesse mesmo falar, seria somente para esclarecer algo que não houvesse compreendido. Afinal, feedback é isso, e ele não parecia não saber.

E o que seria uma sessão de elogios, sofreu uma adaptação providencial.

Sim, eu continuava em frente a um excelente profissional com um perfil de competências absolutamente diferenciado, mas que não necessariamente se encontrava em equilíbrio.

Meu valioso colaborador era possuidor de algumas competências, cuja avaliação numa escala de zero a dez, dava a ele uma nota entre onze e doze. Algo inimaginável.

Uma vez, ele me confidenciou que gostava de observar detalhadamente as minhas melhores performances, e também os bons desempenhos de nosso chefe comum, para em seguida praticar, e pasmem, quase sempre ele conseguia nos superar a ambos. Tudo isso ele contava com total naturalidade, sem qualquer traço de arrogância, mas com extrema convicção. Para ser sincero, ele não mentia. Era bom mesmo.

Contudo, ele também tinha alguns problemas, e eles residiam numa outra perspectiva.

Meu destacado gerente, quando avaliado em algumas outras competências também importantes, na mesma escala de avaliação, de zero a dez, levava notas negativas.

Inacreditável, mas era isso mesmo o que acontecia em um mesmo profissional.

Em resumo, a sessão de feedback tomou seu rumo normal. Todos os seus aspectos positivos e também os pontos de melhoria foram pontuados. E uma das pessoas mais especiais com quem pude trabalhar durante toda a minha carreira seguiu seu caminho como deveria acontecer.

Em pouco tempo, ele conseguiu uma mudança de atividade numa outra área que julgou ser de maior importância, mas não se adaptou, e acabou sendo demitido.

Apesar de sua inteligência e de seu potencial, ninguém se surpreendeu.

Algum tempo depois, o encontrei numa cerimônia de premiação corporativa, onde ele representava sua nova empresa como um executivo de alto nível.

Ele estava muito feliz, e fazia questão de demonstrar isso para mim a cada momento.

Duas coisas chamaram a minha atenção. A primeira delas é que seus olhos pareciam ter compreendido a importância do equilíbrio até mesmo na dosagem de coisas boas como talentos e competências. E a segunda estava naquele elegante terno, agora escolhido para momento certo e muito mais adequado.

E mais duas lições foram aprendidas por mim numa mesma história:

Dar e receber feedback é a arte da sensibilidade. E cuidar para o desenvolvimento de um perfil de competências temperado pelo equilíbrio é pura sabedoria.

 

O sinal para a mudança

Peixe

 

Por Vitor Seravalli 

Chegavam a mais um final de tarde como outro qualquer, ou melhor, não tão qualquer assim, pois era uma tarde de sexta-feira e isso, miseravelmente, somente se repetia uma vez por semana.

Mas ambos estavam ali, como sempre faziam, no tradicional happy hour antes do final de semana.

Um pouco mais tarde, um deles iria estender o lazer numa balada com sua turma. E o outro estaria de volta ao aconchego do seu lar, com os diversos ônus e bônus do cotidiano familiar.

Estavam em fases bem distintas de suas vidas, mas compartilhavam situações bastante similares em relação a uma área comum e muito importante, ou seja, suas vidas profissionais.

Eram antigos colegas de faculdade. O mesmo curso, os mesmos grupos de trabalho, as mesmas noites juntos, estudando como loucos para intermináveis provas e exames diversos.

E essa convivência toda deixou como legado uma amizade perene, e que se materializava na prioridade que eles davam à cerveja de todas as sextas no final da tarde.

Trabalhavam em empresas diferentes, com culturas organizacionais diferentes, viviam dilemas diários diferentes, mas carregavam consigo uma insatisfação muito similar.

Um deles possuía um perfil técnico acima da média, e estava numa organização extremamente focada em resultados. Lidava muito bem com cálculos e números, e era excelente para resolver sozinho os mais complexos problemas. Sua alta performance criara uma percepção de competência com tal intensidade, que fora conduzido a uma posição gerencial de destaque em seu departamento.

E aí, as suas dificuldades começavam.

Ele não era tão bom quando os problemas saíam de suas mãos, e tinham que ser resolvidos operacionalmente por membros da equipe que ele liderava.

Sentia-se incompetente e irresponsável por ficar com suas mãos tão longe da massa. E o pior é que não sabia fazer com que seus funcionários desenvolvessem soluções com a eficácia que lhe era peculiar.

Tinha um ótimo salário, com algumas mordomias equivalentes ao seu nível de responsabilidade. Porém, nos últimos tempos, os seus resultados começavam a ser cobrados com uma impaciência nunca antes observada, e afinal, o estresse o levava a uma inexplicável insatisfação profissional.

O outro vivia uma situação bem antagônica.

Ingressara numa empresa, cuja cultura organizacional era bem menos agressiva, aliás parecia fora da realidade de tudo o que escutava e via em seu meio.

Estava numa empresa familiar, extremamente conservadora, e relativamente tranquila em seu mercado de atuação. E, por esse motivo, não percebia grandes riscos pela frente, e o cenário futuro trazia pouquíssimas perspectivas de mudança. Enfim, o cenário indicava a continuidade de uma estabilidade invejavelmente monótona e sem graça alguma.

Diziam que ele era um sortudo, e que possuía o emprego que todos pediam a Deus.

Mas, internamente, ele se sentia desmotivado.

Ainda era um profissional jovem, mas quando olhava para trás, constatava o quanto seu crescimento profissional se alinhava com a mediocridade.

Sua grande meta do momento era voltar a ter o mínimo de entusiasmo para enfrentar a si próprio, e gerar uma mudança interior que o fizesse renascer novamente para sua carreira. Contudo, continuava aparentemente imobilizado.

E, afinal, a falta de estresse o levava a uma óbvia insatisfação profissional.

Nesse ponto, eles eram completamente iguais.

Assim, como ninguém era de ferro, chamavam o garçom, e pediam mais uma cerveja.

Quantas histórias com enredos diversos, mas com idêntico final!

Mas, seria mesmo um final?

Alguns responderiam que sim. Há uma crise instaurada em todo o mercado, e é melhor um passarinho na mão do que dois voando. Mesmo que estejamos na posição errada, ou sem as competências necessárias já desenvolvidas. Ou ainda, que sejamos contaminados pela acomodação e a falta de motivação.

Outros diriam: É lógico que não é um final! A insatisfação é apenas um sinal de que é chegada a hora de uma reflexão séria e profunda sobre a própria carreira, cujo resultado levará à estruturação de um plano de ação consistente para uma mudança rumo a um novo caminho em direção ao sucesso.

E você? De que lado está?